
A SAGA DOS
HERDEIROS
02

O HERDEIRO MAGO

CINDA WILLIAMS CHIMA


Traduzido por Claudia Santana Martin


FAROL
2009


Para Rod, que mudou tudo.



sinopse:

joseph MC caulei,  um mago que sofre por no consegui controlar seus poderes.
depois de muitos acidentes, um dos quais,
causou a morte de sua amiga em um insndio,
foi internado numa escola de recuperao para homens.
estando acostumado a sempre ser expulso depois de alguns inconvinientes, no estava esperando encontrar vrios magos, dentre esses, o seu diretor, que para dominar 

as ordens mgicas, quer obrig-lo a connectar-se a ele, fazendo um pacto de sangue para utilizar seus poderes da mesma forma que fizera com tantos outros.

ento pessoal, vamos acompanhar joseph nessa jornada.
ele no quer se conectar a ningum, mas a pergunta :
ser que ele resistir  vontade de um mago treinado e to poderoso?

vamos dar uma fora para seph mc caulei.



Prlogo

O alvo era um prdio pobre de trs andares em uma rea da
cidade de Londres que ainda no havia sido reurbanizada. As 
pessoas e os carros tinham sido retirados das ruas ao redor, e 
as caladas sujas transpiravam sob o ar denso. Barreiras 
mgicas recobriam o tijolo enegrecido pela fuligem, belas 
como l de vidro. Era como se fosse uma escultura de gelo 
ou um castelo de fadas que ocultavam a ameaa dentro de si.
Dessa vez o Drago tinha permanecido on-line por tempo 
suficiente para ser localizado. Talvez ele tivesse achado que 
era seguro emergir nas primeiras horas da madrugada.
Seis magos entraram pela porta da frente como espectros, 
escudos firmes no lugar, sabendo que o Drago atacaria 
quando se sentisse acuado. Levaram menos de um minuto 
para descobrir que no havia ningum no apartamento para 
matar.
D'Orsay entrou depois deles. O apartamento era miservel e 
pequeno. A moblia era formada de peas de segunda mo 
acumuladas por muitas dcadas. Camadas de sujeira 
impregnada no tapete tornavam impossvel adivinhar sua cor 
original. Ele atravessou a sala da frente, a cozinha e entrou 
no quarto dos fundos. O teclado e o monitor ainda estavam 
l, uma estrutura ligada a uma confuso de cabos, mas apenas 
um leve espao na poeira sobre a escrivaninha revelava onde 
o laptop estivera.
Uma escada interna no fundo do corredor levava ao telhado. 
O apartamento fora escolhido por esse motivo, e no pela 
decorao. Eles se lanaram escada acima e encontraram o 
terrao, ocupado apenas por gatos. D'Orsay examinou a rede 
de ruas que cercavam o prdio. No havia movimento em 
lugar algum.
Algo havia assustado o Drago. Talvez o uso de magia os 
tivesse trado. De algum modo, ele sentira que eles o 
rastrearam pela internet e contornaram todos os becos sem 
sada e desvios de correspondncia que ele armara no 
universo digital para ludibri-los.
Ou talvez algum o tivesse avisado. A rede de espies do 
Drago era lendria, e seus agentes, espantosamente leais. 
Por meses, D'Orsay vinha procurando uma falha, a ponta 
solta que, quando puxada, desfiaria a rede.
Uma ponta solta. Algum que ele pudesse levar para a 
masmorra na Ravina do Corvo e torturar at que revelasse os 
segredos do Drago.
At agora, no entanto, nada. Pior que isso, era possvel que a 
prpria organizao de D'Orsay estivesse comprometida.
O recm-criado Conselho dos Magos lutava para superar a 
guerra sangrenta entre as Casas dos Magos das Rosas 
Vermelha e Branca, que j durava sculos, a fim de poder 
lidar com a recente rebelio das ordens servis. Dar fim  
guerra seria difcil mesmo nas melhores circunstncias, mas 
era quase impossvel com o Drago atiando as chamas de 
velhas rivalidades, espalhando boatos e postando 
correspondncia confidencial na internet.
Aquilo era particularmente irritante para algum como 
D'Orsay, que tinha muito a esconder.
Os magos matavam-se uns aos outros nos becos de Londres, 
nos castelos da Esccia e nas deslumbrantes casas noturnas 
de Hong Kong. Artefatos mgicos desapareciam de cofres, 
caixas-fortes e adegas. Tradicionalmente submissos, os 
feiticeiros, adivinhos e encantadores fugiam de seus mestres 
magos. E a mo do Drago estava em tudo aquilo.
Aquela era a terceira vez que quase o pegavam desde o 
torneio na Ravina do Corvo. Seis semanas atrs, eles estavam 
certos de que o encurralariam numa favela de So Paulo. 
Acabaram caindo como patinhos num pntano mgico, uma 
rede de armadilhas diablicas que dizimara a equipe de 
assassinos de D'Orsay e deixara o Conselho de mos vazias. 
Trs magos mortos, e eles continuavam to longe de 
encontrar o Drago quanto antes.
D'Orsay reconheceu o trabalho dele, a simplicidade elegante 
dos feitios e dispositivos. Era como se o mago rabiscasse sua 
assinatura sobre tudo.
Mais recentemente, o Drago havia libertado uma dzia de 
feiticeiros de uma fortaleza em Gales. Aquilo havia sido 
triplamente irritante, pois era um projeto pessoal de D'Orsay, 
que tivera esperana de que, sob alguma presso, os 
feiticeiros pudessem redescobrir alguns dos segredos das 
armas mgicas do passado.
No encontraram fotografias no apartamento, nenhum item 
pessoal que pudesse fornecer uma pista sobre quem havia 
sido o inquilino.
D'Orsay estava desapontado, porm, no surpreso. Estava 
certo de que conhecia a identidade do Drago, mas, se 
estivesse errado, tanto fazia. De qualquer maneira, aquele 
no era um rato a ser capturado em uma ratoeira comum. 
D'Orsay se sentia desconfortvel com aquele tipo de 
operao. Era um estrategista, no um assassino. Estava 
presente somente por causa do poder do adversrio e da 
necessidade de discrio. Era o que se poderia chamar de 
uma operao no autorizada, fora da jurisdio do 
Conselho.
Por que um mago se envolveria numa rebelio das ordens 
mgicas inferiores? O que ele teria a ganhar?
Vinte minutos mais tarde, Whitehead voltou para a cozinha 
carregando uma pasta de arquivo.
 Achei isto entre o armrio de arquivos e a parede.  Ela 
a entregou a D'Orsay.   provvel que ele no tenha se 
dado conta de que estava ali atrs.
D'Orsay folheou o contedo da pasta: cartas e cpias de e-
mails trocados com uma firma de advocacia em Londres, 
tudo relacionado  custdia de um menor de idade. Havia 
tambm correspondncia com uma escola particular na 
Esccia tratando de acomodaes, ensino e arranjos 
financeiros. Tudo isso datado de pelo menos dois anos antes.
O nome do aluno era Joseph McCauley. D'Orsay franziu a 
testa. O nome no lhe trouxe  mente nenhum dos 
conhecidos associados ou suspeitos de serem associados ao 
Drago. Tambm no conseguiu relacion-lo a nenhuma das 
famlias Weir, embora devesse examinar as bases de dados 
para ter certeza. Ao longo dos sculos, a genealogia havia 
permitido que as Casas dos Magos encontrassem guerreiros 
quando precisavam deles, para caar aqueles que possuam o 
dom e no sabiam disso. Os computadores s tornavam o 
processo mais eficiente.
Qual poderia ser a conexo entre aquele menino e o Drago? 
Possivelmente nenhuma, mas os instintos de D'Orsay lhe 
diziam algo diferente. O que mais explicaria a presena de 
material to pessoal no campo inimigo? E por que uma 
empresa de advocacia estaria lidando com esse tipo de 
correspondncia rotineira? A menos que a inteno fosse 
esconder uma relao que pudesse revelar vulnerabilidade. 
D'Orsay sorriu. Seria bom demais para ser verdade.
Valia a pena investir um pouco de tempo naquilo. quela 
altura, os outros voltavam  cozinha. Ele esvaziou o copo de 
suco de ma que estava tomando e passou a pasta para 
Whitehead.
 Encontre esse garoto para mim, Nora. Contate a escola 
mencionada nas cartas e descubra se ele ainda est l. Veja se 
consegue qualquer informao sobre quem contratou essa 
empresa de advocacia.  Pensou por um momento, 
esfregando o queixo.  Fale com o Escritrio de Registro 
Geral tambm. Procure por certides de nascimento, de 
batismo, qualquer coisa. Se no encontrar nenhum registro 
britnico, tente em outros pases. Veja se ele est em alguma 
das bases de dados Weir. Mas seja discreta.
Saram do prdio meia hora aps haverem chegado, dei-
xando algumas armadilhas na improvvel hiptese de o 
Drago retornar. Talvez tivessem conseguido, pelo menos, 
afugentar o Drago para sua caverna, tirando-o de cena por 
algum tempo. Qualquer tempo ganho lhes seria precioso. 
Quando voltasse a agir, talvez fosse tarde demais para ele.
Ou, talvez, chegando essa hora, eles j tivessem uma outra 
carta para jogar.
Captulo Um
Toronto

O calor de agosto havia persistido noite adentro. Troves 
rugiam sobre o lago Ontrio, ameaando um dilvio. Quando 
Seph entrou no depsito, pouco depois das duas da 
madrugada, sentiu como se tivesse topado com uma floresta 
tropical urbana. Sentiu o odor e o calor de centenas de 
corpos em movimento e estreitou os olhos para enxergar 
atravs da fumaa que encobria a sala.
Era um hbito seu chegar tarde em festas.
Seph sorriu e acenou com a cabea para o segurana na 
porta. O homem estava l para interceptar os menores de 
idade, mas simplesmente retribuiu ao sorriso de Seph e lhe 
fez um gesto autorizando a entrada. Acesso nunca era um 
problema.
A msica pulsava de alto-falantes de ltima gerao ligados 
s vigas do teto do depsito. Suor pingava sobre as tbuas 
arranhadas do assoalho enquanto a multido se contorcia na 
pista de dana. As luzes negras pintavam os rostos de quem 
danava, deixando a parte externa da sala inviolada. Um bar 
ilegal oferecia um servio rpido no canto, e os clientes de 
costume j estavam bbados.
Ele foi parado seis vezes em seu caminho pela sala por 
pessoas que queriam combinar coisas para mais tarde.
Seph e seus amigos sempre se reuniam  direita do palco. 
Carson e Maia, Drew, Harper e Cecile j estavam l; dava 
para notar que haviam passado a noite toda l. Eles cercaram 
Seph, vibrando de excitao e com o tipo de euforia gerada 
por horas de sobrecarga sensorial. Os amigos eram mais 
velhos do que ele, mas a festa nunca comeava de verdade 
antes que ele chegasse.
Todos comearam a falar ao mesmo tempo. Algo sobre uma 
garota.
        Calma l  disse ele, erguendo as mos e sorrindo.  D 
pra repetir?
Harper olhou feio para o crculo ao redor at que todos se 
calassem.
        O nome dela  Alicia. Ela acabou de se mudar pra Toronto 
e  totalmente demais.
        Ela lembra voc  acrescentou Cecile.  Quero dizer, 
ela... bem... tem algo nela. A gente falou pra ela de voc, e 
ela disse que talvez voltasse mais tarde... sabe... pra conhecer 
voc.
Maia, mal-humorada, era a nica que no parecia 
impressionada.
        No acho que ela parea nem um pouco com voc.
Maia era asitica, fazia parte do caldeiro de raas que era 
Toronto. Tinha um jeito de personagem de desenho 
animado japons, com o cabelo espetado e extravagantes 
roupas em retalhos de algodo. Alm disso, ela sabia dizer 
palavres em trs dialetos chineses.
Seph falou no ouvido de Maia, para que pudesse ser escutado 
em meio  msica.
        Quer dizer que no gostou dela?
        No sei.  mais tipo... no confio nela.  Maia olhou-o, 
estudando seu rosto como que procurando por pistas, ento 
mergulhou a mo na bolsa enfeitada de contas que ela trazia 
no ombro. Tirou um pacote embrulhado em papel de seda, 
que entregou a ele.  Fiz uma coisa para voc.
Ele sentiu o peso do embrulho sobre a palma. As pessoas 
estavam sempre lhe dando coisas.
        Por que isso? No precisava me...
         pelo seu aniversrio. Abra.
        Meu aniversrio foi dois meses atrs.  Ele sorriu para ela 
e rasgou o papel de seda. Era uma cruz celta de ouro, forjada 
no estilo delicado e especial de Maia.  Voc no pode me 
dar isto. Deve ter levado horas pra fazer!
        Foi s um trabalho de artes que fiz para a escola.  Ela a 
tomou dele, ficou na ponta dos ps e passou a corrente em 
torno do pescoo dele, levando mais tempo do que o 
estritamente necessrio.  Achei que voc ia gostar.
        Eu gosto,  linda. Mas...  Ele procurou as palavras certas. 
No queria dizer nada que arruinasse o que havia entre eles. 
  que... voc  uma amiga to legal, e eu no quero...
        Apenas fique com ela, falou? Como... como um amigo. 
Sem compromisso.
Ele no podia recusar.
        Tudo bem, obrigado.  fantstica.
Ele a abraou com cuidado. Todo braos e nenhum corpo, 
cotovelos baixos para manter uma pequena distncia. Mas ela 
se aninhou contra ele, enroscando os dedos em seus cabelos, 
pressionando o rosto contra a camisa dele, como que para 
sentir o cheiro. Seph deu-lhe tapinhas nas costas, 
acalmando-a com seu toque. Transmitindo uma leve 
centelha de poder, mas nada muito forte.
        L vem ela!  disse Carson, todo aceso, ao lado dele.  
Aquela  Alicia.
Seph ergueu os olhos e viu uma garota abrindo caminho pela 
sala lotada, e as pessoas na pista abriram caminho para deix-
la passar. Era pequena, mas exuberante, como uma extica 
flor tropical. Vestia cala jeans justa e preta e uma blusa de 
renda que lhe escorregava dos ombros. Os cachos pretos 
azulados tinham listras roxas e estavam frouxamente presos 
com um leno florido. Ela carregava uma bolsa de pano no 
ombro. Os olhos eram de um amarelo felino.
        Voc deve ser o famoso Seph McCauley.  Ela o mediu 
de alto a baixo como se estivesse acostumada a decepes, 
ento estendeu os dedos cheios de anis.  Meu nome  
Alicia.
        Muito prazer  disse ele, soltando Maia e apertando a 
mo de Alicia.
Foi como enfiar a mo em uma tomada eltrica. Por um 
longo instante, ficaram paralisados, numa corrente que flua 
entre eles. Ento ambos soltaram as mos, recuaram um 
passo e fitaram um ao outro. Durante toda a sua vida, as 
pessoas haviam reagido ao toque dele. E agora ele sabia como 
se sentiam.
Ela se recuperou primeiro.
        Ora, ora  disse ela, estudando-o com interesse 
renovado, correndo a lngua por sobre os lbios pintados de 
vermelho.  Voc  poderoso mesmo, no ?
        Eu me viro  disse Seph, massageando os dedos, que 
formigavam, e contendo um assomo de esperana. Poder. 
Ela tambm tinha poder.  Voc... voc ... Voc veio de 
onde mesmo?
        Daqui e dali. Minha ltima parada foi nos Estados Unidos, 
mas tive de sair de l.
Ele mordeu a isca.
        Por que voc...?
        Estava entediada.  Ela estreitou os olhos para ele.
        Quantos anos voc tem, afinal?
        Dezoito  disse ele, acrescentando automaticamente dois 
anos  sua idade.  Escute, ser que eu posso... pagar uma 
bebida pra voc?  Pattico. Aquilo foi pattico.
        Quem sabe a gente possa ir a algum lugar e conversar?
        Bem...
Alicia examinou os amigos de Seph, que estavam agrupados 
em torno deles em um crculo apertado. Maia franziu o 
rosto, puxando para trs a franja repicada, mordendo o lbio 
e olhando de Seph para Alicia.
        Voc  Alicia apontou para Carson.  Seja gentil e v 
buscar algo pra gente beber. Vodca com lima pra mim.
Alicia lanou a Seph um olhar inquiridor.
        Eu no...  comeou ele, erguendo as mos.
        E um refrigerante para o Seph, j que ele no...  disse 
ela, sacudindo a cabea.
Seph revirou os olhos para Carson, mas ele j estava longe, 
apressando-se em obedecer.
        Escutem, eu falo com vocs mais tarde.  Seph agarrou o 
cotovelo de Alicia, esperando um novo espasmo de poder, e 
guiou-a em direo a uma mesa junto  parede, deixando 
Maia e os outros perto do palco.  Quem voc pensa que , 
dando ordens aos meus amigos?
        E voc no d?  Ela riu baixinho.  Pois deveria. Quem 
voc pensa que ?
Ele jamais tivera uma boa resposta a essa pergunta.
Seph escolheu uma mesa no canto entre os alto-falantes, 
onde o barulho se reduzia a ponto de permitir que 
conversassem realmente. Carson trouxe-lhes as bebidas e 
partiu, dando a Seph uma piscadela.
        Ento por que anda com eles?  indagou Alicia, 
estendendo a mo sobre a mesa e correndo o dedo pela 
borda do copo dele.
        Quem?
        Seus amigos. Os Anaweirs. Deve ser um tdio. Quer dizer, 
fora ser o lder da matilha e tudo o mais.
Ele arriscou uma pergunta.
        Anaweir? No tenho certeza se eu...
        Os sem-dom. Os sem-poder. Ainda menos relevantes para 
um mago do que as ordens servis.
Seph conteve o impulso de responder. Todos tinham seus 
talentos, mas nenhum deles era mago. Nem mesmo eram 
membros das outras Ordens Weir mgicas: os feiticeiros, os 
adivinhos, ou os raros encantadores e guerreiros.
Os magos eram diferentes das outras ordens mgicas, pois 
necessitavam de encantamentos, palavras para moldar a 
magia. Sua me adotiva, Genevieve, havia-lhe dito isso.
        Eu venho tentando fazer contato.  difcil achar outras 
pessoas... como ns.  Pronto, ele dissera.  Quer dizer, eu 
gostaria de aprender mais, obter mais... treinamento.  
Implicando que j tivera algum.
Alicia arqueou uma sobrancelha.
        O treinamento vem por intermdio das Casas. Qual  a sua 
afiliao?
        Afiliao?
        Sua Casa dos Magos.
Ele simplesmente piscou, ento se concentrou em arregaar 
as mangas, dobrando cuidadosamente o tecido tosco de 
algodo. A temperatura parecia estar subindo.
Alicia se inclinou para a frente, baixando a voz.
        Olha, eu entendo que todo cuidado  pouco hoje em dia. 
Ningum sabe mais quais so as regras.  Ela sacudiu para 
trs os cachos.  Eu estava na Ravina do Corvo, sabe?
        Onde?
        Na Ravina do Corvo. O torneio em que as regras foram 
mudadas. Eu era namorada do Jack Swift. No consigo deixar 
de pensar que, se eu no tivesse rompido com ele, nada disso 
teria acontecido.
Ela olhou para ele  espera de uma reao, mas ele 
simplesmente a fitou, procurando por uma resposta que no 
revelasse a sua ignorncia. Sentia-se estpido, algo com que 
no estava acostumado e de que no gostava.
Ele pegou seu copo. O refrigerante correu-lhe garganta 
abaixo e explodiu em algum lugar em seu estmago, 
deixando-o tonto e sem flego. Qual era o problema com 
ele? Tinha de manter a cabea no lugar.
Ele sorriu e olhou-a nos olhos, uma tcnica que sempre 
funcionara no passado.
        Eu tinha esperana de que a gente pudesse trabalhar junto. 
Voc sabe... colaborar.  Geralmente s o que ele precisava 
fazer era pedir.
Alicia estudou-lhe o rosto como se fosse um livro em lngua 
estrangeira. Estendeu o brao e correu o polegar pela linha 
do maxilar dele, como que fascinada pela estrutura ssea; 
depois lhe inclinou o rosto para a luz e ajeitou os cabelos 
dele para trs. O toque dela era como minsculas exploses 
contra a pele.
        Voc sabe que os seus olhos mudam de cor? Verde, 
castanho e azul.
Seph se remexeu, desconfortvel sob o escrutnio dela.
        Foi o que me disseram.
Ela pareceu chegar a uma deciso.
        Est bem. Eu digo em que Casa estou. Eu geralmente no 
me dou ao trabalho, s que  difcil encontrar pessoas 
interessantes, e acho que voc ... interessante.  Ela puxou 
a blusa para fora do jeans, expondo uma tentadora faixa de 
pele e um umbigo com um piercing. Ali, acima da linha da 
cintura, estava a tatuagem de uma rosa branca.
        Muito bem  disse ela, rearranjando as roupas, como se 
aquilo explicasse tudo.  Agora voc.  Ela olhou para ele, 
na expectativa.  Rosa Vermelha ou Branca?
        No sei do que voc est falando  admitiu Seph, 
sentindo-se como se estivesse num jogo viciado de verdade-
ou-desafio.
Ele deslizou a mo por sob o colarinho, puxando-o para 
longe da pele quente.
Alicia parecia aborrecida.
        Confie em mim, no me importa em que Casa voc esteja. 
Eu deixo a poltica para o Conselho dos Magos. Sou 
mercadora. Vendo o que as pessoas querem comprar. Tenho 
de lidar com todo mundo.
        Olha, no posso dizer para voc o que no sei.  Ele 
esvaziou o copo e bateu-o com fora sobre a mesa.
        Sei que sou um mago. Sei que tenho poder, mas no sei 
como usar. Sei que existem outros como eu, porm os que 
consegui encontrar no sabem mais do que eu.  Ele 
agarrou a mo dela e prendeu-a contra a mesa.  Como 
falei, preciso de treinamento. Tenho perguntas.
Ele sabia que estava revelando demais, que era m idia 
deixar uma desconhecida to poderosa saber quo 
desesperado ele estava.
Alicia tentou sem sucesso retirar a mo, embaraada pela 
emoo carente que ele transparecia.
        E quanto  sua famlia? E o seu Livro Weir? Isso deveria 
ser um comeo, pelo menos.
Seph engoliu em seco. Sentia-se como se sua cabea fosse 
explodir.
        No tenho nenhuma famlia, no que eu saiba. No tenho 
um Livro Weir, seja l o que for. Minha me adotiva me 
falou algumas coisas, mas ela j morreu. E as coisas... esto 
fora de controle. Se voc  mercadora, ento me ache um 
professor. Me ache um Livro Weir, se  disso que eu 
preciso. Tenho bastante dinheiro. Eu pago o que voc pedir.
Alicia olhou-o por sobre a mesa e comeou a rir.
        No acredito. Voc  como um virgem em magia. Voc 
devia ver a sua cara. To srio.  Ela lhe roou a face com 
os ns dos dedos.  Voc  lindo, sabia? Tem o rosto de um 
deus. Um deus raivoso. E to... poderoso  sussurrou ela.
A pele de Seph formigou e ardeu. Algo como uma erupo 
causada pelo calor se espalhou da clavcula para cima. Sentiu 
os lbios dormentes e a lngua engrossar dentro da boca. No 
conseguia falar. Algo sinistro ondulava por baixo da sua pele, 
buscando uma vlvula de escape. Sentia-se grande demais 
para seu corpo, como se pudesse se abrir ao longo da espinha 
e se derramar no cho como uma cobra trocando de pele.
        O que... o que est acontecendo?  murmurou ele.
A msica berrava em seus ouvidos, e as luzes invadiam
o canto escuro em que estavam. Ele levantou um brao para 
fazer sombra para o rosto.
Ela lhe deu um tapinha na mo.
        Acredite em mim,  coisa boa. Igual a nada que voc j 
tenha provado.
Ele agarrou a mo dela com mais fora, emanando poder 
sem conseguir se conter.
        O que voc fez comigo?  algum tipo de feitio, ou... ou...
Alicia remexeu na bolsa de pano e tirou de dentro uma 
garrafa de vidro iridescente, com uma tampa de cristal.
        Quer relaxar? O nome disso  Chama de Mago. Nas ruas 
chamam de "Queima-Mente". Os feiticeiros fazem para 
vender. Vamos dizer que  minha oferta especial de 
apresentao.
O pnico se insinuou na conscincia de Seph.
        Voc me drogou?
         um acelerador para os dotados. Derruba todas as 
barreiras e deixa o poder fluir. Voc vai adorar. Depois disso, 
a vida diria vai parecer em preto-e-branco.
Ele sacudiu a cabea.
        No. Voc no entende. No consigo controlar o meu 
poder nem quando estou sbrio. Coisas acontecem.
Ela sorriu diante da angstia dele.
        No se preocupe, o efeito passa em mais ou menos uma 
hora. Vamos, deixe-me mostrar outra coisa pra voc.  Ela 
se inclinou e o beijou na boca. Ento recuou, tremendo, 
passando os dedos nos lbios chamuscados.  Ei!
Os lbios dele no estavam mais dormentes: ardiam. Sua pele 
estava queimando. A msica o agredia. O cheiro da multido 
o deixava nauseado. No conseguia pensar.
Alicia lutou para soltar a mo.
        Voc est me queimando! Me solte!
Ele a soltou, e ela cambaleou para trs, desaparecendo de seu 
campo de viso. Entretanto, ele conseguia ver cada pessoa 
no salo, ouvir uma centena de conversas ao mesmo tempo, 
como se todos os seus sentidos estivessem aguados.
Ele precisava sair. Rumou para a porta, esgueirando-se pela 
multido, contorcendo-se e dando voltas para evitar tocar 
em algum, deixando pegadas carbonizadas e fumegantes 
atrs de si. Roou numa mesa, e ela explodiu em chamas. 
Fascas incendirias voavam das pontas dos seus dedos, 
ateando fogo s cortinas em torno do palco e s mantas de 
isolamento acstico que cobriam as paredes. Por todos os 
cantos da sala, objetos inflamveis incendiavam-se, 
vaporizavam-se e desfaziam-se em cinzas. Chamas lambiam 
as paredes, e metal derretido pingava do teto. A msica ainda 
tocava, e as luzes negras danavam, mas agora um alarme de 
incndio berrava como se fosse o fim do mundo.
 Fujam!  gritou ele.
A voz dele, estranhamente amplificada, reverberou por todo 
o salo. Rostos se voltaram na direo dele, pontos plidos 
no escuro avermelhado, enquanto ele ficava ali, jorrando 
chamas como uma vela romana . Sua roupa de algodo 
queimava e soltava fumaa. As pessoas olhavam para ele, 
horrorizadas, e ento corriam para a sada, gritando e 
empurrando-se umas s outras no desespero de fugirem dali.
Uma multido se agrupou junto  porta da frente, como um 
animal em pnico tentando forar a entrada em uma toca 
estreita, enquanto centelhas choviam sobre suas cabeas. 
Muitas pessoas foram prensadas contra a entrada, e ningum 
conseguia passar. Aqueles que no eram esmagados ficavam 
para morrer queimados.
Seph correu em direo  parede do depsito, os braos 
estendidos, levado por nada alm do puro poder e uma 
determinao de no causar mais um desastre. Chamas 
escoavam das pontas dos dedos e explodiam a madeira 
desgastada, deixando uma abertura carbonizada e fumegante 
que cheirava como uma lareira acesa e parecia um portal 
para o inferno. Ele olhou para a abertura, atnito por um 
instante, e ento gritou:
        Por aqui! Saiam!
A multido se lanou na direo da nova sada. Ele foi 
atropelado pela multido e carregado pela presso de seus 
corpos.
Finalmente, estava na rua. A tempestade que havia 
ameaado cair o dia inteiro desabou, e ele se viu soltando 
vapor sob a chuva torrencial. Em poucos segundos, estava 
encharcado at os ossos. Os refugiados que haviam deixado o 
local se abrigaram sob uma marquise do outro lado da rua, e 
o observavam com cautela. A pouca distncia, uma sirene 
soava.
Onde estavam Carson, Maia e os outros? Piscando para se 
livrar da gua nos clios, ele passou os olhos pela multido, 
mas no conseguiu encontrar os amigos. Nem Alicia, a 
garota que havia desencadeado aquela srie de eventos.
Lutou contra uma mar de seres humanos para voltar  
entrada.
        Maia!  Maia era pequena e corria grande risco de ser 
pisoteada. Ele finalmente forou a entrada pela mesma 
abertura pela qual sara e se deparou com uma parede de 
chamas e fumaa.  Drew!
Ele deu a volta por fora do depsito, procurando 
desesperadamente um jeito de entrar e no achando 
nenhum. Como podia estar queimando assim num dilvio? 
Fascas explodiram em direo ao cu quando o teto 
desmoronou. A temperatura do fogo era to alta que ele teve 
de recuar mais uma vez para o outro lado da rua.
Apoiando as costas contra um prdio, ele deslizou para o 
cho e abraou os joelhos. Agarrando a cruz de Maia, 
sentindo o ouro amolecer sob os dedos quentes, Seph virou 
o rosto para o aguaceiro que caa, resfriando sua pele febril, 
enquanto desejava que aquela gua pudesse lavar a memria 
do que ele havia feito.

A reunio foi realizada na filial do escritrio de advocacia 
Sloane, Houghton e Smythe, em Toronto. Quando Seph 
chegou, eles o levaram para uma pequena sute luxuosa com 
estantes de nogueira e um carpete to grosso que absorvia o 
som. Denis Houghton, o tutor de Seph, viera de Londres 
para aquele evento. Provavelmente queria ter certeza de que 
o rapaz no chegaria nem perto da matriz.
Seph vira seu tutor apenas duas ou trs vezes. O advogado 
era um homem alto, de cabelos grisalhos e gosto por relgios 
caros e anis requintados no dedo mindinho. Seus ternos, 
feitos sob medida, no conseguiam esconder o princpio de 
uma barriga.
Seph no podia deixar de se perguntar quantos ternos e anis 
a tutela dele havia pagado. Sua me adotiva, Genevieve 
LeClerc, morrera trs anos antes. S ento ele descobrira que 
tinha um tutor, um enorme fundo fiducirio e um monte de 
advogados para cuidar de seus interesses.
Ela havia guardado tantos segredos. Apesar de Genevieve 
ter-lhe ensinado a fazer omelete, colar papel de parede e 
escolher garrafas de vinho para seus convidados na 
hospedaria, seus parcos conhecimentos de magia haviam 
sido adquiridos aos trancos e barrancos, revelados com 
relutncia, arrancados dela como ostras de teimosas conchas.
Genevieve tinha a desconfiana tpica dos feiticeiros em 
relao aos magos e a seus mtodos cruis. Essa desconfiana 
nascera de longos servios prestados a um mago na Frana, 
sua terra natal. Os pulsos traziam braceletes de cicatrizes 
sobrepostas, marcas das algemas que usara. Ela havia amado 
Seph com absoluta devoo, mas esperava que a magia dele 
s se manifestasse caso fosse reconhecida. Em vez disso, a 
magia de Seph havia se espalhado como uma trepadeira, 
escalando cercas e desabrochando inesperadamente por 
entre os paraleleppedos.
Os dedos do Sephfazem ccegas, seus colegas de jardim de 
infncia diziam. Os professores o adoravam naqueles 
tempos, rendendo-se ao menino de cachos escuros, olhos 
que mudavam de cor e sorriso doce. O porquinho-da-ndia 
da turma havia se entocado sob a carteira dele e no deixava 
ningum toc-lo alm de Seph. A lagoa no parque congelava 
no meio de julho se Seph quisesse patinar.
Ele gostava do recreio, mais do que tudo, e s vezes o recreio 
durava o dia todo. Tudo o que Seph precisava fazer era pedir 
com educao. At que Genevieve descobriu e interveio.
Mas,  medida que ele crescia, a magia se tornava mais forte, 
mais perigosa, mais difcil de controlar. Ficara pior depois da 
morte de Genevieve. Ele era o feio chupim no ninho do 
tico-tico, impossvel de ignorar.
Houghton saiu de trs da enorme escrivaninha de nogueira e 
indicou a Seph uma mesa prxima  janela. Era para ser o 
tipo de reunio sentimental cara a cara, pelo jeito.
Seph se acomodou numa poltrona de couro, e Houghton 
sentou-se na cadeira em frente. O advogado observou Seph 
com tristeza por um momento, removeu os culos, poliu-os 
at brilharem e os recolocou. Ento soltou um longo suspiro.
        Certo. Tudo bem agora, no ?
        Eu estou bem  disse Seph, olhando o advogado nos 
olhos, desafiando-o a fazer outra pergunta. Seph no queria 
conversar sobre o depsito. Tinha medo de perder o 
controle.
Houghton insistiu, implacvel.
        Que histria triste  disse o advogado.  Muito triste, 
com certeza. Mas, afinal, com essas festas a altas horas da 
noite, nunca se sabe. Sem nenhuma superviso. Costumam 
atrair maus elementos.
        Sim.  Respostas de uma nica palavra eram mais seguras.
        Dizem que havia drogas, bebida e por a vai.  Houghton 
fez uma pausa e arqueou uma sobrancelha em uma expresso 
inquisitiva, mas Seph olhou para fora da janela, forando-se a 
respirar fundo e devagar.  Certo  disse Houghton, 
desapontado.  Bem, de qualquer modo, conseguimos fazer 
com que algumas daquelas acusaes ridculas fossem 
retiradas.
        Bom.
        Afinal, convenhamos: lanar chamas das pontas dos dedos 
como um personagem de histria em quadrinhos? Baboseira! 
Mas as pessoas ficam histricas, sabe como .
        .
         claro, a universidade tem alguma responsabilidade nisso. 
Todos os alunos do acampamento de vero deveriam estar 
nos dormitrios s dez da noite,  o que est no panfleto. E, 
no entanto, l estava voc, com 16 anos de idade, 
perambulando pelas ruas de Toronto s quatro da madrugada.
Finalmente, Seph sentiu-se instigado a falar.
        Eu no estava perambulando pelas ruas. Eu estava numa 
festa. Fui a um monte de festas, e nada nunca...
        Ento eles so duplamente responsveis. Eles sabiam, ou 
deveriam saber, que...
Seph se inclinou para a frente.
        O senhor sabe que vou a clubes. O senhor tem pagado as 
contas.
Houghton pigarreou ruidosamente. Seph esperava que ele 
enfiasse os dedos nos ouvidos.
        Enfim,  essa a situao. Acho que podemos concordar 
que a sua idia de passar o vero na universidade em Toronto 
foi... um desastre.
        Toronto no  o problema  disse Seph.  Toronto  
tima. Eu...
        No.  Houghton brincava nervosamente com um peso 
de papis. A testa brilhava de suor.  No desta vez. A 
Polcia Metropolitana exigiu minha garantia de que voc vai 
deixar a cidade o mais rpido possvel.
Seph sentiu um grande peso descendo sobre si.
        Pensei que o senhor tinha dito que as acusaes haviam 
sido retiradas.
        H diversas testemunhas que ligaram voc ao fogo.
Seph agarrou os braos da poltrona.
         mesmo? E o que o senhor pensa?
Houghton enxugou a testa com um leno cor de neve.
        O que eu deveria pensar? Voc parece ter gosto por 
substncias inflamveis. Houve aquele incidente na Sua, os 
fogos e as exploses no telhado da capela, a... ahn... 
demolio da torre do sino.
        Eu subi l com uma... uma amiga. No fui l pra abrir um 
buraco na torre do sino.
Marie queria ver as estrelas, pensou Seph. Foi depois que 
eles se beijaram que os fogos comearam.
        E aquele rapaz em St. Andrew. Aquele Henri Armand. 
Atacado por uma revoada de corvos, no foi?
Seph deu de ombros. No conseguia se arrepender de modo 
algum pelo que havia acontecido com Henri. Armand era 
um aluno mais velho, vindo de Marselha, de quem se dizia 
ser o filho ilegtimo do lder de uma famlia da mfia 
francesa. Ele era tambm um lutador de rua habilidoso, um 
talento pouco usual entre alunos de escolas particulares.
Armand considerara Marie como sua propriedade particular, 
como suas jias de ouro extravagantes e seu carro esporte 
italiano. Quando soubera do incidente na torre da capela, ele 
emboscara Seph em um canto remoto do campus, 
esmurrando-lhe o estmago de modo que no aparecessem 
hematomas.
Ento os corvos surgiram.
        Aqueles pssaros retalharam as roupas do rapaz  insistiu 
Houghton.
Armand ficara to assustado que molhara as calas. Depois 
disso, vrios dos enormes pssaros negros pousaram 
gentilmente sobre os braos e ombros de Seph, observando 
com seus olhinhos pretos brilhantes o corpo nu de Armand. 
No importava que Seph estivesse com tanto medo dos 
pssaros quanto Armand.
Bem, talvez com um pouco menos de medo.
Seph olhou para Houghton e eriou uma sobrancelha. Um 
apelo  lgica geralmente era eficaz.
        Est querendo dizer que eu mandei uma revoada de 
corvos para cima do Henri?
Houghton deu um sorrisinho amarelo.
        Quero dizer que voc foi expulso de quatro escolas nos 
ltimos trs anos. Estamos ficando sem opes.
        Mas eu vou para o Colgio da Universidade de Toronto. 
Est tudo arranjado.
        Isso j no  mais possvel.
        E quanto ao Colgio da Universidade de St. Michael, 
ento?
        No.
Seph percebeu para onde ia aquela conversa. Ele precisava 
ficar em Toronto. Precisava encontrar aquela garota, Alicia, 
e obter algumas respostas. Ela era a nica pista de que 
dispunha.
No tinha opo a no ser implorar.
        Por favor, me deixe ficar aqui pra estudar. Tem de haver 
algum lugar que me aceite. Juro que no vou me meter em 
encrencas.
Estendeu a mo em direo a Houghton. Se pelo menos 
pudesse fazer contato...
Houghton ergueu as mos e inclinou-se para trs, como que 
para se defender.
        No... No vai funcionar. No desta vez. Nossas mos 
esto atadas. A polcia foi muita clara a esse respeito.
        Deixe-me falar com eles.
         melhor voc deixar isso pra l. Graas a Deus, eles 
perderam o interesse em voc.  hora de aprender que voc 
no pode se safar de qualquer coisa no papo.
        J sei disso.
        Alm do mais, j est tudo arranjado.
        O qu?
        A sua nova escola.
        Onde?
        No Maine.
        No Maine?
        Parece um lugar adorvel nas fotografias.  bem junto do 
mar.  Houghton ps um panfleto na cara de Seph.  
Felizmente pra ns, isso veio pelo correio logo depois que 
estourou a notcia do que aconteceu no depsito.
Seph pegou-o com relutncia.
        Eu detesto o mar.
        Quem sabe voc no aprende a gostar?
Havia um veleiro na capa. Seph passou os olhos pelo texto e 
balanou a cabea.
        Um colgio para rapazes?
Houghton deu de ombros.
        A cavalo dado no se olha os dentes. E quem sabe a 
ausncia de moas ajude voc a... se concentrar.
Seph raspou a ponta do tnis no tapete feito  mo.
        O senhor nunca me perguntou o que eu queria.
        Como eu disse, no tnhamos muitas opes a essa altura 
do campeonato.
        Tem pelo menos uma cidade grande no Maine?
        Sim, acho que sim. Portland, acho que  o nome.  Ele 
franziu o cenho e esfregou o queixo.  Ou essa  em New 
Hampshire? Bom, tanto faz  disse ele com energia.  
Voc precisa partir de imediato. As aulas j comearam.
Seph deu de ombros e enfiou o panfleto no bolso. 
Normalmente, ele teria continuado a defender seu ponto de 
vista. Mas, naquele momento, sentia-se como se merecesse 
ir para o Maine. Ou qualquer outro lugar pouco povoado.
Houghton olhou para o relgio, aliviado por Seph no ter 
oferecido mais resistncia.
        Certo. Alguma pergunta?
        Sim. Quem eram os meus pais?
Houghton suspirou.
        Essa histria de novo, no! Voc viu os documentos. As 
fotografias. No sei o que mais voc...
        Eu sei que so falsos. Eu verifiquei na internet.  tudo 
inveno.
Houghton levantou-se e remexeu nos punhos da camisa, 
endireitando o vinco das calas, pondo maior distncia entre 
si mesmo e o cliente.
        Eu sei que esses ltimos trs anos tm sido difceis. No  
fcil perder os pais assim to jovem. E  provvel que a 
morte da sua me adotiva tenha renovado essa sensao de 
abandono...
Seph se ergueu, e Houghton deu um passo apressado para 
trs.
        O senhor  advogado. Ningum pediu que desse uma de 
psicanalista.
O poder formigava por suas mos e braos, e ele lutou para 
esfriar a prpria raiva. No importa, disse a si mesmo. No 
vale a pena.
        ...e agora esse... acontecimento no depsito. To trgico. 
Aquela garota. Como era o nome dela mesmo?
        Maia.
        Voc a conhecia?
        Sim.  Estava de volta s respostas de uma palavra s.
        Bom,  melhor no falar disso. Pode complicar as coisas 
bem quando elas comeam a se ajeitar.
Houghton hesitou, ento passou o brao com cautela em 
torno dos ombros de Seph. O advogado cheirava a tabaco, l 
e loo ps-barba caros. Seph resistiu ao impulso de recuar.
 Pode ser que isso seja exatamente o que voc precisa, 
Joseph. V para o Maine. Concentre-se nos estudos. Fuja 
disso tudo por uns tempos.  A voz do advogado era at 
gentil.  Voc conseguiu se safar de ser fichado na polcia. 
Suas notas so boas. Veja se consegue se formar com boas 
notas no Porto Seguro. Ento podemos falar sobre 
faculdades. Quem sabe voc at possa voltar a Toronto pra 
estudar.
Dois anos mais, pensava Seph. Dois anos mais, e eu posso 
reivindicar meu fundo e despedir Sloane, Houghton e 
Smythe. Dois anos mais, e vou ter tempo e dinheiro para 
descobrir quem sou de verdade.
Dois anos pareciam uma eternidade.

Captulo Dois
Porto Seguro

Seph pressionou o rosto contra o vidro frio da janela do 
avio, vendo a costa irregular da Nova Inglaterra l embaixo. 
Daquela altitude, o Atlntico parecia um lago calmo, um 
profundo verde cinzento com uma delicada cobertura de 
renda quando quebrava nas praias.
A msica martelando em seus fones de ouvido no era 
suficiente para ocupar a mente irrequieta.
Enfiou as mos sob a blusa, libertando a cruz semi-derretida 
que Maia lhe fizera. Surpreendentemente antiquada para um 
esprito livre como Maia. Quando fechava os olhos, ainda 
podia sentir a intensidade e a carncia do abrao dela.
Seph no se considerava especialmente atraente. Sabia o 
suficiente sobre arte para perceber que no se adequava a 
nenhum padro clssico de beleza. O rosto parecia no ter 
ainda adquirido forma: todo feito de ossos salientes e ngulos 
agudos. Os cabelos caam-lhe em cachos soltos e rebeldes se 
no os domasse com gel. Havia crescido to de repente que 
ainda se sentia desajeitado e desengonado. Mas as meninas 
ainda arrumavam pretextos para tocar nele e brincar com 
seus cabelos. Maia sempre falara dos olhos de Seph: de como 
eles mudavam de cor conforme a luz  castanhos num 
instante, depois verdes ou dourados.
E agora ela estava morta. Por causa dele.
Ele baixou o olhar para as mos. As mos de um assassino, 
embora parecessem normais, de carne e osso. Ele era... 
patolgico. Era apenas falta de conhecimento ou algum tipo 
de defeito fatal?
Apertou o punho contra o peito, imaginando que podia 
sentir o peso interior. "Vous avez un cristal sous votre 
coeur", Genevieve lhe havia dito. Voc tem um cristal sob o 
corao. Uma fonte de poder que era diferente em cada uma 
das ordens. Nos feiticeiros, encantadores, guerreiros e 
adivinhos, o uso do poder  mais ou menos inato.
Os magos precisam de treinamento para utilizar e controlar 
seus poderes. Genevieve lhe dizia aquilo quando ocorriam 
acidentes mgicos. Para que ele no pensasse que fora 
possudo, como os jesutas haviam alegado quando era 
pequeno.
Mas ela no lhe contou a verdade sobre seus pais. E, por 
causa disso, ele se sentia trado.
Ele precisava de um professor. Se no conseguisse aprender 
a controlar seu dom, era melhor no t-lo. Ser que a pedra 
poderia ser removida, como uma vescula doente?
Pelo menos Genevieve no tivera de enfrentar a tragdia do 
depsito. Ela teria ido  igreja, acendido uma vela e rezado 
por ele. Teria dito a ele que, aos olhos de Deus, ele era 
perfeito, mas Seph se perguntava como ela podia saber disso.
Os ouvidos de Seph o alertaram de que o avio havia 
comeado a descer. Era uma aeronave com 16 poltronas de 
passageiros, das quais apenas seis estavam ocupadas  
caadores e turistas, pela aparncia. Seph gostava da sensao 
de viajar em avies pequenos. Talvez comprasse um avio, 
agora que tinha idade para ter aulas de pilotagem. Sorriu com 
a idia  seu primeiro sorriso naquele dia  e tirou os fones 
dos ouvidos.
O avio inclinou-se e fez uma curva. O cho correu na 
direo deles, e o avio bateu com fora sobre a pista coberta 
de grama. Antes que o avio parasse, Seph j estava em p, 
puxando a bolsa de viagem do compartimento superior de 
bagagens.
Ele fechou os olhos e procurou seu centro interior, como 
Genevieve lhe ensinara. Voc consegue. J fez isso antes. 
Voc  bom em conhecer pessoas novas. S que essa nova 
escola era pequena  com cerca de cem alunos, de acordo 
com o panfleto. Ele nunca se dera bem em escolas pequenas. 
Ele provocava ondas demais para sobreviver num laguinho.
Precisava descobrir um jeito de ter sucesso ali. Em dois anos, 
ele poderia voltar para a cidade grande e desaparecer.
O aeroporto exibia um nico prdio desgastado de placas de 
ao. A grama cobria o asfalto do estacionamento.
Um homem aguardava junto  grade de metal que cercava a 
pista de pouso. Era alto  pelo menos 15 centmetros mais 
alto do que Seph. Era tambm completamente careca, mas 
Seph no sabia se era uma calvcie natural ou se raspava a 
cabea. Apesar do clima frio, vestia uma camisa plo de 
mangas curtas que expunha os braos musculosos. Parecia 
ter cerca de 50 anos, mas com homens calvos  difcil ter 
certeza.
Seph esperou at que a tripulao houvesse descarregado o 
compartimento de bagagem, ento tirou sua outra mala do 
carrinho, pendurando-a no ombro. Quando caminhou em 
direo ao porto, o homem avanou para encontr-lo.
        Voc deve ser Joseph McCauley  disse ele, com um 
sotaque da alta classe britnica.  Sou o dr. Gregory 
Leicester, diretor do Porto Seguro.
De perto, os olhos do diretor tinham uma cor peculiar cinza 
chapada, como rolims idnticos. A ausncia de cabelo e o 
fato de os lbios serem da mesma cor do resto do rosto 
davam-lhe um ar estranho e robtico.
Aliviado porque o diretor no lhe estendeu a mo, Seph 
forou um sorriso e disse:
        Muito prazer.
Devia ser uma equipe pequena, pensou ele, para o diretor ir 
buscar um aluno no aeroporto.
        Isso  tudo o que voc tem?  perguntou o dr. Leicester, 
indicando a bagagem com a cabea.
         s isso. Eu enviei uns livros alguns dias atrs, alm do 
meu computador.
Seph viajava com pouca bagagem, o que era conveniente 
para algum que se mudava tanto quanto ele.
Havia cerca de meia dzia de veculos alinhados no 
estacionamento. O dr. Leicester guiou Seph em direo a 
uma van branca com PORTO SEGURO e um veleiro 
pintados em dourado na porta. A van estava destrancada. O 
diretor ergueu as malas de Seph com facilidade e as jogou no 
banco traseiro. Fez um gesto a Seph, para que se sentasse no 
banco do passageiro e entrou pelo lado do motorista.
        Estamos a uma hora de viagem do colgio  explicou 
Leicester.  Isso nos d a oportunidade de nos conhe-
cermos.
Saram do estacionamento de cascalho e viraram numa 
rodovia de duas pistas. Pelos mapas, Seph sabia que havia 
uma cidadezinha ao sul do aeroporto. Mas o destino deles 
ficava 80 km ao norte, sem muita coisa no caminho. Por que 
algum ia querer construir uma escola particular num local 
to remoto? Se fosse um albergue de caa ou uma priso, ele 
poderia entender.
        Voc veio direto de St. Andrew ou passou algum tempo 
em casa?  indagou Leicester, de olho na estrada.
        Eu vim de Toronto. Passei o vero l, num acampamento 
 respondeu Seph.
A cabea de Seph doa, como se aros de metal se fechassem 
ao redor de sua testa, e ele se sentiu tonto e desorientado. 
Talvez fosse em conseqncia do vo, embora ele 
costumasse se sentir bem aps viagens de avio.
Eles passaram por dois postos de gasolina, algumas casas 
espalhadas e, em seguida, entraram em uma densa floresta de 
pinheiros e lamos. Seph baixou o vidro, na esperana de 
que o ar fresco o reanimasse, e foi recompensado com o 
forte aroma de conferas.
        Teve um dia longo, ento.  O dr. Leicester 
interrompeu-lhe o devaneio.  Espero que tenha dormido 
no avio.
        Um pouco.
        De onde voc ?
        Eu nasci nos Estados Unidos, mas cresci em Toronto.
        Seus pais ainda moram em Toronto?
Seph olhava para frente ao responder:
        Meus pais morreram.
        Ah. Bem. Ns nos correspondemos com o seu tutor, o sr. 
Houghton. Presumo que tenha parentes na Inglaterra, 
ento?
        O sr. Houghton  s o meu advogado. No sei muito sobre 
a minha famlia. Nada, na verdade.
O que lhe disseram sobre seus pais era tnue e incolor, como 
um desenho, um esboo de uma histria sem carne nem 
osso. A me fora comissria de bordo, baseada em Toronto; 
o pai, um empresrio do ramo da computao. Haviam 
morrido no incndio de sua casa na Califrnia quando Seph 
tinha um ano de idade. Genevieve LeClerc fora sua bab e, 
depois, sua me adotiva. Aquela histria lhe fora repetida 
desde que ele era pequeno.
E agora ele sabia que era uma mentira.
        Acho que vai gostar daqui, Joseph, depois que se aclimatar 
 disse Leicester.  Sei que mudou de escola diversas 
vezes. Muitas vezes alunos talentosos tm problemas quando 
suas necessidades no so atendidas. Aqui no Porto Seguro 
ns raramente perdemos um aluno.
Na verdade, integramos os melhores alunos do colgio nos 
nossos programas mais especializados. Acreditamos em fazer 
um currculo sob medida para o aluno.
        Certo  disse Seph.  Parece uma boa estratgia.
Ele no conseguia evitar que a paisagem o distrasse.
Era um garoto da cidade. Por meia hora, no viu nada alm 
de rvores em ambos os lados da estreita faixa de concreto da 
estrada. Nem mesmo outros carros.
        Parece... ahn... isolado.
        D para se caminhar por quilmetros sem nunca deixar a 
propriedade  disse Leicester, como se aquilo fosse um 
bnus.
Agora muitas das estradas transversais eram de terra e 
levavam os nomes das praias. Seguindo um longo trecho 
ininterrupto de rvores, chegaram a uma sada com uma bela 
placa de tijolos e pedra que dizia: PORTO SEGURO - 
PROPRIEDADE PARTICULAR.
Um alto muro de pedra se estendia em ambas as direes, at 
onde ele conseguia ver. Para impedir as rvores de andarem 
por a, na certa, pensou Seph, piscando e esfregando os 
olhos. O muro tinha um aspecto borrado e indistinto, como 
se estivesse coberto por ramos de nvoa.
Talvez fosse uma enxaqueca se aproximando.
Eles viraram  direita, passaram por um alto porto de ferro 
trabalhado e seguiram por uma estrada asfaltada.
Ao longo da alameda, as rvores estavam to prximas que 
Seph seria capaz de toc-las se estendesse a mo. As copas 
cheias de folhas se arqueavam e se encontravam no alto, 
filtrando a luz em frgeis raios que mal coloriam o cho. O ar 
pairava denso com o cheiro de coisas verdes mortas havia 
muito tempo e semi-decompostas. Atravessaram de carro o 
denso matagal at que as rvores comearam a escassear e a 
luz aumentou. Uns vislumbres de gua e o ar mais fresco 
anunciaram que haviam chegado ao destino.
Pararam diante de um grande prdio de cedro e pedra, 
separado da gua por uma larga passarela. Uma longa doca ia 
at o porto, onde diversos veleiros balanavam, as velas 
dobradas e atadas aos mastros.
 Este  o centro administrativo  explicou o dr. Leicester. 
 A lanchonete, o ginsio esportivo, a biblioteca, as reas 
sociais e outros servios para os alunos esto todos aqui.  
Ele conduziu o carro adiante por mais 90 metros e parou em 
frente a outro prdio.  Este  o Gareth Hall. A maior parte 
das aulas acontece aqui, com exceo de educao fsica, arte 
e msica. O semestre comeou h algumas semanas, por isso 
voc tem bastante estudo pela frente.
Arte e msica compartilhavam um prdio exclusivo. No 
dava bem para chamar aquilo de um compus  no havia 
espao aberto suficiente para isso. Cada prdio se erguia 
isolado em sua prpria clareira, com a floresta invadindo por 
todos os lados, como se lutasse para mant-los encurralados. 
Os troncos altos e fortes das rvores erguiam-se at se juntar 
na escurido.
Todos os prdios tinham uma construo similar, como se a 
escola houvesse emergido da terra totalmente formada. Era 
um contraste gritante com St. Andrew, com suas antigas 
salas de aula feitas de pedra, torres com sinos e gramados 
verdes, as montanhas emoldurando cada paisagem. E o 
Colgio da Universidade de Toronto... Ele expulsou de sua 
mente as imagens da cidade.
        Vocs devem ver um bocado de vida selvagem por aqui 
 observou Seph, pois o dr. Leicester parecia estar 
esperando que ele fizesse algum comentrio. Aquilo era o 
fim do mundo, pensou ele.
        Um pouco de tudo: alces, ursos, lobos, veados.  
Leicester riu como se risos no lhe viessem com facilidade. 
 Os guaxinins e os ursos s vezes causam problemas.
Era difcil imaginar aquele homem presidindo um jantar de 
arrecadao de fundos ou recebendo pais.
Eles pararam em frente a uma estrutura mais modesta de trs 
andares, de pedra, vidro e cedro, semelhante em estilo aos 
demais edifcios, mas em escala menor.
        Este  o dormitrio.  Ele entregou a Seph um carto-
chave.  A sua sute  a 302. Precisa de ajuda com a 
bagagem?
        No, obrigado. Eu me viro.
Seph saiu da van e tirou as malas do banco traseiro.
        Vou pedir a um dos nossos alunos para lhe mostrar todo o 
lugar antes de segunda-feira. Se estiver com fome, acho que 
pode conseguir alguma coisa na lanchonete, no prdio da 
administrao.
Seph no estava com fome. A dor de cabea piorara. Sentia 
como se algum estivesse batendo em seu crnio.
        A natao  s quatro e meia  disse Leicester.  Vista a 
sua roupa de banho e siga as placas at a enseada. Todos vo 
estar l, e voc vai ter a oportunidade de conhecer os outros 
rapazes.
O diretor no lhe deu tempo de responder. A van seguiu em 
frente, cuspindo cascalho de debaixo das rodas.
Seph olhou em volta. A luz do sol tingia as copas das 
rvores, e aqui e ali uma abertura no dossel acima a deixava 
penetrar at a base da floresta. Fora isso, o solo era banhado 
por um crepsculo verde e fresco. Folhas se embaralhavam 
no alto e galhos balanavam ao vento. Um esquilo lanava-
lhe um olhar furioso de um tronco prximo. Seph j estava 
com frio, mesmo com o abrigo que estava vestindo. Talvez 
aquele fosse clima para natao no Maine, mas no no lugar 
de onde ele vinha.
Onde quer que esse lugar fosse.
Ele pendurou as malas no ombro, ignorou o elevador e subiu 
trs lances de escadas at seu andar. O quarto ficava numa 
das extremidades do prdio, bastante isolado, saindo de um 
pequeno corredor. Leicester no dissera nada sobre colegas 
de quarto, e Seph no ficou surpreso ao descobrir que tinha 
um quarto s para si. Os alunos de escolas caras estavam 
acostumados a ter seu espao prprio e bastante amplo.
Cada escola que ele j freqentara estava gravada em uma 
nica imagem em sua mente: o salo cavernoso na Escola de 
Campo Dunham na Esccia; a vista da torre do sino em St. 
Andrew na Sua; Montreal iluminada ao anoitecer no 
inverno, quando o sol parecia se pr no meio da tarde.
O quarto possua uma lareira a gs e uma varanda com tela 
de onde avistava a floresta. A moblia inclua uma cama de 
solteiro com uma slida cabeceira de carvalho e uma colcha 
grossa com uma estampa de pinheiros, uma cmoda, uma 
escrivaninha com estante, duas cadeiras para convidados, 
tapetes de pano no cho e azulejos de cermica no banheiro.
As paredes haviam sido deixadas vazias, uma tela em branco 
para algum pintar. S que Seph no costumava mais 
personalizar muito seus quartos. No havia por qu. Tinha 
aprendido a carregar seu senso de identidade consigo.
Uma cesta de frutas e vrias garrafas d'gua estavam 
arranjadas sobre uma pequena mesa com um bilhete, Bem-
vindo, Joseph, impresso em papel de carta de cor creme com 
um veleiro em alto-relevo.
Os livros haviam chegado e o aguardavam em caixas na 
frente da estante. O computador fora desempacotado e 
alojado sobre a escrivaninha. No havia telefone, porm, 
nem uma conexo de internet que pudesse encontrar. Pegou 
o celular e olhou para a tela. Sem sinal. Ele praguejou 
baixinho e o devolveu ao bolso da cala jeans.
Metodicamente, desfez as malas, guardou a escova e a pasta 
de dentes e o resto do material de higiene, tomou duas 
cpsulas de ibuprofeno. Localizou as tomadas eltricas, 
montou o tocador de MP3 em seu nicho e posicionou os 
alto-falantes. Ele tinha o melhor aparelho de som que o 
dinheiro podia comprar. Ligou a msica bem alto, torcendo 
para que aquilo atrasse visitantes. No funcionou.
As roupas ocuparam apenas trs das seis gavetas. Ele passou 
os livros da caixa para a estante, correndo os dedos pelos 
ttulos familiares em francs e ingls. Talvez no tivesse de 
carregar tantos livros com ele, tambm.
Com que freqncia ele lia um livro mais de uma vez? 
Aprendera a reduzir, a simplificar, como algum que viaja a 
negcios, tentando forar sua vida a caber numa mala de 
mo.
L pelas quatro horas, a dor de cabea havia amenizado um 
pouco.
Mais do que tudo, ele queria trancar a porta e desabar na 
cama. Mas estava acostumado a tratar das apresentaes o 
mais cedo possvel.
No obteve resposta em nenhum dos quartos prximos, at 
que bateu  porta do quarto na extremidade oposta do 
corredor, do outro lado da escadaria. Um aluno negro, forte 
e de aparncia atltica, vestindo apenas um calo de banho, 
atendeu. Um amuleto de prata pendia de uma corrente ao 
redor de seu pescoo: um Hams estilizado.
Proteo contra mau-olhado.
Seph sorriu e estendeu-lhe a mo.
        Meu nome  Seph McCauley. Acabei de me mudar pra 
outra ponta do corredor.
Boas habilidades sociais,  o que sempre diziam seus 
histricos escolares, alm de Excelentes notas.
        Trevor Hill  respondeu o rapaz, apertando a mo de 
Seph, estremecendo em seguida e largando-a rapidamente. 
 Ai, voc me deu um choque!
Seph deu de ombros, sem se orgulhar nem se sentir culpado. 
Quantas vezes j ouvira aquilo?
        Ouvi falar que algum novo chegaria esta semana.
        A voz de Trevor era como um rio fluindo lentamente: 
calorosa e forte, com um leve acento do sul norte-
americano.
        Quer entrar?
Trevor deu um passo para o lado para que Seph pudesse 
entrar. Era uma imagem espelhada do quarto de Seph, mas 
parecia menor, pois estava abarrotado com mveis 
adicionais: uma pequena geladeira, uma televiso, psteres 
de esportistas. O quarto de Seph era espartano em 
comparao.
        Que legal!  disse Seph.  Fez tudo isso nas ltimas trs 
semanas?
        No, j estou neste quarto h trs anos.  Trevor olhou 
com nervosismo para o relgio.  Acho que temos algum 
tempo. Pode tirar as coisas daquela cadeira e se sentar.
Seph sentou-se na cadeira da escrivaninha.
        Voc est no terceiro ano?  perguntou ele, tentando 
deixar o outro rapaz  vontade. Sabia que poderia faz-lo 
com um toque da mo, mas era melhor no tentar aquilo 
com algum que acabara de conhecer.
        Segundo  respondeu Trevor.  Sou de Atlanta. Da 
regio de Buckhead. Eu no tinha nada que estar aqui, to ao 
norte. Quase morro congelado todo outono.
Ele agarrou uma blusa pesada de cima da cama e vestiu-a por 
sobre a cabea.
        Estou no segundo ano tambm  disse Seph.
Trevor fez a pergunta inevitvel.
        De onde voc veio?
        Toronto, mas minha ltima escola foi na Sua. Estou 
acostumado ao frio.
        Sua, hein?  Trevor deixou de parecer nervoso e 
comeou a parecer impressionado.  Por que saiu de l?
Seph revirou os olhos.
        No deu muito certo.
Trevor assentiu com a cabea, como se a idia no fosse 
inesperada.
        O Porto Seguro foi idia dos seus pais?  perguntou ele, 
indicando vagamente os arredores.
        Meus pais morreram. Tenho um tutor. Um advogado. Foi 
ele quem decidiu  respondeu Seph, pensando que talvez 
devesse comprar uma camiseta com a inscrio RFO DE 
TORONTO estampada. Pouparia tempo naquele tipo de 
situao.  E a, como  que so as coisas por aqui? O que a 
gente precisa fazer para se dar bem com os professores?  
perguntou Seph, embora no achasse que os conselhos de 
Trevor fossem lhe ser teis.
Trevor inclinou-se para a frente, pondo as mos nos joelhos.
        Oh, eu costumava me meter em todo tipo de encrenca 
antes de vir pra c, tambm. Voc s precisa seguir as regras. 
Faa isso e vai dar tudo certo. Eles so especialistas em 
garotos que j tiveram problemas em outros lugares.
         mesmo?  Que maravilha, pensou Seph. Fui cair em 
algum tipo de reformatrio de alta classe. Trevor, que parecia 
normal, ficou l por trs anos.  Eles expulsam os que se 
metem em encrencas?
        Ningum  expulso do Porto Seguro  disse Trevor.  
Voc vai ver. O programa deles  bem... como eles dizem... 
eficaz.
Algo na maneira como ele disse eficaz soou quase sinistro. 
Fez Seph querer mudar de assunto. O laptop de Trevor 
atraiu-lhe a ateno.
        Estou com meu computador montado, mas no vi 
nenhum terminal no meu quarto. Os cabos vm includos 
ou eu tenho de pagar pela instalao?
        A gente no tem acesso  internet  disse Trevor.
Seph encarou-o.
        Por que no?  to fcil. Eles poderiam usar uma rede sem 
fio pra todo o campus, se no querem ter cabo.
Trevor sacudiu a cabea.
        No, eu quis dizer que no temos permisso. Eles tm 
computadores na biblioteca. Voc pode fazer pesquisas l se 
quiser, mas eles filtram os sites.
        Isso  loucura! No podem fazer isso. Eu tenho amigos on-
line.
Seph no se lembrava de isso ser mencionado no panfleto 
lustroso.
Trevor deu de ombros e olhou para o relgio de novo.
        Bom,  hora da natao.  melhor voc ir se trocar, se no 
quiser se atrasar.
Seph esfregou as tmporas, que ainda doam.
        Eu passo. J tive um longo dia.
Os olhos de Trevor se arregalaram de surpresa.
        O dr. Leicester dispensou voc?
        No exatamente.
Trevor se levantou.
        Ento  melhor se aprontar.
Parecia que a visita havia terminado, por isso Seph tambm 
se levantou.
        Ceeerto, acho que vou me trocar, ento  disse ele.
        Eu espero, se voc se apressar.
Mas Seph no se apressou o suficiente, pois poucos minutos 
mais tarde ouviu Trevor junto  sua porta.
        Eu vou indo. Vejo voc l.
Seph vestiu o calo e ps a blusa e os jeans por cima. 
Descendo as escadas de dois em dois degraus, ele saiu do 
prdio e seguiu uma trilha de aparas de madeira por entre as 
rvores at a praia. No viu nenhum aluno por perto; eles 
provavelmente j haviam ido para a enseada. Uma placa na 
doca apontava para a direita, em direo  costa, para uma 
trilha dilapidada acompanhando as guas.
Um arrepio gelado que lhe subiu pela espinha o fez perceber 
que estava sendo observado. Duas vezes ele se virou e 
sondou o caminho atrs dele, depois deu de ombros e foi em 
frente. Finalmente, a trilha virou outra vez em direo  
floresta.
        Ei.
Ele se virou de novo, e dessa vez um rapaz atarracado com 
culos com aros de metal e tez avermelhada estava postado 
no meio do caminho. Vestia uma cala jeans tipo husky e 
uma blusa, e piscava rpido, como se estivesse nervoso.
        Ei  disse Seph.  Tambm est atrasado pra natao?
        No, eu... ahn... eu n-no...
O rapaz comeou a tossir, lutando para respirar. Ele enfiou a 
mo no bolso e tirou uma bombinha. Ele deu uma longa 
inspirada e voltou a guard-la. Ento, com um olhar 
determinado no rosto, estendeu a mo para Seph.
        Eu me chamo Seph McCauley  disse Seph, pensando 
que talvez quem tivesse asma fosse dispensado
da natao. Ele apertou a mo do outro garoto, e ento 
estremeceu ao reconhecer a ferroada de poder.  Ei! Voc 
...?
        Escute. Eu p-preciso falar com voc.
O rapaz olhava de uma extremidade  outra da trilha, 
enxugando o suor da testa com a manga da blusa.
        Eu gostaria muito de falar com voc  disse Seph, sem 
acreditar que havia encontrado dois magos no espao de 
algumas semanas.  Mas tenho de ir para a natao. Ser 
que a gente pode se encontrar mais tarde, tipo, no jantar?
        No. Eu n-no posso... Isso no...
        Ol, senhores.
Seph ergueu os olhos e viu um belo jovem num casaco 
esporte de l com remendos de couro nos cotovelos e que 
carregava uma maleta de couro surrada.
        O-oi, Aar... sr. Hanlon.
O outro aluno parecia petrificado, como que prestes a 
molhar as calas. Ou a ter outro ataque de asma.
        Joseph. Voc no deveria estar na natao?  indagou o 
sr. Hanlon, sorrindo.
        Eu estava indo para l.
        timo.  melhor se apressar. O dr. Leicester no gosta de 
atrasos.
Hanlon ps a mo no ombro do garoto e empurrou-o na 
direo contrria.
        Eu no sei o seu nome!  gritou Seph para o garoto.
Mas o rapaz apenas curvou os ombros e continuou andando.
"Aquele cara tem problemas", pensou Seph, seguindo o 
caminho. "No sei se vai ser de muita ajuda, mas vou tentar 
falar com ele na hora do jantar".
Enfim, a trilha afastou-se das rvores em um ponto em que o 
oceano avanava sobre a costa, criando uma baa protegida, 
flanqueada por pedras, fora do campo de viso a partir dos 
prdios da escola.
Devia haver uns 60 garotos na gua, as cabeas lisas e escuras 
contra a superfcie cinzenta. Outros estavam tirando as 
blusas na praia. Todos eles pareciam estar com muito frio. 
Seph avistou Trevor andando na gua a uns dez metros de 
distncia.
O dr. Leicester estava na praia, vestindo uma pesada blusa de 
malha, jeans e uma jaqueta impermevel. Quando viu Seph, 
soprou um apito com fora para chamar a ateno de todos.
        Rapazes, este  Joseph McCauley. Este  o primeiro dia 
dele no Porto Seguro e ele est atrasado para a natao.
A reao a isso foi impressionante. Todos os outros garotos 
olharam para o outro lado ou para baixo, como se quisessem 
evitar qualquer conexo com a transgresso dele. Alguns 
deles arriscaram-se a observ-lo quando acharam que 
Leicester no estava vendo.
Seph sorriu, levantando as mos em sinal de arrependi-
mento.
        Desculpem-me. Eu me confundi. Estava esperando por 
todo mundo no spa.
Risadas se espalharam pela gua, definhando rapidamente 
sob o olhar de desaprovao de Leicester. O diretor no 
parecia suscetvel ao lendrio charme de Seph.
Seph deixou suas roupas sobre umas rochas a certa distncia 
da beira da gua e caminhou com dificuldade pela praia de 
cascalho at a gua. Tivera esperanas de que a gua pudesse 
estar mais quente do que o ar, mas ficou desapontado. Foi 
como pisar em neve derretida. Os ps ficaram dormentes de 
imediato. Entrou na gua at que esta estivesse ao nvel dos 
joelhos, depois at da cintura, ofegando.
A gua era turva e desagradvel. As rochas no fundo eram 
escorregadias e invisveis, de modo que mesmo na enseada 
as ondas ameaavam derrub-lo. Algo se mexeu junto ao seu 
p esquerdo e ele pulou para trs, caindo inesperadamente 
em guas profundas. A cabea afundou e ele engoliu gua. 
Emergiu como uma baleia esguichando gua para todos os 
lados.
Aquilo era o bastante para ele. Algumas braadas o levaram 
novamente  parte rasa. Tremendo, os dentes batendo, ele 
subiu  praia. Estava quase de volta ao seu montinho de 
roupas quando algum lhe agarrou o brao.
Era Trevor, a pele toda arrepiada, os lbios plidos de frio, a 
gua escorrendo-lhe do corpo moreno para as rochas.
 Volte para a gua, Seph  disse ele, sem olhar direto para 
Seph e pondo a mo fria em seu ombro, como que para 
encoraj-lo. Volte j. Vamos.
Seph piscou. Olhou por cima do ombro para o dr. Leicester, 
que o observava sem nenhuma expresso no rosto. Tudo 
bem, pensou ele. Se ele ia tentar permanecer ali por dois 
anos, era melhor no se envolver num conflito de poder 
logo no primeiro dia. Cerrando os dentes, voltou sobre os 
prprios passos sobre a areia e entrou na gua, sem olhar 
para trs para ver se Trevor o seguira.
Dessa vez a gua parecia quase tolervel. Talvez ele estivesse 
se acostumando. Sentia um formigamento nas extremidades 
 medida que recuperava a sensibilidade, e no tremia mais. 
Foi adiante com mais confiana, continuando at que a gua 
lhe batesse na clavcula. Embora o sol tivesse sumido, 
bloqueado pelas rvores em torno, Seph se sentia quase 
aquecido.
Olhou em volta. Os outros garotos estavam paralisados, 
olhando para a gua sem poder acreditar. Mais um minuto 
passou, e a superfcie da gua comeou a soltar vapor no ar 
frio. Era como estar at o pescoo no quente mar do Caribe.
No. Isso no pode estar acontecendo. Seph olhou para 
Leicester, que estava conversando com um dos garotos na 
praia. Ele no havia notado nada fora do comum. Seph 
nadou em direo a um grupo de rapazes que estavam mais 
para o lado, junto da margem, e posicionou-se de forma que 
sua cabea fosse apenas uma de muitas pontuando a 
superfcie cinzenta. Agora relaxe, ordenou a si mesmo, 
fechando os olhos, tentando soltar os msculos e esvaziar a 
mente.
Quanto tempo ele conseguiria resistir? J estava encrencado, 
e era s o seu primeiro dia.
Relembrou as catstrofes de sua vida escolar. Os corvos 
homicidas em St. Andrew. As exploses e fogos na Esccia. 
Os lobos que haviam assustado as freiras na Filadlfia.
quela altura, a gua estava prxima da temperatura de um 
spa. Todas as conversas na enseada haviam morrido.
Os nadadores fitavam o vapor se acumulando na superfcie, 
subindo ao redor deles como uma nvoa matinal num lago 
numa montanha. Ningum disse uma palavra, nem uns para 
os outros nem para Leicester.
Finalmente, o garoto que estivera falando com o diretor 
correu e pisou na gua. Ele cambaleou para trs com um 
grito de surpresa e caiu sentado nas rochas. Gregoiy 
Leicester virou-se e olhou para os meninos na gua e o vapor 
fervilhando ao redor deles. Ento comeou a sondar os 
rostos dos meninos at que encontrou Seph.
Por mais que tentasse, Seph no conseguiu desviar o olhar. 
O diretor ficou imvel, estudando-o como a um espcime 
numa lmina de microscpio. Nada de perguntas, 
incredulidade, desafio ou confuso, apenas aquele escrutnio 
intenso e clnico, como se estivesse vendo a alma de Seph 
com total conhecimento do que havia dentro. Ento 
Leicester sorriu como se fosse Natal.
Com um tremor, Seph recuou um passo.
O olhar do diretor mudou para incluir o grupo inteiro.
 Senhores, talvez esteja um pouco frio para nadar, afinal. 
Esto dispensados para trabalhar em suas prprias atividades 
at o jantar.
Por um momento, ningum se moveu. Ento o xodo 
comeou, com todos saindo da gua em silncio como 
lemingues ao contrrio, caminhando em massa para fora da 
gua em vez de para dentro. Seph saiu pelo lado oposto da 
enseada, mantendo a maior distncia possvel de Leicester. 
Vestiu a blusa e os jeans sobre a pele molhada e apanhou os 
sapatos, sem nenhuma vontade de ficar ali o tempo 
suficiente para cal-los. Pendurando a toalha sobre os 
ombros, seguiu os outros em direo  floresta.
        Joseph.
Seph parou no meio da passada e ficou esperando, sem se 
voltar. O olhar do diretor pressionava-lhe a nuca.
        Venha at o meu escritrio depois do jantar. Acho que  
hora de explicar um pouco mais sobre o nosso programa.
Seph assentiu com a cabea e seguiu o caminho por entre as 
rvores.

Captulo Trs
Uma Cooperativa Mgica

Seph acordou com o som alto de batidas. Ainda meio 
grogue, foi aos tropees at a porta e abriu-a. Era Trevor, 
vestido para sair, com um sorriso hesitante.
        Seph. A ceia  s sete e meia. Temos tempo antes disso, se 
voc quiser dar uma olhada no lugar.
Seph esfregou os olhos e olhou para a cama.
        Claro. Valeu. Que bom que voc bateu. Eu podia ter 
dormido direto.  Bocejou.  A gente tem que se vestir 
pro jantar?
        Camisa de colarinho ou suter. Nada de jeans ou moleton.
        Certo. Me d um minuto.
Trevor ficou junto  porta enquanto Seph trocava de roupas 
e ajeitava o cabelo com a mo. Eles desceram as escadas e 
saram pela porta da frente.
A frgil luz de outono j se fora. Estava escuro como breu 
sob as rvores, exceto pelas luzinhas delineando os caminhos 
entre os prdios. Seph se preparou para perguntas e 
comentrios sobre os acontecimentos peculiares na enseada, 
mas, como nada fosse dito, ele falou:
        Aquilo foi bem estranho. O que aconteceu na natao, 
digo.
        Nunca se sabe o que vai acontecer por aqui  disse 
Trevor, dando de ombros.
        Como assim? Quer dizer que coisas estranhas j 
aconteceram antes de eu... antes de hoje?
        No quero dizer nada.
Trevor curvou os ombros como uma tartaruga recolhendo-se 
em seu casco.
        Eu trombei com um cara na floresta. Um aluno, acho. 
Atarracado, com culos e uma bombinha de asma. Voc 
sabe quem poderia ser?
Trevor olhou-o nos olhos.
        No me lembro de ningum assim.
Seph pensou em usar seus poderes. Imaginava que pudesse 
obter de Trevor as respostas que queria. Mas decidiu no 
insistir. " meu primeiro dia", pensou ele. "Quanto mais 
amigos eu fizer, melhor".
Trevor levou o papel de guia a srio, indicando as atraes 
do campus: as quadras de tnis, o anfiteatro.
        Tem quase cem alunos aqui. Eles vm de tudo quanto  
lugar, e muitos tm bolsas de estudos. Tambm tem um 
monte de ex-alunos que moram aqui no campus e trabalham 
em pesquisas com o dr. Leicester.  Eles passaram por mais 
prdios de dormitrios.  Todos os dormitrios so 
basicamente iguais. Os ex-alunos tm o deles, mais uma 
lanchonete e um salo s deles.
        Por que os ex-alunos ficam por aqui depois de se formar? 
 indagou Seph.  Eles no vo para a faculdade?
Trevor desviou o olhar, concentrando-se no caminho  sua 
frente.
        Vai ter de perguntar pra eles.
Eles andaram pelo Gareth Hall, o prdio onde ficavam as 
salas de aula, passando por salas vazias.
        As aulas j comearam h algumas semanas, por isso voc 
vai ter de correr com as tarefas  disse Trevor.  Avise-me 
se precisar de ajuda em alguma coisa.
O prdio de arte e msica era mais ao norte ao longo da 
costa.
        Eles fazem com que todos aprendam a tocar um 
instrumento  explicou Trevor.
Seph assentiu com a cabea. Tpico. Ele havia trazido o 
saxofone.
A seguir, Trevor conduziu-o at a praia e a doca.
        O dr. Leicester  fantico por iatismo. O nosso time no 
perde a Copa Estudantil da Costa do Atlntico h trs anos. 
Todos ajudam.
        Certo  replicou Seph, no assumindo nenhum 
compromisso. No podia dizer a Trevor que esperava ir 
embora antes do Natal, considerando o que ocorrera j de 
incio na enseada.
        Esta  a casa dos barcos.
Trevor abriu a porta de uma pequena construo desgastada 
pelo clima que Seph notara ao chegar. Era uma estrutura 
simples e quadrada, com um assoalho de tbuas toscas. Uma 
estreita passarela de madeira corria ao longo do lado oposto 
do aposento e cercava o ancoradouro. L embaixo, a gua 
subia e batia nos pilares. O prdio cheirava a gasolina e ao 
que Seph supunha ser entranhas de peixe.
        Eles mantm o barco a motor aqui a maior parte do tempo 
e, s vezes, os veleiros, quando precisam de conserto. Voc 
vai ficar craque em passar verniz, pode acreditar.
Aquilo no era problema. Seph estava acostumado a 
trabalhar duro. Passara todos os veres fazendo faxina, 
arrumando as camas e lavando pratos na penso de 
Genevieve.
        Hora do jantar  anunciou Trevor, dando meia-volta em 
direo  costa.
O salo de jantar era no trreo do prdio da administrao, 
com uma parede inteira de vidro que dava vista para a gua. 
Garons circulavam pela sala, limpando mesas e enchendo 
copos de gua.
Alm de hambrgueres e pizza, havia rosbife fatiado, uma 
entrada de peixe, um refogado do dia, rolinhos vegetarianos, 
bife grelhado na chapa e um buf de saladas. Poderia ser 
pior. Seph havia sido educado para apreciar a boa comida, 
mas no era nenhum esnobe.
Seph passou os olhos pela sala de jantar, mas no viu sinal do 
garoto de culos.
Trevor e ele carregaram suas bandejas para uma grande mesa 
retangular junto  janela. Alguns rapazes j estavam sentados 
l. A conversa morreu quando Trevor e Seph se sentaram, 
mas em seguida todos se revezaram nas apresentaes. Troy 
era um aluno negro de baixa estatura que parecia um 
acadmico, vestindo uma camisa branca e uma gravata-
borboleta. Harrison tinha aquele jeito de estudante alinhado 
e bem-comportado que muitas vezes  s fachada, enquanto 
James era direto e arrogante, com os cabelos tingidos de um 
tom excessivamente preto, vrios piercings e tatuagens.
Troy era da Filadlfia.
        J estive em escolas pblicas, escolas particulares e em 
todas as escolas religiosas que puderem imaginar  contou 
ele.  Disseram que eu era hiperativo.
Seph achou isso difcil de acreditar, dada a aparncia bem-
comportada. Troy estava no terceiro ano e disse que tinha 
esperanas de ir para Yale no ano seguinte.
Harrison e James estavam no segundo ano; Harrison viera de 
San Diego, e James, de Houston. Ambos admitiram ter um 
histrico festeiro pesado.
        Eu tinha um fundo fiducirio, sabe?  disse Harrison, 
engolindo o ltimo pedao de hambrguer e tomando um 
gole de refrigerante para ajudar a descer.  Por isso no via 
muito sentido na escola. Ficava o tempo todo chapado, 
cabulava bastante. Enquanto isso, meus pais passavam todo o 
tempo tratando do divrcio. Ento meu av disse que eu 
tinha de vir para c, ou no ia ter mais dinheiro. Acho que 
esqueci que um fundo fiducirio tem um fiducirio  
concluiu ele, rindo alto e socando Seph de brincadeira no 
ombro.
"Este lugar  cheio de desajustados", pensou Seph, 
esfregando o ombro. "Como eu".
Bom, no exatamente como eu.
Mais uma vez, ele esperou uma meno ao incidente da 
enseada, mas ningum tocou no assunto. Era como se nunca 
tivesse acontecido.
        E voc?  James perguntou a Seph.  Como  que 
acabou aqui?
        Eu tive de sair da minha ltima escola.  Seph se inclinou 
para trs um pouco, apoiando as mos na beirada da mesa de 
madeira dura, balanando-se na cadeira.  Eu e a 
administrao tivemos uma divergncia.
Troy inclinou-se para a frente.
        Sobre o qu?
        Eles achavam que eu devia freqentar as aulas  
respondeu Seph, fazendo contato visual com cada um deles. 
 Eu tinha outras prioridades.
Harrison sorriu em expectativa.
        Tipo o qu?
        Voc sabe... Sair com as meninas. Hackear o computador 
da escola.  Ele se balanou para a frente, de modo que 
todas as quatro pernas da cadeira atingissem o cho com 
estardalhao.  Nadar pelado na piscina dos professores.
Aquilo provocou gargalhadas de Harrison e sorrisos dos 
outros em volta. Era o fim da inquisio.
"Hora de mudar de assunto", pensou ele. Seph nunca tivera 
nenhuma dificuldade para dirigir uma conversa.
        Como  que eu consigo o meu cronograma? Acho que eu 
devia ter perguntado ao dr. Leicester.
        Eles entregam no seu quarto antes do domingo  noite, 
com os livros que vai precisar  respondeu Trevor.
Seph passou pelo resto de sua lista habitual de perguntas. 
Todos os alunos tinham caixas de correio no prdio da 
administrao. Ele podia retirar dinheiro no escritrio do 
caixa, mas no havia muito em que gastar. Ele podia usar sua 
carteirinha de estudante para alugar filmes e encomendar 
pizza pela livraria.
        O que  que vocs fazem por aqui pra se divertir?  
indagou Seph, brincando com o ltimo pedao de peixe em 
seu prato.
        No muito  respondeu Troy.  A gente v filmes, se 
rene. Ah, voc pode ver os ursos e os guaxinins na 
caamba do lixo.
Harrison acrescentou:
        Tem bastante esporte, como esqui cross-country e 
snowboard. A temporada de iatismo j acabou, mas comea 
de novo na primavera. L no centro recreativo d pra jogar 
tnis e raquetebol.  Ele deu de ombros.   isso.
        No se preocupe quanto a no ter o que fazer  disse 
Trevor, revirando os olhos.  Eles nos fazem trabalhar 
bastante.
        E quanto a garotas?
Seph havia freqentado escolas para rapazes antes, mas 
geralmente em cidades, onde havia ampla oportunidade para 
socializao.
        Vai ter de esperar at o vero  disse Harrison com 
tristeza.  Ou at o recesso de inverno, pelo menos.
Seph absorveu a notcia filosoficamente. N'exigez pas 
beaucoup et vous ne serez pas du. No espere muito e 
nunca se decepcionar.
Uma coisa que ele realmente esperava era acesso  internet.
        Que lance  esse de a gente no poder entrar na internet?
         estranho  disse Harrison.  Eles esto atualizados em 
vrias outras coisas.
        Vamos perguntar ao dr. Leicester a respeito  sugeriu 
Seph. Isso foi recebido com uma notvel falta de entusiasmo. 
O que era surpreendente, pois as pessoas sempre gostavam 
das idias dele. Ele tentou de novo.  A gente podia fazer 
uma petio. Uma manifestao de protesto.
Troy pigarreou.
        Hmm... Acho que no  uma boa idia.
        Vocs no se importam?  indagou Seph, exasperado. Ter 
acesso  internet era como ter acesso a oxignio.
        Voc pode perguntar ao dr. Leicester  arriscou James, 
deixando claro que Seph estaria sozinho naquilo.
        Mas eu no teria muitas esperanas. Acho que os ex-
alunos tm internet, mas s eles.
        Outra coisa  disse Seph.  Os ex-alunos. Qual  a deles? 
O que eles esto fazendo aqui no meio do nada?
        Ele olhou para a mesa em torno, mas ningum lhe 
devolveu o olhar.  Vocs no tm curiosidade?
Alguns pigarros e ombros sacudindo. Mas nenhuma resposta 
de verdade.
        Certo. Vocs no tm curiosidade.  Seph pegou o 
celular, imaginando se a mudana de local faria alguma 
diferena. No fez.  No consigo sinal no meu celular. Eu 
preciso mudar de operadora?
        Acho que no existem torres de transmisso por aqui - 
disse Trevor.  Nenhum celular funciona. Voc vai ter de 
usar os telefones fixos.
Aquele era o grupo de alunos mais passivo que ele j 
encontrara. Era como se algo lhes houvessem roubado a 
fibra.
        Tem alguma igreja catlica por aqui?
        No tem nenhuma igreja de nenhum tipo em que d pra 
chegar  disse James.  Vai ter de acertar as contas com 
Deus no vero.
        No tem nada?  Seph olhou para a mesa ao redor.
        No acredito.
        Tem uma capela ao ar livre aqui. No sei por que, com 
esse clima  disse Trevor.  Tem servios ecumnicos uma 
vez por semana, ou aqui ou no prdio da administrao.
Genevieve fora uma catlica devota, por isso Seph havia 
freqentado escolas de jesutas at que ela e os padres 
discordaram sobre como lidar com as extravagncias mgicas 
dele. Os jesutas haviam proposto um exorcismo. Genevieve 
recusara.
A igreja sempre lhe fora um refgio. As missas em latim o 
relaxavam. Ele gostava da cadncia reconfortante da velha 
lngua, como feitios antigos contra as trevas, a fumaa 
perfumada subindo dos incensrios, a arquitetura cavernosa 
dentro da qual os problemas dele pareciam pequenos e 
contornveis. Ele parecia ter uma afinidade por rituais.
Nada de missas. Bom, ele no achava que fosse ficar por 
muito tempo.
        Qual de vocs  Joseph McCauley?
Seph ergueu os olhos, surpreso, percebendo que a conversa 
na mesa morrera. Dois jovens, aparentando idade 
universitria, estavam em p junto  ponta da mesa. Um era 
alto e magro como um galgo, com cabelos e clios to claros 
que pareciam quase translcidos. O outro tinha cabelos 
escuros, ombros largos e era musculoso. O tipo de cara que 
tinha dobras no pescoo e precisava se barbear duas vezes 
por dia.
        Sou eu  disse Seph, levantando a mo e mexendo os 
dedos.  O que foi?
        O dr. Leicester gostaria de falar com voc no escritrio 
dele.
Seph notou que todos os demais  mesa estavam de olhos 
fixos no cho. Como quando se est numa aula para a qual 
no se estudou e se tem medo de ser chamado pelo 
professor.
        Ceeeerto. E vocs so...?
        Meu nome  Warren Barber  disse o loiro.  Este  
Bruce Hays.
Como se isso explicasse alguma coisa.
Seph olhou para o relgio. Quase oito horas e, apesar da 
soneca, estava morto de cansao. Era melhor ir logo quela 
reunio, a fim de que pudesse ir para a cama. Levantou-se da 
cadeira e sorriu para os outros  mesa.
        Ei, foi legal conhecer vocs. Obrigado pelas dicas. Vejo 
vocs mais tarde.
Eles todos o fitaram como se estivessem gravando a imagem 
dele em suas mentes, como se pudessem esquecer como ele 
era assim que ele fosse embora.
        Boa sorte, Seph  disse Trevor baixinho.
        Bem-vindo ao Porto Seguro  disse Hays enquanto 
subiam as escadas do andar da lanchonete para os escritrios 
da administrao no segundo andar.
        Obrigado. Ahn... Vocs so professores?  perguntou 
Seph, tentando imaginar o que aqueles dois poderiam 
ensinar.
        No. Somos ex-alunos  replicou Barber.  Somos os 
lderes da matilha desta organizao. Detesto ter de dizer 
isso, mas voc estava jantando com as ovelhas.
        Eu... ahn...
Seph no fazia idia de como responder quilo.
        Cara, voc vai gostar daqui  disse Hays, dando-lhe um 
tapa nas costas.   uma promessa.
O escritrio do dr. Leicester ocupava uma posio pri-
vilegiada na frente do prdio, com a melhor vista do mar. 
Era diferente de todos os escritrios de diretoria que Seph j 
vira: brilhantemente moderno, com fax, computador, 
impressora e scanner. No viu nenhum dos costumeiros 
diplomas, prmios e outros lixos remanescentes de com-
peties interescolares, a no ser vrios trofus enormes de 
iatismo.
Seph olhou com saudades para o conjunto de hardware de 
primeira linha e apoiou os quadris contra a mesa junto  
janela.
        Certo. O que vocs fazem aqui exatamente?  perguntou 
ele a Hays e Barber.  So assim... professores-assistentes?
Hays e Barber se entreolharam.
        Acho que se pode dizer que somos, sabe como , 
assistentes de pesquisa  disse Barber, sorrindo.
Seph pensou que eles pareciam mais com, sabe como , 
capangas. Se algum visse Hays e Barber na rua, atravessaria 
para o outro lado.
Talvez fosse difcil encontrar bons ajudantes.
        Sobre o que  a sua pesquisa?  indagou Seph.  Vocs 
tm uma bolsa ou coisa assim?
        O dr. Leicester vai explicar mais sobre a, ahn, pesquisa  
disse Hays.  O que voc precisa lembrar a nosso respeito  
que ns mandamos neste campus. A gente s responde ao 
dr. Leicester.
"Bem, se  assim,  um reino bastante remoto", pensou Seph. 
"Eu preferiria governar algumas quadras de Toronto a..."
        Ol, Joseph.
Seph virou-se. O dr. Leicester estava em p junto  porta.
        Obrigado por vir. Sente-se.  Leicester indicou uma das 
duas cadeiras em uma mesa no canto. Seph se sentou. 
Leicester tomou o outro assento.  J foi apresentado ao sr. 
Hays e ao sr. Barber? timo.
Uma pasta de arquivo estava sobre a mesa. Leicester puxou-a 
para si e comeou a folhear os contedos.
        Joseph, hoje eu lhe disse que aqui no Porto Seguro ns 
nos orgulhamos de fazer um currculo sob medida para cada 
aluno. Com base nos seus registros e nas dificuldades que 
vem tendo, suspeito que voc v exigir ateno especial.
Seph deu uma olhada nas folhas entre as mos de Leicester, 
tentando l-las de cabea para baixo.
        No sei bem o que quer dizer. Que dificuldades?  
Confusa pela fadiga, a mente dele no estava to sagaz 
quanto de hbito.  Tenho me sado muito bem. Se olhar 
para as cpias dos meus boletins, vai ver que...
        Estou falando do episdio l na enseada esta tarde.
No admita nada: aquela era a primeira regra dele.
        Sinto muito por ter chegado atrasado. Prometo que no 
vai acontecer de novo.
Leicester descartou aquela resposta com um gesto im-
paciente de mo.
        O mar quase comeou a ferver. Bastante incomum, at 
mesmo no meio do vero. Na verdade, nunca aconteceu 
antes.
Segunda regra: Apele para a lgica.
Seph olhou de Leicester para os dois ex-alunos e de novo 
para o diretor.
        O que isso tem a ver comigo?
        Acreditamos que voc foi a causa. Intencionalmente ou 
no.
Terceira regra: Adie o inevitvel.
        Olha, estou muito cansado, e nada disso est fazendo 
sentido. Ser que a gente pode conversar sobre isso amanh?
Leicester folheou os papis.
        Voc mudou de escola quatro vezes em trs anos.
        s vezes leva-se tempo pra encontrar o lugar ideal.
        Vejo que houve outros incidentes. Incndios. Exploses. 
Ovelhas voadoras?  Leicester arqueou uma sobrancelha.
Seph estava perplexo. Se Leicester sabia o histrico dele, 
ento por que o admitira, para incio de conversa? Seph 
empurrou a cadeira para trs e se levantou.
        Ovelhas voadoras? Sinto muito. No fao idia do que est 
falando. Eu realmente preciso ir.
Ele se voltou para a porta, mas Hays e Barber bloquearam o 
caminho.
        Sente-se, Joseph  disse Leicester com calma.  Por 
favor. Confie em mim,  do seu interesse me escutar.
Hays e Barber no se moviam. Seph retornou  mesa e se 
sentou.
        Assim  melhor.
Leicester suspirou e refletiu por um instante, como se no 
soubesse ao certo por onde comear. Finalmente, estendeu a 
mo e segurou o antebrao de Seph, que estremeceu, 
esperando o aperto esmagador caracterstico de homens que 
malham religiosamente. O que foi surpreendente no foi a 
fora, mas o poder puro transmitido por aquele toque. Seph 
respirou fundo, lutando para no fazer cara de tonto ou 
burro e sem ter certeza de ter obtido sucesso. Aps um 
momento, Leicester soltou-lhe o brao. A marca da mo 
dele permaneceu.
O dr. Leicester tambm era um mago.
A voz de Leicester gotejou em seu crebro, explodindo com 
um calor como o do conhaque de Genevieve.
        Nada do que aconteceu  culpa sua, Joseph. Os magos 
precisam de treinamento, e imagino que voc no tenha tido 
nenhum. Voc  muito poderoso, pelo que vi. E o poder 
tende a encontrar... vlvulas de escape.  Ele fez uma 
pausa, depois falou alto.  E ento? Estou certo at aqui?
Sem dizer nada, Seph fez que sim com a cabea, ainda 
tentando assimilar aquela sbita reviravolta.
Leicester deu-lhe um tapinha no ombro.
        Sei que isto deve ser um pouco... estranho.  O mago se 
recostou na cadeira.  Antes, o sr. Hays e o sr. Barber eram 
como voc: tinham o talento, mas no a educao. Agora 
esto a caminho de se tornar mestres.
Hays e Barber sorriram com modstia.
"Se eu fosse um mestre de magia, eu cuidaria da minha 
aparncia", pensou Seph.
        E quanto aos outros todos?  comeou ele.  So 
todos...?
        A maioria no . A maioria  apenas o que se poderia 
chamar de alunos desobedientes.  Leicester deu de 
ombros, desinteressado.  Ns recrutamos alunos que 
tiveram dificuldades em outros lugares porque, muitas vezes, 
entre eles h garotos como voc. Os que tm o dom, mas 
no o treinamento.  O diretor brincou com um requintado 
anel que trazia no dedo mdio da mo esquerda.  O 
quanto voc sabe sobre as ordens e os elementos de poder?
        Um pouco.
        Conte-me.
Seph vasculhou a memria.
        Ahn... Os que tm o dom nasceram com Pedras Weir, 
uma fonte cristalina de poder que fica atrs do corao  
recitou ele.  O poder  de famlia. O... ahn... tipo de Pedra 
Weir que cada um tem determina a natureza e a extenso do 
poder, e a que ordem pertence.
Quando Seph fez uma pausa, Leicester fez um gesto de 
cabea, encorajando-o a prosseguir.
        As ordens mgicas incluem feiticeiros, adivinhos, 
guerreiros, encantadores e magos. Nas ordens especializadas, 
a magia  mais elementar, mais direta. Os magos so os mais 
poderosos, porque moldam a magia com palavras.
        E quem contou tudo isso a voc?
        Minha me adotiva. Ela era feiticeira.
Genevieve dizia que prometera aos pais dele no envolv-lo 
no perigoso mundo da magia. Por isso ela o havia deixado 
com milhares de perguntas e um poder que ele no sabia 
controlar.
        E onde est a sua me adotiva?
        Morreu trs anos atrs.
        Que pena.  Leicester estampou um tpico olhar de 
simpatia.  Quer dizer que voc no tem famlia.
        Na verdade, no.
        A que Casa est afiliado?
A mesma pergunta que Alicia lhe fizera. Talvez agora ele 
conseguisse finalmente obter algumas informaes.
        Na verdade no sei muito sobre as Casas.
Leicester estudou-o com seus olhos de rolim, como se 
tentasse decidir se Seph dizia a verdade.
        Como a ordem dominante, os magos tiveram de 
desenvolver sistemas para a distribuio de poder. Seno 
teramos o Armagedom em nossas mos.
Seph sentiu que Leicester havia feito aquele discurso muitas 
vezes antes.
        H duas grandes Casas de magos, a Rosa Vermelha e a 
Rosa Branca. As famlias de magos se alinham com uma ou 
com outra, e muitos desses pactos de lealdade datam desde a 
Guerra das Rosas na Bretanha do sculo XV. As interaes 
das Casas so regidas por um documento chamado Leis de 
Combate, o tratado que deu fim  guerra. Por sculos, o 
poder vem sendo decidido entre as Casas por meio de uma 
srie de torneios. Os membros da Ordem dos Guerreiros 
lutam como representantes das Rosas. A casa vencedora 
governa os Weirs, ou seja, as ordens mgicas, at que se 
realize o prximo torneio.  um sistema que tem funcionado 
bem.
Seph se inclinou para a frente. Seu cansao parecia ter 
desaparecido.
        Por que ningum me falou disso antes?
        Aqui nos Estados Unidos, muitos dos Weirs no sabem 
que tm o dom. Velhas conexes foram rompidas. Alguns 
que vieram para c tomaram uma deciso consciente de 
deixar as Casas para trs.  Leicester suspirou.  Suponho 
que as ordens inferiores viram isso como uma oportunidade 
para escapar do servio. Mas, para os magos, o resultado  
que jovens como voc no recebem orientao nem 
instruo. E isso pode ser desastroso. Nosso propsito aqui 
no Porto Seguro  remediar isso.
        Est me dizendo que pode me treinar em magia?
Leicester sorriu.
        Estou dizendo isso, sim.
        E vou aprender a controlar a magia, e a evitar... acidentes.
        Sim.
Depois do que acontecera no depsito, Seph desejara no ter 
nada a ver com magia, nunca mais. Mas no tinha escolha. 
No caso dele, o poder tinha maneiras de vir  tona de modo 
incontrolvel. Ser capaz de controlar a magia, utiliz-la 
apropriadamente... seria um milagre.
Mas Seph era esperto o bastante para duvidar de magos 
oferecendo presentes.
        E o que o senhor ganha com isso?  indagou Seph.
Leicester levantou-se e caminhou at a janela. Olhou para o 
porto, as mos entrelaadas atrs das costas. Ento se virou 
para encarar Seph.
        Estes so tempos difceis para as Casas, um momento de 
grande perigo. No vero passado, um torneio na Bretanha 
deu errado. As Leis de Combate foram violadas. Um grupo 
formado em sua maioria por rebeldes das ordens servis se 
refugiou num santurio em Ohio. Um anarquista que chama 
a si mesmo de Drago est fomentando a rebelio e atacando 
magos de ambas as casas por todo o mundo. Alianas esto 
se alterando. Se a guerra entre as Rosas comear de novo, 
vamos estar todos em perigo.
Ele fez uma pausa, como se esperasse uma reao, mas Seph 
no disse nada. Seph j reparara que aprenderia mais se 
ficasse calado.
        Respondendo  sua pergunta, ainda estou nominalmente 
filiado  Rosa Branca. Mas minha esperana  que, por meio 
do nosso trabalho aqui no Porto Seguro, ns possamos criar 
um novo caminho, uma nova ordem que d fim ao 
derramamento de sangue e elimine o embate constante 
entre as Casas. Pense no que poderamos fazer, se no 
estivssemos concentrados em nos matar uns aos outros.
Aquilo fazia sentido.
        Tem alunos de outras ordens aqui?  indagou Seph.  
Como guerreiros e... e feiticeiros?
        Eles dificilmente precisam do tipo de instruo que posso 
fornecer. Afinal, eles so criados com determinado 
propsito.  A expresso de Leicester era vagamente 
desdenhosa.  No, ns nos concentramos nos magos. 
Nossos formandos se tornam os mais poderosos praticantes 
de magia no mundo.
        H quanto tempo vem fazendo isso?
        Nossa primeira classe se formou cinco anos atrs.
        Como  que as pessoas descobrem a existncia do Porto 
Seguro? Faz trs anos que procuro ajuda e nunca ouvi falar 
daqui.
Leicester abriu um leve sorriso.
        A natureza da poltica dos magos exige que sejamos 
discretos. Talvez j tenha ouvido falar que controlamos de 
perto a entrada e sada de informaes aqui. Existe um 
motivo para isso.
        Mas no entendo por que...
        Quando souber mais, vai entender  disse Leicester com 
severidade.  No podemos arriscar sermos descobertos por 
aqueles que destruiriam nossa nica esperana real de paz. 
Existem interessados na manuteno do status quo. Por essa 
razo,  importante que nenhuma palavra a respeito disso 
chegue aos ouvidos das Rosas.
Pelo que sabia dos magos, Seph no ficou surpreso em 
descobrir que Leicester tinha um plano poltico. Genevieve 
lhe infundira uma profunda suspeita sobre a poltica dos 
magos, que muitas vezes parecia envolver o sacrifcio das 
ordens inferiores. Sem dvida o diretor tentaria envolv-lo 
mais cedo ou mais tarde. Mas Seph lidaria com isso, se 
pudesse conseguir a ajuda de que precisava.
        Como  que funciona? Quem ensina? Quanto tempo leva?
Os olhos de Leicester brilharam.
        Devemos supor, ento, que voc est interessado em se 
juntar  nossa cooperativa mgica?
A exatido da linguagem do mago era um aviso, mas Seph 
no podia se dar ao luxo de dizer no.
        Sim. Com certeza.
        timo  disse Leicester.  Achei que seria essa a sua 
resposta.
        Quando comeamos?  insistiu Seph.
        Aproveite esses primeiros dias para se aclimatar e 
recuperar o tempo perdido nas outras aulas. Depois con-
versaremos de novo. Temos tcnicas que abreviam o pro-
cesso.
        No tem nada que eu possa ler nesse meio-tempo, algum 
jeito de me preparar?
Leicester estudou-o por um momento.
        Talvez. Voc tem um Livro Weir?
Alicia Middleton havia mencionado Livros Weirs na festa.
        No sei o que  isso.
        Cada membro das Ordens Weirs tem um Livro Weir, 
criado na ocasio de seu nascimento. Mesmo aqueles das 
ordens servis. Traz um resumo da linhagem mgica do 
membro e a histria da famlia. Os Livros Weirs dos Magos 
incluem feitios e encantamentos, que so passados pela 
famlia por sculos.
O diretor fez uma pausa, arqueando as sobrancelhas com ar 
inquisitivo.
        No tenho um  admitiu Seph.
        Na verdade, voc tem um  disse o dr. Leicester.   s 
uma questo de localiz-lo. A verdadeira chave  o que eu 
disse antes a voc: exigimos o compromisso total de nossos 
alunos magos. Voc  capaz disso?
        Sim, senhor  respondeu Seph.  O senhor no vai ficar 
desapontado.
Seph vivera de forma precria por anos, como algum com 
uma doena terminal, que nunca pode tecer planos para 
mais do que alguns meses adiante. Quaisquer que fossem as 
conseqncias daquela deciso, ele correria o risco.
        timo  disse Leicester.  Oh, e  melhor que voc no 
discuta nada disso com os Anaweirs.  Ante o olhar 
confuso de Seph, ele acrescentou:  Os alunos sem dom. 
Isso s causa ressentimento, e no queremos que eles 
espalhem boatos quando sarem do Porto Seguro. Na 
verdade,  melhor que voc mantenha distncia deles fora 
da sala de aula.
Seph pensou em Trevor, Harrison, Troy e os outros.
        No entendo. Por que ns...
Leicester agitou a mo com impacincia.
        Oh, seja polido,  claro. Mas, com o avanar do 
treinamento, voc vai descobrir que tem pouca coisa em 
comum com eles. Uma vez que voc se junte ao grupo da 
forma adequada, vamos transferi-lo para a Casa dos Ex-
Alunos.
Seph lembrou-se de como Trevor e os outros reagiram 
quando ele mencionara os ex-alunos.
        Os alunos magos vivem na Casa dos Ex-Alunos?
Leicester confirmou.
        Todos os ex-alunos tm o dom.
Seph deu uma olhada em Hays e Barber.
        Eles so... todos eles so formados? Quero dizer, tem 
algum mais da minha idade? Eu ainda vou estar na mesma 
classe dos outros?
Ele se sentia ligado a Trevor e aos outros, agora que os 
conhecera.
        Veremos isso quando o seu treinamento estiver em 
andamento.  O mago se levantou, indicando que a 
entrevista terminara.  Agora  melhor ir para a cama. 
Voc teve um longo dia.
E Seph compreendeu que havia sido dispensado.



Captulo Quatro
Uma Visita  Casa dos Ex-Alunos

Como prometido, os livros de Seph e o cronograma das aulas 
lhe foram entregues no domingo de manh cedo. Ele 
localizou as salas de aula no mapa do campus, verificou o 
plano de estudos e comeou a ler o material. Sempre fora um 
bom aluno, por isso no achou que teria muita dificuldade 
para alcanar os outros. Queria adiantar o mximo de estudo 
possvel antes que as aulas de magia comeassem.
L pelo fim da tarde, porm, percebeu que no estava 
conseguindo se concentrar na histria europia do sculo 
XVIII. Tentou com e sem os fones de ouvido. Passou da 
cama para a escrivaninha, na esperana de que o ato de 
sentar-se ereto lhe incutisse alguma disciplina. Mas se viu 
apertando teclas aleatrias no computador, desejando poder 
entrar na internet. Estava acostumado a passar horas on-line 
todos os dias com os amigos, numa estimulante mistura 
multimdia que inclua msica, mensagens instantneas e 
lio de casa.
Ele pensou em Leicester e nos ex-alunos. Perguntou-se 
quanto tempo levaria at obter controle sobre o seu dom, 
como Leicester o chamava. Como seriam as lies? Ser que 
Leicester o ensinaria pessoalmente, para que ele pudesse 
alcanar o nvel dos outros? Ser que recitariam 
encantamentos na aula? Praticariam feitios no campo de 
futebol? Ser que o fato de ele no ter um Livro Weir o 
atrapalharia? Seph sempre fora popular entre os Anaweirs. E 
se tivesse problemas para fazer amigos entre os dotados?
Leicester havia dito que Seph tinha um Livro Weir em 
algum lugar. Se isso fosse verdade, Seph poderia encontrar as 
respostas para suas perguntas naquelas pginas.
Para algumas delas, pelo menos.
Talvez ele devesse tentar conhecer alguns dos ex-alunos de 
imediato. Organizar um grupo de estudo. Fazer aliados que 
pudessem ajud-lo.
De preferncia algum diferente de Hays e Barber.
Acabou desistindo e afastando o livro de histria para o lado. 
Calou os sapatos e seguiu pelo corredor at o quarto de 
Trevor. A porta de Trevor estava aberta, e Seph ouviu o 
pulsar grave e contnuo de um baixo j no meio do corredor.
Trevor estava estirado no tapete de pele de ovelha na frente 
da lareira, digitando com dois dedos num laptop. Papis e 
livros estavam espalhados  seu redor. Ele olhou para Seph, 
pestanejando, como se estivesse surpreso por v-lo.
        Vamos fazer alguma coisa  disse Seph.
Trevor diminuiu o volume do aparelho de som e estreitou os 
olhos para Seph.
        Tipo...?
        Qualquer coisa  disse Seph de modo enftico.  
Vamos.
        Sei no. Tenho um monte de tarefas.  Trevor hesitou, 
observando Seph com cautela.  Est tudo bem com voc? 
Como  que foi com o Leicester ontem  noite?
        timo. Muito bom. Ns conversamos, e tudo est bem.
        Voc est brincando, no ?
Trevor parecia to solene que Seph teve de sorrir.
        , estou s brincando. Mais ou menos. Voc vem? De 
qualquer jeito, est quase na hora do jantar.
Eles saram caminhando sob o pr do sol. Seph sorveu a 
mescla de aromas que a floresta exalava no outono. 
Lembrava torrada queimada.
Trevor ficou mais animado assim que deixaram o dormitrio 
e a tarefa para trs.
        Quem sabe a gente consegue uma quadra de raquetebol e 
joga antes do jantar?  disse ele.
Seph olhou para a cala jeans e a blusa de malha que estava 
vestindo.
        A gente no precisa se vestir pro jantar?
Trevor sorriu.
        Hoje  domingo. Regras de fim de semana. O dr. Leicester 
geralmente no est na escola.
Eles estavam passando pela Casa dos Ex-Alunos.
        Ei, espere a um segundo. Vamos dar uma olhada l 
dentro.
        No, Seph, vamos.
Trevor agarrou-o pelo brao, mas Seph j havia passado pela 
porta.
O hall abria para um salo com uma enorme lareira de pedra 
em um dos lados, emoldurada por estantes de livros. Os sofs 
de couro ao redor de um tapete persa pareciam bois 
agachados. O lugar era de estilo semelhante ao dos outros 
prdios que Seph havia visto, porm mais luxuoso, decorado 
com objetos mais caros, agressivamente masculino. No 
havia ningum l, mas Seph conseguia ouvir o murmrio de 
conversas e o tilintar de talheres vindo de uma sala prxima.
Trevor segurou o brao de Seph com fora.
        A gente no tem autorizao para entrar aqui  sussurrou 
ele.
        Eu s quero dar uma olhada ao redor  sussurrou Seph 
em resposta.  No se preocupe. Est tudo bem.
        Estou falando srio  insistiu Trevor.  Vamos.
Seph sondou a seo prximo  escadaria.
        Ei, tem uma biblioteca no primeiro andar. Voc j esteve 
l em cima?
        No. J falei. A gente no tem permisso.
        Aposto que eles tm acesso  internet.
        Seph, eu vou embora. Venha.
Trevor deu dois passos em direo  porta.
        Eu j volto  disse Seph.
Seph subiu as escadas dois degraus de cada vez, fazendo uma 
pausa no patamar, e virou  esquerda na galeria, passando por 
fileiras de portas sem placas. Uma porta no fim do corredor 
estava entreaberta. Espiando l dentro, Seph viu fileiras de 
estantes cheias de livros empoeirados com capas de couro. 
Um leve movimento  direita assustou-o. Ele deu um pulo 
para trs, comprimindo-se contra a parede do corredor. 
Ento ouviu uma exploso de vozes vindo do trreo.
        O que voc est fazendo aqui?  indagou algum.
A voz era familiar. A seguir, algo ou algum foi jogado com 
fora contra a parede.
Seph inclinou-se sobre o corrimo da galeria. Bruce Hays 
segurava Trevor prensado contra a parede. Seph ouviu um 
arrastar de cadeiras, depois meia dzia de outros surgiram 
vindos da sala de jantar, acotovelando-se em um semicrculo 
em torno de Bruce e de seu prisioneiro. Warren Barber 
estava entre eles.
Trevor respondeu alguma coisa, mas to baixinho que Seph 
no conseguiu ouvir as palavras. O que quer que fosse, no 
devia ter sido satisfatrio, pois Bruce fez alguma coisa e 
Trevor gritou.
        Ei!  Seph correu pela galeria e desceu as escadas aos 
saltos. Abriu caminho aos empurres pelo crculo de magos 
e agarrou o brao de Bruce.  Largue-o!
Bruce recuou, soltou Trevor e se virou, as mos erguidas para 
lutar. Os olhos se arregalaram quando viu Seph.
        O qu? Voc est com ele?
Warren Barber se voltou para Trevor.
        Voc sabe que no tem permisso para entrar aqui  disse 
ele com voz suave.
Barber estendeu a mo, e Trevor pressionou o prprio corpo 
contra a parede de novo, fechando os olhos. O suor brotava 
da sua testa, apesar do ar frio.
        Calma a. A idia foi minha  disse Seph, postando-se 
entre eles. Sorriu e deu de ombros, acionando o seu charme. 
 Eu s queria dar uma olhada.
Warren no se impressionou.
        Esse a deveria saber que no pode entrar assim.
A respirao de Warren fedia a cerveja, e ele falava com a 
determinao tpica dos bbados. Esticou o brao, passando 
por Seph e agarrando Trevor, e Trevor pulou para trs.
Seph empurrou a mo de Warren para longe.
        No vejo qual  o grande problema. O que esto 
escondendo aqui dentro?
        Bom, na verdade ...  Warren esfregou a palma da mo 
no queixo com a barba por fazer.   um grande problema.
Bruce pigarreou.
        Warren...
        O dr. Leicester no falou pra voc ter cuidado com quem 
voc anda?  disse Warren a Seph, indicando Trevor com a 
cabea.
Seph ergueu o queixo em desafio.
        Qual , cara?! Voc faz tudo o que o dr. Leicester manda?
O sorriso de Warren se desfez, deixando ressentimento em 
seu rastro.
        O que quer dizer com isso?
Seph olhou para o crculo de magos em torno, o olhar 
demorando-se em cada rosto.
        Quero dizer que sou eu quem decide sobre meus amigos.
Ningum disse nada por um longo instante. Ento Warren 
deu de ombros e sorriu, como que tentando negar todas as 
ameaas e insinuaes de antes. Mas o sorriso nunca lhe 
chegou aos olhos.
        Tudo bem, ento  disse ele.   s um, sabe como , 
mal-entendido.
        Tudo em paz, Joseph  disse Bruce, em tom 
reconfortante.  Espere at voc se mudar pra c. Vai ser 
timo. Os outros dormitrios so uma droga em comparao. 
A comida  bem melhor tambm. Ei, por que voc no entra 
e janta conosco? A gente pode explicar algumas coisas pra 
voc.
Era um convite que claramente no inclua Trevor.
Seph sentiu-se tentado. Seria bom receber algumas 
explicaes. Mas percebia a necessidade de estabelecer um 
limite, de fazer uma declarao sobre quem ele era e o que 
toleraria.
        J tenho planos para esta noite  disse ele, sorrindo.  
Quem sabe outro dia?
        Claro  disse Bruce.  Venha pro jantar amanh. A 
gente comea s sete.
Trevor olhou para Bruce, Seph e Warren.
        No digam ao dr. Leicester que eu estive aqui  sussurrou 
ele.  Por favor.
Warren arreganhou os dentes.
        Qual  o problema? Tem medo de ganhar uma marca 
negativa?
        Por favor  repetiu Trevor.  Eu sinto muito, mesmo. 
S no contem pro Leicester.
        Talvez voc queira ser o meu servo particular por um ms. 
Hein?  disse Warren. Ele sorriu para os outros magos.  
O Trevor  muito bom lavando roupa. Muito melhor que o 
servio daqui. Deixa aquelas cores brilhando.
        Ei, Warren  disse Seph, mantendo o tom de voz leve. 
 J chega. Que parte de deixe ele em paz voc no 
entendeu?
Warren ergueu uma mo, sorrindo.
        Claro. Sem problemas. Vejo voc amanh.
Seph tocou Trevor no ombro.
        Vamos, Trevor. Temos outros lugares para ir.
Uma vez l fora, Trevor no disse nada, mas se virou e 
seguiu para o dormitrio, de cabea baixa, chutando as folhas 
com fora.
Seph teve de se apressar para alcan-lo.
        Ei! Trevor! Olha, me desculpe. Voc tinha razo. Eu devia 
ter escutado.
Trevor no ergueu o olhar nem diminuiu o passo. Fi-
nalmente, Seph agarrou-lhe o brao, fazendo-o dar meia-
volta.
        Fale comigo, sim?
Seph meio que esperava que Trevor se soltasse, ou lhe desse 
um soco, ou algo assim, mas ele s ficou ali, olhando para o 
cho, um msculo pulsando no maxilar.
        Eu disse que devia ter escutado voc  repetiu Seph.  
Aquilo foi surreal. Mas ningum se machucou, certo?
Trevor olhou para Seph como se tivesse ouvido a piada mais 
suja possvel.
        Certo, claro. Ningum se machucou.
Ele comeou a se virar, mas Seph o segurou pelo brao com 
mais fora para mant-lo no lugar.
        Solte-me.
Trevor manteve os olhos voltados para o outro lado, como se 
olhar para Seph fosse perigoso.
Seph continuou segurando.
        O que foi? Fale.
Trevor simplesmente balanou a cabea.
Com cuidado, Seph liberou uma quantidade mnima de 
poder sobre Trevor. Sentia-se mal por faz-lo, mas precisava 
saber.
Sentiu que Trevor no queria responder, mas as palavras 
jorraram mesmo assim.
        Voc nunca disse que era um deles.
        Deles quem?  indagou Seph, embora j soubesse.
Trevor voltou os olhos para a Casa dos Ex-Alunos.
        No sou um ex-aluno  disse Seph, num tom pouco 
convincente.  Estou no segundo ano.  s que estou 
matriculado num programa especial.
Trevor no disse nada.
        Por qu?  indagou Seph.  O que voc sabe sobre eles?
Trevor estremeceu.
        Eu no quero saber nada sobre eles. Sobre vocs.  Ele 
tentou se soltar, e Seph o largou.  Vocs no se importam 
com o que acontece com qualquer um de ns. Alguns de 
ns deram ouvidos ao Jason, e...
        Quem  Jason?
        Ele nos disse que a gente devia resistir e lutar. A gente 
tentou, e agora o Sam est morto. E o Peter e o Jason esto 
morando na Casa dos Ex-Alunos.
Era como se Trevor estivesse falando japons. Seph se 
perdera j na primeira frase.
        Lutar contra o qu? Quem morreu? No sei do que voc 
est falando.
Trevor levou as mos aos ouvidos, falando alto o bastante 
para abafar a voz de Seph. Como se tivesse medo de que 
Seph pudesse seduzi-lo com palavras.
        Passei seis meses sem uma medida disciplinar, e agora...
        Eu falo com o dr. Leicester  props Seph, ainda 
perplexo pela emoo com que estava se deparando.  Eu 
explico. Custe o que custar.
        No  disse Trevor.  No me faa nenhum favor. Voc 
vai piorar as coisas. S fique longe de mim.
Ele girou e se afastou, de volta ao dormitrio. Seph ficou 
observando-o at Trevor sumir nas sombras das rvores.



Captulo Cinco
Compromisso Total

Na noite seguinte, Seph vestiu-se com esmero, escolhendo 
uma camisa de algodo, calas cqui e palet sem gravata, e 
passou gel no cabelo, raciocinando que era possvel que o dr. 
Leicester estivesse presente ao jantar. Ele se dirigiu  Casa 
dos Ex-Alunos na hora marcada, torcendo para que a noite 
fosse melhor do que o encontro do dia anterior.
Falando com franqueza, ele no gostara muito de nenhum 
dos magos que havia encontrado at o momento.
O sr. Hanlon, a quem havia encontrado antes na floresta, 
saudou-o  porta da sala de jantar.
 Pode me chamar de Aaron  disse Hanlon.
Embora Seph tivesse tido o cuidado de chegar na hora, o 
jantar j estava sendo servido. O espao lembrava a sala de 
jantar de um luxuoso hotel de esqui: teto de vigas altas, piso 
de ladrilhos, uma lareira gigantesca e uma parede de janelas 
que davam para uma queda-d'gua.
Os ex-alunos estavam reunidos ao redor de uma longa mesa. 
Havia 15 ao todo, sem contar Seph  uma mistura de 
professores e "pesquisadores", como Warren e Bruce. 
Leicester no estava l. Os garons circulavam 
discretamente, servindo bebidas, passando travessas de 
aperitivos, recolhendo pratos e anotando pedidos de um 
cardpio de alta classe. Para a surpresa de Seph, cerveja, 
vinho e destilados corriam livremente. Seph sups que isso 
se devia ao fato de quase todos os ex-alunos serem maiores 
de idade.
Aaron colocou Seph em uma posio de honra, no centro da 
mesa, e sentou-se ao lado dele, com Kenyon King, professor 
de educao fsica, do outro lado, e Bruce e Warren do lado 
oposto da mesa. Algum colocou uma travessa de camaro 
temperado  sua frente e um copo de vinho  direita. Os ex-
alunos de ambos os lados da mesa se apresentaram.
Em uma das cabeceiras da mesa estava um rapaz 
despenteado, com culos e um tique, que se apresentou 
como Peter Conroy. Era o garoto que Seph havia encontrado 
na floresta dois dias antes, a caminho da natao. Seph 
tentou atrair a ateno de Peter, mas ele no olhava de volta. 
Seph deu de ombros. Aquilo parecia menos importante ali, 
cercado por magos, do que fora no outro dia.
Seph bebericou o vinho com cautela, determinado a manter 
a mente alerta. O vinho tinha o aroma distinto de um 
Gewurz. Seph sorriu por dentro. Genevieve sempre assumira 
a tpica atitude francesa em relao a vinhos, considerando-
os menos perigosos do que a gua. Assim, ele pudera 
desfrutar dos vinhos tanto  mesa dela quanto na Europa.
        Fale um pouco sobre voc, Joseph  sugeriu Aaron.
Todos se inclinaram para a frente.
A pergunta que ele detestava.
        Humm... Nasci em Toronto, mas me mudei vrias vezes. 
Fui criado por minha me adotiva. Uma feiticeira.
        Deve ter sido divertido  disse Bruce, fazendo uma 
careta.  Criado por uma feiticeira. Ela fazia voc caar 
cogumelos na mata, triturar lngua de r e coisas assim?
Seph pestanejou.
        Bem, no. No posso dizer que j tenha feito isso.  Seph 
pensou em dizer: "A gente costumava ir aos mercados em 
Chinatown e comprar razes e vegetais exticos." Mas no o 
fez.  De qualquer maneira, no tive muito treinamento em 
magia. Espero que vocs possam me dizer como  o 
programa aqui.
        Temos uma biblioteca tima, reservada para o uso dos ex-
alunos  disse Aaron.  Milhares de volumes sobre 
feitios, encantamentos, feitios de ataque e proteo, alm 
de Livros Weir de famlias famosas.
        Sei. O estudo  mais... independente?  indagou Seph.
        Mais ou menos  disse Bruce.  O dr. Leicester tem um 
sistema mgico de atalho que permite a todos ns 
compartilharmos de conhecimento e poder. Com esse 
sistema, voc vai estar por dentro de tudo em pouco tempo.
        Atalho?
Leicester mencionou algo sobre isso em seu encontro 
anterior. Seph examinou a mesa: parecia haver muitos ps 
irrequietos e cadeiras se remexendo por ali.
        Alm disso, executamos muitas tarefas fora do campus  
disse Warren.  Operaes especiais.
        Tipo o qu?
        Bom, voc sabe.  Warren pareceu desconfortvel.  
Acho que o dr. Leicester falou pra voc do sonho dele de 
unir as Casas dos Magos. A gente trabalha nisso.
         bem legal sair por conta prpria  disse Bruce.  A 
gente viaja por todo o mundo. Tailndia. Londres. Brasil.
Seph sentiu que ainda no estava entendendo. Era como 
quando as pessoas falam de sexo, dando voltas no assunto de 
um modo que, no fim, at o mais bsico continua misterioso.
        Quem paga por tudo isso?  perguntou ele.
        O dr. Leicester tem patrocinadores  disse Aaron.  Vai 
por mim, dinheiro no  problema. A gente no paga um 
centavo de mensalidade, nem pelas roupas, quarto e 
refeies, ou qualquer outra coisa.  Ele pegou um camaro. 
 Como pode ver, tudo  da melhor qualidade.
        Quanto tempo dura o programa?  indagou Seph, 
passando o prato para o garom.  Por quanto tempo a 
maioria das pessoas fica?
Todos olharam para ele como se aquela fosse uma pergunta 
muito difcil.
Ele tentou de novo.
        Digo, quando eu me formar, daqui a dois anos, vou saber 
tudo o que preciso saber?
Aaron foi o primeiro a se recuperar.
        Sim  disse ele, sorrindo.  Daqui a dois anos, voc vai 
saber tudo o que precisa saber.
Nas duas semanas seguintes, Seph se acomodou ao ritmo de 
vida no Porto Seguro. Por mais diferentes que fossem as 
escolas, elas acabavam se assemelhando. O estudo no era 
to rigoroso quanto temera. Na verdade, era um tanto 
quanto superficial. Parecia que a administrao no Porto 
Seguro no estava preocupada com os alunos Anaweirs que 
ocupavam a maioria das carteiras.
Era uma escola pequena; como Seph e Trevor estavam no 
segundo ano, tinham vrias aulas juntos: lgebra II e 
trigonometria, fsica, cincias sociais e literatura inglesa. Mas 
a amabilidade calorosa de Trevor havia se transformado em 
desconfiana nervosa e mal-humorada.
Trevor devia ter contado aos outros o que acontecera na 
Casa dos Ex-Alunos. Harrison, Troy e James ainda 
conversavam com Seph animadamente, mas era o tipo de 
conversa fiada geralmente reservada aos delatores e aos 
primos ricos e insuportveis que so vistos apenas uma vez 
por ano. Seph sabia que poderia reconquist-los se tentasse, 
mas conteve seus poderes de persuaso. Amizade no 
significava muito se fosse forada. Uma ou duas vezes por 
semana, ele jantava na Casa dos Ex-Alunos. Ele se 
perguntava o que eles diziam quando no estava l.
A princpio, os professores pareciam ser um grupo bastante 
diverso, desde o simptico Aaron Hanlon, passando pelo 
ranzinza Elliott Richardson e o musculoso professor de 
educao fsica Kenyon King, at o pequeno Ashton Rice, 
que vinha de famlia tradicional, de sangue azul.
Eram diferentes, mas havia tambm algo idntico em todos, 
alguma experincia em comum.
Como os homens de Harvard. Todos carregam a marca do 
Porto Seguro.
Certa noite, Seph recebeu uma mensagem durante o jantar, 
em papel de carta com o timbre do veleiro.
POR FAVOR, ESTEJA NA CASA DOS EX-ALUNOS S 21 
H.
G. LEICESTER.
Nove horas da noite era uma hora estranha para uma 
reunio, mas talvez aquilo significasse que o treinamento 
mgico estava prestes a comear. Seph sentiu uma excitao 
crescente, misturada com apreenso. At ento, ele no 
gostara muito nem de Leicester nem dos ex-alunos. Mas 
obteria deles aquilo de que precisava e seguiria em frente.
Aquela noite, o nevoeiro se ergueu vindo do Atlntico e 
condensou-se em chuva  o chuvisco frio e impiedoso que 
Genevieve chamava de larmes d'ange. Lgrimas de anjo. 
Seph vestiu um suter grosso que ela tricotara para ele, calas 
jeans e uma jaqueta de couro. Protegido, caminhou entre 
folhas e rvores molhadas at o ponto de encontro.
Ao chegar  Casa dos Ex-Alunos, ficou surpreso ao encontrar 
o salo vazio, a no ser por Warren Barber, que se apoiava 
no console da lareira, fumando e lanando as cinzas no fogo.
Warren jogou o cigarro nas chamas e apanhou uma pilha de 
roupas de uma cadeira prxima.
 Os outros vo nos encontrar na capela  disse ele.  
Vamos.
Seph hesitou.
        Vamos nos reunir l fora?
Ser que aquilo era algum tipo de trote de calouro?
        Brilhante, no ?
Seph no teve opo a no ser segui-lo. Warren conduziu-o 
por dentro da floresta seguindo uma trilha de lascas de 
madeira com pontes cruzando vrias vezes um pequeno 
riacho. A nvoa cobria o cho at a altura da cintura em 
certos pontos, aoitada pela chuva. Seph enxugou a gua do 
rosto, olhando de um lado para o outro. Temia uma 
emboscada.
Cerca de um quilmetro e meio floresta adentro, diminua a 
quantidade de rvores, formando uma clareira e revelando 
um rstico anfiteatro. Fileiras de bancos de pedra voltavam-
se para uma plataforma elevada com um altar ao centro, 
cercado por pedras e iluminado por tochas, a luz ofuscada 
pela nvoa.
Aquilo lembrava a Seph lugares que havia visto na Bretanha, 
templos celtas de magia dos druidas.
        O que  tudo isso?  murmurou ele, estremecendo.
Warren guiou-o pelo corredor central em direo  
plataforma. Ao chegar l, jogou para Seph uma trouxa de 
roupas.
        Vista isso  disse ele.
Era uma tnica de l tosca com capuz, alvejada. Seph vestiu-
a sobre as roupas midas. Warren cobriu-se com outra 
tnica, de tom cinza. A escurido sob as rvores agitou-se 
num redemoinho e deslocou-se, e outras pessoas em tnicas 
cinzentas apareceram, subindo silenciosamente na 
plataforma, atrs do altar.
        Voc.  Warren puxou Seph at um ponto diante dos 
assentos, de frente para a plataforma.  Fique aqui  
ordenou, depois se juntou aos outros no tablado.
E ento, finalmente, uma figura trajando negro, alta e magra, 
se materializou na plataforma. O rosto estava oculto nas 
sombras, iluminado por trs pelas tochas, mas Seph no 
tinha dvida de que aquele era Gregory Leicester.
Leicester segurava um cajado, uma alta coluna feita de 
bronze e ouro dispostos juntos em camadas, e com um 
cristal na ponta. Embutido no cristal havia algo escuro, como 
uma sombra ou um defeito. Um amuleto. Os olhos de Seph 
foram atrados por ele; teve de se forar a desviar o olhar.
Era, talvez, um espetculo  algum tipo de cerimnia de 
iniciao para estabelecer a solidariedade. Como juntar-se a 
um clube. Poderia ser divertido, com toda a pompa e as 
vestimentas, mas Leicester no parecia muito um 
apresentador. Seph no gostou de ser isolado, postado diante 
do altar vestido como uma vtima de sacrifcio. Sentiu a pele 
formigar e a boca ficar seca.
        Joseph McCauley veio at ns pedindo para se juntar  
nossa ordem de magos  entoou Leicester, a voz emergindo 
do capuz negro.   essa, de fato, a sua inteno, Joseph?
Seph pigarreou, sentindo uma intensa presso para 
responder.
        Eu... ahn... acho que sim  respondeu ele.
Aparentemente a morna resposta no desencorajou
Leicester, que continuou:
        Ns concordamos em considerar o seu pedido. O 
candidato compreende o que  exigido dele?
Outra vez, a sensao de presso concentrada, a presso para 
dizer sim. Instintivamente, Seph resistiu.
        No, na verdade, no  disse ele.  Pode me dizer?
Leicester fez uma pausa, como se aquela resposta fosse 
inesperada, e respondeu com certo embarao:
        Voc tem de conectar a sua Pedra Weir  minha.
Em reflexo, Seph pressionou os dedos contra a pele do peito, 
atravs das dobras da tnica. Seus olhos se fixaram numa 
tigela rasa de pedra sobre o altar. E na faca que se encontrava 
ao lado dela. Ele passou a lngua pelos lbios e engoliu em 
seco.
        O qu?
Leicester jogou o capuz para trs.
        Atravs da enunciao de feitios e da doao do sangue.
        Isso  mesmo necessrio?  indagou Seph, lutando para 
manter uma expresso de polida inquirio.  Eu s quero 
ser treinado em magia.
Leicester arregaou as mangas da tnica como um cirurgio 
se preparando para uma operao.
        A magia se manifesta cedo  replicou ele.  A maioria 
comea o treinamento bem jovem. Voc est muito atrasado 
em relao a seus colegas. Este sistema  um atalho. Permite 
que os seus poderes sejam usados com segurana sem um 
extenso treinamento de recuperao. No temos tempo para 
isso.
Seph teve a sensao de que Leicester estava escolhendo as 
palavras com muito cuidado. Como se o que dizia fosse 
tecnicamente verdade, mas intencionalmente enganador. 
Seph sentiu uma presso mais sutil, como uma corrente 
subterrnea de magia em ao. Seus msculos relaxaram, e a 
cabea girou com pensamentos inarticulados.
Ele esboou um dbil protesto.
        Quer dizer que se eu no passar por essa... hum... 
cerimnia, o senhor no vai me treinar em magia?
        Quero dizer que leva anos para se desenvolver habilidade 
suficiente para praticar a magia com segurana. Quero dizer 
que voc est comeando muito tarde. Quero dizer que este 
 o nosso jeito de fazer as coisas no Porto Seguro.  
Leicester apanhou a faca e inclinou a cabea para algum 
atrs de Seph.  Tragam o suplicante.
Bruce Hays e Warren Barber se materializaram atrs de Seph 
e agarraram-lhe os cotovelos. Eles o arrastaram para a frente, 
quase erguendo-o degraus acima e jogando-o de joelhos 
diante do altar. Arregaaram-lhe a manga e pressionaram-lhe 
o brao contra a pedra fria e spera, expondo a parte interna 
do pulso.
Era como um sonho. Quase como assistir a algo que 
acontecesse com outra pessoa. Ele mal sentiu a lmina 
quando esta lhe penetrou na carne e seu sangue se derramou 
na tigela de pedra. Devia ter ficado horrorizado quando 
Leicester pronunciou algumas palavras sobre a tigela em 
alguma lngua mgica, mergulhou o topo cristalino do cajado 
no sangue e ento bebeu da tigela.
"Isso est errado", pensou Seph. Mas se sentia confuso e 
letrgico, fraco e passivo, levado pela cerimnia como uma 
folha pela correnteza.
        Levante-se  disse Leicester a Seph  e repita as minhas 
palavras.
Barber e Hays ergueram Seph e seguraram-no em p. As 
mos dele queimavam atravs do tecido tosco da tnica 
enquanto um pensamento rasgava-lhe a mente, 
incendiando-a.
Aquilo era claramente algum tipo de ritual pago. O que 
exatamente queriam que ele entregasse nas mos de 
Leicester?
Ele pressionou o brao que sangrava contra o corpo. O topo 
cristalino do cajado faiscava, projetando uma luz esverdeada 
sobre os participantes. Algo se agitou no canto da viso de 
Seph, como um retalho de tecido preto. Isso aconteceu de 
novo, e outra vez mais, bloqueando a luz das tochas. 
Morcegos. Nuvens de morcegos, lanando-se sobre as 
cabeas dos ex-alunos, em um silencioso bombardeio. 
Muitos dos celebrantes cobriram as cabeas com os braos.
Um sinal.
Seph olhou para o lado oposto do altar, para onde um dos ex-
alunos estava em p, assistindo. Peter Conroy. O rosto dele 
era uma mscara de consternao. Quando viu Seph 
olhando-o, os olhos dele se arregalaram atrs dos culos. Ele 
sacudiu a cabea, bem de leve.
Um aviso.
Leicester falou sua frase mgica e fez uma pausa, esperando 
que Seph a repetisse, como um voto numa cerimnia de 
casamento satnico. As figuras encapuzadas se inclinaram 
para a frente em expectativa.
        No  disse Seph.  No posso.
        Voc quer que eu repita, Joseph?  indagou Leicester 
com suavidade, encorajador.
        No. Quis dizer que mudei de idia.
Por um momento, Leicester pareceu atnito demais para 
falar.
        O qu?
As palavras pareceram ecoar na nvoa.
        Eu me recuso.
Um rumor de surpresa se espalhou pelos ex-alunos, 
rapidamente contido. Peter fechou os olhos e suspirou, 
como se estivesse aliviado.
A voz de Leicester era calma e confortadora.
        O que est incomodando voc, Joseph? A parte dolorosa j 
foi. Quando tivermos terminado, vamos voltar para a Casa 
dos Ex-Alunos, enfaixar esse arranho e preparar a sua 
transferncia para l. O seu treinamento vai comear 
imediatamente.
        O que est me incomodando?
Seph estremeceu. A chuva caa mais forte agora, colando-lhe 
o cabelo na testa e encharcando-o quase que por completo. 
De algum modo, aquilo pareceu clarear-lhe a mente.
O brao ainda escorria sangue, e Seph pressionou-o com 
fora contra o corpo.
        O senhor est bebendo o meu sangue e me pedindo pra 
fazer algum tipo de juramento que eu nem entendo. No 
posso me envolver num ritual desses. Parece coisa tirada de 
filme de terror. Para ser sincero, isso tudo me d calafrios.
Leicester emitiu um rudo de impacincia.
        Voc disse que queria aprender magia.
Seph olhou para o crculo de magos encapuzados ao redor, 
torcendo para que algum falasse em sua defesa.
        Eu quero.
        Isso no vai acontecer, a menos que o ritual se complete.
Seph tomou flego.
        Ento no vai acontecer.
        H duas semanas, perguntei a voc se estava disposto a 
assumir o compromisso total. Voc me garantiu que estava.
Seph se desvencilhou de Hays e Barber.
        Acho que o senhor precisa me dizer exatamente com o 
que eu estou me comprometendo.
Um msculo se retorceu no maxilar do diretor. A voz de 
Leicester se mantinha suave, mas havia um trao spero 
nela.
        Se voc recusar, deveria se perguntar sobre as 
conseqncias.
Aquilo soava como uma ameaa.
        Que conseqncias?
        H uma razo pela qual o treinamento dos magos comea 
cedo  disse Leicester.  Quando magos destreinados 
alcanam a adolescncia, eles... se autodestroem.
        Como assim?
        Talvez seja uma questo hormonal  disse Leicester com 
delicadeza.  Talvez uma questo de desenvolvimento. 
Comea com descargas descontroladas de poder. Depois a 
magia se volta para o interior e destri a mente, resultando 
em depresso e alucinaes. No  raro que magos 
destreinados enlouqueam.
Seph pensou no depsito. A destruio da torre do sino. 
Parecia que ele havia tido espasmos descontrolados de poder 
por toda a vida. E esses espasmos pareciam estar ficando 
piores e mais freqentes. Ele se examinou em busca dos 
sintomas. Desde o fogo no depsito, andava deprimido. 
Achava difcil se concentrar. Mas ser que isso no era 
normal para uma pessoa com sangue inocente nas mos?
        Joseph  disse Leicester, com as maneiras de um homem 
que se esforava para ser razovel , todos os outros aqui 
concordaram.
Seph olhou para os rostos no crculo em volta. Hays e Barber 
exibiam sorrisos afetados, os olhos apertados contra a chuva. 
Alguns dos celebrantes encararam-no, esticos. Outros, 
inclusive Peter, desviaram o olhar para os prprios ps ou 
para um ponto distante. No era muito reconfortante.
        Sinto muito  disse Seph.  Simplesmente no posso.
        Muito bem  disse Leicester com veneno.  Ento sofra 
as conseqncias.
O mago deu um passo em direo a Seph, estendendo o 
cajado. Seph recuou, mas se chocou contra algum, Hays ou 
Barber, que o segurou no lugar. Leicester pressionou o topo 
manchado de sangue do cajado contra o peito de Seph, sobre 
o corao palpitante. O poder pulsou atravs dele como 
algum tipo de mquina mgica de ressuscitao 
cardiopulmonar.
 No vai levar muito tempo at voc vir implorando por 
outra chance.  Leicester se voltou para o resto dos ex-
alunos.  Venham. Estamos perdendo tempo aqui.
Os ex-alunos desapareceram entre as rvores, deixando a 
Seph o problema de encontrar sozinho o caminho de volta 
na floresta molhada.

Captulo Seis
Conseqncias

Seph acordou em completas trevas, congelado e encharcado. 
Sentou-se, as palmas escorregando na madeira molhada e 
lascada. O luar entrava atravs de duas janelas bem altas na 
parede. Estava at o quadril em gua fria, e mais gua jorrava 
atravs de um grande buraco quadrado no cho. Ainda 
desorientado, levantou-se com dificuldade.
Estava na casa dos barcos. Reconheceu-a da visita com 
Trevor durante o passeio pelo campus. Conseguiu distinguir 
as vagas formas do equipamento pendurado na parede e ver 
pequenos objetos boiando na superfcie escura da gua.
Ele havia voltado para o quarto aps a cerimnia abortada na 
floresta. Como havia terminado ali? E de onde vinha a 
inundao?
A gua batia contra as paredes, mais alta do que antes, quase 
nos joelhos de Seph. Sua mente processava as coisas devagar. 
A mar estava subindo? Com certeza haviam construdo 
uma casa de barcos que agentasse a mar. As pessoas que 
entendiam do mar sabiam dessas coisas.
As calas caqui molhadas colavam-se s pernas de um jeito 
desagradvel. A gua lhe alcanara as coxas. Com 
dificuldade, rumou para a porta e puxou a maaneta. A porta 
no se mexeu. Puxou de novo, apoiando um p contra o 
batente da porta. Emperrada. Ou trancada. Sentiu um tremor 
de pnico. A gua subia, e ele no conseguia sair.
No Jazia sentido. Com certeza aquele velho prdio no era 
fechado hermeticamente. Devia vazar como uma peneira. 
Teria ele sido drogado, enfeitiado, carregado ali pelos ex-
alunos sob ordens de Leicester? Por qu?
Tentou enxergar na escurido, os dentes batendo de medo e 
frio,  procura de uma sada.
Ele poderia nadar para fora pelo poo dos barcos, embora 
no gostasse da idia de mergulhar na gua negra. Agora a 
profundidade era to grande que somente uma perturbao 
na superfcie lhe permitia discernir onde a abertura 
comeava e o cho terminava. Ele avanou com cautela, 
tateando em busca da beira do cho com ps que pareciam 
desajeitados e dormentes com o frio. Escorregando alm da 
beirada, afundou na gua gelada, em p. Projetou-se para a 
superfcie, impulsionado pela corrente, e afastou o cabelo 
molhado do rosto. Curvando-se, tentou mergulhar fundo, 
mas foi jogado de volta  tona todas s vezes, sedento por ar. 
No havia escapatria por ali.
Tossindo e cuspindo gua salgada, ele achou a beirada do 
piso novamente. Ao se levantar, a gua atingia-lhe a 
clavcula. Precisava manter-se mais elevado. Tropeou numa 
mesa de limpar peixes, impulsionou-se para o alto e 
conseguiu subir em cima dela. Agora estava imerso apenas 
at a cintura, mas bateu a cabea no teto, e a gua continuava 
subindo.
 Socorro!  gritou ele, em berros fracos e ineficientes.  
Estou trancado na casa dos barcos! Socorro! Estou me 
afogando!
Em p na mesa, s conseguia alcanar uma das pequenas 
janelas ao se esticar bastante para um dos lados. Agarrou uma 
grande rede de pesca que estava pendurada na parede e 
bateu-a contra o vidro. A rede era muito leve e, no ngulo 
em que estava, Seph no conseguia aplicar muita fora ao 
golpe. Finalmente, os ps deixaram de tocar a mesa. Ele se 
debateu em desespero por um instante e afundou de novo.
Subiu  tona, cuspindo e jogando gua para todos os lados. 
Ento arquejou quando algo passou por ele, perturbando a 
superfcie da gua negra como uma grande serpente, a pele 
spera arranhando-o na passagem.
Seph inspirou fundo e ficou absolutamente imvel, salvo 
pelo bater violento de seu corao. Por um momento, a gua 
ficou calma. Ento um grosso tentculo musculoso tateou-
lhe a perna, deslizou para cima e enroscou-se em torno da 
cintura de Seph.
Ele empurrou a criatura, bateu nela, tentou se libertar dela 
com ambas as mos, engolindo uma boa quantidade de gua 
na tentativa. Seus punhos no tinham nenhum efeito sobre 
aquela pele que lembrava couro. Chutando, o p encontrou 
algo suave e flexvel, e o aperto do monstro relaxou um 
pouco. Lanando-se para cima, Seph envolveu com os 
braos uma das toscas vigas de madeira que sustentavam o 
telhado.
Agarrou-se ali, lutando para recuperar o flego, mas no 
conseguiu se erguer completamente para fora da gua. 
Ondulaes se espalharam a partir do canto oposto quando a 
criatura veio  tona, os olhos plidos e indiferentes e os 
dentes como lminas expostos sob a luz que vinha da janela. 
Uma lula? Um polvo? Algum monstro desconhecido que se 
mantivera oculto nas profundezas do oceano at agora?
Mais uma vez, um tentculo avanou, deslizando sob a gua 
como uma grande cobra. Explorou-lhe a coxa, depois 
enroscou-se ao redor dos quadris.
Lenta e inexoravelmente, a criatura o arrastou. Em de-
sespero, ele se agarrou com mais fora  viga do teto, 
voltando o rosto para cima de modo que pudesse inspirar 
algum ar. Ele no tentava mais expulsar seu atacante, mas se 
agarrou a ele com toda a fora. Sentiu as articulaes 
estalarem enquanto uma fora impiedosa ameaava faz-lo 
em pedaos.
De repente, o monstro projetou-se para a frente numa 
exploso de gua e cerrou os dentes na perna direita de Seph, 
que gritou e tentou libert-la, soltando-se da viga. Ele ainda 
conseguiu tomar flego uma ltima vez, inspirando uma 
mistura de ar e gua do mar, antes de ser rebocado para baixo 
da gua e para dentro de um negro desespero.
A luz acordou Seph uma segunda vez, uma luz dolorosa que 
o fez rolar de bruos para se livrar dela. Estava na cama. Algo 
terrvel espreitava em sua memria, um monstro mantido 
acorrentado no quarto dos fundos de sua mente.
Ele engoliu em seco; a garganta estava to seca que lhe 
trouxe lgrimas aos olhos. Sentia-se como se tivesse levado 
uma surra. Cada msculo do corpo doa. Ps-se de joelhos 
com dificuldade, e ento a lembrana completa da noite 
anterior retornou-lhe. Vomitou no cho ao lado da cama. A 
garganta estava pior do que nunca.
Seph deitou de costas e fitou o teto. Gradualmente, deu-se 
conta de que estava na sua cama, de volta  seu quarto no 
dormitrio. Estava ensopado de suor, no de gua do mar, e 
estava vivo. Correu a mo hesitantemente pela perna direita, 
depois a esquerda, e no achou sinal algum de ferimentos. 
Examinou duas vezes, para ter certeza. Lgrimas quentes de 
alvio encheram-lhe os olhos e caram no travesseiro.
O monstro o havia despedaado. Seph havia olhado sem 
esperanas para cima, para a superfcie do oceano, enquanto 
seu prprio sangue turvava a gua; ele tinha sentido gosto de 
sangue na boca, e as grandes mandbulas se fechando em sua 
carne e rasgando-a em pedaos. Sua luta havia arrefecido  
medida que ele sucumbia  falta de oxignio e  perda de 
sangue.
Ainda assim, levara um longo tempo para morrer.
Ele se sentou, ergueu os joelhos em posio fetal e apoiou o 
queixo nas mos, tremendo. Havia sido um sonho, ento? Se 
era esse o caso, fora diferente de qualquer sonho que j 
tivera. Fora o mais espetacular de todos os sonhos, colorido, 
tridimensional e com surround.
A roupa de cama estava completamente arruinada, evidncia 
da luta que durara a maior parte da noite. O teto e as paredes 
estavam cobertos de pontos chamuscados, como se ele 
houvesse lanado chamas. Por sorte elas no haviam 
incendiado nada, ou ele teria morrido queimado.
Saiu da cama, desviando-se da sujeira no cho, foi at o 
banheiro e enxaguou a boca. O rosto no espelho encarava-o 
com um ar plido e abatido. Com cuidado, tocou com os 
dedos os vasos sangneos rompidos em torno dos olhos. 
Marcas em forma de meia-lua cruzavam-lhe as palmas: as 
impresses das unhas.
Apanhando uma toalha, limpou o cho o melhor que pde. 
Levou-a para o corredor e jogou-a no cesto da lavanderia, 
depois pegou toalhas limpas do carrinho de roupas de cama, 
movendo-se automaticamente. Deitou-se de novo na cama e 
virou o rosto para a parede, com medo de dormir, cansado e 
deprimido demais para fazer qualquer outra coisa.
As palavras de Leicester lhe voltaram.
"No  raro que magos destreinados enlouqueam."


A manh seguinte era segunda-feira. Seph no tomou o caf 
da manh nem assistiu  primeira aula. Por volta das dez da 
manh, quando o dr. Leicester voltou ao seu escritrio, Seph 
estava esperando do lado de fora, sentado no cho, os braos 
ao redor dos joelhos.
 Joseph  disse o diretor, olhando-o de cima.  Voc 
no deveria estar na sala de aula?
        Preciso conversar com o senhor  disse Seph, quase num 
sussurro, porque falar era doloroso.
        Por que no volta esta tarde, depois das aulas? Voc no 
quer comear com o p esquerdo.
        Eu j comecei com o p esquerdo. Preciso falar com o 
senhor.
         claro. Entre.
Ele se afastou para o lado, para que Seph entrasse no 
escritrio. Seph moveu-se com cuidado, pois cada parte dele 
doa: corpo e alma.
De sua parte, o diretor parecia quase contente.
        Sente-se  disse Leicester, fechando a porta e apontando 
para a mesa junto  janela.
        Vou ficar em p. Isso no vai demorar.  Seph organizou 
seus pensamentos.  Vim dizer que isto no est 
funcionando. A minha situao, digo. J que no posso ser 
treinado em magia aqui, vou contatar meu tutor e arranjar 
minha transferncia.
Leicester ergueu as mos para interromper o discurso.
        Joseph, sente-se.
Como Seph no respondesse, ele insistiu:
        Falei para voc se sentar.
Seph sentou-se. Leicester tomou o assento em frente a ele, 
juntou as mos apontando-as para cima e apoiou o queixo na 
ponta dos dedos.
        Eu tinha esperanas de que voc tivesse vindo me dizer 
que mudou de idia.
        E mudei. Cheguei  concluso de que vir para c foi um 
erro.
        Tem certeza disso? Onde mais vai conseguir a ajuda de 
que precisa?
        Vou encontrar algum que me ensine.
        Mesmo? Quem? Voc mesmo me disse que vem 
procurando por um professor h dois anos. Creio que seu 
tempo est se esgotando.
        Eu me virei bem at aqui.
        Verdade?  O diretor estudou-o.  Est tendo sintomas, 
no ?
Seph olhou-o nos olhos.
        No.
Ele vinha mentindo a vida toda e era muito bom nisso.
Leicester no ficou impressionado.
        De que tipo? Alucinaes? Vozes? Sonhos? Parania?
        Nada.
        Se estiver tendo alucinaes,  por sua prpria culpa. 
Precisa nos deixar ajudar.  Leicester se recostou e cruzou 
os braos.  Coopere conosco, Joseph.  s o que pedimos 
 acrescentou, sorrindo.
Seph lembrou-se da cena na capela: a luz tremeluzente das 
tochas, o altar, o sangue dele se derramando na tigela de 
pedra, o cajado se iluminando.
O aviso no rosto de Peter.
Seph inclinou-se para a frente.
        Se quer me ajudar, ento me ensine. Mas no vou me 
juntar ao seu culto, clube ou seja l o que for.
O sorriso congelou-se no rosto de Leicester antes de 
desaparecer.
        Deixe-me ser claro. Nossos inimigos esto se reunindo. 
Minha Casa, a Rosa Branca,  a atual detentora do Tesouro, 
ou seja, a coleo de artefatos mgicos que  transmitida h 
sculos por meio do sistema de torneios. Na semana passada, 
agentes suspeitos de trabalharem para o Drago lanaram um 
ataque contra um depsito no Sudoeste da Inglaterra. Eles 
levaram armas de        poder inimaginvel. H quem acredite que, 
na verdade,        os ladres trabalham para a Rosa Vermelha. H 
rumores sobre uma ao de retaliao. Como pode ver, h 
muitos interesses em jogo. A menor fagulha poderia 
desencadear uma conflagrao como o mundo jamais 
conheceu. Creio que minha iniciativa pode ser a ltima 
grande esperana de paz. Entende por que no posso arriscar 
treinar algum to poderoso quanto voc, cuja lealdade  
duvidosa?
Fazia sentido. Fazia total sentido. Mas Seph vivera por conta 
prpria por tempo o bastante para aprender a confiar em 
seus instintos. E seus instintos diziam-lhe que Leicester, 
Barber e Hays no eram pacificadores. Talvez ele estivesse 
louco, mas no tinha mais nada em que acreditar.
Ele deu seu melhor sorriso.
 Dr. Leicester. Eu desejo ao senhor e aos ex-alunos toda a 
sorte na preveno de uma Guerra Mundial dos Magos.  Se 
 que  isso o que vocs esto fazendo aqui.  Mas eu, na 
verdade, sou... sabe como ... apoltico. Tenho um monte de 
questes pessoais que preciso resolver. No posso me juntar 
a um movimento. Vou achar algum para me treinar em 
outro lugar. Quem sabe quando for mais velho eu me sinta 
diferente.
Era um discurso bonito.
Seph se levantou.
        Vou telefonar para Sloane em Londres. Eles vo marcar 
um vo pra mim, mas vou precisar de transporte at o 
aeroporto. Tentei meu carto de chamadas no telefone no 
meu dormitrio, mas no consegui linha. Preciso telefonar 
esta manh, durante o horrio comercial.
        Receio que isso no seja possvel  disse Gregory 
Leicester.
Seph tinha certeza de que ouvira mal.
        O senhor no vai me deixar dar um telefonema?
Leicester se levantou e apoiou os quadris contra a mesa.
         hora de crescer, Joseph, e entender alguns fatos. O seu 
tutor internou voc. Voc  menor de idade, e ele assinou os 
papis. Sabe o que isso significa?
        Internou-me? Como se eu fosse mentalmente incom-
petente ou coisa assim?
O diretor suspirou.
        Parece que o sr. Houghton no tem sido inteiramente 
franco com voc. Esta , na verdade, uma escola para 
adolescentes rebeldes e emocionalmente perturbados. Eu 
sou psiclogo.
        O qu?  Seph pensou no panfleto lustroso com o veleiro 
na capa.  Houghton nunca disse nada sobre tratamento 
psiquitrico.
        O fato  que o sr. Houghton no quer mais nenhuma 
catstrofe. Ele s quer saber que voc est em recuperao.
O diretor voltou para a mesa e se sentou, depositando uma 
pasta sobre a madeira polida diante de si. Tirando uma caneta 
do bolso, puxou da pasta uma folha de papel em branco e 
rabiscou algumas notas.
        No acredito no senhor  disse Seph. Leicester con-
tinuou rabiscando.  Eu no bebo nem uso drogas. Nin-
gum nunca disse que sou um perigo para mim mesmo ou 
para outras pessoas.
Leicester baixou os olhos para a pasta.
        No  verdade que um estudante na Sua registrou uma 
queixa de agresso contra voc?
Seph sentiu o suor correr-lhe entre as espduas. Secou as 
palmas midas nos jeans.
        Foi um mal-entendido. Eles retiraram a queixa.
O diretor bateu a caneta nos papis  sua frente.
        Tambm houve um... incidente na Filadlfia.
Seph encarou-o, sem fala. Como Leicester podia saber do 
que acontecera na Filadlfia?
A menos que Denis Houghton lhe houvesse contado.
Aps a morte de Genevieve, Seph estivera determinado a 
descobrir mais sobre seus pais. Como Sloane havia se 
mostrado evasivo, Seph comeara a investigar pela internet, 
usando as redes de crianas adotadas, os websites e grupos de 
e-mail de genealogia, e arquivos eletrnicos de dados vitais. 
Acabara encontrando sua certido de nascimento, revelando 
que ele havia nascido em Toronto, filho de Helen Jacoby e 
Jared McCauley. Quando tentou desencavar mais dados, no 
encontrou nenhuma certido de nascimento deles, nenhum 
av ou av, tia ou tio, nada listado nas listas telefnicas da 
Califrnia ou de Toronto, nenhuma notcia nos jornais sobre 
o incndio, nenhum registro de propriedade, nada.
Era tudo apenas uma bela fachada sem nenhuma verdade por 
trs.
Ele invadira o escritrio da administrao da escola em que 
estava matriculado na poca, na Filadlfia. Tivera esperanas 
de encontrar algum registro dos pais dele ou uma trilha de 
dinheiro que pudesse levar a algumas respostas. Tudo o que 
encontrou no arquivo foram cpias de pagamentos de 
mensalidades e recibos de despesas domsticas da firma de 
Sloane. Frustrado, Seph quebrou tudo o que havia no 
escritrio. Por isso fora expulso uma vez mais.
        Depois houve o incndio no depsito,  claro.  
Leicester abriu a pasta de novo e examinou um documento 
que estava l dentro.  Voc tem um registro policial 
considervel. Pena o que aconteceu com aquela moa.
Um calor incmodo se acumulou nas mos e nos braos de 
Seph, sintomas que freqentemente prenunciavam uma 
descarga. Ele lutou para controlar a raiva.
        O Houghton no sabe nada sobre... sobre magia. Por que 
ele iria me culpar?
        O sr. Houghton no acha que voc seja um mago. O sr. 
Houghton acha que voc  um jovem desordeiro e violento 
que gosta de incendiar e explodir coisas.
Seph lembrou-se do ltimo encontro em Toronto, o brao 
de Houghton sobre os ombros dele. Mas quem sabia o que 
Houghton poderia fazer? A firma de Sloane vinha 
desperdiando o precioso tempo de um dos scios com os 
problemas de Seph McCauley.
        Se o Houghton me internou, quero ouvir isso dele  
disse Seph, enfim.
Sentia o rosto quente, os braos pesados, carregados de 
poder. E, naquele momento, no estava se importando em 
cont-lo.
Leicester deu de ombros.
        Escreva para ele, se quiser. Telefonemas no sero 
permitidos na sua atual... condio instvel.
        Deixe-me mandar um e-mail pra ele, ento.
        Joseph, voc precisa entender. No posso me arriscar a 
chamar a ateno dos nossos inimigos para o Porto Seguro. 
E, dado o seu histrico, no  seguro ensinar magia a voc 
sem algum tipo de controle. Seria como colocar uma arma 
nas mos de um luntico.
Como que para sublinhar as palavras do diretor, a mquina 
de fax explodiu, lanando fragmentos de metal e nuvens de 
tinta que voaram e rolaram na direo deles.
Leicester pareceu um pouco abalado.
        Joseph...
Uma fileira de vasos chineses estava alinhada em uma 
estante sobre a escrivaninha de Leicester. Eles comearam a 
vibrar at que, um por um, implodiram como alvos em uma 
galeria de tiro.
O diretor falou em seu tom de psiquiatra:
        Joseph, voc est fora de controle.
As luminrias piscaram e os suportes explodiram. A janela da 
frente se curvou para fora e espatifou-se, cacos de vidro 
brilhando  luz do sol ao cair no porto.
        Vou procurar as Rosas  disse Seph.  Eles vo me dar o 
treinamento de que preciso.
Leicester estendeu a mo e pronunciou um feitio. Algo se 
chocou contra Seph, como um mssil de uma arma de ar 
comprimido, e ele caiu de costas no cho, incapaz de se 
mover.
Leicester falou l de cima:
        Chamamos isso de feitio de submisso.
Seph no disse nada.
        Dada a atual situao poltica, no posso me arriscar a que 
voc alerte as Rosas sobre o que est acontecendo aqui. Eles 
nos matariam a todos.  Leicester fez uma pausa, mas Seph 
permaneceu calado.  Eu o deixarei levantar-se quando 
houver se controlado.
Seph ficou deitado por um momento, sem flego, e ento 
disse:
        Est bem.
Leicester murmurou algumas palavras em latim, e Seph 
conseguiu sentar-se e levantar-se.
        Quer dizer que vai me manter prisioneiro aqui?
Leicester girou o anel da mo direita.
        Escreva uma carta, Joseph, se precisa mesmo, e ns vamos 
envi-la. E considere cuidadosamente a escolha diante de 
voc. Se no aprender a controlar o seu poder, ele vai 
destru-lo. No vou perder meu tempo com algum que no 
est disposto a se comprometer com a nossa causa e se 
submeter  minha liderana.  uma pena, mas  assim que as 
coisas so. At que voc complete a cerimnia, nada 
acontecer.
        H muitos advogados no mundo. Se Denis Houghton me 
internou sem uma avaliao apropriada, vou processar vocs 
dois, seus desgraados!
Seph saiu em passos decididos, batendo a porta e descendo 
ruidosamente as escadas.
Quando teve certeza de que o rapaz havia sado, Gregory 
Leicester pegou o telefone e apertou o boto de uma 
extenso.
        Joseph McCauley pode tentar dar um telefonema para fora 
da propriedade  disse ele.  Assegure-se de que ele no 
tenha sucesso.
Pensou por um momento e acrescentou:
        Encontrem-me em meu escritrio em dez minutos. Todos 
vocs.
Quando recolocou o telefone no gancho, estava sorrindo de 
novo. Ele caminhou at a janela. Era um belo dia de outono. 
O sol cintilava sobre as ondas no porto, e as rvores no 
promontrio estavam todas em cores quentes, os vermelhos 
e dourados que atraam os turistas. Ele suspirou, flexionando 
as mos. Precisava arrumar tempo para velejar de novo antes 
que o tempo mudasse.
Joseph era incrivelmente poderoso. Leicester percebera isso 
assim que lera as cartas de recomendao do garoto, escritas 
com palavras cuidadosamente escolhidas. Leicester tinha um 
instinto, aps todos aqueles anos. Mas havia sido vido 
demais. Tentara ir muito rpido, e o rapaz recuara. Ele devia 
ter preparado o terreno, devia t-lo amaciado antes de pedir-
lhe que se comprometesse.
Ainda assim, Leicester achava que Seph poderia ser 
controlado, apesar da falta de treinamento. Naquele mo-
mento ele estava mais zangado do que assustado. Mas isso 
poderia mudar. Leicester lhe quebraria o esprito, poria 
rdeas naquele poder selvagem e o usaria. O diretor fechou 
os olhos, e sua respirao se apressou um pouco.
Teria sido mais fcil se McCauley fosse mais jovem.
Doze anos era o ideal, mas com 16 poderia dar certo. 
Leicester jamais vira seu sistema falhar, exceto uma vez. No 
ano anterior, havia acolhido um aluno mais velho que havia 
recebido algum treinamento em outro lugar. Aquilo havia 
sido um erro. O rapaz ainda estava no Porto Seguro, mas 
talvez no por muito mais tempo.
Escutou uma batida  porta.
 Entrem!  disse Leicester.
Os ex-alunos entraram, todos os 15, todos magos talentosos. 
Mas nenhum to poderoso quanto Joseph McCauley. 
Leicester estudou-os, analisando o que havia em suas 
mentes. Estando conectado a eles, sabia mais sobre eles do 
que jamais suspeitariam.
Warren Barber detestava servir a qualquer um. Isso, alm do 
fato de ele ser o mais poderoso do bando, o tornava 
perigoso. Mas sua crueldade e falta de compasso moral o 
tornavam til.
Bruce Hays adorava ter poder sobre os outros. Servia, se, em 
troca, outros o servissem.
Aaron Hanlon era afvel e articulado, um mestre da magia 
mental. Kenyon King era razoavelmente poderoso, 
fisicamente forte e habilidoso em operaes secretas. John 
Hughes era inestimvel como especialista de sistemas. Eles 
formavam o ncleo.
Wayne Eggars havia aceitado o papel de mdico. Ashton 
Rice e Elliott Richardson serviam, apesar de relutantes. Eram 
homens razoveis. J haviam realizado muito.
Martin Hall e Peter Conroy eram os fracotes. No era uma 
questo de falta de poder, mas relutncia em agir sem 
piedade quando necessrio. Conroy, em especial, era 
imprevisvel, mas ambos contribuam com poder para o 
grupo.
        Bom dia, senhores  disse ele.  Joseph McCauley ainda 
se recusa a se juntar a ns.
Um murmrio de surpresa passou pelos ex-alunos, mas foi 
rapidamente contido.
        Ele ameaou procurar as Rosas. Isso  inaceitvel. Creio 
que uma abordagem de igual para igual pode ser eficiente. 
Encarrego vocs de o convencerem a se juntar a ns, por 
quaisquer mtodos necessrios. Quando ele se conectar a 
ns, sero ricamente recompensados. Se ele continuar a 
resistir, bem, acho que todos vocs entendem que haver 
conseqncias.
Todos olharam para os prprios ps, com medo de que 
Leicester usasse um deles como exemplo. Ele o fizera antes.
        Deixem-no comigo  sugeriu Warren.  Eu fao com 
que ele mude de idia em um dia.
Leicester suspirou.
        Se fosse uma questo de fora bruta, Warren, eu j teria 
resolvido. Isto exige sutileza. Criatividade. Seduo. No  o 
seu forte, receio.  Ele esfregou as palmas uma na outra.  
Vamos nos encontrar de novo em duas semanas para discutir 
o assunto. Alguma pergunta?
Ningum tinha nenhuma.

No dia seguinte, depois de outra noite de sonhos torturantes, 
Seph foi at o prdio de arte e msica e encontrou um 
telefone na rea de alimentao no poro. Tirou-o do gancho 
e discou zero. Quando a secretria no prdio da 
administrao atendeu, ele disse:
        Gostaria de fazer uma ligao externa, usando um carto 
de chamadas.
Ele lhe passou as informaes do carto e o nmero de 
telefone, inclusive o cdigo do pas. Houve uma breve 
pausa.
        O seu nome, por favor?
        Joseph McCauley  respondeu Seph, a esperana 
murchando.
        Voc precisa conseguir a aprovao da administrao  
disse ela bruscamente.  Devo passar para o dr. Leicester?
- No, obrigado  disse Seph, e desligou.
A rotina da sala de aula era reconfortantemente familiar, um 
pequeno remanso em meio  loucura da vida no Porto 
Seguro. Explanao, discusso, tarefa, exames. Todas as 
costumeiras ferramentas estavam presentes: carteiras de 
madeira e metal alinhadas em fileiras; quadros-negros; pias, 
bicos de gs e tubos de ensaio no laboratrio de qumica. 
Livros novos que cheiravam a tinta, com lombadas que 
estalavam quando eram abertas. Como os alunos em todos os 
lugares, os alunos do Porto Seguro reclamavam da lio de 
casa.
Seph estava na aula de matemtica, o queixo apoiado na mo, 
vendo o sr. Richardson rabiscar equaes no quadro. 
Richardson era um dos que estavam no templo ao ar livre 
com longas tnicas cinzas, ajudando a presidir aquele 
sacrifcio mgico. Em retrospecto, parecia um pesadelo. O 
que o havia assustado? A chuva, a nvoa, os morcegos e o 
teatro todo.
E o fato de que aquilo parecia importante demais para 
Leicester.
Na msica, o sr. Rice disse a Seph que ele podia marcar aulas 
particulares fora do perodo regular para praticar piano, 
saxofone ou outro instrumento. Ele encorajou Seph a juntar-
se a um conjunto de sopro.
O maldito conjunto de sopro. Era to normal. To difcil 
conciliar com o medo dele de dormir, o terror de ir para a 
cama!
Aps a ltima aula e antes do jantar, Seph voltou para o 
quarto e ligou o computador. Decidira ir em frente e 
escrever a carta.

PARA: Sr. Denis Houghton, Tutor de Joseph McCauley
DE: Joseph McCauley
ASSUNTO: Situao no Porto Seguro

Quando cheguei ao Porto Seguro, fui informado de que eu 
havia sido internado aqui para tratamento psiquitrico. No 
sei quais eram suas intenes, mas a equipe no  qualificada 
e os mtodos so cruis, arbitrrios e incoerentes e, assim, 
dificilmente se mostraro eficazes.
Este colgio no atende s minhas necessidades. Solicito uma 
transferncia imediata, de modo que eu perca o mnimo de 
aulas possvel. Estou disposto a aceitar ser matriculado em 
uma escola pblica com terapia particular, se for mais fcil, 
em qualquer local geogrfico. Farei tudo o que puder para 
que isso d certo.
 fundamental que esse pedido seja atendido de imediato. 
Pelo menos precisamos nos reunir para discutir minha 
situao e obter uma segunda opinio. Se o senhor acredita 
que a terapia pode me ser benfica, acredito que h opes 
melhores.
Ele releu a carta e ps em negrito a parte sobre fazer tudo 
para que desse certo. Achou que a carta soava, digamos, 
racional. E no acusatria. Ele a deixou pronta para ser 
enviada e enfiou-a na caixa de correio no prdio da 
administrao quando saiu para o jantar.

Os sonhos vinham como relmpagos no vero, sonhos 
terrveis que lanavam luz sobre aqueles lugares na alma de 
Seph que ele preferiria que permanecessem no escuro. A 
violncia s vezes era fsica, s vezes emocional, outras 
vezes ambas. Todos os seus medos e inseguranas vinham  
tona e transformavam-se em armas contra ele. O pior de 
tudo era que ele nunca sabia o que esperar. s vezes ele 
lutava para permanecer acordado, ento caa no sono nas 
primeiras horas da madrugada e dormia sem ser perturbado 
at que o despertador tocasse. s vezes sonhava trs noites 
seguidas, e depois nada acontecia durante trs dias.
As ocorrncias bizarras que sempre haviam seguido Seph 
pareceram se intensificar. Ele tocava um interruptor de luz 
no quarto e trs prdios ficavam sem fora eltrica. Os bolos 
abetumavam e o leite azedava na presena dele. Falces e 
guias-pescadoras se reuniam no telhado do dormitrio e o 
acompanhavam at a sala de aula, mergulhando sobre os 
professores no caminho. A gua congelava nos canos do 
prdio da administrao, e rvores floriam fora de estao. 
Uma matilha de lobos cercou o campus por um tempo, e 
suas sombras cinzentas espreitavam entre as rvores.
Seph questionava constantemente a deciso que tomara. 
Sabia que no havia garantia de que encontraria ajuda fora do 
Porto Seguro. Talvez a oferta de Leicester fosse a nica 
opo que tivesse. Talvez aquelas manifestaes mgicas se 
ampliassem at que eles fossem obrigados a mat-lo como a 
um animal enlouquecido.
As folhas dos lamos estavam mudando de cor quando Seph 
enviou a primeira carta  firma de Sloane. Elas jaziam como 
p de ouro no solo quando ele mandou a segunda. Ele 
comeou a escrever vrias vezes por semana, para sentir que 
estava fazendo alguma coisa. Desistiu do tom so e no-
acusatrio e partiu para o desesperado e ameaador. Nunca 
recebeu qualquer resposta.
Tentou telefonar para fora do campus uma meia dzia de 
vezes, de vrios telefones e usando nomes falsos. Era sempre 
interceptado pelos polidos empregados do colgio, que lhe 
diziam para falar com o dr. Leicester.
Seph continuou a jantar na Casa dos Ex-Alunos. Eles eram 
sua nica fonte potencial de informao, a nica 
possibilidade de esperana. Haviam sido treinados em magia; 
j sabiam como controlar seus poderes. Ele imaginava que, 
se conseguisse ganhar a confiana de alguns deles, eles 
poderiam compartilhar o segredo que impediria os sonhos.
Concentrou-se em especial em Peter Conroy. Naquele 
primeiro dia, Peter se mostrara ansioso para falar com ele; 
obviamente tinha informaes que queria partilhar. Mas 
agora Peter praticamente corria na direo contrria quando 
Seph se aproximava. Quando conseguia encurral-lo, algum 
dos outros ex-alunos intervinha. Algo havia acontecido que 
assustara Peter.
Outros dos ex-alunos se esforavam para conquistar a 
confiana de Seph. Eles no compartilhavam com ele 
nenhum segredo til sobre magia, mas o abordavam com 
ofertas de comida, bebidas alcolicas e drogas ilcitas. 
Professores e ex-alunos socializavam-se em festas em que ele 
parecia ser o recalcitrante convidado de honra. Talvez, 
pensou ele, drogas e lcool pudessem ajudar.
Mas algo lhe dizia que no.
Bruce Hays referiu-se, em voz baixa, ao poder ilimitado que 
estava ao alcance de Seph.
         verdade que voc se subordina ao dr. Leicester  
explicou Hays.  Mas, se pensar bem, o resto do mundo se 
subordina a voc.
Aaron Hanlon aconselhou-o dizendo que, dada a precria 
situao poltica atual, era melhor abrigar-se sob a proteo 
de um mago poderoso.
        Vai haver derramamento de sangue  avisou ele  
apesar de o dr. Leicester estar fazendo o possvel para evitar 
que isso acontea. Como na poca medieval, ter um amo no 
 m idia.
Era como ser assediado por uma fraternidade desesperada e 
diablica. Mas, como Trevor e os outros Anaweirs o 
evitavam, Seph passava cada vez mais tempo na companhia 
deles.
Seph estava no depsito, cambaleando em meio  escurido, 
e pressionava a camisa molhada contra o rosto para se 
proteger da fumaa oleosa. A garganta doa de tanto gritar e 
de respirar o ar txico. No conseguia ver nada, ouvir nada, a 
no ser pelo clamor das chamas e o ranger do velho prdio 
enquanto a madeira queimava.
Maia! Maia, est me ouvindo?
Os bombeiros haviam chegado e jogavam gua sobre o 
telhado. Seph andava com gua pelo joelho enquanto a pele 
na parte superior do corpo criava bolhas e queimava. Ele se 
abaixou, molhou a camisa novamente e pressionou-a contra 
o rosto. Sentiu o cheiro de cabelo queimado e deu-se conta 
de que era o dele prprio.
Estava num corredor agora. Estendendo os braos, podia 
sentir as paredes em ambos os lados. Ele devia estar na rea 
dos escritrios, nos fundos. Talvez ela tivesse se refugiado ali 
quando a sada fora bloqueada. Passou por vrias portas, 
fechando-as cuidadosamente atrs de si, a fim de manter as 
chamas  distncia por um pouco mais de tempo.
Ento ele escutou um dbil grito de algum lugar adiante.
- Socorro!
Ele seguiu aos tropees, tocando as paredes de vez em 
quando para se orientar. As paredes estavam quentes, a tinta 
grudava em sua mo.
- Maia!
Ele passou por mais uma porta.
- Seph!
A voz era fraca e fina, mais prxima agora, apenas alguns 
metros  frente e  direita.
- Continue falando, Maia. Vim tirar voc daqui.
Seph engatinhou pelo cho, tateando com as mos, at os 
dedos tocarem em um tecido. Ela estava aninhada num 
canto, para onde recuara na tentativa de manter o rosto sob a 
fumaa.
Ele tentou tom-la nos braos, mas, quando a tocou, a pele 
dela se incendiou e transformou-se em cinzas, caindo em 
espiral ao cho. Ele tentou de novo, e a carne dela se 
esfarelou em suas mos, revelando os ossos. Ele gritou e 
largou-a, e ela caiu.
- Maia  murmurou ele, deslizando para o cho, tomando o 
corpo sem vida em seu colo, ninando-a to gentilmente 
quanto podia.  Maia, eu sinto muito.
O calor era abrasador. As lgrimas dele se evaporavam, 
sibilando, assim que emergiam.

Ele foi acordado por batidas incessantes. Bombeiros. No 
respondeu. Resolvera ficar e morrer queimado. Em algum 
lugar, uma porta se abriu e fechou.
        Seph?
Como  que eles sabiam seu nome?
Todos sabiam. Todos sabiam que ele era o culpado.
        V embora  sussurrou ele, segurando o corpo de Maia 
com fora.  Chegou tarde demais.
Algum segurou o brao dele, sacudindo-o.
        Seph! Vamos! Saia dessa.
Seph abriu os olhos e viu o rosto preocupado de Trevor. Ele 
olhou por cima do ombro de Trevor. Estava em seu prprio 
quarto. A luz do sol manchava o piso de madeira de lei. Ele 
no fazia idia de que horas eram.
        Desculpe.  Ele forou a palavra a sair, gemeu e enroscou 
os dedos nos lenis.  Estou bem agora. Por favor, deixe-
me sozinho.
Madeira arranhou madeira quando Trevor puxou uma 
cadeira para junto da cama. Rangeu quando ele se sentou 
nela.
        No entendo  disse ele.
Seph virou o rosto para o outro lado. No havia sentido em 
fingir. Sentia-se um lixo e sabia que era assim que parecia. O 
quarto ainda fedia a vmito e terror.
Quando era mais jovem, diziam que ele fora possudo. De 
certa maneira, preferia ser chamado de louco. Mas sabia o 
que acontecia quando as nicas pessoas que se importavam 
eram pagas para isso. Acabava-se em lugares como aquele. 
Ele precisava de um plano, de uma estratgia. Mas primeiro 
precisava se livrar de Trevor.
        Fiquei acordado vomitando a noite inteira, entendeu?
Trevor pigarreou e desviou o olhar.
        Eu ouvi.
        Por isso no estou a fim de companhia.
Trevor no se moveu, mas ficou ali, mordendo o lbio 
inferior.
        No entendo  repetiu ele.  Voc  um deles.
Seph piscou, passou as costas da mo pelos olhos e voltou a 
se concentrar no rosto de Trevor.
        O qu?
        Voc  um deles. Voc tem passado o tempo na Casa dos 
Ex-Alunos. Ento por que voc acorda gritando todas as 
noites? Eu tenho de pr meus fones de ouvido pra conseguir 
dormir.
        Oh. Desculpe. Tenho pesadelos quando fico doente. S 
isso.
        O que voc fez? Voc deve ter aprontado de verdade.
        Do que voc est falando?
Seph deitou-se de costas, olhando para o teto.
Trevor aproximou-se, sussurrando as palavras no ouvido de 
Seph, como se estivesse com medo de que algum mais 
escutasse.
        Ele chama isso de terapia.  Trevor olhou para as prprias 
mos.  Os sonhos, quero dizer.
A mente cansada de Seph agarrou-se quilo, procurando 
uma revelao.
        Est me dizendo que o Leicester tem algo a ver com... 
com...
A expresso no rosto de Trevor era um sim.
         tipo... qualquer coisa de que voc tenha medo,  o que 
ele usa.
Seph sentou-se parcialmente na cama, recostando-se contra 
a cabeceira entalhada.
        Est dizendo que ele faz as pessoas terem alucinaes? 
Sonhos? Pesadelos?
         o que eu estou dizendo.
        Isto aconteceu com voc?  Seph fez um gesto vago, 
indicando o quarto bagunado.
Trevor engoliu em seco. Seu rosto moreno estava quase 
cinzento, os olhos castanhos turvos com a lembrana da dor, 
as mos entrelaadas com fora.
        Eu era bem rebelde quando cheguei.
        Ele usa isso... como punio?
        Ele chama de terapia  repetiu Trevor.  Se voc no 
coopera, acho que ele pensa que voc precisa de mais 
terapia. Por isso... de certo modo...
        E outras pessoas tm sonhos? Os Ana... outros alunos? No 
s ns?
        Todos tm sonhos, pelo menos no incio. Ele diz que os 
sonhos so uma maneira de lidar com a prpria hostilidade. 
S que eu percebi que voc  diferente. Quero dizer, voc  
como ele. Voc e os ex-alunos. Vocs todos tm... algum 
tipo de poder. Seno, por que os ex-alunos ficariam? Eu iria 
embora o mais rpido que pudesse.
Seph escutava apenas parcialmente. Ele no estava louco. 
No era o seu prprio poder que estava destruindo sua 
mente. Era um feitio. Tinha de ser. Leicester o estava 
enfeitiando, fazendo-o pensar que estava louco, deixando-o 
desesperado o bastante para concordar em... em... fazer o 
qu?
        S faa o que ele mandar  disse Trevor, como se lesse a 
mente dele.  Qualquer coisa que ele pedir. Sei, por 
experincia prpria, o que vai acontecer se voc tentar 
resistir. A escolha  sua, mas meu conselho  se levantar e 
tocar em frente, seja l como for. Bajular no  to difcil, 
uma vez que voc aprende o jeito.
        Ningum se queixa?  indagou Seph.
        O que voc diria?  Trevor ergueu as mos, as palmas 
para cima.  Voc teve um pesadelo na escola e a culpa  
do dr. Leicester? Quem vai acreditar numa histria dessas 
vinda de algum com um histrico como o meu?
        O Leicester disse que este lugar  para... casos psi-
quitricos. Disse que a gente estava tendo alucinaes.
        Acho que  possvel. Eu era meio violento antes de vir pra 
c, mas ningum nunca me disse que eu era louco. Antes de 
vir pro Porto Seguro, eu s sonhava com garotas.
        Os seus pais no podem tirar voc daqui, se voc pedir?
Trevor riu com amargura.
        Olha, meus pais adoram o Porto Seguro. Esta  a primeira 
escola que no me expulsou em seis meses. Todos os meus 
maus comportamentos foram... qual  o termo?... extintos. 
Estou tirando boas notas. Provavelmente vou entrar na 
faculdade. No sou mais um problema. Como vou convenc-
los a me deixar voltar pra casa? Algumas vezes vi pais virem 
aqui no campus, revoltados contra alguma coisa de que 
ouviram falar. O Leicester se rene com eles, e eles vo 
embora satisfeitos. Ou, pelo menos, vo embora. Ele pode 
ser bem persuasivo, acho. Qualquer um que reclame paga 
por isso mais tarde.  Ele pigarreou.  Alm disso, no  
to ruim, se voc no lhe der motivo pra mexer com voc.
Seph lembrou-se da visita deles  Casa dos Ex-Alunos, 
Trevor implorando a Warren para no contar ao dr. 
Leicester.
        O que o Leicester e os ex-alunos esto tramando?
Trevor sacudiu a cabea.
        No sei nem quero saber. Pra dizer a verdade, ele no 
parece interessado nos outros alunos. No tenho certeza se 
ele me reconheceria numa fileira de suspeitos. Mas no sou 
idiota. Descobri que se cabulo aula, provoco os professores 
ou fumo no vestirio, eu pago por isso. Ento parei. E desde 
ento ele me deixou em paz.
Seph puxou para trs o cabelo emaranhado e suado.
        Escuta, como eu posso dar um telefonema pra fora daqui?
        Voc pode usar qualquer um dos telefones do campus  
disse Trevor.  Se voc tem um carto de chamada, o 
escritrio faz a chamada pra voc.
        No, preciso de um telefone que eu possa usar por conta 
prpria.
        Tem um tipo de cdigo pra chamadas diretas. O escritrio 
faz as chamadas.  Trevor hesitou.  Pra quem vai 
telefonar?
        Tenho de contatar o meu tutor. Tenho de sair daqui. O 
Leicester no deixa minhas chamadas sarem.
        Tenha cuidado, Seph. O Leicester sabe de tudo. O que ele 
no sabe, ele arranca de voc de algum jeito.
        Se ele perguntar a voc sobre essa conversa, vai contar pra 
ele?
Trevor ergueu as mos, as palmas para cima.
        Olha, cara, no me culpe. Tipo, no d pra evitar. Ele  um 
hipnotizador ou coisa assim.
Ou coisa assim.  claro. O que significava que Seph no 
podia confiar em ningum, nem pedir ajuda a ningum.
        Voc mencionou algum chamado Jason. O que ele fez? O 
que aconteceu com ele?
        Esquece que eu falei qualquer coisa sobre ele.
Seph apoiou a mo de leve sobre o ombro de Trevor, 
olhando-o nos olhos.
        Conte-me.
Trevor engoliu em seco, como que tentando conter as 
palavras.
        Ele estava revirando as coisas. Queria que as pessoas 
lutassem contra o dr. Leicester. Ele, o Sam e o Peter. Ento o 
Sam se afogou, e o Peter e o Jason esto com os ex-alunos 
agora.
        Sam se afogou?  repetiu Seph.  Voc acha que...
        Eu no acho nada.  Trevor olhou para Seph com 
determinao.  E no force, porque isso  s o que eu sei.
Seph tinha de encontrar um jeito de escapar. Leicester havia 
deixado claro que no permitiria que ele fosse embora at 
conseguir o que queria. Com Leicester tortu- rando-o todas 
as noites, Seph no sabia por quanto tempo poderia 
continuar dizendo no.


Aps a conversa com Trevor, Seph comeou a travar uma 
guerra frgil e desigual contra o Porto Seguro. Tentou fugir 
trs vezes em outubro, mas eles pareciam ter a estranha 
habilidade de rastrear seus movimentos. Escondeu-se num 
caminho de entrega, mas foi interceptado no porto. 
Tentou roubar a van da escola, mas o sistema eltrico entrou 
em curto quando ps a chave na ignio.
Sua freqncia s aulas caiu. Ele pegou um engradado de 
cerveja da Casa dos Ex-Alunos e bebeu at desmaiar, na 
esperana de se anestesiar. No incio de novembro, ps fogo 
no prdio de arte e msica durante a noite. Quando eles o 
arrastaram at o escritrio de Leicester, Seph disse:
 Expulse-me.
Em vez disso, eles o confinaram ao quarto, e os sonhos se 
intensificaram.
Noite e dia comearam a se fundir numa seqncia longa e 
dolorosa. Se ficasse acordado a noite toda, tinha alucinaes 
durante o dia. Vrias vezes, desesperada- mente confuso, 
implorou a Trevor para que lhe dissesse se estava acordado 
ou dormindo.
Trevor parecia ter perdoado Seph pelo pecado de ser dotado. 
Tentava ajudar em todos os experimentos de Seph. Sob a 
teoria de que os sonhos eram desencadeados por algo em seu 
quarto, Seph passou a noite no cho do quarto de Trevor. Os 
sonhos o seguiram. Trevor ficou no quarto de Seph, para 
acord-lo quando os sonhos comeassem. Mas era 
impossvel acordar Seph de seus pesadelos, e Trevor no 
agentava ficar nas proximidades enquanto eles se 
desenrolavam.
Enquanto isso, Leicester e os ex-alunos o observavam como 
predadores espreitando a presa, esperando que ele vacilasse 
para que pudessem se aproximar para a matana.
Gregory Leicester estava sentado em sua cadeira favorita 
olhando para o mar, mal-humorado. Estava estranhamente 
escuro para aquela hora do dia, e as luzes j estavam acesas 
na doca. Estavam prevendo ventos vindo do nordeste, os 
primeiros da estao. Leicester sempre conseguia detectar a 
queda na presso quando uma tempestade estava a caminho.
Joseph McCauley era to extraordinariamente poderoso 
quanto incrivelmente resistente. Estava no Porto Seguro 
havia mais de trs meses sob intensa presso. Com exceo 
de um nico caso anterior, ningum jamais resistira por 
tanto tempo. Ser que Joseph tivera algum contato com 
Jason? No. Leicester tivera o cuidado de manter os dois 
separados.
Como sempre, Leicester estava impaciente com o processo, 
ainda mais neste caso, dado o prmio que estava logo ali ao 
seu alcance. O recrutamento era complicado e 
descontrolado, e havia sempre a possibilidade de que o alvo 
escapasse, tirando a prpria vida. Nessas condies, a 
rebelio contnua era um aviso. Ele decidiu mandar a equipe 
ficar mais atenta a Joseph.
Tinha certeza de que a questo poderia ser resolvida com 
mais eficincia. No tinha dvidas de que poderia conseguir 
rapidamente o que queria, se lhe dessem carta branca para 
lidar com o rapaz. Fora D'Orsay quem insistira naquela 
abordagem sutil, os sonhos que marcavam a alma e no o 
corpo. D'Orsay acreditava que seria difcil para o Conselho 
dos Magos rastrear aquele tipo de veneno de ao lenta e, se 
chegasse a isso, atribuir-lhes a autoria. Era uma tarefa 
delicada, mas assim era o trabalho de um poltico.
Leicester gostaria de ter o Livro Weir de Joseph. O Livro 
Weir lhe daria mais informaes sobre ele, sobre suas foras 
e fraquezas. Poderia lhe dar alguma idia, sugerir uma 
estratgia. Ele ansiava pela oportunidade de colocar aquele 
poder impressionante em ao.
Esvaziou o copo, sentindo-se um pouco melhor. O rapaz 
sabia que havia uma sada; no conseguiria evitar a tentao 
de us-la, passado algum tempo. Talvez fosse preciso um 
pouco de pesquisa, um pouco mais de presso, mas Leicester 
estava confiante de que, no fim, teria sucesso.






Captulo Sete
Jason

Voc no precisa entender. S precisa sobreviver, disse Seph 
a si mesmo. Ele sonhava todas as noites agora, e os pesadelos 
eram mais longos e intensos do que antes. Sentia-se exausto 
mental e fisicamente, mas se forava a sair da cama e ir at a 
lanchonete tomar o caf da manh. s vezes ele ia  aula, s 
vezes, simplesmente, voltava para o quarto e ficava olhando 
para o teto.
Eles vinham durante o dia tambm, atacando de surpresa, 
arrancando-o por completo da realidade num instante. Ele 
acordava gritando na aula de matemtica, berrando na de 
organizao social e poltica, resmungando e se retorcendo 
na de qumica. Quase explodiu o prdio quando ps fogo nas 
substncias qumicas no laboratrio.
Todos fingiam no notar. Era como se ele andasse pelo 
campus terrivelmente desfigurado e algum houvesse dito a 
todos ao seu redor para no olhar e apontar para ele. Era 
impossvel aprender qualquer coisa. Ele no resistia mais, 
no traava mais planos contra eles. A fagulha da resistncia 
se extinguira nele, salvo por sua recusa em lhes dar a nica 
coisa que queriam. Ele era como um prisioneiro sob tortura 
que se recusava a revelar a senha muito tempo depois de ter 
esquecido o porqu. Tudo o que podia fazer era estar no 
mundo.
A nica coisa que ajudava era caminhar. Enquanto se 
mantivesse em movimento, os demnios no poderiam 
alcan-lo. No comeo, ele caminhava nervosamente de um 
prdio a outro. Mais tarde, passou a calar sapatos para a 
neve e a caminhar por quilmetros pela floresta. Certa vez 
chegou at o muro que cercava a propriedade. Contudo, no 
conseguiu encontrar o porto nem achar apoio para escal-lo 
antes que viessem para lev-lo de volta.
Ou talvez aquilo tudo tivesse sido um sonho.
O Natal se aproximava, mas Seph no estava entusiasmado 
com isso. Trevor convidara Seph para passar o Natal em 
Atlanta, mas Leicester vetou a idia. A condio de Seph era 
muito delicada, dissera o diretor. Seph teve de admitir que 
qualquer um que o visse teria de concordar. A aparncia dele 
estava terrvel. Continuava a perder peso, apesar de comer 
tudo o que conseguia.
Havia comeado a pensar em modos de se matar: mtodos 
inteligentes,  prova de falhas que fizessem com que 
acabasse na enfermaria. Imaginava que estava trancado numa 
sala com duas portas. A morte estava atrs de uma delas, 
Gregory Leicester e sua oferta atrs da outra. No havia outra 
sada, pelo que podia ver.
Trevor Hill estava preocupado com Seph. Sabia, por 
experincia prpria, que uma noite de "terapia" virava a vida 
de cabea para baixo. Pelo que vira e ouvira, Seph havia 
agentado 40 ou 50 delas. Contudo, parecia haver algo duro 
como ferro em Seph, algum teimoso instinto de 
sobrevivncia que o mantinha funcionando.
No entanto, Trevor podia ver que Seph estava enfra-
quecendo. Ele parecia frgil, imaterial, como algum cujo 
esprito estivesse devorando a carne. quela altura, ele 
talvez estivesse mesmo mentalmente doente, o crebro 
danificado por dias e noites de tortura. Trevor sentia-se 
culpado por no ter sido capaz de oferecer qualquer ajuda. 
Culpado por estar aliviado de que aquilo estivesse 
acontecendo com Seph e no com ele. Confuso por no 
conseguir compreender por que Seph era um alvo. Seph no 
era como os outros ex-alunos, que tratavam Trevor e os 
outros como lixo, isso quando lhes notavam a existncia.
No ltimo dia de aulas, Trevor convidou Seph para ir a seu 
quarto e fazer-lhe companhia enquanto aprontava as malas. 
Trevor havia encomendado presentes de Natal pelo correio 
para levar para casa. Havia embrulhado alguns livros para 
Seph e insistiu para que ele os abrisse.
Seph se estirou de costas na cama de Trevor num estado 
crepuscular permanente. Abriu e fechou os punhos, 
agitando-se numa hora e estremecendo na outra, fitando o 
mundo com olhos mutveis como se pudesse enxergar coisas 
que ningum mais via. s vezes ele tocava a cruz que 
sempre trazia pendurada ao pescoo e murmurava algo em 
francs.
        Olha  disse Trevor enfim.  D-me o nome da firma de 
advocacia em Londres. Vou telefonar pra eles da casa dos 
meus pais quando eu estiver l.
Por um momento, Trevor pensou que o outro no tinha 
ouvido. Ento Seph se mexeu.
        No vai adiantar nada. Eu escrevi pra eles uma centena de 
vezes. Eles nunca responderam.
        Bem, quem sabe ajuda se ouvirem isso de outra pessoa  
insistiu Trevor.
        Est certo. Eu passo o nmero pra voc.
Trevor fitou-o.
        Ei!  disse ele com suavidade.  Voc vai ficar bem?
Seph no respondeu por um momento, e aquela hesitao 
deixou Trevor ainda mais preocupado.
        Vou estar bem  disse ele, afinal.  No sei o que mais 
eles podem fazer comigo.


O campus ficou assustadoramente silencioso aps a partida 
dos outros alunos. O servio regular de refeies foi 
interrompido durante as frias, mas a sala de jantar na Casa 
dos Ex-Alunos continuava funcionando. Seph passou a fazer 
as refeies l, com os professores e outros ex-alunos que 
permaneceram no campus.
No fazia sentido. Eles no tinham famlias? No tinham 
lugar melhor para passar as frias?
Seph folheou os livros de Trevor planejando refugiar-se no 
mundo da fico, mas no conseguia se concentrar.
Dias inteiros desapareceram da memria. Continuava a 
caminhar quando dava vontade.
A firma de Sloane mandou uma enorme cesta de presentes e 
um generoso carto-presente, um carto com o nome dele 
impresso. Em setembro, Seph estava convencido de que 
seria expulso do Porto Seguro at o Natal. Agora s 
conseguia pensar em fugir.
A ceia de Natal foi servida  luz de velas no elegante salo de 
jantar de dois andares dos ex-alunos. Bruce Hays e Warren 
Barber, os dois assistentes, sentaram-se um de cada lado de 
Seph. Os outros 13 ex-alunos sentaram-se ao redor da mesa. 
Seph esforou-se por recordar seus nomes, e ficou satisfeito 
ao se lembrar da maioria deles. No sonhava havia vrios 
dias, e a cabea estava mais lcida do que de costume.
Martin Hall assumira o papel de sommelier, andando  volta 
da mesa, abrindo vinhos e servindo. Todos podiam se servir 
de bebida  vontade, e um vinho diferente acompanhava 
cada prato. Leicester no estava l.
A tenso espreitava na sala como um co feroz, e Seph no 
conseguia deixar de pensar que ele era a causa. Os outros o 
observavam quando achavam que ele no estava olhando e 
sussurravam entre si nos cantos da mesa.
        Onde est o dr. Leicester?  indagou ele a Bruce, quando 
o prato de peixe foi levado embora.
Hays limpou a boca com as costas da mo.
        Partiu h dois dias. Voltou pra casa na Inglaterra, acho. 
Vai estar fora por uma semana.
        Por isso, beba, Joseph.  Barber ps o clice de vinho na 
mo dele.  O gato est fora.
Seph vinha, de fato, controlando o prprio ritmo, fingindo 
bebericar o vinho, ignorando o usque que Barber colocara 
prximo  sua mo direita. Os outros bebiam com uma 
intensidade desesperada.
Aps a sobremesa, Ashton Rice sentou-se ao piano e 
comeou a martelar canes de Natal. Vozes ergueram-se 
num coro bbado e desafinado. Hays e Barber no cantavam. 
Colocaram uma garrafa de usque entre eles e se revezavam 
ao se servir de mais.
        Ningum vai pra casa no Natal?  perguntou Seph, 
oprimido pela alegria forada, mas torcendo para que 
pudesse aprender algo til.
        Casa no  mais... relevante  murmurou Hays, pa-
recendo surpreso por ter lembrado aquela palavra. Piscou 
gravemente para Seph.  Voc vai descobrir. Vai ver. 
Somos como... irmos de sangue. Sangue...  Ele pegou a 
garrafa.  Irmos siameses.
Barber bateu com o copo na mesa, fazendo a loua 
chacoalhar.
        S que o Joseph  bom demais para se juntar a ns, 
lembra?
A cantoria esmoreceu, e Seph era, mais uma vez, o relutante 
centro das atenes. Ele pigarreou.
        Quem sabe se vocs me disserem o que est aconte-
cendo...
        Ele prefere ficar louco.  Barber agarrou a frente da 
camisa de Seph e forou-o a se levantar.  O resto de ns 
obedece ao Leicester. Mas Seph tem seus princpios.
Seph viu-se nariz a nariz com o rosto por barbear de 
Warren.
        Ei, me solta!  Seph tentou se libertar, e ouviu o som de 
tecido rasgando-se.  Qual  o seu problema?
Hays tentou dar um tapinha no ombro de Barber.
        Qual , Warren?! Joseph vai ser um cara legal. D um 
tempo pra ele.
        Enquanto isso, a gente paga por isso.  Barber empurrou 
Seph contra a parede.  Talvez a gente no tenha explicado 
direito... os benefcios de ser um membro. Somos os seus 
nicos amigos agora, est me ouvindo? Alm de ns, voc 
no tem ningum.
Seph sentiu o ardor do poder crescendo dentro de si.
        Solte-me. Estou avisando.
        Warren...  disse Hays, em tom preocupado.
Eggars se levantou como se quisesse intervir, embora no 
tivesse certeza de como proceder. Os outros se agruparam ao 
redor deles, descontentes.
        O Leicester est pegando no nosso p... desde setembro 
 arquejou Barber, pontuando a fala batendo Seph contra a 
parede.  O que  que a gente precisa fazer?
        Deixe-me... em paz!
Seph estendeu ambas as mos. Meses de medo e frustrao 
pareceram extravasar de seus dedos, e um estampido como o 
de um tiro de revlver lanou Barber por sobre a mesa. Ele 
deslizou de costas e caiu do outro lado, espatifando clices de 
vinho e pratos de sobremesa. Seph correu at ele, saltou por 
sobre a mesa e pulou sobre Barber enquanto este jazia no 
cho. Eles lutaram brevemente, Seph golpeando o rosto de 
Barber com o punho, Barber bbado demais para se desviar. 
E ento vrios deles arrastaram Seph para trs, contendo-lhe 
os braos, as mos quentes e eltricas contra a sua pele.
Barber se ps em p com dificuldade e cambaleou na direo 
de Seph, com uma expresso assassina no rosto, porm a 
ajuda surgiu de um canto inesperado. Martin Hall se colocou 
entre eles, segurando uma faca de aougueiro que havia sido 
usada no assado de costela. A lmina tremia em sua mo, 
mas era bem grande.
        Para trs, Warren. Voc est fora de si.
        Saia do caminho!  disse Barber, aproximando-se.
        E se o dr. Leicester volta e descobre que voc matou ele 
de pancada?
Barber foi desacelerando, at estancar.
        Pare, Warren! J no houve derramamento de sangue 
suficiente?  Martin balanou a faca perigosamente, e 
Barber recuou. Martin se virou para Seph, e Seph ficou 
surpreso ao ver o rosto dele manchado de lgrimas. Ele 
gesticulou com a faca.  Soltem-no. Vocs sabem to bem 
quanto eu que ele no  o inimigo.
Aps um momento, Seph sentiu os braos sendo soltos. As 
mos quentes se afastaram.
        Qual  o problema com vocs?  Seph se virou de forma 
a poder olhar nos rostos de todos, ocultos e revelados pela 
luz de velas.  Por que ficam aqui? Que tipo de influncia 
ele tem sobre vocs?
Barber cerrou os punhos.
        Quem diabos voc pensa que , dando um sermo na 
gente?
Seph no se importava mais.
        Ele se foi. Est na Inglaterra. Esta  a nossa chance. Vamos 
sair daqui. Ou, se vocs gostam tanto daqui, ento deixem-
me ir.
Martin falou com solenidade e tristeza:
        No podemos fazer o que nos pede, Joseph. Volte para o 
seu quarto e tranque a porta at que os meus colegas estejam 
sbrios de novo.
Todos eles ficaram olhando enquanto Seph saa do salo de 
jantar, partindo com mais perguntas do que respostas.


Apesar do episdio na Casa dos Ex-Alunos, Seph dormiu 
tranqilamente na vspera e no dia de Natal, durante quase 
24 horas completas. Presumia que fosse porque Leicester 
estava ausente. Em resultado, sentia-se mais lcido do que 
estivera por muito tempo, e estar na Casa dos Ex-Alunos lhe 
deu uma idia.
Sabia que as cartas para a firma de Sloane estavam sendo 
interceptadas. Afinal, Seph era um cliente valioso com um 
grande fundo fiducirio cujo controle seria seu um dia.
O que o fazia pensar em e-mails de novo.
Certamente os ex-alunos tinham internet. Devia ser por isso 
que eles tinham a sua prpria biblioteca. Se no houvesse 
acesso  internet na biblioteca, ele invadiria o quarto de 
algum. Talvez Trevor houvesse telefonado para a firma, mas 
Seph havia decidido que no podia se dar ao luxo de esperar 
at o reinicio das aulas para descobrir. quela altura, 
Leicester teria retornado, e Seph no teria mais fcil acesso  
Casa dos Ex-Alunos.
Ele esperou at o dia seguinte ao Natal, aps a terceira boa 
noite de sono em um ms. Tomou o caf da manh tarde 
com Martin e Peter na sala de jantar da Casa dos Ex-Alunos. 
Fez questo de se sentar com eles e tentou fazer-lhes 
perguntas, mas no chegou a lugar algum.
Estavam terminando de comer quando Barber entrou se 
arrastando, com o que parecia ser uma ressaca das grandes. 
Seph pulou quando Barber lhe deu um tapinha no ombro, 
mas Barber agia como se no se lembrasse do confronto no 
jantar. E talvez no lembrasse, bbado como estivera.
Quando a sala de jantar comeou a esvaziar, Seph foi para o 
lavatrio e ficou um bom tempo l dentro. Finalmente, 
esgueirou-se pelo corredor at a escadaria dos fundos. A 
porta que levava  escadaria trazia a placa, SOMENTE 
PROFESSORES E EX-ALUNOS. Ele respirou fundo. O que 
eles poderiam fazer, chut-lo para fora da escola? Enviar-lhe 
outro pesadelo?
A porta no topo das escadas abria para um pequeno patamar 
circular, com corredores partindo de cada lado e a escadaria 
para o segundo andar diretamente em frente. Os corredores 
eram flanqueados por cornijas de madeira brilhante, castiais 
sombrios presos s paredes, fileiras de portas fechadas. No 
parecia haver ningum por ali.
Tentaria primeiro a biblioteca. Sua presena ali seria mais 
fcil de explicar.
O corredor que levava para a esquerda tinha salas de aula dos 
dois lados, com a biblioteca na extremidade oposta. 
Felizmente, a porta de madeira pesada estava destrancada. 
Ele deu uma rpida olhada por sobre os ombros antes de 
entrar e fechar a porta atrs de si.
A biblioteca cheirava como o sto de Genevieve: a poeira, 
mofo e papel se desintegrando. Ele conteve um espirro. Os 
livros no primeiro grupo de estantes pareciam ser bem 
velhos, com capas de couro escuras e gravadas em letras 
douradas. Curioso, Seph puxou o primeiro volume da 
estante, inclinando-o para que o ttulo ficasse visvel sob a 
luz. Parecia ser em latim. Transformare. O prximo era 
intitulado Extraten Poysoun 1291. No era latim, 
exatamente. Ele havia estudado latim com os jesutas. Mas 
era parecido. Ingls medieval? Avanou mais alguns passos 
dentro da sala, na esperana de encontrar o que estava 
procurando nos fundos.
Dirigiu-se at a parede de trs. Mais livros velhos e alguns 
novos. Pegou um dos mais novos. Sujeio Mental: A Arte 
de Influenciar Outros. Aqueles eram os livros que ele 
deveria estar lendo. Fileiras e mais fileiras de grandes 
volumes acomodados juntos, livros que pareciam seme-
lhantes. Os ttulos eram similares tambm. Weir Smythe 
John Arthur. Weir Thompson Harold Franklin. Weir 
Huntingdon Bru Amfeld.
Livros Weir. S podia ser isso. Seph pegou um e folheou-o. 
A primeira parte era ocupada por uma rvore genealgica, 
toda escrita a mo, remontando a sculos no passado, com 
iluminuras em cores brilhantes. Uma outra seo do livro era 
intitulada "Feitios e Encantamentos". Algo naqueles livros 
invocou em Seph uma vaga lembrana de algo que ele no 
conseguia discernir. Com relutncia, devolveu o livro ao seu 
lugar na estante.
Finalmente encontrou o que estava procurando, sob as 
janelas no fundo da sala. Havia seis computadores alinhados 
sobre mesas e em rede, com um cabo ligado a uma tomada 
na parede. Eles compartilhavam a mesma impressora.
Seph no conseguia afastar a sensao de que estava sendo 
observado. Sentiu o cabelo na nuca eriar-se e os braos se 
arrepiarem. O prdio rangia sob o assalto do vento. Olhou 
para trs e viu apenas livros, poeira e corredores estreitos 
entre as estantes. Dando de ombros, ele apertou o boto de 
fora de um dos computadores. O rudo da mquina sendo 
ligada soou horrivelmente alto em meio ao silncio.
O computador nem havia terminado a rotina de iniciao 
quando Seph ouviu os passos de algum correndo. 
Praguejando baixinho, apertou o boto de fora outra vez e a 
tela escureceu. A porta escancarou-se, e as luzes acima 
piscaram, depois se acenderam.
        Vi algum se movendo por aqui  disse algum, sem 
flego.
        Fique junto  porta  replicou o outro.  Eu vou dar 
uma olhada.
Seph esgueirou-se entre as fileiras de estantes e engatinhou 
pelo corredor junto  parede em direo  sada. Peter 
Conroy esperava junto  porta, sondando nervosamente os 
corredores, a testa brilhando sob a luz vinda do alto.
        Tem certeza de que no est vendo coisas outra vez?  A 
outra voz era familiar e estava surpreendentemente prxima. 
  melhor no ter me arrastado at aqui pra nada.
Seph ouviu o som de ps se movendo na direo dele. Estava 
encurralado.
Algum tapou-lhe a boca com a mo e agarrou-o pelo brao, 
empurrando-o contra a parede.
        Fique quieto!  sussurrou uma voz no ouvido dele, que 
disse tambm mais alguma coisa que Seph no conseguiu 
entender.
Naquele momento, Warren Barber apareceu dobrando a 
esquina e caminhou na direo deles. Ele ainda parecia meio 
esverdeado da bebedeira da noite anterior. Seph no tentou 
resistir. Ficou quieto, perguntando-se qual seria o castigo por 
invadir a biblioteca dos ex-alunos.
Para seu espanto, Barber passou direto por eles rumo  frente 
da biblioteca.
        No tem ningum aqui.
        Juro que vi algum junto do monitor.
        ? Bom, quem sabe ele voou pela janela. Como se algum 
fosse invadir a droga da biblioteca!
        Parado!  sussurrou a voz de novo.
Seph virou a cabea de leve de modo a ver quem o segurava. 
Para seu espanto, no viu nada alm das prateleiras de livros 
atrs dele. No havia ningum l. A mo sobre a sua boca 
apertou com mais fora, sufocando-lhe a exclamao de 
surpresa.
Sentia-se nauseado. Estava alucinando de novo. Tinha de 
estar. Suas palmas estavam frias e midas de suor, e ele as 
secou nos jeans.
Barber e Conroy se encontraram na frente da sala, depois 
andaram de um lado para o outro das estantes de novo, 
passando a centmetros de Seph e do ser invisvel que o 
mantinha preso. Barber ainda fedia  cerveja.
        Est delirando, Conroy  disse Barber, sacudindo a 
cabea.  Voc deve estar vendo filmes de fico cientfica 
demais.
Conroy ainda protestava quando saram e fecharam a porta 
atrs deles.
        Agente a um minuto  disse o interlocutor invisvel de 
Seph.  Para ter certeza de que eles j foram mesmo.
Seph ficou to imvel quanto podia, embora estivesse 
comeando a tremer, o corao batendo disparado. Aps um 
minuto, a mo foi removida de sua boca.
        Venha  disse a voz. Algum empurrou Seph pelo 
corredor at a frente da sala, depois para a direita, em direo 
a uma porta com a placa "Depsito de Audiovisual".  Aqui 
dentro.
Seph abriu a porta. Era um grande closet, cheio de equi-
pamentos de projeo, mesas mveis com aparelhagem de 
vdeo e som e alguns computadores velhos. Seph entrou e a 
porta foi fechada atrs dele.
        No tem cmeras aqui  explicou a voz, antes de 
acrescentar algo que soava como latim.
De repente, materializando-se em pleno ar, ele pde ver o 
corpo ligado  voz. Ele parecia ter 17 ou 18 anos, estatura 
mediana, e vestia camiseta preta e jeans. O cabelo era negro, 
mas havia sido descolorido nas pontas e tinha um corte 
espetado, um trabalho amador. Trazia dois brincos em uma 
orelha e um na outra. Sorria como se estivesse muito 
satisfeito.
        Ento voc  o novato  disse ele.  Ouvi dizer que 
voc estava aqui. No que qualquer um se oferecesse para 
nos apresentar,  claro.  Ele apontou para uma das mesas 
mveis.  Bem-vindo s catacumbas  disse ele com 
gravidade.  Sente-se.
Seph deixou-se tombar em uma cadeira e ps as mos na 
cabea. Pensara que estava lcido depois de duas noites de 
sono. Aparentemente, estava errado.
        Voc est bem?
Seph ergueu os olhos e viu o estranho encarando-o.
        Eu... no tenho certeza  respondeu Seph com cautela. 
 Eu... ahn... no venho me sentindo bem.
O rapaz se apoiou contra a parede.
        Permita-me dar-lhe boas-vindas atrasadas ao Porto 
Seguro... onde todos os seus sonhos se tornam pesadelos.
Seph riu, apesar de tudo. Deu-se conta de que fazia uma 
eternidade que no dava uma risada, e uma eternidade desde 
que ouvira algum contar uma piada.
        Meu nome  Seph McCauley.  Ele hesitou.  Como fez 
aquilo? Voc  um dos ex-alunos? No me lembro de voc 
no jantar de Natal.
O estranho revirou os olhos.
        No, no tenho planos de me juntar quele clube. Sou s o 
poltergeist desta casa mal-assombrada. Sou Jason Haley.
Jason. Segundo Trevor, havia sido ele quem instigara a 
rebelio fadada ao fracasso. Que havia provocado a morte de 
Sam.
        Voc tem o dom, mas no  um deles?
        Exato.
        No foi isso o que ouvi dizer.
        Pois ouviu errado. A propsito, se vai sair espionando por 
a,  melhor saber que eles tm cmeras em quase todos os 
lugares. Alis, se eu fosse voc, no faria ou diria nada no seu 
quarto que no quisesse compartilhar.
        Ento voc  um aluno?  insistiu Seph.
        Por assim dizer  disse Jason secamente.  Eu tambm 
no deveria estar aqui em cima, mas estou fazendo um 
pouco de pesquisa independente.
        O que foi que voc fez l dentro? Era como se a gente 
estivesse invisvel.
        Oh, melhor que invisvel  replicou Jason.  A gente 
estava imperceptvel.  Ele riu como se aquilo fosse uma 
tima piada.  H quanto tempo est aqui, Seph?
        Desde setembro.
        Est aqui h quase quatro meses e ainda no cedeu?  Um 
tom de respeito despontou na voz de Jason.  E eles vm 
mexendo com voc?  perguntou ele, tocando na cabea 
com a ponta do dedo.
Seph entrelaou os dedos e fitou o cho.
        Quase todas as noites agora.
        Voc deve ser duro de dobrar  disse Jason.  Mas eles 
esto afetando voc, no ?
Seph fez que sim com a cabea, sem erguer os olhos.
        E voc no faz idia do que est acontecendo.  No era 
uma pergunta.
         como se eles estivessem tentando me deixar louco.
        Se acha que esto tentando deixar voc louco,  porque 
esto. Louco o bastante para se juntar a eles.  Jason se 
afastou da parede e veio se sentar junto a Seph na mesa. Ele 
o encarou de perto por um longo minuto.  A sua famlia 
no pode tirar voc daqui?
Seph sacudiu a cabea.
        No tenho nenhuma famlia de verdade. S um tutor. Um 
advogado em Londres.
        O que estava fazendo na biblioteca?
        Estava tentando contatar meu tutor. O dr. Leicester no 
me deixa telefonar pra ele. Eu mandei cartas, mas no tive 
resposta. Ento pensei em mandar um e-mail pelos 
computadores da biblioteca.
Jason balanou a cabea.
        No vai funcionar. Eles juntam tudo e examinam todas as 
mensagens antes de enviar, at na Casa dos Ex-Alunos. Voc 
precisaria usar uma das mquinas da administrao. E pode 
esquecer as cartas. Se no foram direto para o picador de 
papis,  porque o Leicester est lendo-as na cama.
Seph pestanejou. Jason Haley era direto, confivel, 
convincente.
        E quanto a voc? Por que voc no se juntou?
Jason se levantou.
        Olha, me avisaram para no ter nenhum contato com 
voc. Se descobrirem que estivemos juntos, vai ser o diabo.
        Est dizendo que posso acabar como o Sam?
Jason esfregou o alto do nariz como se doesse.
        Sim. E eu tambm.  Ele pigarreou.  De qualquer 
modo, foi bom conhecer voc, Seph. Boa sorte.
Ele se virou. Seph interps-se entre Jason e a sada, e 
encostou as costas na porta.
        No. Me diga o que est acontecendo. No posso lutar 
contra eles se no souber contra o que estou lutando. Se eu 
ficar aqui por muito mais tempo, vou enlouquecer.  Ele 
olhou em redor em busca de uma arma.  Se no me ajudar, 
vou contar pra eles sobre o lance da invisibilidade. No 
tenho nada a perder.
Jason ficou parado, as mos nos bolsos, os lbios apertados, 
olhando para o lado como se pudesse encontrar uma 
resposta escrita na parede.
        Escute  disse ele aps uma longa pausa.  Deixe-me 
pensar a respeito. Encontre-me na floresta junto  capela ao 
ar livre, s seis. E  melhor no deixar ningum seguir voc.
Seph concordou com um gesto de cabea e se afastou. Jason 
passou por ele e foi embora.

Na noite seguinte, Seph saiu do dormitrio, evitando as 
trilhas e cortando caminho pela floresta. O ar estava frio e 
lmpido, fazendo-lhe ccegas no nariz, e sua respirao 
emergia em nuvens de vapor. O sol de inverno j se pusera, 
e a lua ainda no havia nascido, mas a neve refletia qualquer 
luz e tornava fcil encontrar o caminho atravs das rvores.
Trevor havia dito que Jason estava com os ex-alunos. Mas 
Jason dissera que no, e Seph no o tinha visto na cerimnia 
na floresta nem no jantar. Era como se houvessem 
escondido Jason de Seph, e talvez de todos. Por que haviam 
dito a Jason para ficar longe dele?
Agora Jason queria que Seph o encontrasse na capela ao ar 
livre. Seph no podia deixar de se perguntar se no era uma 
armadilha.
Ele se aproximou da capela pelo lado direito da floresta. 
Cercada por altos pinheiros, tinha a aparncia de uma 
catedral primitiva. Algum havia estado l antes dele. A neve 
cobriu os bancos nos fundos, mas vrias fileiras de pedras na 
frente haviam sido limpas. A clareira era cruzada por trilhas, 
e na neve em torno dos assentos viam-se marcas de muitos 
ps. A idia de uma armadilha retornou.
Ele subiu na plataforma de pedra. Havia sinais de atividade 
recente ali tambm. Algum havia construdo um anel de 
pedras cinzentas desgastadas no centro e deixado restos 
enegrecidos de uma fogueira dentro dele. Teria sido outra 
cerimnia? A fogueira devia ter sido feita naquela semana, 
pois havia nevado alguns dias antes do Natal.
Seph estremeceu, e no devido ao frio. O vento suspirou por 
entre as rvores.
Ele pegou um galho cado e mexeu nas cinzas e carvo na 
lareira improvisada. Algo reluziu sob o plido luar filtrado 
pelas rvores. Seph pescou o objeto com o galho e ergueu-o. 
Era uma corrente de ouro com um pingente, escurecido pelo 
calor do fogo. Parecia familiar, mas no conseguiu se lembrar 
de onde o vira. Ele o guardou no bolso.
        Algum estava celebrando o solstcio.
Seph virou-se e viu Jason a poucos metros de distncia. A lua 
estava por trs dele, ocultando-lhe o rosto, projetando uma 
sombra alta e angulosa que se estendia por sobre a pedra em 
direo a Seph. O cabelo cheio de gel pairava sobre a cabea 
como uma coroa. Parecia um xam de uma tribo antiga, 
vestindo uma jaqueta de couro e cala jeans.
        O solstcio?
Jason assentiu com a cabea.
         a melhor poca para conjurar a magia antiga.  melhor o 
Leicester ter cuidado ou pode acabar se queimando.  
Agachando-se, ele pegou um pedao de madeira do fogo e 
guardou-o no bolso da jaqueta.  Estou surpreso de que no 
tenham limpado isso.
Ele se sentou em um dos bancos de pedra, sua sombra se 
comprimiu, e ento Jason gesticulou para que Seph se 
sentasse junto a ele. Com cautela, Seph obedeceu.
Jason fitou a lareira fria por um longo instante, um msculo 
pulsando no maxilar. Mas quando comeou a falar, as 
palavras jorraram, como se ele j houvesse tomado uma 
deciso e s quisesse acabar logo com aquilo.
        Olha. Vou contar algumas coisas pra voc. Mas  melhor 
que saiba que vou ser morto se o Leicester sequer suspeitar 
disso. Deus sabe o que ele vai fazer com voc. Depois do que 
aconteceu com o Sam e o Peter, jurei que trabalharia 
sozinho.  Ele fez outra pausa.  Por isso o que estou 
dizendo  que, se eu ajud-lo, e voc abrir a matraca quando 
o Leicester torcer o seu brao, eu te mato.
Jason abriu os olhos e olhou diretamente para Seph, que 
acreditou no que Jason Haley dissera.
- Portanto, a pergunta : voc  forte o bastante pra dizer 
no a ele?
Os olhos de Jason eram como cristais azuis brilhantes.
Seph fez que sim com a cabea. J havia dito no a Leicester 
e estava pagando o preo por isso, todas as noites.
        timo  disse Jason. Ele ficou pensando por um mo-
mento, como se no tivesse certeza de por onde comear. 
 O quanto voc sabe sobre as ordens mgicas?
        Um pouco. Ningum me treinou, se  o que quer dizer.
Jason sorriu.
        Sem brincadeira, eu vi o seu trabalho. Muito bom o que 
voc aprontou no laboratrio de qumica.
        Voc me disse que tinha algo a me dizer.
O sorriso de Jason se foi.
        Muito bem. O Leicester est tentando obter o controle 
sobre magos jovens e ignorantes como voc.  Jason 
lanou-lhe um olhar de esguelha.  Magos nascidos em 
famlias de Anaweirs. Em geral, ele consegue o apoio dos 
desordeiros tpicos. Muitos so enviados pelos tribunais. O 
programa aqui funciona bem pra eles. O Leicester mostra a 
eles alguns de seus vdeos noturnos e eles se acomodam. Por 
isso a taxa de sucesso  bem alta.  Jason ergueu-se do 
banco de pedra, andando de um lado para o outro na frente 
do estrado.  Mas de vez em quando ele encontra uma 
prola dentro da ostra. Como voc, Seph.
Seph indicou a plataforma de pedra com a cabea.
        Ele me trouxe aqui depois que eu cheguei. Eu era o 
convidado de honra em algum tipo de... de ritual.
Jason apoiou a mo no altar.
         Magia Antiga. Ele quer que voc se conecte a ele. Voc 
viu os professores e os ex-alunos. Todos antigos alunos, 
todos magos, todos sob o controle do Leicester. Acho que  
fcil convencer a maioria deles. O cara  adolescente, esteve 
encrencado por quase a vida toda, e ele promete fazer dele 
"um dos mais poderosos praticantes de magia da nossa era". 
Ou seja, para que ler as letrinhas midas?
Jason havia imitado com perfeio o sotaque pomposo de 
escola particular britnica do dr. Leicester, e Seph no pde 
conter uma risada.
        O que ele quer com eles?
        No sei exatamente  admitiu Jason.  Mas s com uns 
dois ou trs magos j se tem um exrcito. E ele treina alguns 
deles.  para isso que serve a biblioteca. S magia, venenos e 
encantamentos. Uma seo enorme sobre feitios de ataque. 
Alguns dos ex-alunos passam anos estudando l. O Leicester 
no tem pressa, pois os magos vivem por muito tempo. Ele 
encontra o pote de ouro provavelmente a cada dois ou trs 
anos. Eu cheguei no ano passado como uma espcie de 
bnus, mas as coisas no deram muito certo comigo. Mas 
voc...  Jason deu um sorriso torto.  Poderoso como 
voc? Ele nunca vai deix-lo ir embora.
Seph sentiu-se absurdamente lisonjeado.
        Por que voc acha que sou poderoso?
        Vai por mim.  por isso que voc vem tendo tantos 
problemas. Quando no se sabe usar ou dissipar a magia, ela 
acumula e, depois de um tempo, explode.  como sacudir 
uma garrafa de refrigerante.
        Mas o que ele vai fazer com um exrcito de magos?  
insistiu Seph.
        Voc soube o que aconteceu na Ravina do Corvo?
Ravina do Corvo. Aquela garota, Alicia, havia mencionado 
aquele nome no depsito.
        Algum tipo de torneio?
Jason acomodou-se no banco.
        Detesto ter de dizer isso a voc, mas, em regra, os magos 
so pessoas horrveis. So poderosos, caprichosos, cruis, 
egostas, acostumados a conseguir o que querem. Estou 
sendo generoso. Existem duas grandes Casas de Magos: a 
Rosa Vermelha e a Rosa Branca. Elas comearam a lutar l 
no tempo da Guerra das Rosas, se voc conhece a histria 
britnica. Depois de uns dois sculos de derramamento de 
sangue, elas adotaram um documento chamado Leis de 
Combate. Sem ele, elas teriam se exterminado. Por centenas 
de anos, a nica luta aprovada que eles vm travando  por 
meio do jogo. At nos torneios a luta  travada pelos 
guerreiros, no pelos magos.  uma luta at a morte. Eles 
usam armas medievais, e tudo  realmente organizado 
conforme as regras. A casa vencedora controla o Tesouro: 
artefatos mgicos e coisas assim. Mas existe muito 
derramamento de sangue no-oficial e intriga rolando nos 
bastidores. Eles chamam isso de poltica dos magos.
        Teve esse torneio na Ravina do Corvo na ltima primavera 
 continuou Jason.  Um exrcito de fantasmas apareceu, 
os jogadores se revoltaram, e as regras foram alteradas. Eles 
estabeleceram um santurio... em Ohio, imagine s. Numa 
cidadezinha chamada Trinity. Desde ento, as Rosas vm 
conspirando, tentando descobrir como manter o controle do 
Tesouro e recuperar o controle sobre as outras ordens.  
Ele fez uma pausa.  Voc sabe sobre as outras ordens?
Seph assentiu.
        Feiticeiros, adivinhos, guerreiros e encantadores. Sei 
bastante sobre feiticeiros. Mas menos sobre os outros.
        Eles tm sido dominados pelos magos, porque os magos 
conseguem moldar a magia com feitios. Mas cada um deles 
tem seu talento especial. Os feiticeiros so bons com 
materiais, objetos mgicos, poes, plantas e essas coisas. Os 
adivinhos tm o dom da profecia. Os guerreiros arrasam 
numa luta. Os encantadores...  Aqui ele deu um sorriso 
sonhador.  Os encantadores tm o dom do carisma. Eles 
confundem a mente e estimulam os... ahn... sentidos.
Seph jamais ouvira as ordens sendo descritas daquele jeito 
antes.
        Certo.
        Nunca encontrei uma encantadora - disse Jason, 
melanclico.  Enfim,  isso. As Rosas criaram algo 
chamado Conselho dos Magos, supostamente para facilitar o 
planejamento do Conselho das Ordens exigido pelas novas 
regras. Tambm tem uma rede inter-ordens clandestina 
liderada por algum chamado Drago. Eles conseguiram 
manter as Rosas ocupadas lutando entre si. Eles interceptam 
mensagens, plantam mensagens falsas, explodem coisas. 
Depois que o Conselho se recusou a abrir mo do Tesouro, 
os agentes do Drago comearam a invadir arsenais secretos 
por todo o mundo. Quando eu sair, vou me juntar a ele. Ou 
ela. Imagino que qualquer inimigo do Leicester seja meu 
aliado.
        Ento o Leicester est trabalhando para as Rosas?  
indagou Seph.  Fiquei com a impresso de que no.
        O Leicester est mancomunado com um outro mago 
poderoso chamado D'Orsay, que  o Mestre de Jogos do 
Conselho. Eles tm reunies aqui de vez em quando. Esto 
planejando algo, e com certeza tem algo a ver com os ex-
alunos. Pode ser a guerra dos magos, tudo de novo.
        Como voc veio parar aqui?  indagou Seph.
Jason encurvou os ombros e desviou o olhar.
        Sou o produto de um casamento hbrido. Minha me era 
mestra em Magia Restrita. Uma especialista em 
espiritualidade e Magia Antiga. Meu pai era Anaweir. Ele no 
se sentia muito confortvel com o oculto, por isso ela era 
discreta ao utilizar seu dom. Quando eu pedia, ela me 
ensinava alguns feitios simples, tipo como usar talisms. 
Coisa de criana, em geral. Levei muito tempo pra entender 
que a magia estava em ns e no nas ferramentas e 
encantamentos. Ela morreu quando eu tinha 13 anos. Bem 
jovem para uma maga.  Ele parecia estar escolhendo as 
palavras com cuidado.  De qualquer maneira, meu pai se 
casou de novo, dessa vez com uma mulher Anaweir. Eles 
eram felizes, mas eu estava furioso. Minha me tinha largado 
essa carga enorme sobre mim e no havia ningum com 
quem eu pudesse conversar, ningum pra me ensinar. Eu 
no me dava bem com a minha madrasta.
O rosto dele se contorceu com a lembrana de uma dor 
antiga.
        Os dois agiam como se eu fosse louco ou perigoso, ou algo 
assim. Provavelmente tinham razo. Eu sabia como ficar 
longe de encrenca, mas no fiquei. A coisa acabou nos 
tribunais. Ento eles me mandaram pra c. Eu pensei mesmo 
que poderia ser... melhor. Fugir daquilo, digo.  Ele riu com 
amargura.  Eu estava errado.
        H quanto tempo est aqui?
        Estou no terceiro ano. Cheguei no meio do segundo.
        Por que voltou pra c?  indagou Seph.  Eu faria 
qualquer coisa pra sair daqui.
        Eu nunca sa. Eles me mantiveram aqui por todo o vero, 
em nome de um suposto trabalho de recuperao.  Jason 
revirou os olhos.  Aquilo foi uma delcia. Eu, o Leicester e 
os zumbis do Clube dos Ex-Alunos. Ele me pegou tarde 
demais. Eu sei demais sobre Magia Antiga pra concordar 
com qualquer tipo de conexo.  Ele remexeu no bolso da 
jaqueta, puxou um mao de cigarros. As mos tremiam, e ele 
precisou de trs tentativas para acender um fsforo. A 
chama realou os traos angulares do rosto dele.  Voc v, 
eu sou como voc, Seph. Ningum para acender a droga da 
luz da varanda para mim.
No havia nada a ser dito em resposta quilo, por isso Seph 
no disse nada.
Jason agitou a mo para afastar a fumaa e a emoo.
        Droga. No tinha a inteno de ficar todo sentimental. 
Enfim. No vou ficar por muito tempo. Estou aqui por dois 
motivos. Um, estou aprendendo magia, e a biblioteca  
fantstica. Dois, estou tentando descobrir o que o D'Orsay e 
o Leicester esto planejando. Se quero me juntar ao Drago, 
imagino que seja melhor eu levar algo para contribuir.
Seph estudou-o com ceticismo.
        Como vai fugir? Tenho tentado sair desde setembro. 
Mesmo quando consigo chegar nos limites do campus, no 
consigo passar do muro.
         um muro mgico. Uma barreira mgica  explicou 
Jason, que parecia gostar do papel de especialista.  Nunca 
vai conseguir chegar perto o bastante para escalar, e pode 
esquecer a idia de achar o porto.
        Ento como  que vai fugir?
        Essa  uma das coisas que estou pesquisando. Aquele 
maldito no vai me segurar aqui quando eu estiver pronto 
para ir.
Jason tinha uma confiana despreocupada que Seph 
invejava.
Seph repassou sua lista mental de perguntas.
        Se a sua me era maga, quer dizer, se mulheres podem ser 
magas, por que o Leicester abriu uma escola s para rapazes?
Jason riu com desdm.
        Isso provavelmente tem mais a ver com a atitude do 
Leicester em relao s mulheres do que qualquer outra 
coisa. Ele no  nenhum defensor da igualdade, se entende o 
que quero dizer.
        Como  que voc faz aquela coisa na biblioteca? O lance 
da invisibilidade.
        Imperceptibilidade.  um feitio que age no observador. 
Uma diferena sutil. O que  invisvel? Voc? As suas 
roupas? As coisas que voc est carregando? O feitio de 
imperceptibilidade exige um talism. Um artefato de magia. 
O Barber e o Conroy no perceberam a gente, mas ns no 
mudamos. O nico problema  que no d pra lanar feitios 
quando se est imperceptvel. J que feitios so 
perceptveis,  claro.
 claro.
        Como  que o Leicester faz aquilo? Os pesadelos, digo.
Jason deu de ombros.
        Ele  mago.  um feitio de algum tipo, provavelmente 
falado. No deve ser to difcil, acho, j que  usado contra 
pessoas sem nenhum treinamento.
        No entendo. Ele  um mago treinado. Tem de haver uma 
outra maneira de conseguir o que ele quer.
        Ele pode usar a Alta Magia para enlouquecer voc, mas 
no para fazer voc ceder. Conexes so complicadas. 
Precisam ser voluntrias. Alm do mais, as conexes so 
mtuas. Por isso h sempre o risco de que ele encontre um 
mago mais poderoso do que ele, e a ele vai estar frito.
Ante o olhar de incompreenso de Seph, Jason acrescentou, 
com impacincia:
        Isso  Magia Antiga. Ele usa porque outros magos no 
conhecem muito bem, mas ele tambm no  um 
especialista.
        Qual  a diferena entre Magia Antiga e Alta Magia?
        Magia Antiga  mais bsica,  o que os especialistas em 
Magia Restrita e os magos de segunda categoria usam. 
Envolve sacrifcios de sangue e esse tipo de coisa.
        Tem aquele cajado que ele usa na cerimnia.
        . Provavelmente tem algum elemento mgico nele. Voc 
sabe, uma escama de drago ou algo assim.
Seph no sabia dizer se ele estava brincando ou no. Enfiou 
as mos geladas nos bolsos.
        O que aconteceu com o Sam e o Peter?
        Sam e Peter.  Jason desviou o olhar e chutou uma massa 
de gelo que se formara sob o banco. Ela explodiu em 
fragmentos de gelo cintilante.  Eu tinha planejado uma 
revoluo. Era evidente que os ex-alunos se sentiam mal e 
que os Anaweirs estavam com medo. Imaginei que, se todos 
nos juntssemos, poderamos vencer. O Peter era o nico 
outro aluno dotado que no tinha se juntado. O Sam era o 
melhor amigo do Peter. Anaweir, mas destemido. Eles 
concordaram.  Jason ficou em silncio por um momento, 
fitando os assentos, desolado.  Estvamos condenados 
desde o princpio. Os ex-alunos estavam totalmente sob o 
controle do Leicester. Magicamente, pelo menos. Mais do 
que inteis. Algum contou ao Leicester. Ele ameaou matar 
o Sam, e o Peter se rendeu e concordou com a conexo.  
Jason sorriu com amargura.  Depois disso, o Peter 
precisava aprender uma lio, e o Sam era descartvel, por 
isso foi morto por eles.  Ele ergueu o olhar para Seph.  
Antes que pergunte, no, no tenho como provar. Mas  
verdade.
        O que ele fez com voc?  Parecia uma pergunta pessoal, 
mas Seph tinha de perguntar.
        Bem... Ele no me matou. Sou valioso demais como um 
trunfo, potencialmente, pelo menos. Alm disso, ele e os 
amigos dele so bastante espertos para usar punies fsicas 
que deixem marcas. Mas, como voc sabe, ele pode ser bem 
criativo.
Jason engoliu em seco e fitou a neve no cho.
Seph estremeceu, olhando para capela em torno.
        Como voc consegue? Como durou tanto tempo? Ele tem 
ficado em cima de mim noite e dia, com sonhos e 
alucinaes. Estou literalmente enlouquecendo. No sei 
quanto tempo mais consigo agentar.
Saber que Leicester voltaria em poucos dias no o fazia se 
sentir nem um pouco melhor.
        Voc prometeu que no cederia, lembra? Ns dois vamos 
estar fritos se voc ceder.
        Estou fazendo o melhor que posso.
Jason fumou em silncio por alguns minutos, lanando as 
cinzas na neve. Parecia se debater sobre uma deciso 
importante. Finalmente, ele deu de ombros.
        Est bem. J que comecei,  melhor ir at o fim.  Ele 
fitou os cus.  Olha, Seph, eu posso ensinar voc a lidar 
com os sonhos. Mas se o Leicester descobrir que estou 
ajudando voc, ns dois vamos acabar no exrcito de zumbis 
dele.
Seph endireitou-se, subitamente esperanoso.
        Se eu pudesse pelo menos dormir um pouco, acho que 
poderia segurar as pontas indefinidamente  disse ele.
Jason deu uma longa tragada no cigarro, soltando uma espiral 
de fumaa.
        Como posso saber que voc no  um espio do Leicester?
Seph deu de ombros.
        Eu estava pensando a mesma coisa de voc.
Jason ps a mo no ombro de Seph e olhou-o nos olhos.
        Acho que voc  o que diz ser  disse Jason por fim.  
Voc no tem aquele olhar abobado que estou acostumado a 
ver. Tudo bem.  Ele se levantou, dando um sorriso torto, e 
apagou o cigarro.  Agora vou levar voc at o meu covil.
Eles caminharam pela floresta em direo  Casa dos Ex-
Alunos, seguindo a trilha que Seph abrira na neve ao sair. 
Quando o vento alcanava os topos dos pinheiros, a neve 
caa em cascata, e parte dela se insinuava por sob o colarinho 
da jaqueta de Seph. Sob o cu lmpido, o calor do corpo dele 
era drenado para fora, e ele tremia.
A jaqueta leve de Jason estava aberta, e ele no reagia ao frio 
de modo algum. Parou prximo ao limiar da floresta.
        Segure o meu brao e fique quieto.  Jason murmurou as 
palavras da magia e desapareceu, mas Seph podia sentir o 
brao dele sob os dedos.  Ningum vai notar voc tambm 
 disse a voz.
O invisvel  ou melhor, imperceptvel Jason  guiou Seph 
para fora da floresta e atravs do gramado da Casa dos Ex-
Alunos. Eles entraram no saguo da frente e passaram pelo 
salo. Martin e Peter estavam estirados em frente  televiso, 
jogando cartas, mas no os viram passar. Jason levou Seph 
para a escadaria nos fundos do prdio, e eles desceram at o 
poro.
Havia salas de musculao ao p da escadaria, depois mais 
escritrios e depsitos. Jason passou por eles seguindo por 
dois corredores que se entrecruzavam at uma porta. Esta se 
abriu, e Seph foi empurrado para dentro. A porta bateu atrs 
dele, e um ferrolho fechou-se por dentro. Escutou mais um 
pouco de latim embaralhado e Jason reapareceu, rindo da 
expresso surpresa no rosto de Seph.
        Se eles tm cmeras em todos os lugares, no tem medo 
de sermos encontrados aqui?  indagou Seph, olhando para 
o quarto em redor.
        Oh, eu dei um jeito nisso. Forneci a eles som e vdeo 
alternativos. Os magos chamam isso de glamour.  um 
feitio sensorial que funciona quer voc esteja l, quer no.
Jason apertou um boto no tocador de CD e msica ir-
rompeu dos alto-falantes. Apesar de ser no poro, o quarto 
era confortvel. Jason tinha sua prpria geladeira e um 
banheiro privativo. Ladrilhos de cermica cobriam o piso, e 
uma srie de prateleiras, a maioria vazia, alinhava-se nas 
paredes. Uma mesa de computador ficava contra a parede 
oposta. As paredes vazias estavam cobertas de psteres de 
msica.
Jason apontou para uma cadeira estofada.
        Sente-se.
Seph deixou-se cair na cadeira.
        Por que voc est aqui, se no  um dos ex-alunos?
        O Leicester precisa me manter longe de novatos como 
voc. Eles acham que podem ficar de olho em mim desse 
jeito. At onde sabem, passo a maior parte do meu tempo 
me remoendo no meu quarto.  Ele abriu a geladeira e 
remexeu l dentro.  Quer beber alguma coisa?
        Refrigerante est bom.
Seph pegou a lata de refrigerante de laranja que Jason lhe 
estendeu.
Jason sentou-se na cama e apontou para a prateleira de CDs 
junto do aparelho de som.
        Escolha alguma outra coisa, se no gosta de punk irlands.
Havia um tom ansioso na hospitalidade dele que sugeria que 
Jason tambm se sentia sozinho.
        Isso a est timo.  Seph fez um gesto indicando o 
quarto.  Belo lugar.
        Para uma priso.  Jason se inclinou para a frente.  
Agora, sobre os seus sonhos. Se eu ensinar a voc como eles 
podem ser bloqueados, no pode haver mudana alguma no 
seu comportamento, entende? Voc tem de convencer o 
Leicester de que continua no limite e est comeando a 
ceder. Se voc comear a saltitar pelo campus, feliz e 
despreocupado, ele vai saber que alguma coisa est 
acontecendo.
        No acho muito provvel que isso acontea.
        O lance  que voc tem de seguir as instrues, seno 
pode acabar morto.
Jason enfiou a mo no colarinho da camisa e tirou um objeto 
preso a uma corrente ao redor do pescoo. Ele o tirou por 
sobre a cabea e passou-o para Seph.
Era um crculo de pedra, mais pesado do que Seph esperara, 
a julgar pelo tamanho, num tom opaco de preto. Estava 
coberto de leves marcas rabiscadas na superfcie.
Havia uma sensao de profundidade naquilo, como se Seph 
estivesse olhando por uma janela. Mas, quando espiou pelo 
centro, estava olhando para... nada. Quando moveu a mo 
por trs dele, continuava no havendo nada.
        O que  isso?  indagou ele, tentando devolver o objeto a 
Jason.
O outro sacudiu a cabea.
        O termo genrico  dyrne seja, que significa pedra do 
corao, ou pedra secreta. So objetos que agem como 
dispositivos de auxlio aos dotados. Foram feitos por fei-
ticeiros h muito tempo. Os feiticeiros so especialistas, 
quando se trata de materiais. Mas ningum sabe mais como 
fazer uma dyrne seja.  Jason foi em frente, empolgando-se 
com o assunto.  Este aqui  chamado de "portal".  uma 
pea da coleo da minha me.  magia bem antiga, no 
muito conhecida hoje em dia. Nem sei todas as coisas que 
pode fazer. E posso garantir a voc que no tem nada sobre 
isso na biblioteca dos ex-alunos.  Jason bufou em desdm. 
 O dr. Leicester se considera um acadmico, mas se mete 
com coisas que no entende.
        Mesmo?
Seph tocou o talism com a ponta do dedo, como se o objeto 
pudesse mord-lo.
        Os portais so usados para iluses e viagens espirituais  
explicou Jason.  Eu uso pra lanar o feitio de 
imperceptibilidade. Os sonhos so s um tipo de qumica 
mental. Voc vai usar isso para se afastar do seu corpo e 
assim poder fugir dos encantamentos do Leicester. Vou 
repassar o feitio at voc aprender. Coloque o portal na 
mesa enquanto estiver praticando. A gente no quer que 
nenhum acidente acontea.
Seph apressou-se em depositar a pea sobre a mesa, 
resistindo ao impulso de limpar as mos nos jeans.
In terrenus sanctum. O feitio era num tipo de latim 
bastardo. No era muito difcil. Seph sempre tivera facilidade 
com lnguas. No levou muito tempo para dominar o 
encantamento. Teve de diz-lo umas cinco vezes 
corretamente antes que Jason estivesse satisfeito.
        O que significa?  perguntou Seph.
        Para dentro do santurio  respondeu Jason.  Da 
maneira que entendo, voc recua pra dentro da sua Pedra 
Weir. Onde o Leicester no pode se intrometer. O talism 
permite que voc v e volte. Antes de ir, precisa decidir 
quando quer retornar. Se no fizer isso, bem, voc nunca 
volta. Agora coloque o portal por baixo da camisa  disse 
ele, apontando para a dyrne seja.
Seph pegou o portal de cima da mesa e passou a corrente ao 
redor do pescoo. Enfiou a pedra por dentro do colarinho da 
blusa de modo que lhe tocasse no peito. Ele esperava que 
fosse fria, mas a sentiu quente e pesada contra a pele.
Jason apontou para a cama.
        Agora deite-se e me diga por quanto tempo quer dormir.
        Temos de fazer isso agora?  disse Seph, obedecendo 
ainda assim.
        No se preocupe  sussurrou Jason.  Confie em mim.
        Uma hora, ento.
        Uma hora.  Jason correu o dedo pelas runas na dyrne 
seja.  Essas inscries podem ser lidas como nmeros, se 
souber como ler. Por exemplo, este aqui  o um. Voc pode 
escolher uma, duas, trs horas, e assim por diante. Eu 
consigo fazer isso at no escuro, mas no recomendo que 
voc tente.  Ele sorriu.  A magia  um tipo de lance 
antitecnolgico. O que significa que no  exata. Mas o 
tempo passa rpido. Agora diga o feitio. No precisa dizer 
em voz alta.
"Muito bem", pensou Seph. Escolher uma hora e dizer o 
feitio. Ele tocou o crculo de pedra como Jason fizera, 
encontrou o smbolo para uma hora e pronunciou o feitio 
cuidadosamente, movendo os lbios sem emitir som.
Seph sentiu como se tivesse sido mergulhado numa piscina 
gelada. O choque arrancou-lhe a respirao e o sangue do 
corpo. Ento o frio sumiu e Seph sentiu-se leve, muito leve, 
um vapor, uma idia no vcuo, um brilho na escurido. 
Livre. Estava consciente de um limite, um confinamento, 
nada mais que uma maior densidade do ar.
Percebeu um calor que se espalhava, um formigamento nas 
extremidades, sensaes que fluam. Abriu os olhos e viu 
Jason estirado na cadeira, de fones de ouvido, os dedos 
unidos formando uma torre, estudando-o.
        No funcionou  disse Seph.
Jason riu e tirou os fones de ouvido.
        Voc apagou por uma hora. Olhe no relgio.
Seph olhou. Passava das nove horas. Ele piscou, abriu a boca, 
fechou-a novamente.
Jason parecia satisfeito com a reao de Seph.
        No  bem como dormir, mas  parecido o suficiente. D 
pra descansar um pouco. A mente fica a salvo do Leicester.
        E d pra fazer isso por oito horas?
        Ou dez  disse Jason.  Aqui, eu mostro pra voc.  
Ele apontou para os smbolos relevantes no portal.  Mas  
melhor que ningum descubra que voc apagou, j que vai 
parecer que voc est morto. Ento  bom trancar a porta 
antes de usar o feitio e no planejar dormir demais.
"Jason tinha razo", pensou Seph. Dormir sem sonhar. Era 
um milagre. Mas no teria certeza at que tentasse passar a 
noite. Sua mo encontrou a pedra, traou o formato dela sob 
a blusa.
        Voc tem mais desses?  indagou ele, sentindo-se 
esperanoso pela primeira vez em muito tempo.
        Fique com esse. Eu tenho outra coisa que posso usar. S 
no v perd-lo. Como eu falei, no se faz mais dessas 
pedras.  Ele franziu o cenho, mordendo o lbio inferior. 
 Vamos ter de construir um glamour para que Leicester se 
convena de que voc continua sonhando.
Seph se empertigou.
        Pensei que voc no soubesse muito sobre magia.
        Minha me se especializou em iluses, glamoures, 
espiritualidade, viagem fora do corpo usando talisms  
replicou Jason.  Eu cresci no meio disso tudo. Infeliz-
mente, ela nunca me ensinou muito sobre como matar 
pessoas.
Seph ergueu os olhos, assustado, mas Jason fitava as prprias 
mos, e Seph no pde lhe ver a expresso.
        O que mais voc pode me ensinar?  perguntou Seph.
Jason deu de ombros.
        Como eu falei, no sei muito. Posso ensinar o que sei com 
prazer. Mas voc no pode sair pelo campus se exibindo. 
Lembre-se do que eu disse: no que se refere ao Leicester e 
todos os outros, voc precisa continuar parecendo assustado 
e estpido.
        Tudo bem  replicou Seph.





Captulo Oito
O Portal

Jason passou uma hora ou mais no quarto de Seph, 
caminhando de um lado para o outro, tecendo o tal glamour, 
como ele chamava. Primeiro bloqueou as cmeras, depois 
construiu um complicado feitio de mltiplas camadas, 
parcialmente ligado ao feitio de sonho que era lanado 
sobre Seph. Quando terminou, o quarto de Seph era uma 
fortaleza contra olhos curiosos, e os sonhos de Seph 
voltaram a pertencer a ele mesmo.
Seph usava o portal quando ia para a cama. Deitava-se, 
escolhia a durao de sua ausncia e construa o feitio em 
sua cabea. s vezes ele acordava quando o feitio perdia o 
efeito e ficava quieto no escuro. s vezes continuava 
dormindo. Jason avisou-o para no usar o feitio duas vezes 
na mesma noite.
 Voc sabe quando voc vai apertar o boto de soneca do 
despertador e erra? Se voc errar esse, nunca vai acordar.
Quer fosse a magia da pedra, quer o feitio que Jason lhe 
ensinou, ou ambos, o processo dava resultado. O portal era o 
talism que mantinha os sonhos  distncia, e Gregory 
Leicester fora da cabea de Seph enquanto o feitio estivesse 
atuando. s vezes os sonhos vinham perto da manh, depois 
que ele retornava. s vezes o apanhavam no meio do dia. 
Mas conseguir dormir tranqilamente por seis ou oito horas 
e manter os pesadelos distantes quando queria fazia toda a 
diferena. Antes do encontro na biblioteca, Seph sentira que 
estava se esvaindo, como se fosse deixar de existir em pouco 
tempo. Agora se reconstrua aos poucos, e a mente estava 
mais lcida do que estivera desde o Dia de Ao de Graas.
Jason tinha um segundo pingente de pedra, de forma 
hexagonal, e que servia para alguns dos mesmos propsitos. 
Ele usava o feitio de imperceptibilidade para perambular 
por todo o campus  na espreita, como ele dizia , 
enquanto os glamoures convenciam os administradores da 
escola de que ele estava entocado no quarto. Ele passava a 
maior parte do tempo na biblioteca, estudando os feitios 
que Leicester havia reunido para os ex-alunos.
Seph nunca sabia quando Jason estaria esperando do lado de 
fora de seu quarto de manh, ou quando tocaria em seu 
ombro ao cruzar o campus.
 Imperceptvel  melhor que invisvel  dizia Jason.  
Age no observador e no no observado. Desse jeito quem 
est imperceptvel no deixa pegadas.
Assim, o feitio de imperceptibilidade foi o segundo feitio 
que Jason lhe ensinou, para que pudessem voltar escondidos 
ao quarto no poro. Jason aconselhou Seph a pronunciar o 
feitio fora do campo de viso das cmeras onipresentes. J 
era fato conhecido que Seph tinha o hbito de caminhar na 
floresta. Ele adentrava alguns metros na floresta, cada vez 
em uma direo diferente, dizia o feitio e depois voltava 
para a Casa dos Ex-Alunos.
Eles geralmente se encontravam no quarto de Jason, onde 
ele mantinha anotaes e papis sobre sua pesquisa, alm de 
livros sobre feitios. Jason parecia quase to vido por 
companhia quanto Seph, pois no ia s aulas e no interagia 
nem com os ex-alunos nem com os Anaweirs. Ele vivia nas 
sombras  estudando magia tanto quanto podia nos livros e 
espionando Leicester e seus comparsas.
Seph no tinha interesse em entrar em guerra contra 
ningum. Sabia que, passadas as distraes dos feriados, 
Leicester voltaria sua ateno total a ele. Embora Seph se 
sentisse mais forte aps apenas uma semana de sono 
ininterrupto, ele receava no conseguir ocultar o fato do 
diretor.
Os alunos foram retornando durante o ltimo fim de semana 
das frias de inverno. Ao fim do perodo de outono, Seph 
havia se sentido dentro de um abismo. Agora estava ansioso 
para ver Trevor; perguntava-se se o amigo havia contatado a 
firma de advocacia e qual fora a resposta. Passara no quarto 
de Trevor diversas vezes, mas este no havia chegado at 
tarde da noite de domingo.
Uma mensagem fora passada pela rede interna de com-
putadores informando que haveria uma assembleia dos 
alunos no auditrio do prdio de arte e msica, de manh 
cedo, no primeiro dia de aulas do semestre. Assim, na 
manh de segunda-feira, Seph bateu  porta de Trevor logo 
antes das oito horas para irem juntos  assemblia. Ainda 
nenhuma resposta. "Provavelmente j foi, com medo de se 
atrasar", pensou Seph, enquanto andava pesadamente pela 
neve at o prdio de arte.
Quando Seph chegou, o auditrio estava quase lotado, por 
isso ele se sentou nos fundos. O salo reverberava com as 
vozes que resmungavam sobre estar de volta  escola e 
trocavam histrias sobre as frias de inverno. Seph acenou 
com a cabea para Troy e Harrison, que estavam sentados 
mais ao centro. At Jason se esgueirou para dentro da sala no 
ltimo minuto, ocupando um assento junto  porta.
Gregory Leicester subiu ao palco e pediu silncio. Ele olhou 
para os alunos, como se mapeasse os rostos na multido. 
Seph achou que o diretor olhara para ele de um jeito especial 
antes de comear a falar. Perguntou-se se ele notara Jason 
nos fundos.
        Esta manh devo saud-los de volta ao Porto Seguro com 
uma triste notcia. Lamento informar a vocs que perdemos 
um de nossos alunos em um trgico episdio durante as 
frias de inverno.
Seph soube de quem se tratava antes de as palavras serem 
ditas. Quis sair correndo da sala antes de ouvi-las, mas era 
como se estivesse pregado  cadeira.
        Trevor Hill tirou a prpria vida em casa durante os fe-
riados.  Leicester fez uma pausa.  Trevor era um rapaz 
com um grande futuro  sua frente. Estava no segundo ano, 
tirava boas notas, tinha um timo desempenho no Porto 
Seguro. Era especialmente conhecido por sua generosidade 
de esprito, por sua disposio em ajudar os outros sem se 
preocupar com a prpria segurana.  O olhar de Leicester 
se fixou em Seph.  No temos como saber o que ele tinha 
em mente no momento de sua morte. Mas seu falecimento 
representa uma grande perda para a escola e para os muitos 
amigos que possua. Faamos agora um minuto de silncio 
em memria de Trevor Hill.
O silncio caiu sobre o auditrio. Alguns dos alunos 
fecharam os olhos; outros se entreolharam, atnitos. Seph 
afundou na cadeira, os olhos arregalados, observando o 
homem na frente da sala.
Aps um momento, Leicester voltou a falar.
 Ns enviamos um buqu de flores em nome dos 
professores e dos alunos. Tambm temos o endereo de 
contato para aqueles que quiserem enviar um carto ou uma 
mensagem  famlia. Obrigado por terem vindo.
E ento Leicester saiu pela porta lateral.
Seph ficou sem se mexer enquanto o resto dos alunos saa 
arrastando os ps. Uma srie de cenas desconexas corria-lhe 
pela mente, como um vdeo que se repetia 
interminavelmente. Chegou a ter esperanas de acordar e 
descobrir que tudo fora um sonho.
Lembrava-se da ltima vez que vira Trevor no quarto dele, 
antes de partir para as frias: Trevor se oferecendo para 
contatar a firma de advocacia a partir da casa dos pais, e Seph 
concordando. Depois Jason lhe dizendo que todos os quartos 
dos alunos eram "grampeados" pela administrao. Por fim, a 
noite no anfiteatro, em que encontrara a corrente de ouro e 
o pingente nos restos da fogueira. Agora Seph sabia onde os 
tinha visto antes.
Levantou-se da cadeira e forou o caminho atravs de 
pequenos grupos de alunos que ainda permaneciam nos 
fundos do auditrio, cochichando com escndalo e pesar 
voyeurstico. Saiu e rumou para o prdio da administrao a 
passos rpidos, as botas esmagando a neve, a respirao 
formando nuvens no ar lmpido.
Mal passara pela Casa dos Ex-Alunos quando algum o 
alcanou e agarrou-lhe o brao, puxando-o por uma porta.
        Aonde voc pensa que vai?
Era Jason,  claro... O imperceptvel Jason.
Seph tentou livrar o brao.
        Deixe-me em paz.
        Aonde voc vai?
        Ver o Leicester.
Seph golpeou o ar, mas parecia que Jason tinha mais do que a 
cota normal de braos e pernas. Era como lutar com um 
polvo invisvel.
        No, no vai. E  melhor se acalmar ou eu enfeitio voc.
Seph parou de lutar.
        Vamos l para baixo, onde podemos conversar  disse 
Jason, ainda segurando firme o brao de Seph, manobrando-
o pela escadaria.
Uma vez em seu quarto, Jason materializou-se.
        Sente-se  ordenou.
Seph afundou numa cadeira, medindo a distncia at a porta, 
tentando pensar num jeito de passar por Jason.
        Agora me conte  disse Jason, plantando-se no caminho.
Seph tremia de raiva e remorso.
        O Leicester matou Trevor Hill porque ele ia tentar 
contatar o meu tutor.  minha culpa.
Jason inclinou a cabea para um lado.
        Por que o diretor mataria algum por contatar o seu tutor?
        Voc sabe melhor do que ningum.
Jason se inclinou para a frente e ps ambas as mos nos 
ombros de Seph, os olhos azuis faiscando.
        Se voc entrar no escritrio do Leicester com um monte 
de acusaes, a primeira coisa que ele vai pensar : "O que 
aconteceu com o Ingnuo? Com quem ele anda 
conversando? No poderia ser com o Jason Haley, poderia?".
Seph tentou desviar o olhar, mas Jason ainda o segurava.
        E digamos que voc confronte o Leicester e descubra que 
a sua teoria  verdadeira? O que vai fazer a respeito?
Seph no disse nada.
        No est vendo? Cada pedao de informao que der a ele 
 uma arma. E no h nada que voc possa fazer contra ele. 
Nada.
Jason soltou Seph e recuou.
        Voc no entende  disse Seph, as imagens voltando-lhe 
 mente: a carne de Maia se desintegrando sob seu toque. O 
amuleto carbonizado de Trevor em meio s cinzas no 
anfiteatro.  O Trevor tentou me ajudar, e agora ele est 
morto.
Jason deixou-se cair numa cadeira e fechou os olhos.
        Se est me perguntando se acho que o Leicester faria isso, 
eu diria que sim, numa frao de segundo. E por razes 
menos importantes tambm. Ele faria isso porque o Trevor 
era seu amigo e apoiava voc, enquanto o Leicester est 
tentando deixar voc louco.  Jason sacudiu-se, como se 
estivesse tentando afastar uma lembrana.  Nunca se 
pergunta por que eu no ando com os outros alunos? No 
acha que estou cansado de ficar sozinho o tempo todo?
Jason soltou um suspiro, um som longo e magoado.
         porque o Leicester pode atingir a gente por eles. Eu 
convenci o Sam e o Peter a ficarem contra ele. Agora o Sam 
est morto, e o Peter...  A voz de Jason sumiu.
        Voc tem medo dele.
         claro que eu tenho, e voc deveria ter tambm. Os 
Anaweirs so to frgeis...  Ele agarrou os braos da 
cadeira, como que se segurando no assento.  Na ltima 
primavera, eu reclamei deste lugar para o meu pai. Eu me 
queixei tanto que ele decidiu investigar. Ele telefonou para o 
dr. Leicester, fazendo perguntas, e at veio pra uma visita, 
mas no descobriu muita coisa. Todos aqui eram felizes 
menos eu, blablabl. Mesmo assim, meu pai prometeu 
conversar com alguns psicoterapeutas, descobrir se o que 
acontece aqui est conforme as leis. Em menos de um ms, e 
antes de conseguir chegar muito longe, ele morreu de um 
ataque cardaco.
        Voc acha que o Leicester teve alguma coisa a ver com 
isso?
Jason fez um gesto impaciente com a mo.
        O Leicester nunca se deu ao trabalho de tentar esconder 
suas intenes, porque eu j sabia demais quando cheguei 
aqui. No dia em que o meu pai morreu, o Leicester me 
chamou no escritrio dele e me disse quando, como e onde 
aconteceria. Ento ele me fez esperar l at que o 
telefonema chegasse.
Seph engoliu a revolta que lhe subiu  garganta.
        Meu Deus.
        Ele pensou que tinha achado um jeito de me quebrar. E 
quase conseguiu, porque eu sabia que era minha culpa.  
Jason fechou os olhos de novo, e Seph pde ver lgrimas se 
formando nos cantos das plpebras.  Se eu no tivesse sido 
to imbecil quando o meu pai se casou pela segunda vez, no 
teria terminado aqui. Se eu no tivesse reclamado para o meu 
pai, ele estaria vivo hoje.
        Como pode achar que  culpa sua?  sussurrou Seph.  
O Leicester  um monstro.
        Se eu no puder me culpar, ento voc tambm no pode. 
Mas acho que voc entende que, se algum tem um motivo 
pra tentar pegar o Leicester, sou eu.
        Eu no sabia  disse Seph baixinho.  Como voc 
agenta?
        Eu agento porque sei que vou encontrar um jeito de 
pegar o Leicester e o D'Orsay no final. Vou conseguir ou 
morrerei tentando. Continuo aqui porque preciso aprender o 
suficiente pra conseguir. E a vou me juntar a algum 
poderoso e organizado o bastante pra me ajudar. Nesse 
momento, parece que  o Drago, se eu o encontrar.
Ele olhou para Seph.
        O Leicester gosta de fazer as pessoas sentirem dor. Eu 
tenho sido uma fonte de entretenimento pra ele. Ele acha 
que vai me dobrar, no final. Ele tem tempo. Sou rfo que 
nem voc. Ningum liga pro que acontece comigo. Fique 
longe dele. Voc, pelo menos, pode dizer a si mesmo que 
no tem certeza sobre o Trevor, porque voc no tem. Se 
no puder fazer nada a respeito,  melhor no saber.
Jason se levantou e comeou a andar de um lado para o 
outro, um gato na pequena jaula que era o quarto. Ele nunca 
conseguia ficar parado por muito tempo.
 Se o Trevor foi morto porque ia falar com o seu tutor, 
ento o Leicester no queria que isso acontecesse. Aposto 
que toda a histria sobre eles internarem voc  falsa, e o 
Leicester est preocupado com o que poderia acontecer se 
voc contatasse a firma. Talvez a firma seja a sua chave para 
sair daqui.

Com a morte de Trevor Hill, a velha culpa voltou. Trevor 
havia encontrado um meio de sobreviver no Porto Seguro 
at a chegada de Seph. Mesmo sendo Anaweir, ele havia 
arriscado tudo por Seph. Agora os pesadelos de Seph eram, 
em sua maioria, sobre Trevor.
Com a culpa veio um dio por Leicester, que fumegava e 
ardia sob o peito como um incndio numa mina subterrnea. 
Ele comeou a usar o pingente de Trevor com a pedra-portal 
e a cruz de Maia. Imagens de vingana se alternavam com 
sonhos de fuga.
Seph seguiu os conselhos de Jason e manteve distncia dos 
outros alunos. s vezes ele almoava com Troy, Harrison, 
James e alguns dos outros, mas nunca aceitava os convites 
deles para jogar raquetebol ou tnis ou para ir assistir a filmes 
no auditrio. Passava o tempo livre no quarto, lendo, ou 
perambulando pelo campus sozinho.
Seph fazia o melhor possvel para projetar a imagem de estar 
quase sempre fora da realidade. Parou de cuidar da aparncia. 
Os cabelos ficaram compridos e cheios de cachos por falta de 
corte, e raramente se penteava. Ainda tinha alucinaes 
durante o dia; elas chegavam e iam embora sem aviso. s 
vezes ficava ausente durante longos perodos.
Ele resmungava sozinho nos corredores, fugia de fantasmas e 
assistia s aulas como se estivesse num transe. Alguns dos 
outros alunos comearam a v-lo como uma mosca 
capturada numa teia perigosa: chegue perto demais e pode 
acabar preso tambm. Por isso, deixavam-no completamente 
sozinho.
Por outro lado, os ex-alunos continuavam a manter um 
indesejvel interesse em Seph. Aonde quer que ele fosse, 
surgia Warren Barber, oferecendo-lhe ajuda com a tarefa, 
downloads de msica, plulas, schnapps de hortel e 
maconha "da boa" da Amrica do Sul para acalmar os nervos 
de Seph. Bruce Hays e Aaron Hanlon o convidavam para 
comer com eles na sala de jantar dos ex-alunos ou se 
exercitar no centro de musculao no poro. Sob ordens de 
Leicester, sem dvida.
Seph aceitava, na esperana de colher informaes que 
pudessem ser teis. Mas os ex-alunos eram mais resistentes  
magia mental do que os Anaweirs.
Agora que sabia o que estava em jogo, Seph tomava extremo 
cuidado ao usar magia em pblico. Mantinha distncia de 
Leicester, por medo de que o diretor pudesse ver a verdade 
em seus olhos. Ele e Jason passavam o maior tempo possvel 
na biblioteca dos ex-alunos. Jason registrava toneladas de 
notas em uma minscula agenda eletrnica, enquanto Seph 
usava seus conhecimentos de latim para decifrar os 
manuscritos em ingls medieval.
Passavam horas experimentando encantamentos nos cantos 
ocultos do campus, em geral feitios de ataque, proteo e 
influncia. Ganhando maior controle sobre o prprio corpo, 
Seph passou a emitir menos "fascas", como Jason chamava 
as descargas involuntrias de poder. Quando Seph notava a 
tenso mgica se acumulando, encontrava meios de us-la ou 
dissip-la.
Jason era impulsivo e imprudente no que dizia respeito a 
experimentos mgicos. Ele lanava poderosas combinaes 
de feitios sem uma noo clara das conseqncias. s vezes 
Seph se perguntava se Jason queria morrer.
Por sua vez, Seph tentava combinar o conceito de magia 
com matemtica e fsica: a teleologia que ele sempre tomara 
como verdade. Pelo que sabia, a magia fsica era mais til 
para gerar energia: luz, calor e correntes de ar, o movimento 
das molculas que j eram frouxamente agrupadas.
O outro importante papel da magia era influenciar pessoas. 
Como Jason dizia, os Anaweirs tinham pouca proteo 
contra os magos naquele aspecto.
 As mulheres Anaweirs no conseguem resistir aos magos. 
Todo aquele poder mal contido... Elas podem sentir, voc 
sabe. O toque de um mago deixa as mulheres loucas. Esse 
tipo de magia fsica direta  chamado de persuaso.  Jason 
sorriu e entrelaou os dedos atrs da cabea.  Pode trazer 
grandes complicaes.
Jason aparentemente se dava bem com aquele tipo de 
complicao.
Seph pensou nas meninas que lhe respondiam ao toque, ao 
poder que lhe escapava dos dedos. Ele no tinha usado 
aquilo inapropriadamente, tinha?
Sentia-se mais confortvel com os feitios falados, pois podia 
controlar melhor o resultado. Seph adorava a cadncia da 
lngua da magia. Ele saboreava os feitios antigos, 
conjurando as palavras dos antigos magos. s vezes as 
palavras vinham de dentro, como uma fonte borbulhando de 
um lago mais profundo. Nunca antes estivera to 
convencido do poder da linguagem, o salto do smbolo para 
a realidade.
Ele percebia que Jason o observava quando tirava feitios da 
pgina e os moldava, como chamas cintilando no ar.
 Voc realmente tem o dom, Seph  disse Jason certa 
vez.  Voc  mais poderoso do que jamais serei. Se 
encontrasse um professor, aposto que voc conseguiria 
acabar com o Leicester.
O forte de Jason estava na rea dos glamoures: imagens e 
vises ilusrias sem nenhum poder de fogo, exceto a 
capacidade de confundir, distrair, surpreender e assustar. E 
isso era o suficiente. s vezes, na floresta, Seph acabava 
entrando em um dos sonhos febris de Jason Haley. Ele 
encontrara um grifo pastando nas samambaias, um fauno ou 
uma fnix empoleirada no galho de um carvalho, ou um 
grande navio passando pelas rvores, tripulado por sereias 
incrivelmente belas.
Seph perguntou sobre os Livros Weir.
        Voc tem um em algum lugar  disse Jason.  Foi criado 
pela Ordem dos Feiticeiros quando voc nasceu e no pode 
ser destrudo. Se puder encontrar o seu, vai ver que ele 
contm tudo o que voc quer saber sobre a sua famlia.
Jason mostrou a Seph seu prprio Livro Weir. O nome de 
Jason estava gravado na ltima pgina, com os dos pais e 
avs. A genealogia remontava at o sculo X. Ele o mantinha 
trancando, protegido por uma srie de feitios complicados.
        Ningum quer que o Livro Weir caia nas mos do 
inimigo. Com ele, eles saberiam o seu histrico, os seus 
pontos fortes e fracos.
Seph ficou fascinado com a idia de que, em algum lugar, a 
histria dele estava entre as capas de um livro. Se ao menos 
pudesse botar as mos nele!
Pelo fim de abril, a primavera visitava o Porto Seguro em 
frustrantes idas e vindas. A neve derreteu, deixando 
manchas nos locais onde as nevascas mais fortes haviam 
ocorrido, e narcisos reluziam entre as rvores. Gregory 
Leicester tinha visitas tambm. Alguns carros alugados e 
outros com placas de outros estados apareceram no es-
tacionamento, trazendo participantes para o que parecia ser 
uma srie de pequenas reunies. Certa manh, Jason 
interceptou Seph no caminho para a aula, puxando-o para 
uma escadaria.
        D'Orsay est aqui  sussurrou ele.  O Mestre de Jogos 
do Conselho. Vamos.
Em segundos, estavam ambos imperceptveis, cruzando o 
terreno em velocidade, rumando para o prdio da admi-
nistrao.
Aquela era uma reunio bastante privada: apenas Leicester e 
D'Orsay, no escritrio de Leicester no segundo andar, com 
Hays e Barber postados diante da porta como seguranas de 
um clube exclusivo. Seph e Jason tiveram de esperar no 
corredor por duas horas at Martin Hall chegar com o 
almoo. Eles conseguiram se esgueirar pela porta atrs de 
Hall quando ele empurrou o carrinho para dentro.
D'Orsay e Leicester estavam sentados  mesa junto  janela, 
os corpos tensos, os rostos rgidos, como um casal em briga 
interrompido no meio da disputa. Papis estavam espalhados 
pela mesa, e havia um notebook entre eles.
Claude D'Orsay era um mago alto, com cabelo grisalho 
cortado bem rente e roupas feitas sob medida. Exibia uma 
pesada corrente de ouro ao pescoo, o emblema de seu posto 
entre os magos.
Quando a porta se fechou atrs de Martin, Leicester 
sussurrou:
        No posso acreditar que o Drago seja assim to difcil de 
achar. Ele publica mensagens novas todos os dias. Escute 
isso.  Leicester puxou o laptop para si e leu o que estava na 
tela.  " de se perguntar que jogos o Mestre de Jogos anda 
jogando. Fontes informaram ao Drago que D'Orsay marcou 
uma srie de reunies secretas em antecipao  Conferncia 
das Ordens. Se voc no recebeu um convite, sugiro que 
tome cuidado." De onde ele tira essas informaes?
        Suposies e especulao  sugeriu D'Orsay, bebericando 
o vinho.
         mesmo? Ele continua mencionando datas, participantes 
e locais de trs das reunies.
        Deixe-me ver isso.
D'Orsay girou a tela de modo que se voltasse para ele. Ento 
praguejou baixinho e pegou um celular. Discou um nmero 
e falou em voz baixa e urgente. Jason deu uma cotovelada 
em Seph.
Quando D'Orsay guardou o telefone, Leicester disse:
        O tempo est se esgotando para ns, Claude. Graas a ele, 
as duas Rosas esto assassinando uma  outra nas ruas. 
Quanto tempo at que elas venham atrs de ns? Ele sabe 
que estamos nos encontrando fora dos canais usuais. Voc 
prometeu que o pegaria antes da Conferncia.
        Quase o pegamos em Londres. Vamos apanh-lo da 
prxima vez. Nora Whitehead est trabalhando nisso.
Leicester franziu o cenho.
        Nora? Isso  importante demais para confiar a ela. Por que 
voc mesmo no est lidando com isso?
        Eu estou lidando com isso. Nora trabalha para mim.
        Ela no tem nenhuma chance, se tiver de enfrent-lo num 
duelo. Se for quem pensamos que , ele vai faz-la em 
picadinho. E a o que vai ser de ns?
Leicester no parecia to preocupado com Nora quanto com 
a idia de que a presa pudesse escapar.
D'Orsay deu um peteleco num fio solto imaginrio em suas 
calas.
        No seja to dramtico. No estou planejando um duelo. 
No h ningum que ns possamos mandar contra ele, um 
contra um.
        O sujeito no tem famlia? Algum que possamos usar para 
tir-lo do esconderijo?
        Ouvi dizer que todos foram assassinados h muito tempo 
 disse D'Orsay franzindo a testa, como se isso fosse 
bastante inconveniente.  Aparentemente, essa  a origem 
do fanatismo dele. Mas achamos que talvez tenhamos 
encontrado uma vulnerabilidade.
        Uma vulnerabilidade?  Leicester arqueou uma 
sobrancelha, ctico.  Qual?
D'Orsay olhou em volta, como se pudesse haver espies 
escondidos dentro das paredes. Estava claro que a divulgao 
daquela reunio o havia perturbado.
        Ah... vamos ver no que isso d. Vamos descobrir muito 
em breve.
        Muito em breve?  Leicester revirou os olhos.  
Investimos anos neste projeto. Eles j esto perto demais de 
voc. Se nos rastrearem at aqui...
A expresso de D'Orsay mudou de desapontamento para 
irritao.
        Diferentemente de voc, tenho outras responsabilidades. 
Enquanto voc brinca de diretor de escola, eu estou 
tentando agradar sete outros lados, tentando evitar que todo 
esse esquema se desmonte. Lembre-se de que h vantagens 
em ter o Drago por a. Quando desaparecem objetos do 
Tesouro, ele sempre leva a culpa.
Ele se levantou e largou o guardanapo na mesa.
        Ningum quer apanhar o Drago mais do que eu. Mas, no 
momento, eu preciso ir e remarcar trs reunies antes que 
nossos colegas caiam numa armadilha.
Os dois magos olharam-se com antipatia, emitindo leves 
fascas.
        Eu avisarei quando a lista estiver completa  disse 
D'Orsay, enfiando um mao de papis numa valise.
Seph e Jason conseguiram se esgueirar para fora atrs de 
D'Orsay quando este saiu pela porta.
De volta ao quarto de Jason, este borbulhava de excitao e 
preocupao, andando de um lado para o outro.
        Voc ouviu aquilo? "Se voc no recebeu um convite, 
sugiro que tome cuidado." E voc escutou o D'Orsay? Eles 
no sabem quem mandar contra ele... Ele  bem poderoso. O 
Drago opera com uma rede de espies no mundo todo...
        Voc acha que eles sabem mesmo quem ele ?  indagou 
Seph.  Pareciam bem confiantes.
        Eu ouvi boatos.  Jason deu de ombros.  Acho que o 
Drago estaria morto a esta altura, se eles soubessem.
        Ento o Leicester tem internet  murmurou Seph para si 
mesmo, examinando uma pilha de CDs.  Ele deve ter uma 
rede sem fio no escritrio, no mnimo.
        Mas eles acham que tm uma informao sobre ele.  
Jason se apoiou contra o batente da porta.  Eu queria ter 
um meio de avisar o Drago.
Seph escolheu um CD e inseriu-o no aparelho de som.
        Se eu conseguisse entrar no escritrio do Leicester, aposto 
que eu poderia invadir o sistema dele.
        Para avisar o Drago?
        No. Pra mandar um e-mail  firma de advocacia e poder 
sair daqui. E no olhe para mim deste jeito. No quero 
mesmo me envolver na, ahn, poltica dos magos, como voc 
diz. Voc no tem informaes suficientes para avisar o 
Drago, de qualquer jeito. O que voc diria? "Tome cuidado, 
eles esto na sua cola? Fique de olho?"
Jason no estava realmente escutando.
        Talvez seja hora de ir embora. Talvez eu possa sair e tentar 
encontrar o Drago. Contar da reunio aqui, dos ex-alunos e 
tudo o mais. Ver o que ele descobre a partir disso.  Ele 
repuxou a orelha.  Por outro lado, posso ficar por aqui, ver 
o que mais consigo descobrir. Eu gostaria de saber quando 
vai ser essa Conferncia das Ordens da qual eles estavam 
falando.
Seph agarrou-se  idia de ir embora.
        Como voc passaria pelo muro?
Jason sorriu.
        Acho que finalmente entendi aquilo. Barber  o arquiteto. 
Eu o ouvi se gabando disso quando eu estava espionando na 
sala de jantar dos ex-alunos. A eu revirei o quarto dele e 
achei alguns livros sobre o assunto.
        Como  que funciona?
         um muro real, fsico, recoberto com feitios de 
confuso. Por isso ningum consegue se concentrar o 
suficiente pra passar por cima ou dar a volta. Eu juntei uns 
contra-feitios que devem funcionar.
        Devem funcionar  disse Seph com ceticismo.  Ento 
vamos tentar.
Jason sacudiu a cabea.
        No quero dar bandeira para o Leicester antes de estar 
pronto pra ir embora.
        Se voc pode ir embora, ento deve ir de uma vez. Antes 
que alguma coisa acontea.
        Eu realmente no ligo para o que acontecer comigo. 
Desde que eu pegue o Leicester.
Jason acabou decidindo permanecer por mais algum tempo 
para tentar juntar mais notcias que pudesse levar ao Drago. 
Mas Leicester e D'Orsay no se encontraram novamente.
Algumas semanas mais tarde, em certa noite de meados de 
maio, Seph levou seu equipamento de musculao para a 
Casa dos Ex-Alunos, com a inteno de encontrar Jason, a 
fim de estudarem alguns livros que haviam tirado da 
biblioteca. Ele jantou com Martin e Peter, depois passou pelo 
salo e foi para a escadaria. Deu uma olhada rpida em torno 
e pronunciou o feitio de imperceptibilidade. Naquele 
momento, a porta atrs dele se escancarou.
Era Warren Barber. Ele devia ter seguido Seph desde o salo. 
Barber olhou em redor, perplexo. Seph acabara de passar 
pela porta, e agora havia sumido. Seph se perguntou se 
Barber ouvira-o dizer a parte final do feitio.
Barber ficou imvel por um momento, escutando, ento 
desceu as escadas a passos largos com Seph seguindo-o como 
um fantasma. Quando Barber chegou ao poro, olhou de um 
lado para o outro do corredor vazio. Seph entrou na sala de 
musculao. No momento seguinte, quando Barber abriu a 
porta, Seph havia desativado o feitio e estava ajustando os 
pesos do aparelho de remo seco. Felizmente, no havia mais 
ningum l.
        O que voc est fazendo aqui?  indagou Barber, 
vasculhando a sala, as sobrancelhas plidas franzidas juntas 
numa expresso de desconfiana.
Seph travou os pesos no lugar e olhou para Barber, 
arqueando uma sobrancelha.
        Estou... hummm... malhando?
Barber se apoiou contra o batente da porta e acendeu um 
cigarro.
        ? Bom, no est ajudando. Voc parece um saco de ossos.
Seph deu de ombros.
        Me ajuda a dormir.
        Eu tenho coisas que vo ajudar voc a dormir. Do que 
voc precisa?
        No, obrigado.
Barber soltou uma baforada de fumaa.
        O que voc est tentando provar?
Seph parou de lutar contra o aparelho e voltou-se para 
encarar Barber.
        No entendo. Por que isso  to importante pra voc? 
Voc ganha um bnus se eu me conectar ao Leicester?
         mais porque ele vai tornar nossa vida um inferno at 
voc se conectar.
Cuidado. Voc no sabe de nada.
        Por que ele quer tanto isso?  indagou Seph.  No, 
falando srio  acrescentou ele quando Barber revirou os 
olhos.  Eu quero saber.
        Voc no passa de um garoto rico de sangue azul. Acha 
que pode recusar o convite do dr. Leicester como se ele 
tivesse convidado voc pra uma festa. Ele no vai aceitar um 
no como resposta. Se no puder usar voc, vai destru-lo.
Barber apagou o cigarro, girou nos calcanhares e saiu.
Seph esperou por meia hora. Quando espiou o corredor, no 
havia sinal de Barber nem de mais ningum. Ele seguiu pelo 
corredor at o quarto de Jason.
        Desculpe o atraso  disse Seph depois que Jason fechou a 
porta atrs dele.  O Barber quase me pegou.
Seph explicou o que acontecera enquanto Jason tirava livros 
e papis de uma cadeira para que o visitante pudesse se 
sentar.
Jason tirou duas latas de refrigerante da geladeira e passou 
uma para Seph.
        Ele acreditou em voc?  perguntou Jason, franzindo a 
testa
        Acho que sim. Quer dizer, ele saiu meia hora atrs.
Jason comeou a dizer algo mais, mas ento ergueu a cabea 
bruscamente e o sangue fugiu-lhe do rosto.
        Estamos ferrados!
Ele estendeu o brao em direo a Seph, lanando um feitio 
de imperceptibilidade. No mesmo instante, a porta se 
escancarou, a tranca caindo no ladrilho com um som 
abafado. Gregory Leicester estava  porta.
        Dr. Leicester  disse Jason, quase engasgando com as 
palavras.  No ouvi o senhor bater.
        Ol, Jason  disse o diretor, o olhar vagando pelo quarto, 
pousando nas duas garrafas de refrigerante ainda sobre a 
mesa, nas pilhas de livros e papis na escrivaninha.
Ele ficou onde estava, bloqueando o espao da entrada, 
como que para impedir qualquer tentativa de fuga.
Jason e Gregory Leicester se encararam. O ar treme- luziu 
com a tenso entre eles. Jason estava mortalmente plido.
        Jason, o que voc sabe sobre Joseph McCauley?  A voz 
mesclava fogo e gelo, magia e ameaa.
Jason remexeu no brinco, franzindo a testa, fingindo 
esforar-se para se lembrar.
        Ele  aquele de quem o senhor me falou, certo? Ele passou 
um bocado de tempo neste prdio durante as frias de 
inverno. Acho que o vi na sala de musculao.
        Ns temos trabalhado nele o ano inteiro, mas no estamos 
fazendo o progresso que espervamos. Ele est tendo 
alucinaes. Iluses. Demonstrando sintomas perigosos. Mas 
recusa a nossa ajuda. E agora houve uma mudana no 
comportamento dele que me faz pensar que ele tem passado 
tempo com voc.  A voz era gentil na superfcie, mas 
havia ao por baixo.  Voc se lembra da nossa discusso 
sobre a sua influncia negativa nos outros rapazes?
        No sou bobo.
        Espero que no esteja enchendo a cabea dele com um 
monte de conversas sobre conspiraes  continuou 
Leicester.  Ele est extremamente vulnervel agora.
Jason fitou o cho. No disse nada.
        J se esqueceu das conseqncias sobre as quais 
conversamos, tanto para voc quanto pra ele?
        No esqueci  respondeu Jason. Ele olhou Leicester nos 
olhos.  Pode acreditar.
        timo  disse Leicester com suavidade.
Leicester deu outra olhada no quarto, depois foi embora.
Seph suspirou.
        Graas a Deus  disse ele, meio em voz alta.
Seph contou at cinco, ento desativou o feitio. Jason no 
parecia aliviado. Estava ainda sentado na beirada da cama, 
fitando o nada. O rosto tinha uma cor pastosa, e ele tremia.
        Bem, essa foi por pouco  disse Seph.
Jason ergueu os olhos como se houvesse despertado 
subitamente de um devaneio.
        Isso no foi por pouco, Seph. Foi bem no alvo.
Ele se levantou e foi at o armrio, vasculhando o interior e 
retirando uma mochila. Puxou o zper e abriu-a sobre a 
cama.
        O que est fazendo?
        Tenho de sair daqui.
        O qu?
        Ele sabia que voc estava no quarto, Seph. Barber deve ter 
ido buscar ele assim que saiu do centro de musculao. Todo 
aquele negcio sobre a sua condio delicada... Aquilo foi 
para voc ouvir.
Jason enfiou seu Livro Weir na mochila, com a agenda e as 
anotaes da biblioteca.
Seph observou o amigo fazendo as malas. Estava levando 
bem pouco: uma fotografia de uma mulher numa moldura, 
uma blusa.
        Como voc sabe?
        Vai por mim. Ns nunca tivemos uma conversa como 
essa. Nunca!  Jason fechou o zper da mochila.  Se voc 
no estivesse aqui, eu provavelmente estaria morto agora. 
Ele no tem certeza do quanto voc sabe. Ele tem 
esperanas de que eu no tenha arruinado voc. Do jeito que 
as coisas esto, eles provavelmente vm me pegar hoje  
noite. Vo esperar at que voc esteja no seu quarto.
Seph sentou-se de novo na cadeira.
        Vou ficar aqui, ento.
Jason riu.
        Voc  inacreditvel, sabia? Vai por mim, voc no quer 
fazer isso. Alm disso, estou caindo fora.
        Ento eu vou com voc.
Jason balanou a cabea.
        No. Voc est mais seguro aqui do que estaria comigo. 
Eles devem estar esperando por mim, mas no vo matar 
voc enquanto acharem que podem convenc-lo. Faa com 
que eles continuem pensando assim.
Seph procurou uma alternativa.
        Estamos estudando magia de ataque h meses. Podemos 
derrot-lo, se trabalharmos juntos.
        Olha, cara, estou lisonjeado.  voc que tem o talento. Sou 
esperto pra danar, mas simplesmente no sou to poderoso 
assim. Seriam dois contra 16, e eles tm treinado h anos. O 
Leicester canaliza os outros de algum modo. No temos 
chance nenhuma. No vou causar a morte de mais ningum.
        Prefiro morrer a ficar aqui.
Jason sacudiu a cabea.
        Escute, voc  duro. Voc se agentou sozinho por 
quatro meses, lembra? Eu ainda no sei como conseguiu. E 
agora voc tem a dyrne seja.  Ele fez uma pausa.  Olha, 
se eu sair, tiro voc daqui. Prometo. Vou contatar a firma de 
advocacia, o que precisar.
Seph engoliu em seco.
        Sinto muito, Jason. Fui eu quem fez voc ser descoberto. 
Primeiro o Trevor, e agora voc.
        Seph, receio que eu no tenha orientado voc de maneira 
apropriada para o seu novo papel.
        Como assim?
Jason sorriu.
        Magos nunca se desculpam... a respeito de nada.  Jason 
lhe deu um rpido abrao.  O que quer que acontea, foi 
bom conhecer voc, Seph. Nunca pense diferente.
Seph ficou sem fala por um momento, a garganta bloqueada 
pela tristeza. Ento perguntou:
        Aonde voc vai? Como posso encontrar voc?
        Se voc sair, procure pelo Drago. Se no conseguir sair, 
virei atrs do Leicester, mais cedo ou mais tarde.
Ele vestiu a jaqueta, pendurou a mochila nas costas, 
pronunciou um feitio e desapareceu.
Captulo Nove
Medidas Extremas

O ritmo normal de vida no Porto Seguro, aps a partida de 
Jason, continuou para todos, com exceo de Seph. Para a 
maioria dos alunos, Jason jamais existira, de modo que 
ningum notou sua ausncia.
Os dias se passaram e no houve notcias dele, nem a firma 
de advocacia deu indicao de ter sido contatada. Seph 
estava cada vez mais preocupado. Ser que Jason tinha 
conseguido passar pelo muro? No obteve nenhuma pista de 
Leicester nem dos ex-alunos. Eles no lhe fizeram nenhuma 
pergunta sobre o desaparecimento de Jason, o que Seph 
encarou como um mau sinal.
Seph continuou a visitar a biblioteca dos ex-alunos, mas era 
um gesto intil. No parecia haver futuro naquilo, nenhum 
objetivo para a magia que ele guardava na memria. Seph 
sentia-se mais sozinho do que antes. Jason havia sido seu 
primeiro professor de magia.
Seu nico professor.
O clima continuava a esquentar. Os alunos se agrupavam sob 
os pavilhes no intervalo das aulas, discutindo ansiosamente 
os planos para o vero. Frisbees voavam sobre as pequenas 
reas gramadas, e as regras de vesturio da escola eram 
desafiadas todos os dias. Seph verificava o correio 
regularmente, na esperana de pelo menos ter notcias da 
firma sobre a programao de vero.
Certa tarde, aps a aula, Gregory Leicester chamou Seph a 
seu escritrio. Seph foi com relutncia. Supunha que uma 
audincia com Leicester no poderia lhe trazer boas notcias. 
Tinha razo.
O diretor afastou-se do computador quando Seph entrou.
        Entre, Joseph  disse ele.  Sente-se.
Ele fez um gesto em direo  mesma mesa a que se haviam 
sentado na noite da chegada de Seph. Seph empoleirou-se na 
beira do assento, apoiando as palmas nos braos da cadeira 
como se estivesse pronto para decolar. Leicester sentou-se 
do outro lado da mesa.
        Estamos preocupados, Joseph  disse ele.  Eu tinha 
esperanas de que a deteriorao contnua o convenceria a 
cooperar, a submeter-se ao tratamento.
Seph fixou o olhar sobre os ombros de Leicester, mirando o 
horizonte.
        No preciso de tratamento. Preciso de treinamento.
Leicester sacudiu a cabea, como se a idia fosse absurda.
        No posso me arriscar a treinar um mago que esteja to 
fora de controle. Seria como dar um lana-chamas a uma 
criana. Voc precisa de limites e de cuidadosa orientao, a 
fim de desenvolver seus poderes com segurana.
        Deixe-me ir, ento. Eu encontro algum.
Leicester suspirou.
        Acho que  hora de mudarmos a nossa abordagem. Vou 
pedir ao seu tutor para deixar voc aqui conosco durante o 
vero. Terei mais tempo, ento, e voc no estar em aula. 
Vamos lidar com os seus problemas, ns dois juntos, Joseph. 
Vamos fazer um pouco de terapia individual intensiva, um 
pouco de imagstica orientada. O que acha disso?
Seph podia imaginar que tipo de imagens Leicester 
compartilharia com ele. E, com o mago presente, ele no 
poderia usar o talism.
Sem dvida Houghton concordaria com a proposta de 
Leicester. Os advogados ficariam contentes por no ter de 
encontrar um lugar para ele passar o vero.
A menos que Jason chegasse a eles primeiro. Seph ainda 
cultivava aquela esperana, embora ela fosse cada vez mais 
tnue.
Duas semanas antes do fim do semestre, Seph decidiu que 
no podia esperar mais por Jason e que devia tentar contatar 
novamente a firma de advocacia por conta prpria. Para isso, 
precisaria invadir o escritrio de Gregory Leicester. Se algum 
computador tinha acesso irrestrito ao mundo exterior, seria o 
dele.
Seph passou a vigiar os movimentos do diretor. s vezes 
Leicester trabalhava no escritrio at tarde da noite. 
Normalmente, porm, ia at o prdio dos ex-alunos para 
jantar por volta das oito horas. Por vrias noites conse-
cutivas, Seph marcou a sada dele do prdio da adminis-
trao, a chegada na Casa dos Ex-Alunos, a caminhada de 
volta ao escritrio. Leicester sempre passava pelo menos 
uma hora fora, s vezes uma hora e meia. Era tempo 
suficiente.
Nas escolas em que estudara anteriormente, Seph ficara 
famoso por ser um tipo de hacker. Achava que provavel-
mente conseguiria invadir o sistema de e-mails da escola, 
dependendo do provedor, do sistema operacional e do nvel 
de segurana. Talvez fosse at capaz de entrar no sistema 
pela "porta da frente", sem quebrar o cdigo, se Leicester 
fosse negligente com suas senhas. O que ele talvez fosse. 
Esse tipo de ataque talvez no fosse esperado em um lugar 
como o Porto Seguro, onde a magia era a arma preferida.
Ele escolheu uma noite de domingo, no fim de maio. 
Sentado na ponta da doca, voltado para o lado, podia vigiar a 
atividade no prdio da administrao. O escritrio estava 
iluminado, e Seph podia ver Gregory Leicester  
escrivaninha, de frente para o porto.
Por volta das 19h45, Leicester vestiu um casaco e apagou as 
luzes do escritrio. Seph deixou a doca e deu a volta pela 
frente do edifcio, pronunciando um feitio de 
imperceptibilidade quando alcanou a sombra na lateral do 
prdio. Leicester saiu pela porta da frente, as botas 
esmagando o cascalho do estacionamento. Estava a caminho 
da Casa dos Ex-Alunos.
Seph virou a esquina e entrou no prdio da administrao. 
Imperceptvel, passou pela lanchonete onde os alunos ainda 
estavam comendo a sobremesa e subiu os degraus para o 
segundo andar. Cruzando o corredor escuro, tentou abrir a 
porta do escritrio de Leicester.
Estava destrancada. Ele ficou escutando por um longo 
instante e, como no ouviu nada, entrou e fechou a porta 
atrs de si.
Ele s queria resolver tudo o mais rpido possvel. Foi at o 
computador e sentou-se  mesa. Apertou uma tecla; a tela se 
iluminou. Leicester havia sado do sistema, mas deixara o 
computador ligado. O nome do usurio era gleicester.
Seph conectou seu pen drive  porta USB e executou o 
programa que havia escrito anteriormente no computador 
em seu quarto. O programa comeou a testar senhas 
rapidamente. Enquanto aguardava, Seph deu uma busca nas 
gavetas, que estavam quase vazias. Olhou para o telefone 
sobre a escrivaninha, mas decidiu no tentar uma chamada 
externa. A firma estaria fechada quela hora de qualquer 
maneira. Estava remexendo os armrios de arquivos quando 
ouviu o computador passando pela rotina de inicializao. 
Estava "dentro".
Seph abriu o navegador, depois digitou a URL de uma 
empresa de busca na internet que oferecia servio de e-mails 
gratuito. Em poucos minutos, ele registrou uma nova conta e 
um nome de usurio. Sabia que no enganaria ningum, se 
fosse descoberto. Tudo o que Leicester teria de fazer era ver 
o destino da mensagem. Mas pelo menos aquilo poderia 
impedir que qualquer mensagem de resposta chegasse ao 
diretor. Ele entrou na conta sob seu novo nome, Drago.
Os dedos de Seph voavam por sobre o teclado. Ele digitou o 
endereo de e-mail do portal da firma de advocacia e acessou 
o livro de endereos on-line desta. Selecionou todas as caixas 
de e-mails pessoais da lista, Sloane, Smythe, Houghton e 
todos os outros scios.
SR. HOUGHTON E SCIOS: Estou sendo mantido 
prisioneiro aqui na escola Porto Seguro no Maine. 
Informaram-me de que a sua firma me internou legalmente 
para tratamento mental, mas no me permitiram confirmar 
isso com os senhores. Embora eu tenha escrito a vocs pelo 
correio diversas vezes, no recebi nenhuma resposta. No 
me  permitido acesso ao telefone ou a e-mails.
Tenho sido submetido a terrveis torturas emocionais e 
mentais desde minha chegada em setembro, o que no 
agento mais. Se no houver nenhuma resposta a este e-mail 
dentro de trs dias, eu vou me matar. Falo com toda a 
seriedade. JOSEPH MCCAULEY
A propsito: No respondam a este e-mail. No telefonem. 
Venham pessoalmente e no vo embora sem me ver.
Ele examinou o e-mail e ficou satisfeito. Nenhum advogado 
podia deixar de responder a uma mensagem daquelas. 
Respirou fundo, trmulo, e clicou no boto de enviar. Um 
aviso apareceu. SUA MENSAGEM FOI ENVIADA. Estava 
feito.
Sabia que devia partir, mas o programa de correio de 
Leicester era tentador. Talvez ele descobrisse alguma 
meno a Jason ou ao Drago, ou a outras partes da 
conspirao que Jason descrevera. Ele abriu o programa de 
correio e rolou o texto da caixa de entrada para baixo. Ali 
havia alguma coisa: RE: ARQUIVOS ENCONTRADOS NA 
BASE DE LONDRES DO DRAGO, uma mensagem enviada 
por D'Orsay.
Naquele momento, Seph ouviu uma porta bater e ps se 
aproximando. As luzes se acenderam na ante-sala do 
escritrio. Com o corao acelerado, ele saiu do programa de 
correio e da conta, deixando a rea de trabalho como a 
encontrara. Saltou da cadeira e foi at a porta, comprimindo-
se contra a parede.
Era Leicester,  claro, de volta do jantar. O diretor atirou 
uma pasta na escrivaninha e sentou-se ao computador. Seph 
esgueirou-se at a porta e saiu. Estava no centro da antessala 
quando se lembrou de que havia deixado o pen drive 
conectado  porta do computador de Leicester. Pensou em 
recuper-lo mais tarde, mas decidiu no faz-lo. No havia 
nada que o ligasse a Seph especificamente. Seria menos 
arriscado deix-lo do que tentar recuper-lo, imperceptvel 
ou no.
Passou pela srie de escritrios e desceu as escadas. Alguns 
minutos mais tarde, ele estava a caminho do dormitrio, 
uma sombra entre muitas na escurido sob as rvores.

Passava um pouco das seis horas da manh de tera-feira 
quando vieram busc-lo. Seph ainda estava na cama, mas ele 
tinha o sono leve agora, sempre que no usava o portal. 
Acordou ao ouvir a chave girar na fechadura. Ele havia 
fechado a tranca, o que lhe deu tempo de garantir que a 
pedra portal estivesse dentro da camisa antes de a porta se 
escancarar. Eram Warren Barber e Bruce Hays.
Seph se apoiou nos cotovelos.
        O que est acontecendo?
        Em p, Joseph  disse Warren.  Precisa vir com a 
gente.
        Estou atrasado pra alguma coisa?  Seph olhou de um 
para o outro em busca de uma pista. Eles haviam assumido 
aquela expresso impassvel, como se seus rostos fossem de 
pedra. Seph virou as pernas para o lado da cama e ps os ps 
no cho.  Tudo bem se eu me vestir?
Eles recuaram para deix-lo sair da cama e ficaram esperando 
enquanto ele vestia os jeans e achava os sapatos e as meias 
do dia anterior sob a cama. Como eles estavam usando 
casacos, Seph vestiu uma blusa. Algo lhe disse que eles no 
esperariam at que escovasse os dentes. Correu uma mo 
pelo cabelo desgrenhado e disse:
        Pronto.
Warren e Bruce, cada um segurando-lhe um brao, 
empurraram-no pela porta e escada abaixo. Uma vez l fora, 
eles o guiaram at o prdio da administrao.
Seph decidiu tentar de novo.
        O que est rolando?
        Eu tentei avis-lo, Joseph  disse Warren.
Devia ser o e-mail, pensou Seph. A menos que fosse Jason. 
A pergunta crucial era se a firma de advocacia havia 
respondido ou no. Ocorreu-lhe que aquele dia poderia 
trazer ou uma grande melhora ou uma deteriorao 
dramtica em suas possibilidades.
No havia muitos alunos no campus quela hora, exceto por 
algumas almas audazes que rumavam para o ginsio de 
esportes. O ar era ameno, o cu estava plido e a luz se 
intensificava. Uma leve nvoa pairava sobre o porto. Seria 
um lindo dia. Para algum.
Seph e sua escolta entraram no prdio da administrao e 
subiram pela escadaria at o segundo andar. Eles o levaram 
diretamente ao escritrio de Gregory Leicester e o 
empurraram para dentro.
Leicester estava prximo  magnfica janela, com as mos 
entrelaadas s costas, observando o sol nascer sobre as 
guas. John Hughes estava sentado em frente ao PC de 
Leicester, digitando comandos freneticamente. Hughes era 
um dos ex-alunos, um homem corpulento com 20 e tantos 
anos de idade e um princpio de calvcie. Ele ocupava a 
funo de administrador de sistemas da escola.
Era o e-mail, ento.
Warren pigarreou, nervoso.
        Aqui est o Joseph.
Leicester no olhou para eles, voltando-se em vez disso para 
Hughes.
        E ento?
Hughes deu meia-volta na cadeira e sacudiu a cabea.
        Alguns deles j foram abertos. Foram enviados na noite de 
domingo. Nenhuma resposta.
Hughes olhou rapidamente para Seph, depois desviou o 
olhar.
        Certo.  Leicester suspirou e encarou o mar de novo por 
um instante, depois se virou para o trio na entrada.  Ento, 
Joseph. Parece que voc cometeu um erro.
Seph se lembrou do conselho de Jason. Voc precisa 
continuar parecendo assustado e estpido. Tentou bancar o 
estpido.
        J?  Ele ergueu os ombros de leve.  Eu mal sa da 
cama.
A mo de Leicester se ergueu. O golpe veio to rpido que 
Seph no teve tempo para reagir. Um golpe de ar atingiu-o 
em cheio no rosto como se fosse um punho e jogou-o para 
trs contra a porta, os ps literalmente saindo do cho. A 
cabea chocou-se com fora contra o batente antes de Seph 
deslizar para o cho. O olho direito nadava em lgrimas, e 
ele sentiu o gosto de sangue na boca, onde o lbio se cortara. 
Limpou o nariz com as costas da mo, e esta ficou coberta de 
sangue.
Ele ergueu os olhos e viu que Leicester no havia se movido 
de sua posio prximo  janela. Warren e Bruce haviam se 
separado um para cada lado, fora da rea de alcance.
Leicester estendeu a mo na direo dele mais uma vez. O 
golpe seguinte pegou Seph logo abaixo das costelas, jogando-
o contra a parede e arrancando-lhe todo o ar. Ele rolou, 
tentando rastejar para fora dali, mas o terceiro golpe atingiu-
o em cheio nas costas. Cada golpe parecia uma marreta 
contra carne e osso. Seph dobrou-se no cho, encolhendo-se 
para se expor menos. Depois de mais dois golpes, ele se 
perguntou se Leicester tinha a inteno de espanc-lo at a 
morte.
Seph lutou para forar o ar de volta aos pulmes. Doa 
respirar, e ele suspeitava que as costelas estivessem que-
bradas. Leicester aproximou-se e falou a Seph, que estava no 
cho, l de cima de sua altura descomunal.
 Quem voc pensa que eu sou? Um diretor de colgio?  
Ele cuspiu as palavras com desdm.  Achou que ia receber 
uma deteno?  A voz crescia em volume a cada frase.
Apesar da dor, Seph conseguiu se colocar numa posio 
parcialmente sentada, apoiando-se contra a parede. Sacudiu a 
cabea, tentando clarear os pensamentos, lanando sangue 
num pequeno arco. O lbio inchava, e todo o lado direito do 
rosto parecia dormente, o que provavelmente era uma 
bno. As pernas formigavam, e ele se perguntou se a 
medula espinhal havia sido atingida pelo golpe nas costas.
        Por que no me deixa ir embora?  sussurrou ele.
        Ningum sai do Porto Seguro sem minha permisso. Voc 
devia saber disso a essa altura.
Seph sabia que deveria ficar quieto, mas no conseguiu se 
conter.
        Jason Haley foi embora  disse ele.
        Ah, sim. Jason Haley deixou o Porto Seguro, de fato.  
Leicester sorriu.  Voc achou que eu deixaria que ele 
sasse vivo?
Era um daqueles momentos em que o corpo parece agir sem 
ouvir o conselho ou esperar a aprovao da mente 
consciente. Seph McCauley apoiou-se nas pernas trmulas e 
lanou-se contra Gregory Leicester. Atingiu-o com fora no 
estmago. Foi como bater num muro de concreto, mas Seph 
conseguiu encaixar pelo menos dois bons socos antes que 
Leicester lhe pregasse os braos aos flancos com um brao 
enorme e lhe envolvesse o pescoo com o outro, cortando-
lhe o suprimento de ar. Leicester aumentou a presso at 
que pontos negros comeassem a aparecer diante dos olhos 
de Seph, ento relaxou o bastante para impedir que Seph 
desmaiasse por completo.
Assim que Seph reuniu ar suficiente, lanou um dos feitios 
de ataque que ele e Jason haviam memorizado na biblioteca. 
Mas foi interrompido no meio da frase por uma dor 
excruciante como um choque, que lhe incendiou o corpo e 
deixou-o inerte e trmulo ao, finalmente, acabar.
        No seja idiota  disse Leicester.
Mas a raiva de Seph o tornara imprudente.
         melhor me matar  arquejou.  Porque, se no me 
matar, eu juro que mato voc.
Leicester falou-lhe ao ouvido:
        Por que eu mataria voc, Joseph, quando tenho tantas 
outras opes?  Ele riu com suavidade.  Voc acha que 
tem tido sonhos? Eu posso dar a voc um pesadelo que dure 
uma semana. Ora, eu posso dar a voc um pesadelo que dure 
o resto da vida. Chamamos isso de enlouquecer. A pergunta 
 se precisamos manter voc por aqui no caso de algum 
responder  sua mensagem. Acho que no. Voc no vai 
estar em condies de falar com eles, de qualquer maneira. 
Voc ameaou se matar, Joseph, e acho que voc vai ter 
sucesso. Vai deixar de existir no que concerne  firma de 
advocacia. Pense nisso. Teremos voc s para ns. Pelo 
tempo de vida de um mago. Sem mais burocracia, sem mais 
correspondncia irritante indo e vindo.  Ele tocou o rosto 
ferido de Seph, correndo o polegar pela linha do queixo.  
Nenhuma necessidade de manter voc bonitinho no caso de 
algum vir visitar.
Leicester segurou-o com mais fora e lanou um feitio. As 
chamas atravessaram Seph mais uma vez, e ele gritou; todos 
os msculos se contorceram num espasmo de dor. Ele no 
saberia dizer quanto tempo aquilo levou, mas Leicester 
largou-o de repente, e Seph caiu ao cho como uma boneca 
de pano, gemendo, sugando ar em desespero.
 Finalmente talvez voc esteja comeando a entender. 
Veja como tenho me contido. Agora no precisamos mais de 
luvas de pelica. No vou cometer o mesmo erro que cometi 
com o Jason. Voc vai implorar pela oportunidade de me dar 
o que tem. Prometo no me apressar. Vamos aprender 
muito, voc e eu, sobre as suas capacidades. Voc tem sido 
um osso duro de roer, moleque. Agora vamos descobrir quo 
duro voc .
Seph ficou cado com o rosto contra a madeira envernizada, 
a respirao saindo em arfadas irregulares, o corao 
martelando nos ouvidos. A pele estava escorregadia de suor, 
e ele tremia. S conseguia pensar em uma sada para a 
situao dele: tinha de achar um meio de fazer com que 
Leicester o matasse.
Gradualmente, tomou conscincia de uma agitao na ante-
sala. Vozes altas, como em uma discusso. Seph virou a 
cabea de leve para poder enxergar. Leicester se voltou para 
a porta. Peter Conroy entrou no escritrio e falou, baixinho 
e com urgncia, com Leicester. O diretor escutou, mantendo 
os olhos em Seph. Ele assentiu com a cabea, disse algumas 
palavras, e Conroy saiu de novo.
Leicester ergueu uma cadeira estofada como se no pesasse 
nada e colocou-a diante da porta. Ento passou as mos sob 
os braos de Seph e arrastou-o at ela. Seph mordeu o lbio 
para impedir-se de berrar. Tentou refugiar-se na cadeira, 
enroscar-se em torno de seus muitos machucados como um 
animal ferido. Mas o diretor agarrou-lhe o queixo com fora 
e ergueu-lhe a cabea, de modo que Seph no tinha escolha 
a no ser olh-lo nos olhos.
        Parece que h uma resposta para a sua mensagem. A firma 
mandou algum para investigar a sua situao.
Leicester deixou as mos quentes carem sobre os ombros de 
Seph. O poder atravessou-lhe o corpo de novo, mas de 
modo diferente, extraindo-lhe a fora dos msculos e dos 
ossos, deixando-o totalmente consciente, mas indefeso: 
fraco demais para levantar a cabea. Um feitio de 
imobilizao. Seph no conseguia falar, nem mover um 
msculo sequer.
Leicester arranjou o corpo de Seph na cadeira, sem nenhum 
esforo para ser delicado. Afastou os cachos de Seph de cima 
dos olhos e examinou-o, aparentemente satisfeito.
        Agora voc pode escutar enquanto eu a despacho.  Ele 
fez uma pausa.  E, quando eu voltar, prometo fazer voc 
desejar nunca ter nascido.
Leicester saiu da sala, seguido pelos trs ex-alunos.
Ento a firma havia enviado uma mulher. Seph torcera para 
que mandassem algum que ele conhecesse, nem que fosse 
Denis Houghton. Ele no conhecia nenhuma mulher que 
fosse scia da firma. Seph engoliu seu desespero. Aqueles 
magos poderiam enganar ou dominar qualquer advogado. Ele 
no queria ter de ouvir.
O grupo do lado de fora devia ter se movido para mais perto 
da porta, ou talvez Leicester tivesse usado de algum 
estratagema, pois de repente as vozes soaram claras. 
Primeiro uma voz de mulher.
        Ns recebemos a mensagem dele em nossos escritrios no 
domingo  noite. No saio daqui sem conversar com ele.
        Receio que isso no seja possvel no momento  replicou 
Leicester.
        Como assim?  indagou a mulher.
        O Joseph desapareceu. Ningum o viu desde o jantar 
ontem  noite. Ele deixou isto no quarto dele.
Houve um breve silncio, como se a mulher estivesse lendo 
algo.
        Isso no parece coisa dele. Como sabe que foi ele que 
escreveu?
        Estava no quarto dele, srta...
        Downey  disse a mulher.
        A senhorita  parente dele?  indagou Leicester, como 
um legista procurando o parente mais prximo.
        Sou a tutora do rapaz  disse a mulher.  Isso  tudo o 
que o senhor precisa saber. No consigo entender como o 
senhor pode ter perdido o meu pupilo de um dia para o 
outro.
        Um dos barcos desapareceu  disse Leicester.  Ele deve 
ter sado com ele na noite passada.
        Acho isso difcil de acreditar  respondeu a mulher.  
Seph nunca gostou do mar.
Havia algo estranhamente convincente naquela voz. Era 
como uma cano que no se consegue tirar da cabea. Seph 
estranhou o fato de ela usar seu apelido e a confiana que 
demonstrava ao falar sobre ele. Ela havia alegado ser a sua 
tutora. Mas Denis Houghton era seu tutor. Downey? Ele 
nunca ouvira aquele nome antes.
        Por que no chamou a polcia?  indagou ela.  Por que 
no nos telefonou antes?
        Ns acabamos de descobrir que ele est desaparecido. 
Estamos efetuando uma busca. No era incomum ele 
desaparecer por horas. Ele gostava de caminhar na floresta 
 explicou Leicester, j se referindo a Seph no passado.
        Primeiro o senhor sugere que ele saiu de barco no escuro, 
agora o senhor me diz que ele passa as noites caminhando 
pela floresta. Os seus alunos nunca ficam na cama?
A mulher era persistente, mas isso no adiantaria. Ela no 
tinha como for-los a apresent-lo, se alegavam que ele 
estava sumido. E Seph sabia que jamais seria encontrado.
        Por que no vem comigo at a lanchonete e tomamos um 
caf?  sugeriu Leicester.  As equipes de busca voltaro 
aqui para trazer os informes. Assim que tivermos qualquer 
notcia...
        O Seph disse que o senhor no nos deixaria v-lo. Disse 
que o senhor o estava mantendo prisioneiro aqui.
Seph quase pde ver Leicester dando de ombros.
        No sei de onde ele tirou essas idias. Francamente, srta. 
Downey, temos feito o melhor possvel para lidar com o 
Joseph. D pra ver pelo bilhete que ele deixou que ele  
instvel. Na verdade, chegamos  concluso de que ele  
psictico. Mas no nos disseram nada disso quando o 
admitimos aqui.
        O senhor fala como se ele tivesse sido um problema desde 
setembro  disse ela. O som de papis sendo folheados 
chegou at Seph.  Eu tenho todos os relatrios de 
avaliao dele que vocs me enviaram, e eles no sugerem 
nada desse tipo.
Muito em breve, a festa chegaria ao fim. Eles a levariam para 
fora do escritrio, para a lanchonete l embaixo. Ento eles o 
enfiariam em algum lugar fora do caminho, e aquela 
oportunidade estaria perdida. Ele havia sacrificado tanto, 
talvez tudo, para conseguir que a firma mandasse algum 
resgat-lo!
No posso deixar que ela v embora sem me ver, disse ele a 
si mesmo. Tentou se mover, dobrar um dedo, mas nada 
aconteceu. A frustrao cresceu dentro dele, depois uma 
outra sensao, mais familiar. Focalizou sua ateno na porta, 
concentrando-se, forando a energia para as extremidades. E 
ento aconteceu. Uma cascata de chamas azuis irrompeu de 
seus dedos e derrubou a porta entre os escritrios com um 
estampido igual a um tiro de revlver.
Houve um breve silncio atnito.
        Que diabos foi isso?  gritou a mulher.
Um clamor de vozes irrompeu. Explicaes e protestos. 
Algum apareceu  entrada.
Ela era pequena, com os cabelos curtos e em camadas, como 
prata e ouro tramados juntos. Vestia um conjunto preto sob 
medida, com uma saia bem curta, e tinha pernas 
incrivelmente longas para uma pessoa to pequena. Quando 
ela se moveu, Seph achou impossvel desviar o olhar. Ela 
parecia cintilar, espalhando fascas em todas as direes. No 
se parecia com nenhuma advogada que Seph j houvesse 
visto.
        Graas a Deus  disse ela.
Ele percebeu que ela o reconhecera de imediato. Ela se 
livrou de Leicester e aproximou-se dele. Os outros a 
seguiram como a cauda de um cometa. Warren e Bruce 
trombaram um com o outro na nsia de chegar perto dela.
Aquele foi um momento deliciosamente embaraoso: os 
magos, a mulher, o perdido e subitamente encontrado Seph. 
De sua parte, Gregory Leicester parecia prestes a assassinar 
Seph, naquele mesmo instante e local, apesar das 
testemunhas e da representante da firma.
Os olhos da mulher no saam do rosto de Seph. Agora que 
ela estava mais perto, ele viu que eles eram de um azul 
profundo arroxeado, com pontos dourados.
        Meu Deus, o que eles fizeram com voc?
Seph estava louco para responder, mas tudo o que conseguia 
fazer era encar-la, indefeso.
Gregory Leicester encontrou sua voz.
        Ns... ahn... no queramos que a senhorita o visse assim. 
Ele est sob forte medicao. Ele tem se comportado de 
forma incontrolvel e autodestrutiva nesses ltimos dias.
Leicester parecia desconcertado, algo que Seph jamais 
esperara ver.
Ela estava finalmente ao alcance do brao de Seph, mas 
retribuiu ao olhar de Leicester pela primeira vez.
        Entendo o que quer dizer. Ele espancou brutalmente a si 
mesmo. Bastante atpico.
Ela parecia preocupada, angustiada, furiosa, mas no estava 
fazendo tanto alarde sobre a aparncia dele como ele 
esperara. "Ela no estava chocada", pensou ele. Nem mesmo 
surpresa. Como se ela soubesse o que estava acontecendo. 
Isso deu a Seph um fragmento de esperana.
        Ol, Seph. Meu nome  Linda Downey.
Seph ficou encarando-a, enviando-lhe apelos silenciosos. 
Descubra um jeito de me tirar daqui. E ento as lgrimas 
transbordaram-lhe dos olhos e correram por sua face.
Linda Downey assentiu com a cabea, quase que 
imperceptivelmente, como se tivesse ouvido e entendido. 
Ela se inclinou, deu-lhe um leve beijo na testa e sussurrou, 
de forma que apenas ele pudesse ouvir:
        Coragem, Seph.  Ento ela se virou para Leicester e os 
outros.   bvio que intern-lo aqui foi um desastre. Vou 
lev-lo para consultar o terapeuta outra vez. Espero que ele 
no precise ser hospitalizado.
Terapeuta?
Ela gesticulou para Hays e Barber.
        Vocs dois. Ajudem a lev-lo para o meu carro.
Eles se adiantaram, obedientes. Mas Leicester sacudiu a 
cabea.
        O rapaz fica aqui  disse ele.  Como pode ver, ele no 
est em condies de viajar.
A mulher suspirou e mudou de ttica.
        Dr. Leicester, acho que  hora de sermos francos um com 
o outro. Acredito que todos vocs sejam magos e estejam 
mantendo este rapaz sob um feitio.
Ela poderia muito bem ter dito que a firma de advocacia de 
Sloane, Houghton e Smythe acreditava em fadas. Seph 
estreitou os olhos para ela sem poder acreditar. Os ex- alunos 
se remexeram e murmuraram, mas Leicester no parecia 
impressionado.
        E da?  disse ele, deixando a palavra cair entre eles como 
um desafio. Estava deixando claro que o que Linda Downey 
sabia ou no sabia era irrelevante.
Ela sacudiu a cabea e olhou para Leicester com pena.
        O senhor faz alguma idia de quem  este rapaz?
Leicester franziu o cenho, abriu a boca e depois a fechou de 
novo, olhando de Linda para Seph.
        Obviamente, o senhor no sabe.  Ela ps as pontas dos 
dedos sob o queixo de Seph e inclinou-lhe a cabea para 
cima.  Olhe para ele! Olhe para os olhos dele, o formato 
do nariz.
Leicester estudou Seph, mas sua carranca dizia que estava to 
perdido quanto antes.
        Acho difcil de acreditar que no tenha percebido.  Ela 
pigarreou.  Joseph McCauley  filho natural de um dos 
seus colegas no Conselho dos Magos. Uma questo delicada, 
j que ele  casado com algum que no  a me do rapaz.  
Ela fez outra pausa.  A esposa dele  uma maga poderosa, e 
foi impiedosa em relao a tais transgresses no passado. O 
menino foi mantido no escuro sobre o prprio passado por 
medo de que a histria viesse  tona. Mas o pai de Seph tem 
um grande interesse no bem-estar e na educao dele. Seph 
 seu nico filho.
Ela sabe quem  o meu pai. A despeito de Leicester e dos ex-
alunos, de sua situao desesperada, a despeito de tudo, Seph 
aguardou, segurando a respirao, contendo o flego que 
Linda Downey dissesse o nome.
Leicester parecia estar consultando algum tipo de lista 
mental.
        Quem ?  indagou ele.  Fale. Quem  o pai dele?
Linda no disse nada.
        No est falando do... Ravenstock?  O rosto do mago 
passou da incredulidade para a convico perspicaz.   ele, 
no ?
Ela hesitou, ento disse:
        Isso no  da sua conta. Mas vai descobrir muito em 
breve, se no soltar o garoto e deix-lo ir. O pai veio de avio 
at Portland ontem. O senhor pode imaginar a reao dele 
quando lhe encaminhei a mensagem do Seph. Se eu no 
aparecer com o filho dele em Portland esta tarde, o pai dele 
vai destruir este lugar, pedra por pedra, at encontr-lo. 
Nenhuma desculpa vai ser boa o bastante para satisfaz-lo. E 
o senhor pode ter certeza de que ele levar a questo ao 
Conselho na semana que vem.
Leicester cerrava e descerrava os punhos.
        Por que o Ravenstock no veio pessoalmente, se est to 
preocupado?
Ravenstock. Joseph Ravenstock. Oi, me chamo Seph 
Ravenstock. Seph experimentou o nome mentalmente.
        Considerando a posio que ocupa, ele deseja manter a 
questo em sigilo. Por isso ele me mandou como 
representante. Se houvesse esperado um problema, tenho 
certeza de que teria vindo pessoalmente.
        Como posso saber que est dizendo a verdade?
Seph percebeu que Leicester no queria acreditar nela.
        Sou a tutora do rapaz. Posso lhe mostrar os documentos, 
se quiser.
Ela enfiou a mo na maleta, puxou para fora um mao de 
papis e passou-os a Leicester. Ele os examinou descontente 
e devolveu-os.
Mas o Houghton  o meu tutor. No ?
        Veja  disse Linda.  Estamos contando com a sua 
discrio. O pai de Seph no se importa com o que quer que 
o senhor esteja fazendo aqui. Mas a tolerncia dele no se 
estende ao prprio filho. O menino foi cruelmente 
espancado, privado de alimentao e torturado. Se isso vier  
tona, ser natural para o Conselho supor que o senhor 
escolheu o filho dele como alvo por alguma razo. Uma 
razo poltica.
        E por que eu deveria permitir que a senhorita sasse daqui 
contando histrias?  indagou Leicester.
Ele deu um passo na direo dela, estendendo a mo para 
apanhar-lhe o pulso. Ela deu um passo atrs, desviando-se 
habilmente da mo.
        Esto esperando que eu volte com o Joseph esta noite  
disse ela com calma.  Como prope explicar o nosso 
desaparecimento?
Leicester parecia desolado, como se o aniversrio dele 
houvesse sido cancelado. Era evidente que estava tentando 
pensar em alguma alternativa para no deixar Seph partir. 
Mas tambm era bvio que as ameaas da mulher haviam 
sido eficientes. Ele no queria o Conselho envolvido, no 
queria atrair nenhuma ateno desnecessria para o Porto 
Seguro. Tinha de pesar o risco em potencial de soltar Seph 
contra os danos da exposio garantida.
Enfim, deu de ombros, sem nenhuma elegncia na derrota.
        Muito bem. Espere na ante-sala por um momento. Preciso 
falar com Joseph em particular.
Ela no queria ir. Seph tinha certeza disso. E ele tambm no 
queria que ela fosse. Mas ela foi, olhando para trs como se 
aquela pudesse ser a ltima vez que o veria.
Leicester apontou para Seph e murmurou o contra-feitio. 
Seph remexeu-se na cadeira e tentou, inutilmente, se 
levantar. O diretor agarrou-o pela frente da blusa e o colocou 
em p, de modo que seus rostos ficassem a centmetros de 
distncia.
        Ento, Joseph, voc vai voltar para o seu pai. Espero que 
tenham uma reunio maravilhosa. Apenas se lembre de uma 
coisa: se um simples murmrio do que est acontecendo 
aqui alcanar qualquer membro do Conselho, quer seja 
atribudo a voc, quer no, eu farei com que minha misso 
na vida seja caar cada membro da sua maldita famlia e cada 
amigo que tiver, at o flerte romntico mais efmero, e 
mat-los da maneira mais dolorosa possvel. E, quando tiver 
acabado com eles, irei atrs de voc, e ns retomaremos as 
coisas de onde paramos.
Seph devolveu-lhe o olhar.
        Posso ir agora?  perguntou, pensando: "Venha atrs de 
mim e estarei preparado da prxima vez".
Leicester soltou-o e recuou um passo. Mantendo as costas 
retas, sentindo o olhar hostil de Leicester na nuca, Seph 
andou mancando at a ante-sala, onde Linda Downey o 
aguardava. Embora ele a sobrepujasse em altura, ela passou a 
mo por sob o cotovelo dele para apoi-lo. A magia fluiu 
para ele, algo poderoso que fez sua cabea girar, ainda que de 
um modo diferente do que estava acostumado.
Leicester e os ex-alunos o seguiram ao sair do escritrio. O 
diretor parecia querer localizar Linda dentro do esquema 
poltico geral.
        Suponho que a senhorita seja a mais recente... amante do 
Ravenstock?
        Assistente  disse ela, guiando Seph em direo  porta.
Seph virou-se para olhar para Leicester, marcando a imagem 
a fogo na memria para usar mais tarde. "De algum modo, 
vou fazer voc pagar", pensou ele. Pelo Sam, quem quer que 
ele fosse e poderia ter sido. Por Trevor. E, acima de tudo, 
por Jason.
Ele arrastou os ps dolorosamente at a porta, com a mo de 
Linda em seu cotovelo, e depois para fora, at as escadas. 
Desceram as escadas a custo e cambalearam em direo  
porta da frente.
O BMW esperava no estacionamento. Linda abriu a porta do 
passageiro para Seph, ajudou-o a entrar e fechou-a assim que 
ele entrou. Ela se sentou ao volante. Embora parecesse 
calma, sua mo tremia, e s na segunda tentativa conseguiu 
encaixar a chave na ignio.
Seph recostou-se no banco. Linda Downey dirigia rpido e 
de maneira agressiva, mudando as marchas com violncia, 
sacolejando pela estrada de terra numa velocidade 
imprudente, reavivando em Seph a lembrana de cada um 
de seus ferimentos. Ele olhou para ela. Havia manchas 
avermelhadas nas mas do rosto, e os olhos apareciam e 
desapareciam alternadamente sob a luz mutvel embaixo das 
rvores. Aquela era a namorada do pai dele?
Seph tentou ficar confortvel, ainda sem conseguir acreditar 
que estava finalmente deixando o Porto Seguro.
        Quer dizer que estamos indo para Portland?
Mal conseguia forar as palavras por entre os lbios 
inchados. A lngua tateou um ponto irregular, onde um 
dente havia se quebrado.
Ela confirmou com um gesto de cabea.
         o caminho mais rpido para fora do Maine. Mas 
primeiro precisamos achar um mdico pra voc.  Ela o 
examinou, mordendo o lbio.  O hospital mais prximo 
provavelmente  em Portland.
O escrutnio de Linda deixou Seph desconfortvel.
        Eu estou bem. Mesmo. Parece pior do que . Prefiro no 
ter de responder a nenhuma pergunta.
        Seph, eu sinto tanto! No fazia idia do que estava 
acontecendo.  A voz dela falhou.  Quando ns rece-
bemos o seu e-mail, eu...
        Quem  Ravenstock?
        Esquea ele. No  nenhum parente seu.
Ele no ficou surpreso, de certo modo, mas ficou um pouco 
desapontado. Apagou Ravenstock de seu arquivo mental, o 
lugar onde mantinha as pistas sobre quem ele era.
        Voc no estava se arriscando demais, agora h pouco?
        No tive muita escolha. Eu tinha esperana de que voc se 
parecesse com algum no Conselho.
        Obrigado... por vir... quando veio  disse ele.  Eles iam 
me matar. Ou coisa pior.
Ela o olhou de relance.
        Por qu?
        Acho que ele gosta. De machucar pessoas, digo.
A ameaa de Leicester estava fresca em sua mente. Seph no 
diria muito at descobrir quem e o que ela era.
Linda pigarreou.
        No sei muito bem o quanto voc sabe... sobre as ordens 
mgicas.
Ela olhava direto em frente, como se estivesse embaraada. 
Como se estivesse prestes a lhe contar como os bebs 
nascem, ou algo assim.
        Eu sei tudo a respeito  disse ele, olhando pelo espelho 
retrovisor pela dcima quinta vez.  Weir, Anaweirs, 
magos e feitios. Se  disso que voc est falando.
Ele a havia surpreendido.
        Quem lhe contou? Foi o Leicester?
Ele sacudiu a cabea.
        Minha me adotiva me contou um pouco. O resto eu 
aprendi aqui.
Seph pensou em Jason, e o ar entrou com dificuldade ao 
inspirar. Fechou os olhos, tentando se lembrar de como se 
sentira ao golpear Leicester. Desejava ter conseguido lanar 
um feitio.
        Tem certeza de que est bem?
        Estou timo  disse Seph.  Perfeito.  Ele a olhou de 
esguelha.  Ento voc  maga?
Ela sacudiu a cabea.
        No. Encantadora.  Ela disse a palavra rapidamente, 
como que insegura da reao dele.
Uma encantadora! Jason era fascinado por encantadoras, mas 
havia dito que jamais encontrara uma. Seph se lembrou de 
algo que Jason dissera e, antes de poder pensar duas vezes, 
deixou escapar:
         verdade que um encantador pode encantar qualquer 
mago, no importa quo poderoso?
Ento ele tapou a boca. No era uma pergunta a se fazer a 
algum a quem acabara de conhecer.
        Bem, suponho que depende do encantador, e do mago, e 
das precaues que este toma contra encantamentos.  claro 
que, como regra geral, os magos so mais poderosos que os 
encantadores. Mas se pego um mago desprevenido...  Ela 
soltou o volante e flexionou os dedos como um gato 
mostrando as garras.
        E quem  voc? Trabalha mesmo para a firma?
        No. Eles trabalham pra mim. O que eu disse l dentro era 
verdade. Sou a sua tutora.
Algo disse a Seph que ela no estava sendo completamente 
sincera. Era como se ela fosse translcida: de vez em quando 
a luz a atravessava, iluminando-a, revelando fragmentos de 
verdade, como ouro brilhando na areia.
        Voc conheceu... conhece os meus pais?  perguntou, 
incerto a respeito do tempo verbal que deveria usar.
        Conheci. Anos atrs  disse ela.
Outra mentira. Ele se endireitou. Linda Downey sabia a 
verdade sobre ele, Seph tinha certeza disso. Descobriria um 
jeito de arranc-la dela, no importava quo horrvel fosse 
essa verdade.
        Se voc  minha tutora, como  que eu nunca ouvi falar 
de voc?
        Eu me tornei a sua tutora depois que os seus pais 
morreram. Eu... eu viajo muito, e queria algo estvel para 
voc. Por isso Genevieve LeClere concordou em adotar 
voc.
        Mas quem eram os meus pais?  insistiu Seph.  Como 
se chamavam? Onde viviam? Como morreram? Eu tenho 
algum outro parente?
Era uma cascata de perguntas. As perguntas de uma vida 
inteira.
Ela passou a lngua pelos lbios.
        Com certeza a Genevieve lhe contou tudo isso. O seu 
pai... era um engenheiro de softwares. Houve um incndio.
        No me venha com essa histria da carochinha. Eu sou 
apenas uma pessoa inventada. Minha certido de nascimento 
 falsa. No tem nenhuma notcia a respeito de um incndio. 
Nenhum registro de bito na Previdncia Social. No sou 
idiota.
        Ningum disse que voc era.  Ela manteve os olhos na 
estrada, como se fosse perigoso olhar para ele.  A verdade 
 que no posso contar o que voc quer saber. Por isso no 
me pergunte mais.
O tom dela era rspido, as articulaes dos dedos brancas 
contra o volante. Houve um breve e tenso silncio. Ento 
ela continuou:
        Eu entreguei voc a Genevieve quando voc era beb, 
porque eu sabia que ela cuidaria bem de voc. Voc gostou 
de l, no foi?  perguntou ela repentinamente, como se 
estivesse pedindo por uma confirmao.
        Eu gostei de l.  Seph olhou pela janela.  Eu adorava a 
Genevieve.
        Acho que no agi muito bem nos ltimos dois anos. 
Sabe... o meu sobrinho estava com problemas, e... eu me 
distra. Aconteceram muitas coisas. O Houghton me ga-
rantiu que voc estava indo bem. At que ele me telefonou 
contando do e-mail...  A voz dela foi ficando mais fraca 
at se extinguir.
        Para onde estamos indo, afinal?
        Para uma cidade chamada Trinity. Fica em Ohio, no lago 
Erie.
        Trinity, Ohio.
Jason havia mencionado aquele nome. Uma imagem lhe 
ocorreu. Celeiros e silos. Da floresta primitiva para a fazenda 
do Meio-Oeste. Ele tentou no fazer uma careta. Doa fazer 
caretas.
Qualquer lugar  melhor do que aquele de onde eu sa, disse 
ele a si mesmo. Naquele momento, ele queria se enterrar no 
Meio-Oeste, aninhar-se sob as terras frteis de Ohio como se 
fosse um cobertor.
        Por que Trinity?  perguntou ele.  Tem uma outra 
escola l?
        Minha irm mora l. Alm do mais, Trinity foi declarada 
um santurio aps o torneio na Ravina do Corvo.
Certo. Jason havia dito alguma coisa sobre um santurio, "em 
Ohio, imagine s".
        Por que um santurio?
        Esto acontecendo muitas coisas  disse ela de novo, 
como se aquilo explicasse algo.
        Tem algum mago em Trinity?  indagou ele.
Ela assentiu.
        Sim, conheo pelo menos dois. Provavelmente h outros. 
Por que pergunta?
        Eu preciso de mais treinamento.
        Suponho que a sua falta de treinamento seja minha culpa. 
Genevieve era... era maravilhosa, mas no gostava muito de 
magos.  Ela fez um gesto de cabea novamente, como se 
confirmando algum pensamento no enunciado.  Sim, 
imagino que podemos encontrar algum em Trinity para 
treinar voc.
        timo.
Ele se recostou e fechou os olhos, mas podia sentir a presso 
do olhar dela.
        Se acha que est preparado, por que no me conta o que 
aconteceu no Porto Seguro?
Ele manteve os olhos fechados.
        Acho que no estou preparado.
Ela ficou em silncio. Ela guardava segredos, e ele tambm. 
A ameaa de Gregory Leicester permanecia no fundo da 
mente dele. Talvez a nica pessoa a quem ele devesse contar 
aquela histria fosse o Drago. Algum poderoso o suficiente 
para fazer algo a respeito.
Linda Downey lhe salvara a vida, e ele era grato por isso. Se 
ela quisesse mais do que isso, teria de conquistar sua 
confiana.
Mais tarde naquela noite, Gregory Leicester estava sentado 
na doca, apoiando-se contra o metal frio do elevador de 
barcos. Nem mesmo a suavidade da noite de primavera era 
capaz de acalm-lo. Estava bebendo conhaque, como vinha 
fazendo com freqncia, e dessa vez mais do que de hbito.
O rapaz o havia feito de tolo. Primeiro invadira o escritrio 
dele e enviara os e-mails. Depois se atrevera a atac-lo. E 
havia ido embora quase sem nenhum arranho. No era uma 
boa lio para os ex-alunos que estavam l assistindo a tudo.
Leicester se consolava com a expectativa do vero por vir. 
Haveria uma reunio do Conselho na semana seguinte. 
Perguntava-se se poderia usar a informao sobre o filho 
bastardo de Ravenstock para influir sobre o voto dele na 
questo constitucional.
Uma vez que os outros alunos houvessem partido, ele 
precisaria de tempo para trabalhar com os ex-alunos. Na 
verdade, seria bom no ter a distrao de tentar subjugar o 
garoto e depois trein-lo. Mesmo aps a perda de dois de 
seus candidatos mais recentes, Leicester tinha 15 magos 
conectados a ele. Isso deveria ser o bastante, supondo que 
esses fatos pudessem ser mantidos ocultos do Drago e dos 
outros por um pouco mais de tempo.
Ele revirou o lquido cor de mbar no copo, sentindo-se 
melhor. O celular preso ao cinto tocou, e Leicester pensou 
em ignor-lo. Mas o nmero fora dado apenas a uns poucos 
escolhidos. Por isso decidiu atend-lo.
        Leicester.
Era Claude D'Orsay. A voz dele estava tensa de excitao, 
algo pouco comum para o reservado Mestre de Jogos.
        Voc tem um aluno chamado Joseph McCauley.
No era uma pergunta, era como uma acusao. Joseph 
McCauley de novo. Leicester esvaziou o copo.
        O que tem ele?
        Chego ao Maine amanh. Mantenha-o confinado at eu 
chegar.
        Do que voc est falando?
        Voc sabe quem  esse rapaz?
Oh, isso. Leicester fungou.
        Soube disso hoje.  o filho bastardo do Jeremy 
Ravenstock. Aparentemente, o Ravenstock est tentando 
manter isso em segredo. No est tendo muito sucesso, 
receio.
        Ravenstock? No, a menos que Ravenstock seja o Drago, 
o que  absurdo. Ns dois sabemos a verdadeira identidade 
do Drago. Achamos que o menino  filho dele.
Por um longo momento Leicester no conseguiu dizer coisa 
alguma.
        Tem certeza?
        Encontramos o nome dele em arquivos no esconderijo do 
Drago em Londres quando o invadimos alguns meses atrs. 
Procuramos em todas as nossas bases de dados, registros da 
Previdncia Social e por a afora, mas levou um tempo at o 
encontrarmos. O rapaz nasceu no Canad. A certido de 
nascimento  falsa. Os pais nunca existiram. Algum teve 
muito trabalho para esconder quem ele  de verdade.
Aquele realmente no havia sido um bom dia para Gregory 
Leicester, e o conhaque no estava mais funcionando. O 
rosto de Joseph McCauley estava diante dele agora, e ele viu 
a semelhana imediatamente. Era inegvel. A marca do 
diabo estava claramente na sua prole. Confirmava tanto o pai 
como o Drago quanto o filho como seu sangue.
        Ele se foi, Claude  sussurrou ele, incapaz ele mesmo de 
acreditar naquilo.
        Como assim, se foi?
        Partiu essa manh. A tutora dele veio busc-lo.
        A tutora? Quem?
        Uma advogada chamada Linda Downey. Ela disse que 
representava o Ravenstock. O garoto agiu como se nunca 
tivesse posto os olhos nela antes.
        Linda Downey  repetiu D'Orsay.  Eu me lembro dela. 
Ela estava no torneio no ltimo vero. Uma encantadora.
        Uma encantadora!
O copo se estilhaou na mo de Leicester, e ele fitou o 
sangue que lhe corria pela palma. De repente, ficou claro o 
motivo pelo qual ele no conseguira resistir a ela.
D'Orsay ainda falava sobre Linda Downey.
        Ela  inesquecvel. Cativante mesmo. Eu me pergunto 
qual  a ligao dela com o Drago.  Ele ficou calado por 
um momento.  Quer dizer que ela encantou voc e o fez 
entregar o rapaz?
        No importa o que ela fez. Como  que eu ia saber quem 
era ele?
A verdade era que, em retrospecto, ele no conseguia se 
lembrar de como ela o persuadira a abrir mo de algo que 
quisera tanto manter.
To jovem. To poderoso. To resistente  persuaso. Ele 
devia ter suspeitado desde o princpio que o rapaz era um 
espio. Mas por que o Drago se arriscaria a colocar o filho 
num esquema daqueles, quando havia tido tanto trabalho 
para ocultar-lhe a identidade?
        Acho que podemos supor que a essa altura o Drago sabe 
tudo sobre o Porto Seguro  disse D'Orsay.  Voc vai ter 
de cair fora.
        Vou reforar as barreiras. amos partir em breve, de 
qualquer jeito. No h motivo para mudar nossos planos. O 
garoto se recusou a se conectar comigo, por isso no sabe 
muita coisa. E, se pudermos encontr-lo, poderemos us-lo 
para atrair o Drago para fora do esconderijo.
        Eles disseram para onde iam?  perguntou D'Orsay.
        No.  Provavelmente no para Portland, no Maine.  
De onde ela ?
        No sei onde ela vive, mas posso descobrir. Ela tem 
alguma conexo com o Santurio que foi estabelecido depois 
do desastre no ltimo torneio. Alguma cidadezinha no 
Meio-Oeste. Pode ser um bom lugar para comear.
        Deixe que eu procure por eles. Vou tentar intercept-los 
antes que cheguem ao Santurio.  Leicester tinha seus 
motivos pessoais para faz-lo.  Eu tenho vdeos do Joseph 
e talvez tenha algumas fotografias. Vou envi-los a voc por 
e-mail. 
E assim foi combinado.
Captulo Dez
A Teia Weir

Seph alternava a contemplao da paisagem com os breves e 
profundos cochilos com que se acostumara no Porto Seguro. 
Ele era como um animal para quem um momento de 
desateno podia significar a diferena entre a vida e a 
morte.
Linda observava-o quando achava que ele no estava 
olhando.
Eles seguiram o longo crculo da via I-95 em torno de 
Boston antes de entrar na rodovia oeste, que atravessava 
Massachusetts.
Na rodovia, pararam em um daqueles shoppings em que os 
incansveis viajantes podiam comprar qualquer coisa de que 
necessitassem. Ele escolheu duas camisetas do time de 
hquei Toronto Maple Leafs e uma blusa do time canadense 
de beisebol Blue Jays, dois pares de calas de abrigo, roupa 
de baixo e uma escova de dentes. A soma total de suas posses 
naquele momento. Tirou a camisa arruinada e limpou 
cuidadosamente o sangue do rosto no lavatrio, e sua pele 
ardia com o horrvel sabonete lquido.
Eles deixaram a rodovia em Stockbridge, em Massachusetts, 
logo antes da fronteira com Nova York. Linda seguiu em 
direo s montanhas, bem acima da cidade, at uma penso 
que ela conhecia. Jantaram em uma pequena sala que dava 
para uma cascata e alugaram dois quartos sob o nome 
O'Herron, coincidentemente Linda estava com uma 
identidade falsa. Ele no questionou aquilo, nem se importou 
em telefonar para Denis Houghton para confirmar a histria 
de Linda Downey. No parecia haver muito sentido em 
fazer isso.
Seph no usou a pedra portal quando deitou entre as 
cobertas naquela noite. Estava apreensivo, porm, sem saber 
se Gregory Leicester poderia alcan-lo mesmo aquela 
distncia. Teve um sono agitado, mas os sonhos foram 
normais.

Na manh seguinte, partiram antes que o sol nascesse, 
quando a penso estava ainda encoberta pelas sombras das 
montanhas. Cruzaram os limites estaduais e entraram no 
longo corredor do Estado de Nova York, atravessaram o rio 
Hudson e passaram para a Via Expressa de Nova York 
prximo a Albany.
Linda percebeu, pelo modo como Seph se movia, que ele 
estava dolorido e com os msculos enrijecidos. Ele mantinha 
os cotovelos baixos, junto ao corpo, como se protegesse o 
torso. O lbio estava partido e inchado, e todo o lado direito 
do rosto estava machucado. Ele no se queixava, porm, e 
dava respostas evasivas s perguntas de Linda.
Linda estava feliz em poder olh-lo de perto aps tantos anos 
observando-o a distncia. Fitou os cachos escuros, mais 
longos do que de costume e sem gel, as sobrancelhas que 
seriam espessas quando ele se tornasse adulto e os ossos do 
rosto sob a luz mutvel. Ele precisava ser tratado, ela sabia, 
mas ela no tinha o remdio para o que o atormentava. 
Consultaria Nick Snowbeard a respeito quando chegassem a 
Trinity.
Ela se perguntou como poderia mant-lo longe das trevas 
que se acumulavam. O Santurio seria mais seguro do que 
qualquer outro lugar, mas tambm poderia atrair a ateno 
daqueles que no o haviam notado at agora.
Hastings saberia das notcias por intermdio do Conselho 
dos Magos, mas ela deveria ter cuidado com ele, com o que 
ela perguntasse e como perguntasse.
Leander Hastings no precisava saber sobre Seph McCauley.

Eles deixaram a via I-90 a oeste de Cleveland. quela altura, 
passava das sete horas, e o estmago de Seph lembrou-o de 
que no haviam almoado. Linda olhou-o de relance.
        Estamos chegando  disse ela.  Quer parar para comer 
ou esperar at chegarmos na cidade?
Seph deu de ombros.
        Vamos direto pra l.
Estavam passando junto  margem do lago. Seph viu placas 
de vincolas, de hotis e da Faculdade de Trinity.
Quando fizeram uma curva, ele viu a cidade em si, do outro 
lado de uma pequena baa, como um cenrio de carto-
postal. Estranhas fachadas de lojas e casas vitorianas se 
aglomeravam junto s guas, os campanrios de puro branco 
das igrejas erguendo-se por detrs, um porto e uma marina 
pitorescos flanqueados de barcos. Mais veleiros estavam 
ancorados logo alm da margem.
A cidade cintilava sob a luz oblqua do sol, como se um vu 
iridescente a cobrisse, algum truque peculiar da luz. O carro 
diminuiu de velocidade, e Seph olhou rapidamente para 
Linda. Ela franzia a testa, a cabea inclinada, como se 
estivesse vendo algo de que no gostava. Ela removeu os 
culos escuros e inclinou-se para a frente, forando os olhos 
para ver alm do pra-brisa, e ento virou rapidamente para a 
esquerda no cruzamento seguinte e rumou para o sul.
        Qual  o problema?  indagou Seph.
        No sei.
Eles seguiram o desvio para o sul por alguns quilmetros, 
depois viraram em direo ao oeste e de volta para o norte, 
de modo que se aproximaram da cidade pelo sul. Alcanaram 
uma cumeeira, talvez uma antiga costa do lago e, mais uma 
vez, a cidade aparecia reluzente diante deles, com o lago 
alm. Indistinta, de um rosa arroxeado, como uma ilustrao 
mal impressa numa revista de papel barato. Linda sacudiu a 
cabea, resmungando para si mesma, fez uma sbita curva 
para a direita, entrando no estacionamento de uma pequena 
lanchonete, e parou o carro.
        Vamos comer aqui  disse ela.  Entre e escolha uma 
mesa. Pea o que quiser, mais uma salada pra mim. Preciso 
dar um telefonema.
Ela pegou um celular e gesticulou para que ele se afastasse.
Perplexo, Seph entrou no restaurante, que estava quase 
vazio, talvez porque no fosse fim de semana. O nico 
empregado  vista estava enxugando os copos atrs do 
balco. Ele levou Seph para uma mesa nos fundos, fitando-
lhe o rosto machucado com franca curiosidade, como se 
esperando que o convidado pagasse pelo jantar com uma 
histria sobre a recente surra.
Quando Linda entrou, a comida j havia chegado.
        Para quem voc telefonou?  perguntou ele.
        Para o meu sobrinho, Jack  explicou Linda.  Ele vai 
nos encontrar aqui. A minha irm, Becka,  advogada. Ela 
tambm d aula de literatura na Faculdade de Trinity. O Jack 
 filho dela. Ele  um pouco mais velho do que voc.
Seph deu de ombros, confuso com a mudana de planos.
        Tudo bem.
        Ele  guerreiro  continuou Linda.  Um dos Weirlinds.
Seph parou de mastigar e ergueu os olhos. Jason havia dito 
que os guerreiros eram extremamente raros. Como uma 
espcie em extino.
        Um guerreiro? Est esperando problemas?
Linda deu de ombros.
        No sei. Espero que no. Talvez ele traga junto algumas 
outras pessoas.
        Qual  o problema?  indagou Seph.
        Tem uma barreira mgica em torno da cidade. Uma Teia 
Weir. Quero saber h quanto tempo est l e quem a 
construiu.
Uma Teia Weir. Um frio correu-lhe espinha abaixo. Seph se 
lembrou da barreira em torno do Porto Seguro, com sua 
aparncia borrada e iridescente. O vu sobre Trinity era 
similar. Seria uma coincidncia?
Eles terminaram a comida, e Seph pediu uma fatia de torta 
de ma com sorvete. Ele a estava dissecando, saboreando-a 
em centenas de pequenas mordidas, quando a porta se abriu 
e trs pessoas entraram.
Um deles era um velho muito magro, com uma barba branca 
bem cuidada e olhos negros brilhantes. Ele se apoiava numa 
bengala com uma intrincada cabea de urso esculpida no 
topo. Embora os magos no conseguissem reconhecer 
automaticamente a prpria espcie, aquele parecia ser um 
prottipo.
Ele era diferente dos outros magos que Seph conhecera. 
Havia algo de bondoso e tranqilizador em seu rosto, nas 
rugas em torno dos olhos.
Os outros dois tinham mais ou menos a idade de Seph. Um 
era um adolescente alto de aparncia atltica, com reluzente 
cabelo vermelho dourado e olhos azuis que lembravam os de 
Linda. Vestia jeans e uma camiseta que revelava o peito e os 
ombros largos, e os braos musculosos. Ele sorriu ao localiz-
los no canto e cruzou o espao entre a porta e a mesa a 
passos largos.
"Eu nunca vi algum de 17 anos com esse corpo", pensou 
Seph. Esse deve ser Jack, o guerreiro. Ele baixou os olhos de 
relance para o prprio corpo, envergonhado de quo magro 
estava.
        Tia Linda!
O rapaz ruivo ps as mos nos ombros dela, inclinou-se e 
beijou-a no rosto.
O terceiro membro do trio era uma garota, quase to alta 
quanto o rapaz, mas de cabelos castanhos. Havia certa graa 
fsica e confiana nos dois. O puro poder fsico deles parecia 
empurrar todos os demais para a periferia. Se Jack  
guerreiro, pensou Seph, ento ela tambm .
        Oi, tia Linda.
A garota tambm abraou Linda Downey, com um pouco 
mais de timidez. Seph comeava a se sentir deixado para 
escanteio em meio ao encontro e s saudaes. Mas sentiu os 
olhos do mago sobre ele e, no momento seguinte, os 
guerreiros o notaram tambm. Jack deu um passo para trs, e 
a mo direita da garota voou para o cinto como se ela 
pudesse encontrar uma arma ali.
Seph levantou-se.
        Meu nome  Seph  disse ele, estendendo a mo para o 
mago.
Seph sentiu o poder bem controlado, mas slido por trs do 
aperto. Teve a sensao de que o velho j sabia exatamente 
quem ele era.
Linda indicou o mago com a cabea.
        Desculpe, Seph. Este  Nicodemus Snowbeard. E o meu 
sobrinho, Jack Swift, e uma amiga, Ellen Stephenson.  Ela 
ps a mo no ombro de Seph.  Este  Seph McCauley  
disse ela, sem defini-lo de modo algum.
"Jack Swift", pensou Seph. "Onde foi que eu ouvi esse nome 
antes?"
        Voc no me falou que ele era mago  disse Jack, no se 
preocupando em ocultar a surpresa. Todos os trs olhavam 
com curiosidade para o lbio cortado e inchado e para o 
rosto machucado de Seph.  Desde quando um mago 
precisa de santurio?  perguntou-lhe, com certo tom de 
desafio.
Seph ergueu o queixo e olhou Jack nos olhos. Ele era quase 
da altura do guerreiro, embora Jack provavelmente pesasse 
50% a mais.
        Por qu? Voc  o porteiro?
        Jack, voc melhor do que ningum deveria saber que no 
 difcil fazer inimigos, no importa quem voc seja  
apressou-se em dizer Linda.
Era isso. Jack Swift era o guerreiro que lutara no famoso 
torneio na Ravina do Corvo. O rebelde por trs das 
mudanas nas regras. E ele era o sobrinho de Linda Downey.
Seph lembrou-se do que ela dissera no carro. O meu 
sobrinho estava com problemas, e... eu me distra. Seph 
estudou Jack com novo interesse, como se houvesse subi-
tamente descoberto uma celebridade sentada a seu lado num 
cinema.
Os recm-chegados puxaram mais cadeiras ao redor da mesa.
        Como passaram pela barreira, Nicodemus?  indagou 
Linda.
Snowbeard indicou os dois guerreiros com a cabea.
        Jack e Ellen trouxeram as espadas deles. Conseguiram abrir 
caminho para ns.
        Tivemos visitas, antes de terminar a travessia.  Jack 
esticou as longas pernas no espao entre as mesas.
        Quatro magos apareceram. Estavam bem agitados, a 
princpio, mas perderam o interesse quando viram quem 
ramos.
        Os magos que montaram a teia podem detectar qualquer 
distrbio nela. Como uma aranha esperando pela presa  
disse Snowbeard.  Quem quer que tenha feito isso tem um 
grande talento e um poder impressionante.  inacreditvel 
que ela tenha sido montada to rpido.
Seph afastou para o lado os restos da torta, perdendo o 
interesse nela.
        Qual era a aparncia desses magos?
        Eram todos bem jovens, talvez alguns anos mais velhos do 
que ns  disse Ellen.
        Eles perguntaram sobre uma encantadora e um jovem 
mago, e a descrio combinava com vocs  acrescentou 
Jack, fixando Seph com um olhar implacvel.
        Eram magos tpicos, arrogantes e mandes, mas acho que 
decidiram no se meter em confuso.
O guerreiro flexionou as mos e pousou-as sobre os joelhos, 
sugerindo que ele no teria se importado em se meter em 
confuso.
        Eles mandaram a gente deixar a teia em paz  
acrescentou Ellen.
        Como funciona uma Teia Weir?  indagou Seph.
O velho coou a barba.
         uma barreira malevel e seletiva que bloqueia os Weirs, 
as pessoas que carregam uma pedra. Os Anaweirs 
conseguem passar por ela sem nem notar nada. Para ns,  
uma armadilha embaraosa. Ela segura voc apertado, se 
tocar em qualquer parte dela. Com algum tempo, eu poderia 
forar uma abertura. Mas ela  projetada para resistir a 
feitios.
Barber havia montado o muro mgico no Porto Seguro. Mas 
como eles poderiam t-los rastreado at ali to rapidamente? 
E por que o deixaram sair, se iriam atrs dele depois?
        A Teia Weir  uma escolha de armas interessante  disse 
Snowbeard, pensativo.  Era usada freqentemente nas 
guerras dos magos no sculo XVI. Os magos prendiam os 
Weirs de Casas adversrias nessa armadilha e ento os 
matavam  vontade, ou os tomavam como prisioneiros.  
um bom trabalho. No vejo nada assim h sculos.
Seph piscou ante o comentrio do mago. Quo velho era ele, 
afinal? Jason dissera que os magos viviam quase que para 
sempre, mas Seph pensara que ele estivesse exagerando.
        Bem  continuou Snowbeard , vamos ter de supor que 
algum quer impedir vocs de chegarem ao Santurio. O uso 
da teia sugere que eles querem vocs vivos. De outro modo, 
teriam montado um outro tipo de armadilha.
        Ento  disse Jack, apoiando-se sobre a mesa, falando 
diretamente a Seph , andou deixando algum nervoso ou o 
qu?
        Quer relaxar?  disse Ellen, franzindo o cenho para Jack. 
 No d pra ver que ele passou por maus bocados?
Seph empurrou a cadeira para trs.
        Ei, se no podemos entrar, eu vou pra algum outro lugar. 
No quero atrapalhar ningum.
Linda ps a mo no brao dele.
        No. Eu quero voc no Santurio.
Ela olhou feio para os outros em torno da mesa, desafiando 
qualquer um a discordar.
        O que tem de especial nesse Santurio?  perguntou 
Seph.
        A magia de ataque no  permitida dentro de seus limites 
 respondeu Snowbeard. Ele cobriu a mo de Linda com a 
dele e murmurou algo para ela.   melhor irmos. Vai levar 
algum tempo para atravessar a teia, e acho que no queremos 
ter de entreter quatro magos enquanto fazemos isso. Por 
isso, sugiro que criemos uma distrao.
Ele se inclinou para a frente.
        Vamos nos dividir. O Jack e a Ellen vo abrir caminho 
para o Seph. Os magos conhecem o seu carro, no , Linda? 
Ento voc e eu vamos criar uma iluso com o carro. Com 
alguma sorte, eles viro atrs de ns. Quando descobrirem o 
erro, vocs j estaro l dentro.  Ele fez uma pausa.  
Esperemos que sim. Pelo menos isso vai dividi-los. Posso 
criar uma distrao fantstica, se me permitem dizer. Sou o 
que tem a maior probabilidade de ter sucesso e voltar vivo e, 
se eu no conseguir, tenho quase 492 anos.  Ele se voltou 
para Linda.  Tem alguma coisa que voc gostaria de tirar 
do carro?
Linda pagou a conta, e eles caminharam at o estaciona-
mento juntos. Um Subaru preto estava num ponto isolado 
nos fundos do restaurante. Jack abriu o porta-malas e ergueu 
duas espadas ornadas, passando uma para Ellen, com o 
cuidado de voltar o punho da espada para ela.
As armas iluminaram o estacionamento  fascas brilhantes 
ao pr do sol que se aproximava. A de Jack era a maior das 
duas e tinha um grande rubi vermelho no punho. Jack 
manejava-a como se no pesasse nada. Ele afivelou um cinto 
de couro com uma bainha, que lhe cruzava as costas na 
diagonal.
'Talvez aquelas fossem peas mgicas da era de ouro da 
magia, como a dyrne sefa", pensou Seph.
 Vamos sincronizar os relgios. So 7h55  disse 
Snowbeard.  Linda e eu vamos invadir a teia s 8h15. 
Esperem alguns minutos depois disso e ento atravessem 
vocs.
Snowbeard deslizou para trs do volante do BMW, com 
Linda no lado do passageiro. Jack, Ellen e Seph entraram no 
Subaru, alojando as espadas entre os assentos.
Os carros rodavam um atrs do outro, com Snowbeard 
ditando o caminho por estradas rurais, fazendo tantas curvas 
quanto necessrio para que se mantivessem prximos da 
fronteira tremeluzente, que parecia se estender to longe 
quanto podiam ver, formando um arco sobre a cidade. Seria 
fcil trombar com ela, se no se prestasse ateno.
Cerca de um quilmetro e meio a oeste, Jack se afastou da 
estrada rumo  beira de um campo. Os trs saram do carro, 
Jack e Ellen carregando as espadas. Snowbeard foi em frente 
e desapareceu por trs da elevao seguinte.
Eles escolheram um ponto onde a barreira atravessava um 
campo. Havia uma velha casa de fazenda junto  estrada, a 
pintura acinzentada pelo clima. Os alicerces da casa haviam 
sido cobertos por rosas selvagens, ramos de flores vermelhas 
e brancas com centros amarelos. No pasto, o gado passava de 
um lado para o outro da barreira, sem se dar conta dela. O sol 
de fim do dia incidia obliquamente no curral junto ao 
celeiro.
Eles passaram pela casa, esgueirando-se por trs do celeiro, 
onde haveria menos probabilidade de serem vistos da 
estrada. Ali, entre o celeiro e o pasto cercado, a grama 
chegava quase  altura do joelho e abrigava perigos ocultos: 
pedaos enferrujados de maquinaria velha da fazenda e 
montes de estrume de vaca.
De perto, a barreira se revelou uma rede intrincada de fios 
quase translcidos, to grossos quanto o dedo mindinho de 
Seph. Havia menos de trs centmetros de espao entre os 
fios em qualquer ponto da teia. Havia algo de matemtico 
naquele padro, como os raios de uma teia de aranha. Era 
como se fosse uma presena malfica, como se a teia 
estivesse viva e observando-os. Seph no saberia dizer quo 
espessa era.
Jack andava de um lado para o outro com impacincia, 
golpeando com a espada como uma foice, aparando as pontas 
do mato. Seph e Ellen se sentaram na grama e esperaram. 
Insetos zuniam junto a seus rostos.
s 8h15, eles formaram um fila junto  barreira, com Jack na 
frente, depois Ellen, seguida por Seph.
 A gente s vai conseguir abrir uma picada estreita  
avisou Jack a Seph.  Essa coisa  dura de cortar e parece 
que vai fechando o espao por trs. Por isso tenham cuidado 
pra no tocar em nenhuma parte dela.
 distncia, eles ouviram um estrondo e viram chamas 
irrompendo no ar como uma srie de velas romanas 
gigantescas. A distrao havia comeado.
"Eles vo ter sorte se no atrarem a polcia local tambm", 
pensou Seph.
A espada de lmina azul de Jack mordeu a teia, lanando 
fragmentos de fios para todos os lados. A teia respondeu de 
imediato, encolhendo-se diante deles. Um murmrio 
cresceu vindo da Teia Weir, como o som de uma multido 
furiosa. O som cresceu at se tornar um grande clamor 
choroso.
Jack olhou para trs, fazendo uma careta.
 Difcil de agentar, no ?
Ele voltou ao trabalho. Movia-se de uma posio a outra 
como um esgrimista, a espada como um borro brilhante, 
cantando enquanto a teia se lamentava. O jogo de espada do 
guerreiro era pura poesia, embora a camiseta logo lhe 
grudasse ao corpo e o suor lhe escorresse pelo rosto. Ellen 
seguia atrs, eliminando as gavinhas3 soltas e alargando o 
caminho atrs de Jack. Eles trocavam de posio a cada 
poucos minutos. Seph vigiava a retaguarda em busca de 
sinais de perseguidores.
Eles haviam cortado uma trilha de cerca de nove metros teia 
adentro quando aconteceu. Uma das gavinhas que Jack 
partiu ricocheteou, e Ellen deu um passo para o lado para se 
desviar. O brao dela roou em uma das gavinhas soltas na 
lateral da picada. A teia reagiu rapidamente, lanando-lhe 
trs novos fios ao redor da cintura. 
- Jack!
Ellen cortou os fios com a prpria espada, mas uma linha se 
embaraou ao redor de suas pernas, e ela caiu. Mais fios se 
enroscaram em torno do brao com que ela segurava a 
espada, aparentemente atrados por seus violentos esforos 
para se libertar.
        Quer ficar quieta?  Jack mergulhou na rede que crescia 
ao redor dela, cortando os fios que lhe mantinham o corpo 
prisioneiro. Ele usava a lmina como um cirurgio, 
retalhando a teia, milagrosamente sem derramar sangue. 
Ellen ficou imvel como uma pedra, sem se esquivar, 
embora resmungando palavres bastante criativos. Mas a teia 
respondeu atirando mais fios. Jack precisava tomar cuidado 
para no ficar preso tambm. No estava fazendo nenhum 
progresso visvel. Ele sacou uma faca de uma bainha no 
cinto e olhou para Seph.  Escute, voc  bom com uma 
faca?
Seph no tinha talento algum com uma faca, mas a agarrou e 
comeou a cortar as grossas gavinhas, consciente do tempo 
que passava, trabalhando to rpido quanto possvel ao 
mesmo tempo em que tentava ficar longe de rgos vitais. 
Em torno deles, a teia parecia gargalhar em triunfo.
Aps cinco minutos, Ellen continuava to presa quanto 
antes. Ela ergueu os olhos para Jack e Seph.
        Vo em frente  disse ela.  Vocs j perderam tempo 
demais.
        No  disse Jack com teimosia, cortando os fios junto  
cintura dela, seus cabelos empapados de suor.
        A Linda nos disse para levar o Seph para o Santurio. 
Leve-o e volte para me buscar. Eu posso me cuidar.
        Sei  grunhiu Jack.  Contra magos. Quando voc est 
entrouxada a como um...
        E de quem  a culpa? Quero dizer, se voc fosse um pouco 
menos desajeitado com essa sua espada...
        Nem pense que vai conseguir me deixar furioso o bastante 
para abandonar voc aqui.
        Eu conheo aquelas pessoas  disse Seph, cortando o fio 
que prendia os tornozelos dela.  A gente no vai deixar 
voc aqui.
        Brilhante. Vamos ser capturados, todos os trs.
Como eles no respondessem, ela acrescentou:
        Vocs sabem que eu tenho razo.
        Est certo!  Jack enxugou o suor que lhe corria pelo 
rosto.  Venha c, voc!  disse ele a Seph.  Quanto 
mais rpido a gente atravessar, mais rpido eu posso voltar.
Jack deu as costas a Ellen num giro e comeou a cortar de 
novo com fria, lanando gavinhas para todos os lados. O 
choro lamurioso recomeou. Eles avanaram rapidamente. 
Eram provavelmente outros 18 metros at a parede interna 
da barreira, e depois 800 metros at os limites da cidade.
Quando chegaram ao outro lado, Seph se virou e olhou para 
trs, para Ellen. Ela estava quieta, sem lutar mais. Quando o 
viu olhando para ela, Ellen fez uma carranca e acenou para 
que fossem embora.
        V busc-la  disse Seph.  Eu vou o resto do caminho 
sozinho.
Jack sacudiu a cabea. Eles estariam em campo aberto desde 
a borda da barreira at os limites da cidade.
 Vamos.
Jack comeou a atravessar o campo correndo, as longas 
pernas cobrindo a distncia em grandes saltos. Seph seguiu, 
determinado a acompanhar-lhe o passo, apesar das queixas 
dos msculos torturados e do corpo machucado.


Assim que eles passaram pela borda da barreira, Ellen no 
conseguiu mais enxergar Seph e Jack, nem ouvir os sons do 
progresso deles, apenas o sussurro satisfeito da teia em torno 
dela. Tentou ignorar o rudo. Era desconfortvel, mas ela 
permaneceu parada, pois a teia apertava-se ao redor dela toda 
vez que se mexia. Uma vaca passou pela barreira e parou a 
alguns metros de distncia, encarando-a com curiosidade. A 
vaca ergueu a cabea e olhou para o outro lado da trilha. 
Ellen escutou algo tambm. Algum se aproximava.
Era um dos quatro jovens magos que eles haviam en-
contrado ao sair da cidade. Tinha cabelos loiros, quase 
brancos, penteados para trs e uma barba por fazer to clara 
que era quase translcida. Os olhos eram de uma cor diluda, 
como uma fina camada de cal sobre azul.
Ele pareceu surpreso ao ver Ellen, como se fosse incon-
cebvel que ela desobedecesse s suas ordens.
 Voc, de novo! Eu falei pra no tocar nisso.
As gavinhas que compunham a barreira responderam  
presena dele como serpentes encantadas por um faquir, 
enroscando-se em seus ombros e deslizando entre seus ps, 
e murmuravam com excitao.
- Eu s estava tentando voltar pra cidade e fiquei presa.
Ellen assumiu o que esperava ser uma expresso neutra e 
estpida. Havia passado uma vida inteira mentindo para 
magos. A arrogncia deles facilitava bastante.
        O que  isso?  O mago libertou gentilmente a espada de 
Ellen do n de cips e examinou-a, virando-a sob a luz. Ele 
ensaiou alguns golpes, segurando-a como um taco de golfe. 
 Isto  fantstico. Onde conseguiu?
        Comprei de um mercador.
        Voc tem mais peas como esta?
Ellen sacudiu a cabea, vendo o mago brandir a espada e 
desejando poder pr as mos nela.
        Voc  o qu, uma feiticeira?
        No sei do que voc est falando.
O mago revirou os olhos.
        Certo. Qual  o seu nome?
No era boa idia dar a um mago informaes pessoais.
        Nikki. Com dois Ks e um I. Qual  o seu?
        Warren Barber.  Ele a olhou com suspeita.  Olha, 
amorzinho, eu sei que est acontecendo alguma coisa. Fogos. 
Exploses. Pessoas correndo por a com espadas mgicas. 
Velhotes em carros esporte.
        Tem sido assim desde que eles montaram o Santurio. Ele 
atrai todo o tipo de ral. Costumava ser uma cidadezinha 
tranqila.  Ela ergueu os olhos para ele.  E a? Ser que 
d para me tirar desta teia?
Barber depositou a espada no cho com cuidado, fora do 
alcance de Ellen, e comeou a cantarolar feitios, seduzindo 
os fios para longe do corpo de Ellen at que as pernas dela 
estivessem livres. Ele manteve as mos dela atadas com 
firmeza. Ela estendeu os pulsos presos.
        Para que isso?
        Tenho a sensao de que voc sabe mais do que est 
dizendo. Acho que, com um pouco de persuaso, voc vai 
me contar o que .
Ele sorriu e estendeu as mos.
Ellen sabia bem quo doloroso o toque de um mago podia 
ser. L se ia a coexistncia pacfica. Ela dobrou as pernas e 
usou a cabea como arete contra o rosto de Barber, sentindo 
o nariz dele se esmigalhar com o impacto. Ela aterrissou 
rolando e agarrou o punho da espada com as mos presas. 
Balanando a lmina para cima, apontou-a contra o trax do 
mago, as chamas danando avidamente na ponta. Mas ele 
pulou para fora de seu alcance, tecendo com as mos fios 
adicionais que serpentearam ao redor do corpo de Ellen, 
apesar dos esforos dela de cort-los. Eles se contraram at 
que ela ficou totalmente imvel, e ento Barber arrancou a 
espada de suas mos e colocou-a de lado.
Ele se ajoelhou e inclinou-se sobre ela, o sangue jorrando do 
nariz quebrado, o rosto plido salpicado de roxo devido  
fria. Ele ps as mos quentes de mago ao redor da garganta 
dela e apertou. Ela se contorceu e revirou sob o peso dele, 
mas no conseguiu se libertar. Pontos danavam diante de 
seus olhos e se fundiram, mergulhando-a nas trevas.
Algo se chocou contra eles. O peso do mago no estava mais 
sobre ela, e a traqueia estava milagrosamente livre. Ellen 
inspirou grandes lufadas de ar at que a viso clareou. Ergueu 
os olhos e viu Jack e Barber circulando um ao redor do outro 
como lutadores pagos pelo nmero de rounds disputados.
        Voc est bem, Ellen?  indagou Jack, sem tirar os olhos 
de Barber.
        Estou tima  resmungou ela, sentindo-se estpida, cada 
ao cho, amarrada como um presunto de festa.  Me solte 
quando tiver um tempinho, sim?
Jack estendeu a mo por cima do ombro e desembainhou a 
espada, a Sombra Assassina, com um delicioso som sibilante. 
Ele mantinha os ps um pouco afastados, a espada apontada 
para o mago.
Barber recuou um passo, para fora do alcance imediato da 
lmina, e lanou a mo no sentido de Jack. Chamas jorraram 
em direo ao rosto de Jack, mas ele as bloqueou com a 
espada.
Barber lanou um feitio de imobilizao, porm antes que 
este lhe sasse da boca, Jack falou o contra-feitio, 
tropeando um pouco nas palavras. Barber passou a lngua 
pelos lbios.
        Voc  mago?
        Talvez  respondeu Jack, mantendo-se em posio de 
prontido, os olhos azuis duros e frios.
Barber fingiu que ia na direo de Jack e lanou uma rajada 
de chamas contra Ellen. Jack postou-se diante das chamas, 
empurrando Ellen para o lado. Lnguas de fogo engolfaram o 
brao com que ele segurava a espada.
A Sombra Assassina escorregou-lhe da mo, caindo com um 
baque na grama alta. Praguejando, Jack saltou atrs da espada, 
mas Barber teceu longos fios que se enrascaram nas pernas 
de Jack e envolveram-lhe o corpo.
Quase com indolncia, Barber ergueu as mos para desferir 
um golpe fatal. Subitamente uma expresso peculiar se 
estampou em seu rosto. Ele oscilou, depois tombou para a 
frente na grama e ficou imvel.
Finalmente livre, Jack recuperou a espada e se ps de p 
diante do mago, ambas as mos segurando o punho da arma, 
a ponta da lmina pressionando a nuca de Barber. Mas 
Barber estava totalmente apagado.
Seph McCauley se materializou diante dos olhos dele, como 
se surgisse em pleno ar, segurando um enorme galho como 
um basto de beisebol. Quando ele viu que Barber estava 
realmente fora de ao, jogou o galho para o lado.
        Foi o melhor que pude fazer  disse ele, em tom de 
desculpas.  No posso lanar feitios enquanto estou 
imperceptvel. De qualquer modo, no sei muita magia.
        Bom, est na cara que voc aprendeu alguma coisa  
disse Ellen, estendendo os pulsos para que Jack os soltasse.
        Sem querer ser ingrato, que diabos voc est fazendo aqui? 
 indagou Jack a Seph.  Eu falei pra voc ficar onde 
estava.
Seph afastou os cabelos dos olhos.
        Falou? Eu devo ter entendido mal.  Ele cutucou Barber 
com o p. Nenhuma resposta. Seph olhou em torno.  Ei, a 
muralha se foi.
Ellen ergueu os olhos. A muralha estava se desintegrando, 
dissolvendo-se em fiapos rasgados de nvoa.
        Acho que ela precisa de algum tipo de ateno consciente 
de Barber para se manter intacta.  Seph deu de ombros.  
Os outros magos vo saber que ele est fora da jogada. Agora 
parece um bom momento para a gente se mandar.
Com relutncia, Jack afastou a lmina do pescoo de Warren 
Barber e enfiou-a no boldri. Estava plido, suando e 
obviamente sentindo dor. O brao estava coberto de bolhas 
desde o pulso at o cotovelo, onde Barber o havia queimado.
        Esse seu brao est horrvel  disse Ellen.  Talvez o 
Nick possa dar uma olhada antes que a sua me veja.
Eles comearam a caminhar em direo  cidade, dessa vez 
cruzando os campos e pomares sem obstculos.
Jack enxugou o suor da testa com a mo que no estava 
ferida.
        Quem era aquele cara?  perguntou ele a Seph.
        Meu colega de escola  disse Seph.  No Porto Seguro.
        Deve ser um lugar fantstico, esse Porto Seguro  disse 
Jack com sarcasmo. Ele parecia estar de mau humor, 
provavelmente agravado pela dor no brao. Olhou de 
esguelha para Seph.  No entendo por que estamos nos 
envolvendo numa briga entre magos.
        Vamos nos envolver, quer voc goste disso ou no  
disse Ellen.  Voc sabe disso.
Seph franziu o cenho.
        No espero que nenhum de vocs se envolva. Se 
depender de mim, no vou causar mais problemas pra vocs.
Estava completamente escuro quela altura. Eles comearam 
a caminhar ao longo da estrada em direo ao centro da 
cidade. Haviam caminhado cerca de um quilmetro e meio 
quando viram um carro frear e parar no acostamento. Era o 
Subaru preto, com Nick Snowbeard atrs do volante e Linda 
ao lado.
        Ei!  disse Jack, tirando um conjunto de chaves de carro 
do bolso de trs.  Como deu partida no meu carro?  
indagou, fingindo espanto.  Voc pelo menos tem carteira 
de motorista?
        Se eu tivesse, eles provavelmente a revogariam depois 
desta noite  respondeu Snowbeard.

Eles seguiram de carro at um pavilho num parque junto  
margem do lago e se reuniram ao redor de uma surrada mesa 
de piquenique para o relatrio da misso. Snowbeard 
acendeu uma luz mgica no centro, projetando uma 
iluminao suave sobre todos os participantes.
Linda estendeu o brao e tocou gentilmente a mo de Jack.
        O que aconteceu com o seu brao?
Eles relataram a Snowbeard e Linda o encontro com Warren 
Barber.
        Voc pode fazer alguma coisa por ele, Nick?  pediu 
Linda.
Snowbeard estudou o ferimento, depois se inclinou na 
direo de Jack e segurou-o pelo pulso e ombro, com 
cuidado para no tocar a rea coberta de bolhas. O poder 
fluiu em ondas por entre as mos do velho mago, como um 
riacho fresco correndo sobre a pele de Jack. As bolhas 
diminuram, embora a rea continuasse com um tom 
vermelho berrante.
Jack soltou um longo suspiro e conseguiu abrir um sorriso.
        Obrigado, Nick. Est bem melhor.
        A probabilidade de infeccionar diminuiu agora, Jack, mas 
a rea vai ficar sensvel pelos prximos dias  disse 
Snowbeard. Ele se voltou para Ellen.  E quanto a voc, 
minha querida?
Ellen tinha um colar de manchas roxas em torno do 
pescoo, mas ignorou a pergunta de Snowbeard. Seph tinha 
a impresso de que ela no era do tipo de pessoa que gostava 
de ser resgatada.
Jack se voltou para Snowbeard.
        O que aconteceu com os outros magos? Cad o BMW?
Snowbeard sorriu, girando a bengala nas mos.
        Eu consegui perfurar uma passagem considervel na teia 
com fogo mgico e outros truques do gnero. A lancei 
alguns fogos de artifcio espetaculares. Quando os magos 
chegaram, pegamos o carro e corremos. Eles,  claro, 
presumiram que fossem Linda e Seph. Eles eram jovens e 
bastante entusiasmados. Ns os atramos para uma longa 
perseguio, sem nunca entrarmos realmente no Santurio. 
Ento estacionei no shopping junto ao cruzamento na 
rodovia. Ns entramos e nos misturamos  multido. O carro 
de Linda ainda est l.
        Como vocs voltaram pra cidade?  indagou Ellen.
        Encontramos uma famlia generosa disposta a nos dar uma 
carona  disse Snowbeard com naturalidade.  Dissemos a 
eles que havamos perdido o ltimo nibus.
        Achamos que amos ter problemas para passar pela Teia 
Weir, mas ela j havia cado  acrescentou Linda.
        Ento  disse Seph.  O que vocs acham que est 
acontecendo?
Linda pigarreou.
        O Leicester quer voc de volta. Por algum motivo. Barber 
trabalha para um mago chamado Gregory Leicester  
explicou ela aos outros.  Ele era o diretor dessa escola 
particular no Maine em que o Seph estudava.
Ela olhou de relance para Seph e ele desviou o olhar.
        Leicester tambm est no Conselho dos Magos  
acrescentou Snowbeard, pensativo.
        Eles no tm como ter certeza de que o Seph est aqui  
disse Linda.
        Eles viram o BMW  disse Ellen.  E viram voc.
        Mas no viram o Seph  retrucou Linda.
Snowbeard disse:
        Estou me dando conta de que no h nada que a gente 
possa fazer para impedi-los de entrar na cidade e olhar por 
a. E, dependendo de como se l as Leis de Combate, eles 
poderiam encontrar um jeito de levar voc ou o Seph para 
fora da cidade, utilizando truques ou fora, desde que no 
usem magia.
        Mas eu posso usar magia para me defender, certo?  Seph 
deu de ombros.  Supondo que eu encontre algum pra me 
treinar.
        Eu posso ensinar a voc  disse Snowbeard, olhando de 
Seph para Linda e de volta para ele.  Dependendo do que 
voc quiser aprender.
        timo. Obrigado.  Seph se voltou para Jack.  Hum... 
onde voc aprendeu a usar uma espada daquele jeito?
        Meu professor foi um mago chamado Leander Hastings  
respondeu Jack.  Ele  especialista em treinar guerreiros. 
Ele me ensinou a lutar.
Hastings.
        Ele mora em Trinity?  indagou Seph.
        No  respondeu Linda por Jack.
        Eu adoraria aprender a lutar desse jeito  disse Seph.
Linda ps a mo sobre o brao dele.
        Seph, voc no  guerreiro. Voc sabe disso.
        A maioria dos magos consegue o que quer sem lutar com 
ningum  disse Jack. Ele olhou para o relgio e levantou-
se da mesa.   melhor eu ir pra casa. Tenho prova amanh.
        O que vocs dois vo fazer?  perguntou Ellen.
        Vamos ficar na casa do Jack  disse Linda.
        A gente no devia telefonar avisando primeiro, ou algo 
assim?  Seph olhou para Linda e depois para Jack.
Jack sacudiu a cabea.
        Minha me est acostumada a ver a tia Linda aparecer 
inesperadamente. Se ela no aparecesse sem avisar, ela 
nunca apareceria.
        No se preocupe, Seph  disse Linda.  Pode acreditar, 
no vai ter problemas.
Quando voltaram para o carro, Jack sentou-se ao volante, 
empurrando o assento para trs para acomodar as longas 
pernas. Snowbeard sentou-se ao lado dele, e os outros atrs.
        Snowbeard mora num apartamento em cima da garagem 
do Jack  explicou Linda.  Ele  um tipo de zelador de 
meio perodo. Foi o professor de magia do Jack tambm. 
Tem cuidado do Jack desde que ele era beb.
        Se os magos no precisam aprender a lutar, por que um 
guerreiro precisa de um professor de magia?  perguntou 
Seph.
        Acho que se pode dizer que sou um tipo de mestio  
disse Jack, revirando os olhos.  Um mago com uma pedra 
de guerreiro. Ou um guerreiro com o corpo de um mago.
Outra longa histria, aparentemente.
Jack e Ellen moravam a duas casas de distncia uma da outra 
na Jefferson, uma rua de tijolos flanqueada por altas rvores 
frondosas e por enormes casas velhas assentadas sobre vastos 
gramados naturais. Eles deixaram Ellen em casa primeiro. O 
Subaru parou junto ao meio-fio, e Ellen desceu e tirou sua 
espada do porta-malas. Uma sombra se destacou da escurido 
na varanda da frente da casa e veio na direo deles.
        Oi, Will  disse Jack.  Esperando pela Ellen?
        Oi, Jack.  Will se inclinou sobre a janela do passageiro. 
 Quando vejo a Ellen sair correndo de casa com um 
grande sorriso no rosto, carregando a espada, sei que 
significa encrenca.  Ele tinha a estatura de um jogador de 
futebol americano, talvez um zagueiro de linha. Tinha o 
cabelo escuro cortado rente e vestia shorts e uma regata.  
Tia Linda!  Will a avistou no banco traseiro.  Eu devia 
saber. Deve haver feitiaria em ao!
        Oi, Will  disse Linda.  Este  Seph McCauley  
continuou ela, pousando a mo no ombro de Seph.  Ele 
vai passar o vero na casa do Jack.  Ela disse aquilo como 
se fosse algo j combinado.  Seph, este  Will Childers, 
amigo do Jack. No sou a tia dele de verdade, mas os amigos 
do Jack me chamam assim. Ellen veio morar com ele e os 
pais dele no ano passado, depois da Ravina do Corvo.
"Certo", pensou Seph. Vai ver  assim que so as coisas nas 
cidades pequenas: todos aparentados com todos, morando 
nas casas uns dos outros. Talvez Trinity fosse simplesmente 
uma grande comunidade. Ele tentaria relaxar e ir com a 
mar.
        Prazer em conhecer voc, Seph  dizia Will.  Vejo 
voc amanh, Jack. Eu apareo l pelas sete.
Will e Ellen caminharam na direo da casa. Os outros 
passaram com o carro por mais duas casas e viraram numa 
entrada de cascalho. Indo at os fundos de uma imensa casa 
vitoriana, pararam na frente de uma velha garagem separada 
da casa. Jack desligou o motor. Linda se virou para Seph.
        A me de Jack, minha irm,  Anaweir. Ela no sabe de 
nada desse negcio de magos e guerreiros. Tudo bem?
Seph assentiu.
        Entendi.
Jack pegou sua arma no porta-malas. Snowbeard desejou-
lhes boa-noite e subiu lentamente uma escada at andar 
sobre a garagem. Um instante depois, uma luz se acendeu na 
janela superior. Linda e Seph subiram os degraus de madeira 
atrs de Jack at alcanarem a porta de trs da casa, passando 
entre dois arbustos de hortnsias repletos de folhagens.
"Ns trs devemos parecer bem assustadores", percebeu 
Seph, subitamente embaraado. Embora o brao de Jack 
estivesse bem melhor do que antes, ele estava coberto de 
lama e grama, e Seph parecia ter estado no lado perdedor da 
briga. A muda de roupas nova dele ainda estava no BMW.
Uma escada estreita subia, conduzindo  escurido logo alm 
da porta de trs. Jack ps o dedo sobre os lbios e 
desapareceu escada acima, retornando de mos vazias e sem 
o boldri. Ento ele chamou:
        Me! Est vestida? Eu trouxe convidados!
        Estou no escritrio  respondeu uma mulher.   
algum que conheo?
        Sim e no.
Linda e Seph seguiram Jack at o interior da cozinha. Era 
enorme, com piso de ladrilhos de cermica e uma grande 
mesa de jantar em estilo campestre. Caixas de comida 
encomendada de restaurantes enchiam o balco junto  pia, 
com pratos sujos empilhados ao lado.
Uma mulher alta de cabelos loiro-avermelhados entrou no 
aposento com uma caneca de caf na mo. Era bvio de 
quem Jack puxara a cor do cabelo. Ela vestia calas jeans 
desbotadas, slidas sandlias de estilo hippie e uma blusa 
com a inscrio PO E ROSAS. Havia nela aquele tipo de 
beleza madura, natural e franca.
        Oi, Becka  disse Linda.
        Linda! Quando chegou  cidade?  Becka saudou a 
encantadora, inclinando-se para um abrao rpido e forte.  
Quanto tempo vai poder ficar?
Linda olhou para Seph.
        No tenho certeza.
        Por que me dou ao trabalho de perguntar? Voc sempre 
responde isso.  Ela se virou para Jack.  Jack, por onde 
andou? Voc sabe que tem prova amanh!
        Ele estava comigo  disse Linda.  Desculpe.
Becka finalmente notou Seph, que ainda hesitava junto  
entrada da cozinha.
        Oh!  disse ela, pondo a mo na boca ao perceber os 
sinais da surra recente. Ento ela sorriu e aproximou-se dele, 
estendendo as mos.  Ol. Eu sou Becka Downey.
        E eu, Seph McCauley  disse ele.  Prazer em conhec-
la.
Ele estendeu a mo, que ela tomou entre as suas e segurou 
por um minuto. Havia algo de reconfortante no gesto, como 
se ela j estivesse do lado dele. E, felizmente, ela no fez 
nenhuma pergunta. Sobre o rosto dele, pelo menos.
Becka virou-se para os restos de comida sobre o balco, s 
suas costas.
        Vocs j comeram?
        Oh, sim, bastante  disse Seph, sentindo-se embaraado 
de novo.
        Ento vou buscar algo para beber, pelo menos. Tenho 
alguns refrigerantes l embaixo na adega.
        Eu vou com voc  disse Linda.
Ambas as irms desapareceram escada abaixo.
         melhor voc se sentar  disse Jack em tom irnico, 
apontando para as cadeiras em torno da mesa.
Seph sentou-se. Jack tirou quatro copos do armrio, encheu-
os com gelo e levou-os com cuidado para a mesa. Virou uma 
cadeira e sentou-se nela, apoiando os braos s costas e 
fitando Seph. Houve um silncio constrangedor.
         s voc e a sua me?  perguntou Seph.
Jack fez que sim com a cabea.
        Meu pai mora em Boston. Eles so divorciados. Acho que, 
quando compraram a casa, pensaram que ficariam aqui para 
sempre.  Ele esfregou o queixo.  De onde voc ?
        Toronto, na maior parte do tempo  disse Seph 
automaticamente.  Mas me mudei vrias vezes.
De repente, sentiu-se muito cansado.
        Est em que ano, segundo?
Seph assentiu.
        A tia Linda disse que os seus pais morreram?
        Disse.
Seph ignorou a implicao da pergunta, a que ele, de 
qualquer modo, no sabia responder. Felizmente, bem 
naquele momento, Becka e Linda emergiram da adega com 
garrafas de root beer, um tipo de refrigerante feito de razes, 
reluzindo devido  condensao. Elas enfileiraram as garrafas 
no balco e as abriram. Depositando uma garrafa na frente de 
Seph, Becka sorriu e pousou a mo sobre seu ombro. Seph 
perguntou-se sobre o que elas haviam conversado l 
embaixo. No teve de esperar muito para descobrir.
        Seph, a Linda me disse que voc precisa de um lugar pra 
ficar neste vero. Jack e eu adoraramos ter voc aqui. Vai 
nos dar um pretexto pra acabar de pr o papel de parede no 
quarto do segundo andar.
Seph sentiu o sangue subir-lhe s faces.
        Srio, eu...
Becka foi adiante, sem recuar.
        Seria timo. A gente vai poder ver a Linda mais vezes, j 
que eu sei que ela quer passar algum tempo com voc. E o 
Jack pode apresentar voc aos amigos dele.
Seph olhou de relance para Jack, que provavelmente sabia 
que no valia a pena objetar.
        Eu realmente no quero incomodar...
        Se isso fizer voc se sentir melhor, voc pode ajudar o 
Nick com o papel de parede. Tem sempre bastante trabalho a 
ser feito por aqui. Por favor, diga que vai ficar.
Sem palavras, Seph concordou com um gesto de cabea. Era 
difcil dizer no  me de Jack.
        Ento est tudo combinado.  Ela sorriu para Seph.  
Por que no traz as suas coisas?
Seph olhou para Linda em busca de auxlio. Ela interferiu 
rapidamente.
        No temos muita coisa, porque ns... ahn... estvamos 
com pressa. Vamos arranjar algumas roupas pra voc 
amanh, Seph.
        Aposto que algumas das roupas velhas do Jack vo servir 
em voc  sugeriu Becka.  Aquelas de antes do surto de 
crescimento do ano passado.  Ela riu. Temos roupas em 
trs tamanhos l em cima. Mal foram usadas.
Eles mudaram de assunto. Linda perguntou sobre o trabalho 
de Becka e sobre pessoas de quem Seph nunca ouvira falar. 
As vozes se esvaram gradualmente num tipo de zumbido. 
Seph abriu os olhou e viu que todos o encaravam. Ele 
adormecera  mesa.
        Desculpem-me  murmurou ele, mortiflcado.  No  
que vocs sejam entediantes. Juro.
Todos riram.
        Jack, por que voc no leva o Seph l pra cima e o ajuda a 
fazer a cama?  sugeriu Becka.  E voc precisa ir dormir 
tambm. Espero que tenha tido tempo pra estudar antes da 
chegada da sua tia.
Jack levou o copo para a pia, depois fez um gesto de cabea 
indicando a escadas dos fundos. Eles subiram a escadaria 
estreita at o primeiro andar. Jack apanhou uma pilha de 
lenis e toalhas em um armrio de roupas de cama no 
corredor, e eles subiram outro lance de escadas at o 
segundo andar.
Havia quatro quartos no segundo andar, trs dos quais 
estavam entulhados do cho at o teto com moblia velha, 
armrios de arquivos e caixas de livros. O quarto maior 
estava mobiliado apenas com uma cama de casal, uma 
estante de livros e uma penteadeira. Uma parede e meia 
estava recoberta de papel com uma estampa de William 
Morris. Mais rolos de papel e uma bandeja para rolo estavam 
apoiados contra a parede. Havia um banheiro num dos lados. 
A cama no estava feita, e tudo estava coberto com uma fina 
camada de poeira. Era sufocantemente quente e abafado.
        Eu planejava me mudar pra c se ficasse terminado algum 
dia  explicou Jack.  Quem sabe agora finalmente 
acontea. Espero que voc no seja alrgico a poeira.  Ele 
largou os lenis na cama e forou uma das janelas para que 
se abrisse enquanto Seph foi lutar com a outra, que parecia 
ter sido selada com tinta. Com as janelas abertas, uma brisa 
fresca trouxe para dentro os sons suaves da noite de vero.
Jack e Seph enrolaram a colcha e estenderam o lenol sobre 
o colcho. Seph trabalhava com rapidez e eficincia, apesar 
de semi-adormecido. Ele havia feito milhares de camas na 
vida.
        Olha  disse ele a Jack enquanto ajeitava o lenol no 
canto com perfeio.  Sinto muito por me mudar pra sua 
casa desse jeito.
Ele no parecia se lembrar de que os magos nunca pedem 
desculpas.
Jack terminou o lado dele tambm, com menos habilidade.
        Tudo bem. Mesmo. No quis ser rude. Eu s preciso me 
acostumar com a idia. Acho que se pode dizer que tive um 
bocado de problemas com magos.  Ele olhou para Seph, 
do outro lado da cama.  Quer dizer que voc e a tia Linda 
se conhecem h muito tempo.  Havia uma pergunta oculta 
naquela declarao.
        Vi sua tia ontem pela primeira vez  replicou Seph.
        Ela disse que  minha tutora h anos, mas isso foi 
novidade pra mim.
Jack franziu a testa.
        , bem...  a voz dele sumiu.  Tenho certeza de que 
existe uma boa explicao para isso.
        Suponho que sim.  Seph deu de ombros.   verdade 
que voc namorou a Alicia Middleton?
Jack se endireitou, quase batendo a cabea no teto.
        Qu?
        Nada. Eu trombei com ela em Toronto, s isso. Ela 
mencionou o seu nome.  Ele arqueou uma sobrancelha.
        Ela me pareceu ser do tipo que traz encrenca. Jack 
encarou Seph. Depois balanou a cabea.
        Olha, tambm no sei o que est acontecendo. Mas vou 
dizer isto: tive um ano infernal dois anos atrs. Comeou 
com a Leesha e terminou com o torneio na Ravina do 
Corvo. A Ellen foi a nica coisa boa que saiu daquilo. Ela e a 
criao do Santurio.  Ele se apoiou no espaldar da cama, e 
os msculos se salientaram ao longo de seus braos.  Este 
ltimo ano tem sido bom e tranqilo. Em Trinity, pelo 
menos. No sei quanto tempo vai durar, mas s espero que 
no seja voc quem vai atrapalhar as coisas.
        Ele sorriu, como se tentasse amainar a rispidez da frase, 
mas os olhos azuis eram frios e diretos.  Vou buscar um 
calo para voc dormir.
Quando Jack subiu de novo as escadas com uma pilha de 
roupas, Seph j dormia profundamente sobre a colcha.

Captulo Onze
O Santurio

Quando Seph acordou, o sol se insinuava por entre os 
galhos, iluminando todo o quarto. Ele precisou de um 
momento para se lembrar de onde estava. Fazia muito tempo 
que no dormia tanto e to profundamente. Estava ainda 
deitado sobre a colcha.
Havia um monte de roupas empilhado ao p da cama. Ele 
encontrou uma escova de dentes, toalhas e sabonete no 
banheiro, e era bvio que algum tinha limpado o lugar. 
Lavou o rosto com cuidado. O inchao no lbio havia 
diminudo, mas o resto ainda parecia bem ruim, tendo 
passado de vermelho e roxo para roxo e amarelo. O que ele 
realmente queria era tomar um longo banho quente. Em vez 
disso, experimentou as roupas at encontrar um par de jeans 
que desse para usar. Vestiu uma camiseta que dizia 
FUTEBOL DE TRINITY e desceu as escadas.
A casa se esvaziara enquanto ele dormia. Havia copos e 
xcaras sujas de caf na pia, caixas de cereal sobre o balco e 
um jornal aberto sobre a mesa. Ele se serviu de suco.
        Seph,  voc?  Linda apareceu  porta, descala, 
vestindo jeans e uma regata. Ela no parecia muito mais 
velha do que Seph.  Estamos na varanda.
Seph saiu  varanda cercada de tela. O piso de pedra estava 
frio sob seus ps descalos. Linda e Nick Snowbeard 
sentavam-se em duas cadeiras de vime. Linda tinha uma 
caneca de ch diante de si sobre a mesa de vidro.
        Oi.
Seph fez uma pausa. Ainda no havia se decidido sobre 
como deveria chamar Linda Downey. Ela percebeu a hesi-
tao.
        Por que no me chama de tia Linda?  sugeriu ela.   o 
que todos os outros fazem. Acho que sou uma tima tia  
acrescentou ela, como se tentando assegurar a si mesma.
Seph ps o suco na mesa e puxou uma cadeira.
        Cad todo mundo?  perguntou ele.
        O Jack est na escola. A Becka, na universidade.  Linda 
ps os ps sob o corpo e acomodou a caneca de ch no colo. 
 Por isso estamos s ns.
Seph tomou um gole de suco. Os lbios e a lngua ainda 
pareciam inchados e desajeitados.
        O que voc disse  sua irm a meu respeito?
        Disse que voc estava fugindo de uma famlia violenta. Os 
seus pais batiam em voc. E que eu no consegui tirar voc 
da casa, por isso raptei voc.
        Isso no  ilegal?  indagou Seph.
        A Becka nem sempre joga segundo as regras. Ela tem um 
fraco por crianas com problemas. Eu sabia que ela ia 
acolher voc.
        Finalmente consigo uma famlia, e eles me batem.
        Seph olhou de esguelha para Linda.  Bem. Se vou ficar 
aqui todo o vero, gostaria de achar algum tipo de emprego 
de meio perodo.
Ela franziu a testa.
        Se voc precisa de dinheiro, eu...
        Estou acostumado a trabalhar. Quero ganhar para, pelo 
menos, pagar o que gastar.
Seph queria uma fonte de renda que no passasse por Linda 
Downey. Que no envolvesse perguntas e explicaes e 
contatos com a firma de advocacia.
        Quem sabe ele possa trabalhar para o Harold Fry - sugeriu 
Nick.  O Jack vai trabalhar para ele como tripulante neste 
vero, ento talvez ele precise de algum nas docas e no 
escritrio.
        Quem  Harold Fry?  indagou Seph.
        Ele dirige uma agncia de excurses de pesca na baa oeste 
do lago Erie  explicou Nick.   um dos meus parceiros 
de xadrez. Eu posso falar com ele.
        Pode mesmo? No sei muito sobre pesca, mas estou 
disposto a aprender. Obrigado.  Seph estava contente de 
ver que o velho mago estava disposto a ajud-lo. Ele se 
voltou para Linda e continuou com o polido interrogatrio.
        Quer dizer que o Jack foi o guerreiro que lutou no famoso 
torneio na Ravina do Corvo.
        O Jack e a Ellen Stephenson.
        O Jack e a Ellen lutaram um contra o outro? Esses torneios 
no so at a morte?
        Bem, eles se recusaram a matar um ao outro. Isso 
comeou tudo.  Ela sorriu com ironia ante a expresso no 
rosto de Seph.  Os Juzes de Campo cometeram o erro de 
tentar alterar as regras durante o torneio. Foi a primeira vez 
que fizeram isso, em quase mil anos. Eles no perceberam 
que quebrar o pacto os deixaria vulnerveis. Foram forados 
a fazer outras mudanas tambm. As velhas regras 
estabeleciam o reinado dos magos sobre os Weirs. Os 
guerreiros, encantadores e feiticeiros podem ser poderosos 
em relao aos Anaweirs, mas sempre estivemos  merc 
dos magos, tratados como brinquedos, gladiadores e 
escravos. As novas regras acabaram com a velha hierarquia e 
exigem a participao de todas as ordens no processo de 
deciso.  Ela deu de ombros.   por isso que est 
havendo tanto tumulto. Ningum sabe bem como 
implementar isso. H uma desconfiana considervel entre 
as ordens. Os outros Weirs no esto ansiosos para se sentar 
numa sala com um bando de magos. Eles temem por suas 
vidas.
        Nem todos os magos so assim  retrucou Seph.
Linda concordou com a cabea.
        Especialmente aqui nos Estados Unidos, as famlias so 
misturadas. Jack  guerreiro; eu sou encantadora. Leander 
Hastings  mago; a irm dele era guerreira. H muitos magos 
como Hastings, que odeiam o velho sistema. Eles gostariam 
de fazer o novo sistema funcionar.
Seph empurrou a tigela de cereal para o lado e se recostou na 
cadeira de vime.
        Como  a relao entre o Jack e a Ellen agora?
        Oh, eles brigam o tempo todo. Dentro e fora do campo. 
 Linda riu.  Guerreiros apaixonados.
Seph refletiu sobre aquilo por um momento, ento decidiu 
mudar de assunto. Voltou-se para Snowbeard.
        Quando posso comear o meu treinamento? J li muita 
coisa.
Pensou na biblioteca no Porto Seguro, todas aquelas fileiras 
de livros antigos.
Os olhos de Snowbeard pousaram brevemente sobre Linda. 
Ela assentiu com relutncia.
        H um Livro Weir para ns usarmos?  indagou o mago.
Uma outra troca de olhares significativos entre Linda e 
Snowbeard.
Ele tambm sabe o segredo, seja l qual for.
        Vocs podem usar o do Jack  sugeriu Linda.
        O Livro Weir de um guerreiro pode me ajudar em alguma 
coisa?  perguntou Seph. O Livro Weir de Jason inclua 
pginas de feitios e encantamentos.  Os guerreiros no 
usam feitios, usam?
Linda fitou as prprias mos.
        Na verdade,  um livro de mago. Lembre-se: o Jack era 
um mago nascido sem uma pedra. Uma maga implantou uma 
pedra de guerreiro nele.  por isso que ele tambm consegue 
fazer um pouco de magia. Nick ensinou-o tambm.
Seph sacudiu a cabea.
        No entendi.
        O Jack estava morrendo, por isso eu encontrei uma 
mdica, uma maga chamada Jessamine Longbranch  disse 
Linda, em um tom um tanto defensivo.  Ela me enganou e 
implantou a pedra errada, torcendo para que isso no o 
matasse. Ela planejava usar o Jack no Jogo, se aquilo 
funcionasse. Foi assim que ele acabou no torneio no vero 
passado.
Seph estava comeando a entender Jack um pouco melhor. 
Mas, naquele momento, ele no tinha vontade de ser 
cooperativo.
        E se eu quiser usar o meu prprio Livro Weir?  
perguntou, em tom propositalmente abrupto.
Ele sustentou o olhar dela, experimentando forar um pouco 
a mente, aplicando um pouco de presso. Ela pareceu 
surpresa, depois zangada, e ento empurrou de volta com 
fora. Ela era mestra da magia mental, no havia a menor 
dvida.
        No tente isso comigo  protestou ela.  Vai ter de 
trabalhar com o que temos.
"Ela sabe onde o livro est", pensou Seph. Tinha certeza 
disso.
        Podemos comear hoje, se quiser  disse Snowbeard, 
voltando-se para Linda em busca de instrues.
        Seph, que tal eu mostrar um pouco da cidade pra voc 
primeiro? A ns trs podemos ir buscar o meu carro. Voc 
e o Nick podem comear depois do almoo. D pra esperar 
at l?  perguntou ela, com sarcasmo.
        Sem problemas  disse Seph.  Vou buscar os meus 
sapatos.
Ele levou os pratos para a cozinha.
        A gente deve estar de volta em torno de uma hora.  
Linda enfiou os ps nas sandlias e se levantou. Vamos.
Era um lindo dia de fim de primavera. Agora, sob a luz do 
sol, Seph viu que a rua Jefferson era ladeada por adorveis 
casas velhas de estilo vitoriano em cores autnticas, 
vistosamente decoradas, belamente restauradas. Muitas delas 
eram cercadas por jardins plantados com flores tradicionais: 
penias, ris, coraes-de-maria e esporinhas. Cones azuis e 
roxos de tremoceiros decoravam a entrada da casa do outro 
lado da rua. "A cidade deve ter sido rica uns cem anos atrs", 
pensou ele, para ter dado origem a um bairro como aquele. 
O lugar lembrava-lhe Cabbagetown, em Toronto.
Jack havia deixado o Subaru para que eles o usassem. 
Enquanto dirigia pela rua, Linda cumprimentou com a 
cabea um homem de cabelos brancos curtos e camadas de 
jias prateadas que apanhava o jornal  entrada da garagem. 
Do outro lado da rua, uma mulher mais velha com nuvens 
de cabelo grisalho trabalhava no jardim. Ela vestia calas 
folgadas e uma jaqueta curta de estilo oriental. Ela acenou 
para Linda como se a reconhecesse, mas pareceu estar 
examinando Seph.
Seph se virou para olh-los aps terem passado por eles.
        Voc os conhece?  indagou, voltando-se de novo para a 
frente.
Linda assentiu.
        Mercedes Foster  feiticeira e tecel. Blaise Highbourne  
adivinho e arteso; ele trabalha com prata. Temos uma 
comunidade interessante aqui na rua Jefferson: magos, 
feiticeiros, adivinhos e guerreiros. H mais Weirs na cidade 
do que nunca. O estabelecimento do Santurio tornou 
Trinity atraente para os Weirs Anamagos, as ordens dos que 
no so magos e que costumavam ser controladas pelos 
magos.  Ela freou para permitir que um gato gordo, 
malhado de cinza e negro, atravessasse a rua.  Trinity 
sempre foi um refgio para artistas e pessoas da contracultura 
ligadas  universidade. Por isso os Weirs se encaixam muito 
bem.
Ela lhe mostrou o colgio, um prdio relativamente novo no 
extremo oeste da cidade. Como era semana de provas, 
grupos de alunos se aglomeravam no estacionamento, 
conversando ou esperando por caronas.
Seph pensou no Porto Seguro. A escola estaria em 
funcionamento por mais uma semana, depois os Anaweirs se 
dispersariam, voltando a seus lugares de origem, deixando os 
magos para trs. Ele se perguntou que histria teriam 
inventado para explicar o desaparecimento dele. Se  que 
haviam dado alguma explicao.
O centro da cidade tinha uma aparncia familiar, eu- ropeia. 
Era construdo ao redor de uma grande praa, cercada pelos 
edifcios de pedra do sculo XIX da Faculdade de Trinity. 
Pequenas lojas contornavam o campus: lojas de arte e 
livrarias, galerias e restaurantes. Linda explicou que tanto 
Blaise como Mercedes tinham lojas naquela rea. Eles 
estacionaram em uma vaga junto ao gramado.
O ar estava fresco sob as rvores, e os sapatos de Seph logo 
ficaram encharcados devido  grama molhada. Um grupo de 
pessoas estava reunido em torno de um pavilho de tijolos e 
pedra no centro da praa, concentradas numa estrutura em 
mrmore que se estendia acima de suas cabeas. Vozes 
excitadas se espalhavam por sobre o gramado.
         s uma fonte  disse Linda, parecendo perplexa.  
Uma obra neoclssica. No consigo imaginar por que todos 
possam estar to interessados nela. Talvez algum esteja 
fazendo um discurso.
Curiosos, eles mudaram de direo e rumaram para a fonte. 
Haviam quase chegado l quando foram interceptados.
        Srta. Downey?
Era um homem grande, corpulento, com cabelo cor de areia 
e um bigode grisalho, vestindo um casaco esporte marrom 
pudo nos cotovelos. O tecido estava esticado nos ombros e 
costas.
        Srta. Downey  repetiu ele.  Achei que era a senhorita. 
Talvez no se lembre de mim. Ross Childers. O filho do meu 
irmo Bill, o Will,  amigo do seu sobrinho, Jack. Ns... 
ahn... nos conhecemos depois daquele incidente no colgio 
no ano passado.
Linda sorriu.
         claro.  bom v-lo de novo, sargento.
        Por favor, me chame de Ross.
Ela assentiu.
        Ross.
        Est aqui de visita, imagino?  Ele estreitou os olhos para 
Seph.  Meu Deus! O que aconteceu com o seu rosto, meu 
filho?
Seph quase tinha se esquecido de sua aparncia, e a pergunta 
o pegou de surpresa. Ele pestanejou e falou:
        Fui atingido por uma bola rpida.
        Me desculpe  disse Linda, afobada.  Eu devia fazer as 
apresentaes. Seph, este  Ross Childers. Ele  sargento da 
polcia de Trinity.
Childers enfiou as mos nos bolsos das calas.
        Investigador agora, na verdade.
        Investigador  corrigiu ela.  Ross  tio do Will. Voc se 
lembra, o amigo do Jack? Voc o conheceu quando 
deixamos a Ellen em casa ontem  noite. Ross, este  Seph 
McCauley. Ele vai passar o vero na casa da Becka.
        McCauley?
O investigador franziu o cenho e virou-se para olhar para o 
grupo de pessoas em torno da fonte, depois se voltou de 
novo para Seph.
        O que est acontecendo ali?  indagou Linda, se- guindo-
lhe o olhar.
        Houve algum tipo de vandalismo durante a noite  
respondeu Ross.  Meio bizarro. Venha dar uma olhada.
Para a surpresa de Seph, o investigador pousou uma mo 
sobre o ombro dele e empurrou-o rapidamente em direo  
fonte. Linda teve de se apressar para acompanh-los.
O grupo se abriu o suficiente para deix-los passar. Todos 
pareciam conhecer o investigador da polcia, mas olhavam 
com curiosidade para Seph e Linda.
A fonte era feita de mrmore branco, uma coleo de cenas 
da mitologia grega. No centro do tanque, erguia-se uma 
esttua de Perseu segurando a cabea da Medusa. A Medusa 
decapitada estava cada aos ps dele, e ao lado dela jazia um 
outro corpo sem cabea, vestido com uma camiseta dos 
Toronto Blue Jays e calas jeans. Havia respingos de sangue 
por todos os lados sobre o mrmore branco, drenado do 
corpo quando a gua o atingia. O sangue jorrava da fonte e 
caa no tanque sangrento l em baixo com um som suave, 
como chuva.
No caso de aquilo no ser claro o bastante, uma mensagem 
em letras grandes e fortes estava rabiscada em sangue nas 
costas do banco de mrmore que circundava a fonte. 
McCauley.
Seph tentou se afastar da carnificina, mas o brao de Ross 
Childers o manteve no lugar.
        Uma sujeirada.  O investigador fitou Seph com olhos 
astutos.  No acha?
De algum modo, Seph conseguiu fazer as palavras sarem, 
num engasgo.
        O senhor... o senhor sabe quem ?
Ross deixou-o esperar por um longo minuto, depois disse:
         um manequim. Eles o vestiram e cortaram a cabea fora. 
Ento mataram algum tipo de animal... um porco, talvez... e 
deixaram o sangue pingar na fonte. Bem doentio.  Ele fez 
uma pausa.  Voc assina o seu trabalho, Seph?
        Eu nunca pensei que o senhor fosse idiota, investigador, 
mas acho que me enganei  protestou Linda.
Ross assentiu com a cabea, mal-humorado.
        Certo. At onde posso julgar, isso foi uma completa 
surpresa pra ele.  Ele suspirou como se estivesse infeliz 
com aquela misso.  Mas isso no significa que ele no 
possa nos ajudar a descobrir quem fez isso. Ele chega na 
cidade e, de repente, algum apronta uma encenao maluca 
no parque e assina o nome dele. Deve ser algum que ele 
conhece.  Ele se moveu para o lado, na esperana de se 
dirigir a Seph diretamente, mas Linda colocou-se no meio, 
de modo que ele teve de falar por sobre a cabea dela.  
Blue Jays. Esse  o seu time, Seph?  Seph apenas baixou o 
olhar para as prprias mos.  Conhece algum que poderia 
fazer algo assim? Voc costuma brincar com magia negra?
        Sou catlico  replicou Seph num sussurro.  No fao 
essas coisas.
Linda olhou de esguelha para Seph e mudou de ttica.
        Veja, essas roupas a so do Seph. Deixamos o meu carro 
no shopping na entrada da cidade, na noite passada, 
enquanto o Nick, o Jack e eu mostrvamos a cidade para o 
Seph. As roupas estavam l. O plano era ir buscar o carro 
hoje. Algum deve ter arrombado e levado as roupas. Como 
 que vamos saber quem foi? Seph acabou de chegar de uma 
escola na Nova Inglaterra. Ele nunca esteve aqui antes e no 
conhece ningum daqui, no ?
Linda olhou para Seph, e ele concordou com um gesto de 
cabea. Seph  que no iria reclamar de ela estar inventando 
uma histria.
Ross massageou as tmporas.
        Talvez ns trs devssemos dar uma olhada no carro  
sugeriu ele.
Linda no concordou.
        S voc e eu. Vou levar o Seph para casa.
        Eu me desculpei, no foi?  Ross parecia mesmo 
arrependido.  Escute, eu apanho voc na casa da Becka l 
pelas duas.
Seph no teve muito a dizer no caminho de volta  rua 
Jefferson. Nada, na verdade.
        O que foi?  disse Linda, enfim.
Seph pigarreou. Ele no queria parecer ingrato. Afinal, Linda 
Downey o havia resgatado do Porto Seguro apenas dois dias 
antes.
        Achei que aqui era um santurio.
Linda voltou-se para ele.
        E . Este  o lugar mais seguro pra voc.
        Ento por que eu no me sinto seguro?  Seph tocou na 
dyrne sefa com a ponta dos dedos e apoiou a testa contra a 
janela lateral.  Eles j estavam nos esperando quando 
chegamos aqui. Eles foram atrs da Ellen. Agora isso. No faz 
sentido. Leicester me deixou ir, no foi? Ou voc 
simplesmente ps um feitio nele, e agora passou o efeito?
        Pense um pouco. Por que acha que ele tentou impedir 
voc de chegar a Trinity? Enquanto as regras valerem, ele 
no pode atacar voc aqui. Infelizmente, as regras no os 
probem de tentar matar voc de susto.
A outra possibilidade era que Gregory Leicester estivesse 
reforando o aviso a Seph para no revelar nada sobre suas 
experincias no Porto Seguro.
        Bem, eles sabem exatamente onde estou. No gosto de 
ficar esperando por uma emboscada. Quem sabe eu deva ir 
embora. Achar um acampamento de vero pra mim no 
Canad, talvez. Estou acostumado a me virar sozinho.
         exatamente isso o que eles esto torcendo pra que voc 
faa. Prometa que vai ficar na cidade.
Seph deu de ombros. No ia prometer nada. Mas ele 
precisava mesmo de treinamento em magia e, naquele 
momento, Nick Snowbeard era a nica opo de que 
dispunha.
Era quase uma hora quando estacionaram na garagem.
Snowbeard os aguardava na varanda. Linda contou ao velho 
sobre a bizarra cena na fonte. Ele fez algumas perguntas 
detalhadas e poucos comentrios. Linda subiu a escada e 
voltou com um livro em capa de couro.
        Este  o Livro Weir do Jack  explicou ela, abrindo-o na 
ltima pgina e apontando para o nome dele inscrito no fim 
de uma rvore genealgica.
Ela o entregou a Seph. Ele examinou a genealogia e passou 
rapidamente para a seo sobre feitios e encantamentos.
Ouviu-se uma batida na porta da frente. Linda se levantou e 
apanhou a bolsa.
        Ross Childers e eu vamos pegar meu carro e, 
provavelmente, passar na delegacia para fazer um boletim de 
ocorrncia. Isso deve dar a vocs dois tempos para a lio.
E ento ela saiu das sombras da varanda para a luz brilhante 
do sol.
Seph achou que Snowbeard lhe pediria uma demonstrao 
de que tipo de magia ele j sabia, mas no o fez. Em vez 
disso, o velho mago juntou os dedos das mos em forma de 
torre e falou numa voz suave, quase formal.
        Voc pode me chamar de Nick. Devo cham-lo de Seph?
Seph assentiu.
        Vamos comear pelo princpio, Seph, e firmar os 
alicerces. Voc talvez j saiba um pouco disso, mas  bom 
repetir. Este no  o tipo de educao que se deva receber 
em pequenas doses, como aconteceu com voc.
Ele fez uma pausa momentnea, como que ordenando uma 
mirade de arquivos mentais.
        Os magos podem invocar trs tipos de magia: corprea, 
pelo corpo, incorprea, pela mente, e langue d'charme, por 
palavras de poder, os encantamentos. Os magos dominam h 
muito tempo as outras ordens mgicas, em virtude de um 
pacto enganoso imposto a elas na Ravina do Corvo, na 
Bretanha, sculos atrs. Com a exceo dos magos, cada 
ordem opera num campo especfico de magia, e cada uma  
superior em seu prprio campo. Por exemplo, os guerreiros 
como o Jack e a Ellen so superiores no mundo fsico e 
corpreo da guerra. A magia deles depende de proximidade 
e fora fsica. No h magia mental nisso. Numa luta fsica 
justa, um guerreiro vai derrotar um mago todas as vezes.  
Ele sorriu com tristeza.  Naturalmente, um mago no 
enfrentaria um guerreiro numa luta justa. Ns temos outros 
modos de dominar.
        Encantadores como a Linda se especializam na magia 
mental e nas emoes  prosseguiu Nick.  Mais uma vez, 
eles so supremos em seu prprio campo. At os magos tm 
dificuldade de resistir a um encantador, e os Anaweirs so 
especialmente vulnerveis a eles. Os feiticeiros se 
especializam na magia material. Criam ferramentas, misturas, 
materiais que podem realizar tarefas mgicas ou aumentar a 
magia de outros. Eles costumavam ser bem mais poderosos 
do que so hoje em dia. Muitos dos segredos dos feiticeiros 
se perderam com o passar do tempo.  por isso que os 
talisms dos tempos antigos so altamente valorizados.
Seph sentiu intensamente o peso da dyrne sefa sob a camisa.
        Os adivinhos so provavelmente os menos poderosos dos 
Weirs. Eles vem o futuro, mas muitas vezes no conseguem 
interpretar as vises a tempo de fazer qualquer coisa. Alguns 
deles usam talisms... espelhos, cristais e coisas assim... para 
focalizar e concentrar o poder, para torn-lo mais eficiente, 
para entender melhor suas vises. Se um mago vier atrs de 
voc, ele pode usar qualquer um dos trs campos. Por 
exemplo, ele pode usar a magia mental para influenciar voc 
a fazer alguma bobagem.  um truque sutil nas mos dos 
magos, bastante eficaz sobre os Anaweirs. Ou ele pode usar 
o poder fsico. Os magos podem infligir dor com um toque.
Seph levou a mo ao rosto, pensando em Gregory Leicester.
        Voc pode ser treinado para resistir a um ataque fsico; e 
voc  poderoso o bastante para faz-lo, creio. Sobra o uso 
de feitios.  O mago arqueou as sobrancelhas.  Voc me 
disse que recebeu algum treinamento nesse sentido.
E assim Seph repassou o seu magro repertrio, de-
monstrando aqueles feitios que sabia executar 
impecavelmente... magias pequenas e toscas que podiam ser 
praticadas num quarto de dormitrio.
Nick inclinou a cabea em aprovao quando ele terminou.
        H dois componentes do poder de um mago no que se 
refere aos feitios: a fora da pedra que ele carrega e o poder 
da palavra articulada. Recebeu algum treinamento em 
contra-feitios?
Seph sacudiu a cabea.
        Ento vamos comear por a. O feitio de um mago  
como qualquer outra arma. Voc precisa estar alerta o tempo 
todo. E, quando o ataque vier, precisa reagir antes que o 
sangue seja derramado, por assim dizer. Se o mago completar 
o feitio, pode ser tarde demais.  Nick marcou algumas 
passagens no Livro Weir.  Passe algum tempo estudando 
estes feitios. Vamos revisar os feitios e os contra-feitios 
amanh.
        Quer dizer que j acabou?
Nick sorriu.
        J so quase cinco horas. Estou surpreso que o Jack no 
tenha chegado em casa ainda.
Seph andara folheando o Livro Weir de Jack, ainda aberto 
em seu colo.
        Tenho uma pergunta.
        O que ?
        Todos dizem as mesmas coisas sobre os magos. Ns nos 
aproveitamos dos Anaweirs. Tratamos as outras ordens como 
lixo. Estamos sempre armando uns contra os outros. O que 
eu quero saber : isso  algum tipo de trao inato? Se , por 
que voc no  assim? Eu tinha um amigo na escola, e ele 
tambm no era.
Nick se recostou na cadeira e pensou por um momento.
        O problema com os magos  que o poder deles se 
manifesta quando ainda so jovens. Os jovens no deveriam 
ter tanto poder, pois no tm a sabedoria e a disciplina. Eles 
crescem mimados, acostumados a ter tudo do jeito que 
querem.  Ele fez uma pausa.  D para se comparar os 
magos aos vinhos. Os vinhos de melhor qualidade so 
pungentes e fortes quando jovens. Mas os bons vinhos 
melhoram com a idade. Um vinho de m qualidade nunca 
melhora. s vezes fica pior. Os magos so iguaizinhos.  
Ele se inclinou para a frente.  s vezes acho que seria 
melhor se todos os magos fossem criados por Anaweirs, 
como voc foi, ignorando seus poderes at terem crescido. 
Talvez assim eles fossem mais tolerantes em relao aos 
outros.
"H desvantagens nisso", pensou Seph. Os Anaweirs nem 
sempre so tolerantes para com os magos.
De certo modo, era fcil conversar com Nick. Ele era como 
a terra, sbia e antiga, sem emitir julgamentos.
        Voc conhece o Gregory Leicester?  indagou Seph, 
baixando o olhar para o Livro Weir, a fim de evitar os olhos 
do mago.
Nick assentiu.
        Conheo. Ele  um dos que no melhorou com a idade. 
Mas  muito poderoso.
        Ele assassinou dois dos meus amigos. Foi minha culpa  
acrescentou Seph, relembrando os meses de tortura nas 
mos de Leicester, a morte de Trevor, e a ltima e 
culminante tragdia de Jason.
        Por que acha que foi culpa sua?  perguntou Nick 
gentilmente.
        Eles estavam tentando me ajudar. Se no fosse por mim, 
ainda estariam vivos.
        Talvez essa tenha sido a escolha deles, no sua.
Seph traou os nomes da genealogia de Jack com o dedo 
indicador, com inveja dos laos de famlia.
        Eles no escolheram serem assassinados.
Nick estudou-lhe a expresso.
        E agora voc pretende se vingar do dr. Leicester.
Seph no respondeu, mas afundou mais na cadeira.
Nick alisou o bigode com o polegar e o indicador.
        Um projeto de alto risco, com certeza.
Para a surpresa de Seph, o velho mago parecia lev-lo a srio, 
mas no lhe deu um sermo nem tentou dissuadi-lo.
        E quanto ao Drago? Voc sabe onde ele est?  
perguntou Seph.
        Uma confisso arriscada de se fazer, hoje em dia  disse 
Nick.
Seph notou que ele no respondera realmente  pergunta.
        Eu tenho informaes que podem ser teis pra ele.
Nick pigarreou.
        Talvez voc deva pensar no Drago mais como um cone 
representante de um movimento do que como um in-
divduo.
        Certo. Eu gostaria de falar com o cone que vem roubando 
armas mgicas das Rosas, libertando membros das subordens 
e publicando os segredos do Leicester na internet.
Naquele instante, eles ouviram uma porta bater em algum 
lugar da casa e o avanar barulhento de algum pela cozinha.
        Ol?  disse uma voz familiar.
Era Jack.
        Estamos na varanda  respondeu Seph.
Um momento mais tarde, Jack se juntou a eles.
        Oi, Nick. Oi, Seph. Acho que tirei dez na minha prova de 
organizao social e poltica, mesmo no tendo estudado.
Ele se estirou numa das cadeiras de jardim, parecendo 
preencher o espao da varanda com sua mera presena 
fsica.
        Ei  disse Jack , vocs souberam que teve um tipo de 
sacrifcio satnico na praa?
Eles contaram a Jack as notcias.
        Quer dizer que o tio do Will acha que voc  um 
praticante da Antiga Religio?
        Antiga Religio?  Seph olhou de um para o outro em 
busca de uma explicao.  Como a Magia Antiga?
        No. A Antiga Religio  um tipo de magia de sangue que 
antecede a magia propriamente dita  explicou Nick.  
Remonta ao politesmo que existia antes de os anglo-saxes 
chegarem  Bretanha. As cerimnias deles se concentravam 
no sacrifcio de animais, s vezes no sacrifcio humano.  
Seph estremeceu, e o velho lhe deu um sorriso 
reconfortante.  No se preocupe, Seph. Assim como os 
outros dons dos Weirs, a magia no  uma religio.  um 
dom, um talento e uma vocao.  compatvel com o 
catolicismo ou com qualquer outra f. Voc ficaria surpreso 
em saber quantos defensores famosos da f eram Weirs.
Talvez. Mas quando Seph pensou na cena que vira na praa, 
lembrou-se do ritual no anfiteatro no Porto Seguro e da 
corrente de Trevor em meio s cinzas.
A situao no melhorou nem um pouco quando Ross 
Childers trouxe Linda para casa no fim da tarde e contou que 
o BMW estava totalmente arruinado.
 Nunca vi nada assim  disse ele, sacudindo a cabea, 
observando Seph para ver sua reao.  Eles cortaram os 
assentos e puseram fogo na coisa toda. Como fizeram para 
queimar, eu no fao idia. O calor era to grande que os 
pneus derreteram em quatro poas no asfalto. Seria at difcil 
dizer a marca do carro, mas eles escreveram o seu nome no 
asfalto, assim como fizeram na fonte.  Ele assobiou, como 
se estivesse feliz que no fosse com ele.  Voc tem 
inimigos, Seph?
Uma vez acabadas as aulas, Jack, Ellen e seus amigos, Will 
Childers e Harmon Fitch, passaram a entrar e sair da casa o 
dia inteiro. Fitch era alto e magro, com cabelo loiro tingido, 
culos e a misteriosa habilidade de falar com computadores 
na linguagem deles. Ele passou vrios dias ajudando Seph a 
construir um novo sistema de computador para repor o que 
deixara no Porto Seguro.
Fitch tinha seu prprio negcio de consultoria de com-
putadores e desenvolvimento de websites, tendo entre seus 
clientes o Conselho Escolar, a Faculdade de Trinity, o 
governo municipal e a Cmara de Comrcio, alm de 
grandes corporaes em Cleveland.
Seph comeou a trabalhar para Fitch em meio perodo, 
escrevendo cdigo HTML bsico, tirando fotos digitais para 
sites e contatando fregueses, j que o visual radical de loja 
barata de Fitch assustava alguns dos clientes empresariais.
Eles trabalharam durante vrias semanas para instalar o 
hardware da primeira rede sem fio que abrangeria toda a 
cidade. Fitch danava nos telhados como um tipo de maestro 
digital manaco com um fone de ouvido wi-fi, balanando os 
braos e gritando:
 Mais fora! Precisa de mais fora!
Fitch alugou um espao no andar de cima da loja de Blaise, j 
que seus quatro irmos e irms tornavam-lhe impossvel 
trabalhar em casa. O escritrio estava repleto de servidores e 
telas planas. Nas noites de segunda-feira, ele era o anfitrio 
da Megafesta Mundial dos Manacos por Monstros em 
Multimdia (5M).
Apesar de Fitch no ser membro de nenhuma das ordens 
mgicas, foi ele quem fez Seph se dar conta de que havia 
muitos tipos de dons. Fitch tinha o poder de desligar as luzes 
no condado inteiro ou mudar qualquer nota no Colgio de 
Trinity.
Seph tambm trabalhava em meio perodo para Harold Fry 
nas docas, ajudando no escritrio e nos estaleiros. Ele 
descobriu que gostava do trabalho fsico no porto. A pele 
resistia ao sol, como sempre, mas o corpo se desenvolveu, 
transformando-se de mirrado em esbelto e musculoso.
Certa noite, Jack e Ellen convidaram Seph para algo que 
chamavam de uma plaisance no denso bosque do Parque 
Perry. Jack estacionou o Subaru num local recluso, e ele e 
Ellen apanharam as espadas no porta-malas. Os trs 
caminharam por mais de um quilmetro e meio atravs do 
bosque at uma clareira escondida. Jack andou ao redor da 
clareira, lanando um tipo de barreira mgica com gestos 
rpidos e impacientes, enquanto Seph o seguia, anotando 
mentalmente os feitios que ele usava.
Ellen ficou em p, impassvel, aguardando no centro do 
campo, o sol do fim do dia cintilando na lmina da espada. 
Quando Jack terminou, aproximou-se dela, parando a uma 
curta distncia, encarando-a. Ambos inclinaram as cabeas, 
sorrindo como se estivessem prestes a se casar. Seph tinha 
suas instrues e, quando viu que estavam prontos, disse:
 Podem comear.
Era a dana impressionante de dois atletas talentosos, bem 
equilibrados. Eles dominavam a clareira, movendo-se 
energicamente para a frente e para trs, golpe e bloqueio, 
ataque e depois recuo, gritando desafios um para o outro, 
trocando insultos e promessas. A floresta retinia com o 
choque das lminas, e chamas giravam e faiscavam entre as 
rvores. Seph os interrompia para um intervalo a cada 15 
minutos. Aps quatro embates, eles terminaram empatados.
Embora o calor do dia houvesse se dissipado, estavam ambos 
encharcados de suor, praticamente fumegando.
Ellen tomou goles imensos de sua garrafa de gua e secou a 
boca com o brao enluvado.
        Est se sentindo bem, Jack? O seu estilo est ente- diante, 
de maneira geral. Eu tinha esperanas de dar um espetculo 
melhor para o Seph.
Jack testou o fio da espada com o polegar.
        Na verdade, Ellen, eu estava me perguntando se voc est 
ficando doente. Voc estava completamente letrgica. Eu 
quase ca no sono uma ou duas vezes.
        Bom, isso explica tudo. Voc parecia estar dormindo 
mesmo.
Com isso, eles atiraram as armas no cho e tudo se dissolveu 
num embate de luta livre. No final estavam se beijando.
Era com certeza um tipo diferente de namoro, mas havia 
uma qumica, um entendimento, uma familiaridade entre 
Jack e Ellen que Seph invejava.

A colnia Weir da rua Jefferson o acolheu, e ele aproveitou a 
oportunidade ao mximo, armando-se para uma batalha que 
talvez nunca ocorresse.
Mercedes Foster, tecel e feiticeira, convidou-o para ir at o 
jardim dela, tendo o cuidado de avis-lo sobre as plantas 
venenosas que cresciam ali. Na cozinha do chal, ela fazia 
tinturas e poes de amor e curas para a memria. Logo 
Seph a estava ajudando com as poes e os extratos, 
estudando as receitas de venenos e hipnticos, 
memorizando-as. Ele fazia perguntas sobre talisms como a 
dyrne sefa e levava emprestados alguns livros dela sobre o 
assunto.
Ela foi menos cooperativa quando ele lhe perguntou sobre a 
Chama, a droga que Alicia lhe dera em Toronto. Eles 
estavam na cozinha, secando plantas no forno.
        Ouvi dizer que os feiticeiros fazem para vender  disse 
Seph.  Tambm  chamado de Queima-Mente.
Mercedes fixou-o com seu olhar penetrante como o de um 
pssaro e ps as mos nos quadris ossudos.
        No sei como fazer, e no ia contar pra voc se soubesse. 
No acredito em trocar o prprio futuro por um pouquinho 
de poder extra no presente.
Ela se recusou a dizer qualquer coisa mais a respeito, mas ele 
descobriu vrias receitas da droga em textos antigos, escritos 
em latim.
Blaise Highbourne, adivinho e arteso da prata, demonstrou 
a arte de fundio por cera perdida e mostrou a Seph como 
fazer jias de prata. Tambm explicou a ironia da profecia: o 
fato de que  sempre verdadeira, mas muitas vezes 
enganadora. ris Bolingame, maga e artes do vidro, 
mostrou-lhe como capturar o espao com o vidro soprado, 
envolver pedaos de vidro com lminas de cobre e sold-los 
juntos. Ela tambm compartilhou os feitios e 
encantamentos de seu Livro Weir. Enquanto Nick filtrava 
cuidadosamente as informaes que passava a Seph, ris no 
o fazia.
No demorou muito para que uma caminhada pela rua 
Jefferson se transformasse num corredor polons. Mercedes 
tinha uma planta nova para lhe mostrar, ou frutas silvestres 
para enviar a Becka. Blaise queria emprestar-lhe um livro, e 
ris tinha algum outro truque de magia para ele tentar. Seph 
no conseguia fazer nada fora de casa sem que relatrios 
voassem at Becka e Linda.
        Bem-vindo  vida de cidade pequena  disse Jack, 
irnico.  Onde todo mundo faz questo de se meter na sua 
vida.
Os responsveis pelo sacrifcio na praa nunca foram 
encontrados. Ross Childers aparecia de vez em quando para 
manter Linda e Seph informados, mas a investigao no deu 
em nada. Seph no viu mais sinal dos ex-alunos.
Seph se agregou a St. Catherine, a igreja catlica prxima  
universidade. Ele freqentava as missas de sexta  noite, que 
eram celebradas em latim.
Embora Jack houvesse dito que Linda nunca ficava por 
muito tempo em Trinity, ela no parecia ter nenhuma pressa 
em partir. Seph ajudou Nick a acabar de pr o papel de 
parede no quarto do andar superior, e Jack ajudou-o a 
escolher um novo sistema de som.
Linda ainda se recusava a deixar Seph sair do Santurio. 
Quando Becka convidou Seph para ir at a cidade de Nigara 
sobre o Lago com ela e Jack ao Festival Shaw de Teatro, 
Linda segurou Seph em Trinity com ela.
Ele discutiu com Linda, querendo que ela o deixasse ir ao 
Canad.
        Voc no acha que  seguro agora? No posso ficar 
trancado aqui para sempre.
Fazia mais de um ms desde o encontro deles com os ex-
alunos, e no havia sinal de invaso do Santurio. Mas Linda 
se manteve irredutvel.
Quando no estava trabalhando, logo que o clima esquentou, 
Seph comeou a passar longos dias na praia com Jack e os 
amigos dele. A praia era cercada por penhascos, com gua 
lmpida e fria e areia empedrada que cintilava com o quartzo 
quando a gua recuava. Jack ensinou Seph a praticar 
windsurf, e Seph descobriu que era bom em manter a frgil 
prancha em p e avanar em longos slaloms, paralelos  
costa.
O melhor de tudo era que, aps o longo perodo de estiagem 
no Porto Seguro, choviam garotas. "As mulheres Anaweirs 
no conseguem resistir aos magos", dissera Jason. No 
passado, aquela idia havia feito Seph se sentir 
desconfortvel. Agora ele utilizava a magia de todas as 
maneiras possveis.
Ele flertava com as residentes e as veranistas, comia seus 
biscoitos com gotas de chocolate e as saladas de frutas e 
passava-lhes protetor solar na pele aquecida pelo sol. 
Danava com elas no pavilho da praia nas noites de sexta e 
sbado, roubava beijos sob o per. Ficava fora at tarde, j 
que Linda no estava acostumada a ditar toques de recolher.
Apesar de voltar para casa a altas horas da noite, na maioria 
das manhs ele se levantava cedo e caminhava at o lago, 
lutando com as memrias que o impediam de dormir. Jason, 
o pai de Jason e Trevor estavam mortos, mas Gregory 
Leicester ainda vivia, tecendo intrigas, tornando Seph um 
prisioneiro dentro do Santurio. Seph estava construindo seu 
arsenal de magia, mas no tinha meios de utiliz-lo contra o 
inimigo, nem sabia como entrar em contato com o Drago, 
que poderia usar as informaes de que Seph dispunha.
Quando ele caminhava de manh, via freqentemente uma 
garota sentada nas pedras  beira d'gua, a cabea loira 
inclinada sobre o caderno de desenho, um joelho levantado, 
o outro reto, os ps descalos apoiados contra a pedra. A 
mo danava sobre a folha, espalhando forma e cor. Ela 
franzia a testa ao se concentrar, mordendo o lbio inferior. 
s vezes ela enxugava o rosto com as costas da mo, 
deixando uma mancha de cor.
Ele comeou a procurar por ela, e ela estava l quase todos os 
dias. Ela normalmente trazia o caderno de desenho, mas s 
vezes se sentava e lia, o livro inclinado para apanhar a luz 
oblqua, bebendo caf de um copo trmico de viagem. 
Certos dias ela vestia jeans e camiseta; em outros, longas 
saias floridas em camadas e blusas de puro algodo que lhe 
deslizavam dos ombros.
Ele achava que ela o notara, mas que tomava o cuidado de 
no olhar para ele. Algo na expresso e linguagem corporal 
dela o mantinha a distncia. Ele comeou a levar livros 
consigo, um pretexto para se demorar, compartilhando do 
mesmo trecho da praia. Finalmente, aps uma longa e 
frustrante manh sob o sol quente, ele decidiu se apresentar.
Assim que a sombra dele caiu sobre ela, ela apertou o 
caderno contra o corpo como que para proteg-lo.
 Voc est bloqueando a minha luz  disse ela, sem voltar 
o rosto.
O sotaque dela lembrava a Seph o de Trevor, com as suaves 
vogais sulistas.
        Desculpe-me.  Ele deu a volta, agachando-se junto a ela. 
Ela tinha puxado a saia para cima at o meio da coxa, 
expondo as pernas ao sol. O vento havia soltado do elstico 
as mechas de seus cabelos, e ela as prendeu atrs das orelhas. 
De perto, ele viu que os cabelos dela tinham vrias cores 
diferentes, como manteiga, acar e caramelo, pintadas pelo 
sol.  Eu vejo voc aqui sempre. Estava me perguntando o 
que voc estava desenhando.
Os olhos dela eram azul-aquarela sobre o rosto bronzeado.
        O fato de voc estar curioso no faz com que isso seja da 
sua conta, faz?
Seph piscou e sentou-se de pernas cruzadas.
 Bem, no, acho que no...
Ela riu.
        Voc devia ver a sua cara. No est acostumado com 
garotas dizendo "no" pra voc, est?
Ele deu de ombros e apoiou os braos nos joelhos.
        Ns nem chegamos s perguntas difceis ainda.
        Poupe essas para outra pessoa. Eu venho aqui pra 
desenhar, no pra flertar com os veranistas.
        Voc no  daqui, ?
No era possvel. Ele no podia acreditar que dissera aquilo.
        No. No sou.
A areia aderia-lhe s longas pernas e aos ps. Seguindo o 
olhar dele, ela fez uma careta e redistribuiu o tecido da saia, 
cobrindo-se at o tornozelo. Ela trazia um lao com um 
camafeu familiar em torno do pescoo, e ele subitamente se 
deu conta de onde o havia visto antes.
        Voc trabalha na Lendas?
A Lendas era uma penso e restaurante em uma manso 
vitoriana que dava para o lago. Linda e Becka gostavam de ir 
l para o brunch.
        Sou garonete l, falou? Sou do Condado de Coalton, um 
lugar do qual tenho certeza de que voc nunca ouviu falar.
Ela agarrou o estojo de pastis e fechou-o, enfiando-o numa 
sacola com o bloco de desenhos.
Seph observou tudo isso sem saber o que fizera de errado.
        Olha, desculpe-me. No quis expulsar voc daqui.
Por que ele estava sempre se desculpando?
        Deixa pra l. A luz mudou, meu humor azedou e meu 
turno est prestes a comear.
Ela se levantou, limpando com as mos a areia na parte de 
trs da saia.
Uma pilha de desenhos estava prxima, presa por uma 
grande pedra. Seph estendeu a mo para peg-los.
        No! Largue isso!
Ela o empurrou com fora, e as folhas voaram, sopradas pela 
brisa da costa.
Perplexo, ele correu atrs delas, resgatando algumas quase j 
em meio s ondas. Quando pegou todas, virou-se e descobriu 
que ela no havia esperado por ele. Na verdade, ela j estava 
a uma boa distncia, caminhando pela praia, os ombros 
curvados, a cabea inclinada para a frente.
        Que diabos...?
Ele baixou o olhar para o mao de papis em sua mo. O 
desenho de cima era um rosto em carvo, um perfil de trs 
quartos, com cabelos longos, escuros e cacheados, mas do 
rosto altas, um nariz de estilo romano, um meio sorriso, 
olhos sob uma mancha de sobrancelhas escuras.
O rosto dele.
Ele folheou os outros. Seph McCauley deitado de costas ao 
sol em roupa de banho, os msculos salientados sob a pele 
do peito, um brao descansando sobre os olhos. Seph 
caminhando ao longo da costa, uma silhueta alta e angulosa 
destacando-se contra a gua brilhante. Seph estendido nas 
rochas  beira d'gua, olhando em direo ao Canad. 
Estudos das costas e dos ombros dele, dos braos e das 
pernas, tendes e msculos fielmente retratados.
Em todos os desenhos, ele estava cercado por uma nuvem 
de luz, como se irradiasse luz de seu interior. Como imagens 
dos santos nos velhos manuscritos. Eram todos desenhos 
dele, com exceo de algumas naturezas-mortas de conchas 
e rochas. Pensamentos vieram  tona, como em uma piscina 
turva.
Por que ela est me desenhando?
Ela sabe que sou mago.
Ele saiu a correr pela praia atrs dela, saltando sobre rochas e 
pedaos de madeira meio submersos. Estava a cerca de 30 
metros dela quando ela o ouviu se aproximar. Ela no olhou 
para atrs, mas apressou o passo at que tambm ela estava 
correndo. Os cabelos se soltaram do elstico e voaram para 
trs, enquanto ela se desviava de troncos de rvores e 
pessoas que caminhavam pela praia no fim do dia.
Ele era mais rpido.
J estava quase alcanando-a quando ela tropeou numa raiz 
de rvore e caiu, deslizando para a frente na areia.
Ele caiu de joelhos junto dela. Ps a mo em seu ombro, e 
ela estremeceu sob seu toque.
        Voc est bem?
Ela no respondeu, mas se encolheu como se quisesse 
desaparecer. Ele a rolou at que ficasse deitada de costas e 
limpou-lhe a areia do rosto com a bainha da camiseta. Ela 
fechou os olhos com fora, como se pudesse fingir que ele 
no estava ali. A blusa branca de renda estava suja de areia 
molhada, o peito arfando enquanto ela lutava para respirar.
        Quem  voc, na verdade?  indagou ele.
        Eu... falei... pra voc. Sou garonete.
        Qual  o seu nome?
        Madison Moss.
        Leicester mandou voc?
Ela abriu os olhos e fitou-o.
        No sei do que voc est falando.
        Como sabia que sou... mago?
Ela no disse nada.
Ele pousou as mos sobre as clavculas dela, as pontas dos 
dedos pressionando levemente a pele. O fato de ela ter lhe 
roubado a imagem fazia com que ele se sentisse autorizado a 
fazer aquilo.
        Agora voc vai me contar a verdade  resmungou ele.
Seph lanou seu poder sobre ela, uma suave persuaso. A 
princpio a sensao foi agradvel, como um longo suspiro 
exalado. Um gotejar no incio, a seguir uma corrente. Depois 
ele tentou se afastar e no conseguiu. Aquilo foi ficando cada 
vez mais intenso, at deix-lo exausto, nauseado e tonto, 
como se a sua prpria essncia estivesse sendo extrada pelas 
pontas dos dedos.
Por fim, ela ergueu os braos e afastou as mos dele, depois o 
deitou de costas, dobrando-lhe as mos sobre o peito como 
um corpo num caixo. Pontos negros giravam na viso dele 
como abutres, bloqueando o sol.
Ela se inclinou sobre ele. Tocou-lhe a face gentilmente e 
beijou-o na testa.
 Adeus, menino bruxo  sussurrou ela.
Ela se levantou, recuperou a bolsa, pendurou-a no ombro e 
foi embora, sem nenhuma pressa dessa vez, como se 
soubesse que ele no poderia segui-la.
Ele no saberia dizer com certeza quanto tempo ficou 
deitado ali, incapaz de se mover. Como um bbado na 
calada. Ou uma criatura que havia sido levada pela gua 
numa tempestade. Finalmente, ele se ergueu sobre os 
cotovelos. A cabea girava. Por um instante, achou que fosse 
vomitar, mas o enjo passou. Seph rolou at ficar de quatro. 
Vrios dos desenhos haviam ficado presos sob seu corpo. Ele 
os dobrou com cuidado e enfiou-os nos bolsos de trs. 
Levantou-se, cambaleando um pouco, sacudindo a areia do 
cabelo. Sentia-se vazio. Olhou de um lado para o outro da 
praia. Passava do meio-dia, e a praia estava cheia. Nenhum 
sinal de Madison Moss.
Ele se arrastou, subindo a escada de madeira da praia como 
um velho. Encontrou Jack, Ellen, Fitch e a namorada de 
Fitch, Miriam, sentados s mesas de piquenique sob as 
rvores, tomando sorvete de casquinha.
Miriam era de Cleveland, e a famlia dela tinha um chal 
perto do lago em Trinity. Ela usava na praia roupas de veludo 
amassado preto, lpis delineador e meias arrasto. Seph 
achava legal, de um jeito pouco prtico.
        Oi, Seph. Quer jogar tnis mais tarde?  indagou Ellen 
quando o avistou. Ento ela franziu a testa, fazendo sombra 
sobre os olhos.  Voc est bem? Parece que teve uma 
insolao ou coisa assim.
Seph deixou-se cair no banco ao lado dela, exausto com a 
subida desde a praia.
        Estou bem.
        Aqui. Coma um pouco.
Ela lhe passou a casquinha. Ele lambeu metade e de- volveu-
a.
        Quem era a garota com quem voc estava danando no 
pavilho na noite passada?  perguntou Fitch.
        Christy Laraway. Ela est estudando no Instituto.
Ele fechou os olhos, tentando se lembrar do rosto dela.
        Cara, achei que voc estivesse namorando a Julie 
Steadman.
        Eu fiquei com a Julie algumas vezes  disse Seph, sem 
abrir os olhos.  No estou namorando ela.
Jack terminou a casquinha dele e lambeu os dedos.
        As garotas daqui esto felizes da vida de encontrar algum 
que no odeiam desde o primeiro ano.
        Qual , Jack,  mais do que isso  disse Ellen. Ela passou 
para um falsete agudo abobado.  Ele  muito gato...  
praticamente europeu. Quer dizer, ele viveu no mundo 
todo. E ele fala francs.  Ela cutucou Seph com o ombro. 
 E voc viu os olhos dele? Eles mudam de cor, e ele tem 
aqueles clios longos e escuros. E o jeito que ele beija.  Ela 
revirou os olhos.
        Cale a boca, Ellen  disse Seph.
A conversa era necessariamente filtrada devido  presena 
de Miriam, que no sabia de nada do subtexto mgico.
        E ento? Qual  o segredo de um grande beijo, Seph?  
perguntou Jack.   a tcnica, a durao, a intensidade ou o 
poder?
Seph soltou um suspiro dramtico.
        Oh, est certo, Jack. Eu beijo voc. Mas s desta vez.
Seph rolou para o lado para se desviar do tabefe no muito 
forte. Jack estava sempre criticando-o. Como se pensasse 
que Seph estava tirando vantagem da persuaso.
        Alguns caras esto reclamando do rival forasteiro  
comentou Jack, tirando a camiseta e enxugando o rosto com 
ela.
Seph deu de ombros.
        Voc no acha que todos contribuem de algum modo para 
o jogo?
        Como assim?
        Todos ns usamos os nossos talentos. Por exemplo, 
algumas pessoas so bem musculosas.  Seph olhou de 
esguelha para Jack.  Ou sabem conversar muito bem. 
Jogam futebol americano ou esto numa banda de blues. 
Escrevem poesia, pintam ou so bons ouvintes. Tm cabelo 
bonito, pernas bonitas, um monte de dinheiro e um barco. 
Ou tm aquele je ne sais quois...
        Ou aquele je sais muito bem quois, em certos casos  
retrucou Jack.
        Cale a boca, Jack  disse Seph, apertando a base da mo 
contra a testa. A cabea estava latejando.
        Algumas pessoas diriam que o amor no  um jogo  
ponderou Ellen.  Eu nunca engoli aquela coisa de que 
"vale tudo no amor e na guerra".
Seph deu de ombros, rendendo-se.
        De qualquer jeito, no posso jogar tnis hoje  noite. Vou 
trabalhar pro Harold esta tarde, e  noite vou encontrar 
algum na Lendas.
        Vai se encontrar com outra garota?  indagou Miriam.
Seph se levantou para ir embora.
        No exatamente. Ela no sabe que vou estar l.

O gerente da Lendas contou a Seph de boa vontade a que 
horas Madison Moss saa do trabalho. Ele estava at disposto 
a deix-la sair mais cedo, mas Seph disse que no, que 
esperaria. Seph comprou caf no balco e achou um banco 
no parque do outro lado da rua que permitia uma boa viso 
da entrada. Ela saiu pela porta da frente bem na hora, 
olhando para um lado e para o outro da rua como se ainda 
no houvesse decidido o que fazer a seguir. Ela pulou e deu 
um grito de susto quando ele saiu das sombras e tocou-lhe o 
ombro.
        Oh,  voc  disse ela, quando ele se voltou em direo  
luz.  Voc quase me mata de susto.
Ela havia tranado novamente os cabelos, mas ainda vestia a 
blusa e a saia sujas da praia.
        Eu preciso falar com voc.
        Oh, bem. Sinto muito. Eu... ahn... tenho planos. Preciso ir 
 disse ela, sem fazer nenhum esforo para ser 
convincente.
        No vai levar muito tempo. Prometo.  Ele segurou-a 
pelo cotovelo, com cuidado para no deixar o menor pingo 
de magia escapar. Ele no tinha certeza de que tinha alguma 
sobrando, de qualquer modo.  Voc quer conversar aqui 
ou em algum outro lugar?
        Eu no vou a lugar algum com voc.
        Certo.
Ele a conduziu de volta  lanchonete, at o terrao que dava 
para o lago. Escolheu uma mesa distante, de frente para os 
jardins. A garonete se aproximou, sorrindo e arqueando as 
sobrancelhas para Madison.
        Posso ajudar?
Madison manteve o olhar fixo  frente, mal-humorada e 
tamborilando os dedos na borda da mesa. As unhas estavam 
pintadas de roxo.
        Dois cafs e duas pores de biscoitos de nozes  disse 
Seph.
        Eu queria ch  disse Madison quando a garonete j 
havia se afastado.
        Voc estava bebendo caf na praia.
        Neste momento, eu prefiro ch.
        Da prxima vez, fale.
        O que faz voc pensar que vai haver uma prxima vez?
Seph tirou os desenhos dela do bolso do jeans e alisou- -os 
sobre a mesa.
Madison contraiu os lbios e olhou para o lago.
        Sabia que levei uma bronca pelo estado do meu uniforme, 
menino bruxo?
        O meu nome  Seph.
        Que espcie de nome  esse?
        Apelido de Joseph.
         um nome de famlia?
        No fao idia.  O perfume de jasmim elevava-se dos 
jardins, e vaga-lumes faiscavam no gramado.  No 
conheo realmente a minha famlia.
Ela torceu o nariz.
        s vezes isso no  ruim. Com quem voc est morando?
        Rebecca Downey. Ela  irm da minha tutora.
        Oh, eu conheo ela. Ela vem bastante aqui.  Madison 
lanou-lhe um olhar avaliador.  Ela  muito legal.
A entrelinha era: ao contrrio de voc.
        E quanto a Madison? De onde vem esse nome?
        Fui batizada com o nome de um condado em Kentucky. 
Onde os meus pais... ahn... se conheceram.
A garonete serviu duas xcaras de caf e pratos de biscoito.
        Ei, esses esto muito bons!  disse a garonete, 
apontando os desenhos para Seph.
Madison gesticulou em direo s folhas amassadas.
        Quer guardar isso?
Seph no disse nada.
        Olha  disse ela, envolvendo a xcara com os dedos.  
Desculpe-me por desenhar voc sem pedir permisso.
Seph aguardou.
         s isso?  perguntou ele, enfim.
        O que voc quer?
        Bom, para comear, o que voc fez comigo na praia hoje?
        Quer dizer, depois que voc me atacou?
Ele assentiu com cabea, admitindo a verdade da observao 
dela com rancor.
        Sinto muito por aquilo  disse ele.   que eu pensei 
que voc talvez... tivesse intenes ocultas.
Ele no podia dizer: "H magos atrs de mim e pensei que 
voc pudesse estar conspirando com eles".
        Bem, voc veio at mim, voc sabe. Eu estava cuidando da 
minha prpria vida.
        Eu sei. Mas o que voc fez comigo?  insistiu ele.
Os cantos da boca de Madison se retorceram.
        Beijei voc.
        Antes disso. Voc me deixou cado de costas.
Agora ela abriu um sorriso franco.
        Isso soa inadequado.
        No  uma piada. Quero saber o qu... quem  voc e o 
que est tramando.  Seph apontou para os desenhos.
 Por que a aura? Por que voc fica me chamando de 
menino bruxo?
        Porque  isso o que voc .
        O que faz voc pensar isso?
Ela lanou um olhar que dizia que ele no a estava 
enganando nem um pouquinho.
        H pessoas neste mundo que conseguem tudo o que 
querem, que podem convencer voc a entregar todo o 
dinheiro que tm e ficar felizes com isso. Alguns tm a 
sabedoria, ou a segunda viso. De onde eu venho, chamamos 
esses de bruxos.
Eu os chamo de magos.
        Por que acha que eu sou... um bruxo? Nunca falei com 
voc at hoje.
        Nem precisava. Sempre fui capaz de reconhecer. Voc 
brilha como uma casa iluminada para uma festa.
Ela estendeu uma mo na direo dele, parando a dois 
centmetros de seu rosto, como algum que hesita em tocar 
num forno quente.
        O que aconteceu na praia hoje?  insistiu Seph.
        No sei, na verdade.  Ela deu de ombros.  Parece que 
eu simplesmente sou imune  feitiaria.
Seph inclinou-se para a frente.
        Foi mais do que isso. Foi como se voc tivesse me 
espremido ou algo assim.
Madison deu uma mordida num biscoito.
        Esta  uma conversa totalmente absurda, Seth, ou Seph, 
ou seja l qual for o seu nome.
        D para usar? O poder, digo. Depois de extrair de uma 
pessoa?
Ele lhe segurou a mo.
Ela arrancou a mo das dele.
        Voc  o bruxo, no eu.  Ela olhou para o relgio.  
Escute, eu trabalho amanh cedo. Preciso dormir um pouco.
Seph ignorou a indireta.
        Por que voc fala como algum do Sul?
        Porque sou de l. O Condado de Coalton fica junto do rio. 
Sul de Ohio.
        Por que est trabalhando aqui, ento?
        A minha prima Rachel  dona da Lendas. Ela precisava de 
uma garonete, eu precisava de dinheiro, e achei que 
poderia acrescentar algumas paisagens de praias ao meu 
portflio.
Seph ps algumas notas de dinheiro sobre a conta.
        Mas voc no est desenhando paisagens. Est dese-
nhando a mim.
Ela enrubesceu e desviou o olhar.
        Eu... eu achei que voc daria um bom tema. Voc tem um 
rosto interessante. E desafiador. Quero dizer, voc realmente 
cria a sua prpria luz.
Ela se levantou, indicando que a conversa estava acabada.
Seph seguiu Madison pela lanchonete. Na entrada, ela se 
virou e estendeu-lhe a mo.
        Prazer em conhec-lo, Seph McCauley. E obrigada pelo 
caf.
Ele apertou a mo dela, mas ela no reagiu ao toque da 
maneira como outras garotas o faziam.
        Onde est hospedada?  perguntou ele.
        Eu?  Ela indicou as escadas com a cabea.  Aqui 
mesmo, na penso.
        Se amanh voc vai trabalhar no caf da manh, isso 
significa que vai sair cedo?
Ela libertou a mo.
        No. Vou fazer turno duplo.
        Quando  o seu dia de folga? Talvez a gente possa se 
encontrar.
        Eu tenho visto voc no pavilho. Parece que voc tem 
uma longa lista de espera.
Cidades pequenas.
        Estou tentando encerrar as inscries.
Ela ergueu o queixo.
        O que sou eu, um desafio pra voc ou algo assim?
Ele deu de ombros.
        Foi voc quem me beijou.  Ele soube que havia dito a 
coisa errada quando ela lhe deu as costas e rumou para as 
escadas.  Ei! Madison! Desculpe-me, est bem? Ser que a 
gente no pode simplesmente se encontrar? No precisa 
assinar nada. A gente faz o que voc quiser.
        Bem...  Ela fez uma pausa, um p no primeiro degrau, a 
mo no corrimo. Virou-se para ele, pensativa.  Faz muito 
tempo que no vou a um piquenique.

Captulo Doze
Hastings

O dia seguinte estava terrivelmente quente. Seph deixou a 
praia cedo e parou no mercado a caminho de casa. Madison 
havia concordado com um piquenique, e Seph havia 
concordado em levar a comida. Ele pretendia levar pratos 
simples: focaccia, queijo, frios, frutas. E uma torta de nozes 
com acar queimado pela qual qualquer um venderia a 
alma.
A princpio, ele achou que no havia ningum em casa. 
Entretanto, ao tirar uma garrafa de ch gelado do 
refrigerador, ouviu vozes na varanda. Andou at l 
esperando ver Linda e Becka. Becka estava l, mas sentada 
em frente a um estranho.
Ele era alto e magro, porm musculoso, e tinha traos 
fortes... aquele tipo de feio que as mulheres acham atraente. 
Tinha olhos verdes e cabelos escuros rebeldes. Estava 
vestido com uma roupa adequada ao clima: camisa de 
algodo e calas cqui. Uma garrafa de cerveja estava posta 
sobre a mesa  sua frente. Havia algo de cativante nele, um 
poder concentrado que atraa o olhar.
        Oh, ol, Seph. O Jack est com voc?  indagou Becka, 
olhando por cima do ombro dele.
Seph sacudiu a cabea.
        Vim direto da praia sozinho.
Ele encarou o homem, que o fitava com curiosidade. Becka 
percebeu.
        Seph, este  Leander Hastings, um amigo da famlia. Ele 
est de visita, vem de fora da cidade. Leander, este  Seph 
McCauley. Ele est passando o vero aqui conosco.
Seph estendeu a mo para Hastings, e houve a troca eltrica 
tpica entre magos.
        Eu estava ansioso por conhec-lo  disse Seph.  Ouvi 
falar muito sobre o senhor.
Hastings sorriu.
        No acredite em tudo o que ouvir.
Os olhos dele estavam fixos em Seph, avaliando-o. Havia 
algo nele que fazia com que Seph se lembrasse de Gregory 
Leicester. Tinha a mesma capacidade de intimidar, de 
impressionar. Mas, naquele momento, ele parecia um pouco 
perplexo.
        Voc  amigo do Jack?  perguntou Hastings.
        No  Becka apressou-se em explicar.  Ele era 
convidado da Linda, originalmente, mas ns conseguimos 
roub-lo dela. Ele vem de uma situao familiar complicada.
        Entendo.
Seph precisava achar um jeito de conversar com o mago, 
fazer perguntas em particular. Provavelmente ele era algum 
que poderia lev-lo at o Drago.
        Vai ficar muito tempo em Trinity, sr. Hastings?  
perguntou Seph, torcendo por um sim.
Hastings sacudiu a cabea.
        Apenas alguns dias, receio. E alguns dias em Trinity nunca 
so o bastante.  Ele fez uma pausa.  De onde voc , 
Seph?
Hastings tinha certo sotaque, como se fosse britnico ou 
tivesse aprendido ingls na Inglaterra.
        Nasci no Canad  respondeu Seph.  Mas me mudei 
vrias vezes.
Becka olhou para o relgio.
        Minha nossa, sinto muito, Leander. Preciso estar na escola 
em meia hora. Mas o Jack deve chegar logo, e espero que 
voc fique para o jantar. Voc e o Seph podem ficar 
esperando um pouquinho?
Ela parecia atrapalhada, o rosto mais rosado do que se 
poderia atribuir ao calor.
        Fico bem sozinho, Becka, voc sabe disso.  minha culpa 
aparecer assim, sem avisar. Vou ficar para o jantar, se no se 
importar, mas tenho certeza de que o Seph tem outras coisas 
a fazer alm de me entreter. Posso ler um pouco  disse ele, 
apoiando a mo numa pilha de livros sobre a mesa.
        Oh, no  problema, srio  disse Seph, afobado.
Becka apanhou o laptop e seus papis, beijou Seph no topo 
da cabea e partiu, batendo a porta de tela.
Hastings a viu partir e um instante depois voltou a ateno a 
Seph. Ele parecia algum que havia esquecido algo 
importante e estava tentando se lembrar.
        Quer dizer que voc chegou aqui com a Linda?
Seph ps o ch na mesa e acomodou-se na cadeira em frente 
a Hastings. Decidiu responder s prximas trs perguntas 
todas de uma vez, antes de serem feitas.
        Ela  minha tutora. Disseram que meus pais morreram. E 
eu no sei de onde sou. No de verdade.
Hastings pareceu surpreso.
        A Linda nunca...
        Eu sei, ela nunca mencionou nada a meu respeito  
interrompeu Seph.  S nos conhecemos algumas semanas 
atrs. Mas ela tem sido... tima. Assim como todo mundo 
aqui em Trinity.
        Quem eram os seus pais?  indagou Hastings, inclinando-
se para a frente na cadeira. Um anel nada comum reluziu em 
sua mo direita quando ele se moveu.
Seph hesitou, sem saber se devia passar a mentira adiante ou 
no.
        Eu nunca soube muito sobre eles. Fui criado por uma me 
adotiva. Uma feiticeira  acrescentou ele.
        Talvez a sua me adotiva lhe conte sobre eles, se voc 
perguntar.
O sentido era claro. Nenhum feiticeiro podia resistir a um 
mago fazendo perguntas.
        Ela j se foi tambm  disse ele.
"H algo perigoso neste homem", pensou Seph. No mundo 
dos magos, s vezes era difcil distinguir os mocinhos dos 
bandidos.
Seph decidiu que era hora de fazer algumas perguntas antes 
que fossem interrompidos. Inclinou-se para a frente.
        O Jack me contou que voc o ensinou a lutar.
Hastings confirmou com a cabea.
        Ensinei.
        Voc pode me ensinar tambm?
        O Jack  guerreiro.  o dom dele. Voc  mago. No tem 
permisso de lutar, segundo as regras.
        Mas nem todos jogam conforme as regras, no ?  disse 
Seph baixinho.
Hastings pegou o copo de cerveja e bebeu-a at o fim.
        Por que quer aprender a lutar?  indagou ele, revirando a 
garrafa entre as mos.
        Eu tenho inimigos.
        Quem?
        Gregory Leicester  disse Seph, observando Hastings  
procura de qualquer reao quele nome. No houve 
nenhuma, nem mesmo uma piscadela, embora o mago 
tivesse feito uma pausa por um momento antes de falar de 
novo.
        O que voc tem contra o Gregory Leicester?  perguntou 
ele, como se estivessem falando sobre o clima.
        Ele assassinou dois dos meus amigos.
Hastings no pareceu surpreso com a notcia.
        Sinto muito  disse ele.  Eles eram magos?
        Um era mago. O outro era Anaweir.
        Voc pode provar que foi ele quem os matou?
Seph pensou a respeito.
        Provavelmente, no.
Hastings suspirou e correu uma mo pelo cabelo, deixando-o 
ainda mais bagunado do que antes.
        O dr. Leicester sabe que voc pretende mat-lo?
"Ele est caoando de mim", pensou Seph, embora no 
houvesse nenhum trao de humor na voz ou nas maneiras 
de Hastings.
        Eu disse a ele que vou mat-lo  admitiu Seph.
Hastings sacudiu a cabea e inclinou-se para a frente.
        Vou lhe dar um conselho, Seph. Se voc realmente quer 
matar um homem, no diga a ele o que est tramando. E no 
diga a ningum mais tambm. Soa mais como se voc 
estivesse tentando convencer a si mesmo.  Ele abriu um 
sorriso em que no havia sinais de inimizade.  Para todos 
os efeitos, Gregory Leicester e eu somos velhos amigos.
        Mas vocs no so  disse Seph.  So?
        No  concordou Hastings, sem parar para pensar a 
respeito.  Mas o conheo bem o suficiente para sugerir 
que voc reconsidere a idia de se meter com ele.
        A escolha no  minha.  Seph passou para a sua 
pergunta principal.  Voc sabe onde eu posso encontrar o 
Drago?
        O Drago?
        O lder da faco de magos que se opem ao Gregory 
Leicester. O Leicester est mancomunado com algum 
chamado Claude D'Orsay.
        E como voc sabe de tudo isso?
De repente, Seph percebeu que ainda era ele mesmo que 
estava respondendo  maioria das perguntas. E, apesar de 
passar o dia na praia, ele j estava todo suado de novo, 
enquanto Hastings parecia refrescado e relaxado. Como  
que ele faz isso?
        Eu estive numa escola chamada Porto Seguro durante 
vrios meses, at junho  disse Seph, irritado.  Os amigos 
que ele matou eram alunos l. O Leicester era o diretor. 
Ento, voc conhece o Drago ou no?
Agora Hastings estudava-o com mais interesse do que antes.
        Ouvi falar do Drago,  claro, embora eu seja novo no 
Conselho dos Magos. O Drago no est realmente no 
Conselho. Ele mantm sua identidade oculta, mas tem 
influncia considervel. Por que pergunta?
        Quero me encontrar com ele. Tenho algumas informaes 
que podem ajudar.
Seph tinha a inteno de se apropriar da misso de Jason. S 
que Seph era ainda mais jovem do que Jason, como Hastings 
imediatamente apontou.
        Voc  jovem demais para se envolver na poltica dos 
magos. No  um jogo para crianas. Eu j tenho a reputao 
de ser descuidado com as vidas de crianas  acrescentou 
Hastings, esfregando o queixo.
        No sou criana  disse Seph, irritado.
        Tenho certeza de que no . No depois de um ano no 
Porto Seguro.
Hastings estava prestes a dizer mais, quando um som de 
engasgo, como uma inspirao profunda, veio da entrada, e 
Seph percebeu que no estavam mais sozinhos. Ambos 
ergueram os olhos e viram Linda Downey ali em p.
        Lee! O que voc est fazendo aqui?  indagou ela, 
olhando de Seph para Hastings e de volta para Seph.
Hastings levantou-se calmamente.
         bom ver voc tambm, Linda.
Ele deu um passo  frente, estendendo ambas as mos, mas 
ela recuou, por isso ele as deixou cair aps um momento. Ele 
era bem mais alto que a encantadora, e o ar entre eles 
vibrava como se duas frentes climticas estivessem se 
encontrando. Seph arquivou a informao para mais tarde.
        No sabia que voc vinha  disse ela, finalmente.  Que 
surpresa  acrescentou, sem dar expresso  voz.
Hastings inclinou a cabea.
        Eu tambm no sabia que voc estaria aqui. Apareci sem 
avisar, mas a Becka foi gentil em me convidar para o jantar. 
Eu estava trocando umas idias com o Seph aqui.
        Pensei que voc estivesse na praia  disse ela a Seph, 
num tom que o fez desejar que estivesse mesmo l.
        Voltei mais cedo  explicou ele, s pressas.  Jack deve 
chegar em casa logo.
Enquanto ele falava, eles ouviram algum  porta dos fundos.
        Seph? Voc est escondido aqui? Tenho cinco mensagens 
pra voc.  Jack estava rindo quando chegou  varanda. 
Estancou ao ver Hastings.  sr. Hastings! No sabia que 
estava aqui. Eu teria voltado pra casa mais cedo.  Aquele 
era um mago que Jack parecia feliz em ver.  Mame sabe 
que est aqui?
        Eu j falei com ela  disse Hastings.  Eu trouxe para ela 
da Inglaterra alguns livros antigos que achei que ela ia gostar.
Seph olhou para Jack, Hastings e Linda Downey. Tinha 
certeza de que o jantar seria interessante.
O jantar foi interessante. Becka ps salmo no defumador, e 
havia vegetais grelhados, po quente da padaria e milho 
verde fresco. Ela havia comprado framboesas e chantilly, por 
isso Seph fez crepes de sobremesa.
A fartura no era s de comida, mas tambm de segredos. E 
todos eles giravam em torno de Leander Hastings. Linda 
estava tristonha por algum motivo e no falou muito com 
ningum. Seph percebeu rapidamente que Jack e Hastings 
tinham algum histrico do qual Becka no sabia nada a 
respeito. Ela e Hastings se meteram numa discusso animada 
sobre arqueologia celta que durou quase toda a refeio. 
Apesar disso, Becka parecia hesitante, insegura de si no que 
se referia ao mago. Seph notou Hastings olhando para ele 
atentamente diversas vezes.
Se tivera esperanas de mais tempo sozinho com Hastings 
aps o jantar, Seph ficou decepcionado. Os adultos se 
sentaram na varanda, conversando e bebendo vinho at 
tarde. Ao final, Hastings agradeceu a Becka por receb-lo e 
despediu-se de Jack e Seph. Quando se aproximou de Linda, 
tomou-lhe ambas as mos com firmeza e colocou-a em p.
 Voc pode me acompanhar at o carro, Linda?
Era mais uma ordem do que um pedido. Seph se perguntou o 
que o mago estava tramando. Talvez ele fosse contar a Linda 
sobre os planos de Seph de encontrar o Drago.
Sentia-se desapontado. Estava convencido de que Hastings 
sabia onde encontrar o Drago, mas obviamente no iria 
compartilhar a informao.
O ar l fora estava fresco com a brisa do lago. Quando Linda 
e Hastings chegaram ao carro de Hastings, ele abriu a porta 
do passageiro.
        Entre  disse ele, e caminhou at o outro lado sem 
esperar por uma resposta.
"Certo", pensou ela. Isso lhe daria a oportunidade de dizer a 
Hastings o que pensava. Ela entrou.
Hastings sentou-se no banco do motorista, mas no ps a 
chave na ignio.
        Quero falar com voc sobre o rapaz  disse ele.
        Se est falando do Seph, eu tambm tenho algo a dizer pra 
voc.  Ela o olhou nos olhos.  Fique longe dele, 
Leander. No o envolva em nenhum dos seus esquemas. 
Mesmo que ele queira. Ele j foi ferido, e no quero v-lo se 
machucar ainda mais.
        Meus esquemas?  Hastings arqueou uma sobrancelha. 
Linda olhou feio para ele, por isso ele suspirou e se recostou 
no assento, pondo os braos por sobre o volante.  Quo 
bem voc o conhece?
        Conheci Seph durante toda a vida dele  respondeu 
Linda.  Por qu?
        Ele diz que s conheceu voc esse vero  disse 
Hastings, em tom ameno.  E estou me perguntando por 
que eu nunca ouvi falar dele antes.
Linda hesitou.
        Bem, talvez o nosso relacionamento tenha sido um 
pouco... unilateral.
Hastings esfregou o queixo com a mo.
        Quer dizer que voc o conhece, mas nunca realmente 
conversou com ele?
        Sou a tutora dele desde que ele era beb  disse Linda 
bruscamente.  Por qu? Onde est querendo chegar com 
isso?
        Se voc  a tutora dele, ento por que diabos o menino 
acabou no Porto Seguro?
Linda remexeu-se desconfortavelmente no assento.
        Eu... No fui eu que coloquei ele l. Eu nunca... eu nunca 
fiz a conexo. No sabia que ele estava com problemas at o 
fim do ano escolar.
A culpa dominou-a.
Hastings foi brusco.
        No acredito em coincidncias. Conheo Gregory 
Leicester e sei o que ele faz com os alunos dele. Se Seph 
McCauley passou um ano l, ento voc precisa supor que o 
Leicester tem controle sobre ele agora.
        Isso  impossvel  disse Linda categoricamente.  Ele 
estava pssimo quando o encontrei. Por pouco no consegui 
tir-lo de l. O Leicester estava prestes a mat-lo. E depois 
eles tentaram nos impedir de chegar a Trinity.
        Como foi que voc o tirou da escola?  perguntou 
Hastings.
Ele havia afastado o rosto da luz, e ela no podia ver-lhe a 
expresso no escuro.
        Ele enviou um e-mail pedindo socorro.
Hastings ficou em silncio.
        Qual , Leander?! Voc no acha que isso  algum tipo de 
armadilha, acha?
        Aqui pode ser exatamente o lugar onde o Leicester quer 
que ele esteja, bem no meio do Santurio, junto de voc, do 
Nick, do Jack e da Ellen: todas as pessoas que arruinaram o 
torneio deles no ano passado e provocaram a mudana das 
regras.
        Como eles poderiam saber que ele acabaria aqui? Foi como 
eu lhe disse. O Seph nem sabia a meu respeito at eu 
aparecer na escola.
        O que ele contou a voc sobre a escola?
        Ele... bem... ele no me disse muita coisa. Mas d para ver 
pelo jeito dele que...
        No seja ingnua. Assim que me viu, ele comeou a fazer 
perguntas sobre o Drago e onde ele poderia encontr-lo. 
Disse que queria ajud-lo. O rapaz  s uma criana, mas  
poderoso. Poderoso o bastante para domin-la. No est 
vendo?  muito arriscado deix-lo aqui.
Linda emitiu um som irritado.
        Voc est certo sobre uma coisa. Ele  uma criana. Ele  
s um menino sem treinamento que viveu um inferno nesse 
ltimo ano. E agora ele precisa se curar.
Hastings se virou e tomou as mos de Linda. Ela estremeceu 
e tentou resgat-las, mas ele segurou firme, exercendo 
presso.
        Deixe-me lev-lo comigo. Prometo que no vou 
machuc-lo. Com algum tempo, talvez eu possa desfazer o 
dano. Isso pode nos ajudar a aprender mais sobre o que o 
Leicester est planejando, e como ajudar as vtimas dele.
         isso o que voc quer, no ?  disse ela com amargura. 
 Tem esperanas de usar o Seph para ajudar voc a vencer.
        Ns temos de vencer, Linda  disse Hastings com 
suavidade e urgncia, olhando-a nos olhos.  Voc sabe 
disso to bem quanto eu.
Ela retirou as mos das dele.
        Sim, ns sabemos  concordou ela.  Mas no sobre o 
cadver desse menino. No vou deixar que ele saia do 
Santurio.  Quando viu a expresso dele, ela empertigou os 
ombros e ergueu o queixo.  Nem tente me amedrontar. E 
no tente agir quando eu no estiver olhando, tambm. Se 
tocar um dedo nele, ou convenc-lo a fazer qualquer coisa, 
vai haver guerra entre ns, prometo a voc.
Ela abriu a porta do carro e saiu para a escurido.


Na manh seguinte, Seph foi acordado por uma batida leve  
porta do quarto. Ele vestiu os shorts e abriu-a. Era Linda.
        Vamos sair para o caf da manh  sugeriu ela.
Seph deu de ombros.
        Est bem.
Ela estava com olheiras, como se no houvesse dormido 
bem. Seph se perguntou qual seria o motivo. Ele vinha 
dormindo cada vez melhor com o passar do vero e o 
dissipar das lembranas do Porto Seguro.
Ele vestiu a camiseta e apanhou os chinelos, descendo as 
escadas descalo. Saram pela porta de trs, e ele se sentou na 
varanda para calar os chinelos. Ele podia prever que seria 
mais um dia quente, mas a manh estava silenciosa, fresca e 
perfumada com o cheiro das hortnsias que cercavam a casa.
Eles pararam numa cafeteria prximo  universidade para 
comprar croissants, suco e caf, e depois foram de carro at a 
praia, que estava quase deserta, exceto por algumas pessoas 
passeando. A lanchonete estava em silncio no topo do 
penhasco. Eles desceram a antiga escadaria at a areia e 
caminharam at o fim do quebra-mar. L se sentaram, 
tiraram os sapatos e balanaram os ps sobre a gua. Gaivotas 
rodeavam por sobre suas cabeas, na esperana de algum 
donativo. Bem longe  direita, o sol fulgia sobre o horizonte, 
transformando as cristas das ondas em ouro. O ar trazia 
consigo o cheiro do Canad, fresco e limpo, do outro lado da 
gua.
Ele pensou em Toronto, distante ao norte e a leste. 
Perguntou-se quem estaria morando na velha casa agora, se 
ainda recebiam hspedes, se haviam conservado o grande 
fogo industrial e o papel de parede de estampa minscula.
        Est gostando de Trinity?  perguntou Linda afinal.
        Bom... Eu nunca pensei que gostaria de morar numa 
cidade pequena, mas eu gosto. A Mercedes, o Blaise e os 
outros vizinhos se metem demais na minha vida, mas gosto 
deles. O Jack e a Ellen so muito legais. Eles me levam com 
eles quando saem com os amigos deles, e eu conheci um 
monte de gente. Na praia  acrescentou ele, pensando em 
Madison.  Nick  fantstico.
Linda inclinou a cabea de leve, como se estivesse satisfeita.
        Estou pensando sobre a escola no outono.
Ela fitou a gua se infiltrando nas rochas.
        Tenho certeza de que vou ficar bem, aonde quer que eu 
v  disse Seph.  Agora que tenho mais treinamento.
        Voc tem de ser sempre to cordato a respeito de tudo?
Seph no disse nada. No conseguia se lembrar de ningum 
usando aquele termo para descrev-lo antes.
        O que voc acha de ir  escola aqui em Trinity?
Ele ergueu o olhar, surpreso.
        Isso seria timo. Claro.  Os nicos contatos que tinha 
com a Ordem dos Magos eram Leander Hastings e Gregory 
Leicester. E a conexo com Hastings passava direto por 
Trinity.  Mas... como eu poderia? No posso ficar na casa 
da Becka pra sempre.
        Provavelmente pode. Becka adora voc, Seph.  Ela fez 
uma pausa.  Eu poderia arranjar uma casa aqui, tambm. 
No posso prometer passar todo o meu tempo em Trinity, 
mas voc poderia ficar comigo quando estou aqui e com a 
Becka quando estou fora.
Seph no conseguiu esconder a surpresa. Ele tivera a 
impresso de que Linda nunca ficava muito tempo num 
lugar, nem mesmo queria dizer por quanto tempo ficaria ao 
visitar. Achara que ela estava pronta para voltar a Londres, e 
que s a preocupao com ele a mantinha em Trinity.
        Isso daria certo. S que...  Ele fez uma pausa, e ento 
despejou de uma s vez.  Vou ter de deixar o Santurio 
algum dia. Eu gosto daqui, mas no quero ser um prisioneiro. 
Estou acostumado a cidades grandes, e no fui a lugar algum 
o vero todo. No acha que  seguro agora?
        No sei  disse ela, fitando a gua como se pudesse 
encontrar respostas nas ondas.  Eu me sentirei melhor 
quando o ano terminar. Talvez voc possa ir  escola aqui 
este ano, depois veremos.  Ela escovou as migalhas de 
croissant do colo e juntou as mos.  Venho me pergun-
tando como voc est. Quero dizer, se voc conseguiu... 
superar o que aconteceu na escola este ano. Se voc... 
gostaria de conversar a respeito.
Ele olhou direto para Linda e disse:
        Eu estou bem, dadas as circunstncias.
E essa era pura verdade.
Ela recuou.
        Est bem. Vou matricular voc no colgio e a a gente v 
o que acontece.
Seph sorriu. Nunca lhe haviam dado a oportunidade de 
participar desse tipo de deciso antes, e ele gostou disso.
        Pra mim est timo  disse ele.
        Mais uma coisa, Seph.  Ele ergueu os olhos.  Tenha 
cuidado com Leander Hastings.
        Como assim?
Ele se lembrou de Linda e Hastings saindo juntos na noite 
anterior e perguntou-se sobre o que eles haviam conversado.
        Ele e os aliados dele tm feito muito esforo pra manter 
pessoas como Gregory Leicester sob controle. Ele sempre se 
concentrou no quadro geral. Mas s vezes ele atropela 
pessoas inocentes no caminho.
        Ele falou que tem a reputao de ser descuidado com as 
vidas de crianas  disse Seph.  O que ele quis dizer?
        Oh, ele falou isso pra voc? Mas no explicou,  claro. No 
ano passado, no torneio, ele foi o patrono do Jack no Jogo. 
 Linda tomou um gole de caf.  O Leander o convenceu 
a lutar. No final, tudo deu certo. Mas ele  um jogador. 
Arrisca a vida de outras pessoas.  Linda ps a mo sob o 
queixo de Seph e virou-lhe o rosto de modo a poder ver os 
olhos dele.  Voc poderia ser o prximo.
        Oh, no acho  disse Seph.  Ele no pareceu muito 
interessado em mim.
Linda sacudiu a cabea.
        Est enganado. Voc no o conhece to bem quanto eu. 
No se esquea do que lhe falei.

Mais tarde, durante a lio de magia, Seph tinha uma 
pergunta para Nick.
        Por que a Linda Downey detesta tanto o Leander 
Hastings?
O mago olhou-o com intensidade.
        O que fez voc pensar isso?
Eles estavam sentados na cozinha do apartamento de Nick. 
Um grande ventilador de piso zunia aos ps deles.
        Ela me avisou pra ter cuidado com ele. Ela no confia 
nele.
Nick suspirou.
        Os sentimentos da Linda pelo Leander so complexos. Ela 
no confia inteiramente nele, isso  verdade.  Ele fez uma 
pausa, como se ponderando o quanto deveria revelar.
        A Linda e o Leander estiveram... ahn... envolvidos anos 
atrs.
        O qu?  Seph olhou para o professor com surpresa.
        No d pra notar.
        Bem, sim, Seph, daria pra notar, se voc fosse mais velho 
e s um pouquinho mais sbio. O passado deles faz com que 
seja difcil para os dois lidarem um com o outro no presente.
Seph se lembrou da tenso entre o mago e a encantadora, a 
fasca e a energia. Pensou sobre o aviso de Linda.
        O Hastings  um cara mau?
        No, eu no diria que ele  um cara mau. Ele  um 
daqueles magos que melhorou com a idade. Ele era bastante 
perigoso e impulsivo quando jovem. Ainda  perigoso, 
suponho.  Nick ficou em silncio por um momento, 
franzindo o rosto ante alguma velha lembrana.
        O pai do Leander era mago, e a me era Anaweir. A irm 
mais velha, Carrie, era guerreira. A famlia fez o mximo que 
pde para mant-la longe dos torneios, mas as Rosas 
acabaram encontrando-a, e ela foi morta. O pai dele morreu 
em defesa dela. A me nunca mais foi a mesma. O Leander 
tinha dez anos na poca. Quando ele tinha a sua idade, j 
estava travando uma guerra pessoal contra a hierarquia 
dominada pelos magos e o sistema de torneios. Ele nunca 
teve medo de uma briga. Nunca teve medo de morrer, 
tambm.
        Mas... se a tia Linda e o sr. Hastings concordam sobre os 
torneios e tudo?  insistiu Seph, querendo entender.
Nick sorriu.
        Estes so tempos difceis. A Linda e o Leander podem 
concordar sobre os fins, mas com freqncia discordam a 
respeito dos meios.  Ele ps a mo no ombro de Seph.  
So ambos pessoas poderosas, cada um do seu jeito. Cada um 
vai tentar puxar voc para o seu lado, Seph, quer voc 
queira, quer no. No final, voc vai ter de decidir por conta 
prpria.


Captulo Treze
Um Pequenique no Rio

Seph no viu mais Leander Hastings, o que reforou a sua 
crena de que o mago no tinha interesse especial nele. O 
dia seguinte era quinta-feira, dia de folga de Madison: o dia 
do piquenique. Ela dissera que conhecia um bom lugar, e o 
carro era dela. Sugeriu que ele levasse roupa de banho, por 
isso ele presumiu que seria em algum lugar prximo ao lago.
A casa se esvaziara cedo. Jack fora jogar futebol com Will e 
Harmon, tentando superar o calor do dia. Becka estava no 
tribunal, e Linda estava procurando uma casa para comprar.
Seph estava prestes a carregar a caixa trmica quando 
Madison bateu  porta de tela.
 Entre  disse ele.  Estou quase pronto.
Ela estava usando um vestido de batique verde sobre o traje 
de banho, um chapu de aba larga e sandlias. Os cabelos 
lustrosos estavam em parte tranados e ornados de contas, 
em parte soltos, caindo-lhe em ondas pelas costas.
        Esta  uma tima vizinhana  disse ela.  Eu gostaria de 
pintar essa rua toda.  como uma estante inteira de bolos de 
casamento, um mais enfeitado que o outro.  Ela olhou a 
cozinha em torno, depois as bolsas e pacotes de Seph.  
Quem mais voc convidou?  perguntou ela, surpresa.
Ela o ajudou a carregar aquilo tudo para a sua velha picape. 
Puseram a comida atrs, sob uma lona.
        Voc vem de uma famlia grande, para viver numa casa 
to grande?  perguntou ela.
Ele sacudiu a cabea, entrando pelo lado do passageiro e 
afivelando o cinto de segurana.
        Sou s eu. Como falei, esta  a casa da Becka. Estou 
passando o vero aqui, no mnimo.
Ela entrou  esquerda na Jefferson, em direo ao centro, 
engatando as marchas com fora. Seph gostou de ver que ela 
dirigia um carro com cmbio manual.
        Voc est em que ano, terceiro?  indagou ela.
Ele assentiu.
        Vou estar. E voc?
        Vou entrar no terceiro tambm. Mas vou ter aulas na 
Faculdade de Trinity no outono. No Instituto de Arte.
Ela baixou a cabea ao dizer aquilo, como se ele pudesse 
questionar seu direito de estar ali.
        Uau! Parabns! Ouvi dizer que  difcil entrar l. Mas 
como  que voc pode ter aulas na faculdade se ainda est no 
ensino mdio?
        Aqui em Ohio a gente pode ter aulas gratuitas na faculdade 
enquanto ainda est no ensino mdio. O distrito escolar paga 
por isso.  As faces de Madison ficavam
rosadas  medida que ela se animava com o assunto.  
Minha professora de arte no Colgio de Coal Grove acertou 
tudo. Ela disse que eu melhoraria bastante com um bom 
professor, e eu posso ganhar crditos na faculdade sem ter de 
pagar por isso. Vou morar com a minha prima e trabalhar na 
penso, por isso...
Ela deu de ombros, embaraada, e Seph se deu conta de que 
ela devia estar nervosa porque ia ser uma aluna do ensino 
mdio numa faculdade particular de elite como a Faculdade 
de Trinity.
        Becka leciona literatura inglesa na Trinity. Eu assisti a 
algumas das aulas dela. Os alunos parecem bem  vontade. 
Aposto que voc vai gostar de l.
Aps tantos anos freqentando escolas, Seph ficara surpreso 
com o jeito como os alunos se vestiam na Trinity: camisas e 
blusas de flanela e jeans no inverno, camisetas e shorts no 
vero.
Ele estava to concentrado na conversa com Madison que 
no percebeu que estavam indo para o sul em vez de para o 
norte, at que chegaram a um cruzamento na estrada. 
Quando o carro acelerou para entrar na rodovia, Seph se 
sentou mais ereto, olhando pela janela, lutando contra um 
mau pressentimento.
        No imaginei que a gente fosse sair da cidade  disse ele.
Madison assentiu com a cabea.
        Pois . Tem uma reserva natural bem legal no rio 
Vermilion. No Condado de Huron. No  longe.
Ela o estava olhando de um jeito um pouco estranho.
        Oh.
Est tudo bem, disse ele a si mesmo. No precisa fazer uma 
cena. Ele no havia visto magos de fora da cidade durante 
todo o vero. No era possvel que os ex-alunos estivessem 
esperando nos limites da cidade para intercept-lo, vigiando 
todas as rotas que saam da cidade. Alm disso, era 
improvvel que o avistassem dentro de um carro 
desconhecido.
Eles passaram pelos limites da cidade sem incidentes. O 
parque ficava a cerca de meia hora de distncia. Era remoto, 
densamente arborizado, cercado por um grande anel da 
garganta do rio e adornado com riachos rochosos que fluam 
at o rio. O estacionamento estava vazio.
        Como achou este lugar?  perguntou Seph, passando a 
ala da caixa trmica sobre o ombro.
        Eu vim pescar aqui algumas vezes.  Ela sorriu.  
Pescaria  um pretexto pra me sentar prximo  gua e no 
fazer nada. Perfeito.  Eles caminharam uma curta distncia 
rio acima at uma pequena clareira, encoberta por rvores 
altas e circundada por plantas com largas folhagens, 
semelhantes a guarda-sis, que Madison disse serem 
mandrgoras americanas. Eles estenderam uma colcha, e 
Seph serviu a comida.
Era um dia quente, mas estava fresco sob as rvores prximo 
 gua. Isto est to bom, disse Seph a si mesmo quando 
havia finalmente comido o suficiente. Ele olhou para 
Madison e sorriu. Mais do que bom.
Madison tirou o chapu e colocou-o de lado, remexeu 
dentro da bolsa e tirou o caderno de desenho e o carvo.
        Voc arruinou os meus outros desenhos, por isso vai ter 
de posar de novo.
Seph sentou-se mais perto dela.
        Eu j cozinhei para voc. Quer dizer que preciso posar 
tambm?
Ele tomou o queixo dela nas mos, puxou-a para si e beijou-
a. Seus lbios tinham gosto de acar mascavo e manteiga, e 
os cabelos cheiravam a frutas ctricas e lavanda. A luz do sol 
ondulava sobre a colcha enquanto as rvores se moviam l 
em cima como se estivessem sob a gua.
        Madison  sussurrou ele.
        Os meus amigos me chamam de Maddie.  Ela se soltou 
dos braos dele. Ajeitando o caderno de desenho no colo, 
apontou com o queixo para a margem do rio.  Voc. V se 
sentar l.
Resmungando baixinho, Seph se levantou e foi se sentar 
entre as rochas  beira do rio. Madison ficava lhe dando 
ordens.
        Meia-volta. Incline a cabea para a esquerda. A perna 
direita reta. Pare de fazer carranca.
Seph pensou consigo mesmo que ela havia se sado bem no 
passado, desenhando-o sem a cooperao dele. Ele posou 
por uma hora na sombra matizada, com os ps na correnteza 
do rio Vermilion, at que ela teve pena dele e sugeriu que 
fossem nadar no rio.
Eles guardaram as coisas do piquenique no carro, depois 
caminharam por mais de um quilmetro at o desfiladeiro. 
Seph tirou a camisa e Madison, o vestido, e deixaram as 
roupas na margem do rio. A gua era fria, mas refrescante no 
calor da tarde. Era bem lmpida, diferentemente da enseada 
no Porto Seguro. Seph mexeu nas pedras, perturbando 
salamandras e camares de gua doce, apanhando-os nas 
mos em concha. Ele no sabia que havia lagostas em 
miniatura em Ohio. Depois os dois se sentaram na parte rasa, 
deixando o rio correr por sobre eles.
        Voc tem irmos e irms?  perguntou Seph.
        Tenho um irmo mais novo, John Robert. E uma irm 
mais nova, Grace  disse ela com ardente afeio, como se 
eles precisassem ser defendidos.
        Os seus pais no se importam de voc ter vindo para c 
sozinha?
        S tem a Carlene, minha me. Ela no ficou muito 
animada com a idia, principalmente porque sou eu que 
cuido das crianas. Mas posso ganhar mais dinheiro 
trabalhando para Rachel do que em qualquer lugar em 
Coalton. E a Rachel cuida mais de mim do que a Carlene 
jamais cuidou.
        Ento  disse Seph, tentando entender.  Voc mora 
numa... numa fazenda?
        Moro em Booker Mountain. A minha famlia vive l desde 
antes de Ohio ser um Estado.  um lugar bonito, mas receio 
que no seja grande coisa como fazenda, a no ser que se 
queira cultivar pedras.  Ela fez uma pedra ricochetear e 
cair na margem oposta do rio.  Suponho que voc tenha 
morado em tudo quanto  lugar.
        , mais ou menos.
        Como  a Europa?  Ela revirou os olhos.  Imagino que 
isso seja como perguntar como  o oceano.
        .  Ele pensou por um momento.  Tem menos espao 
na Europa. Parece que tudo fica amontoado, em comparao 
com o Canad ou os Estados Unidos. Mas  preciso prestar 
mais ateno. Est tudo em camadas. Como uma tapearia 
feita com um monte de cores e pontos muito pequenos. 
Ou... como uma pintura impressionista  acrescentou ele, 
contente de ter pensado em exemplos artsticos.
Ela o estudou como se ele fosse uma espcie extica.
        J foi ao Museu d'Orsay? Em Paris?
Ele fez que sim com um gesto de cabea.
         um banquete, se voc gosta dos impressionistas.
        Eu vou l algum dia  disse ela com convico.  Vou 
visitar todas as galerias em Paris e todas as igrejas em 
Florena. E comer gelato todos os dias.
Quando ficaram entorpecidos e tremendo, saram da gua 
para as rochas e tomaram sol como tartarugas. Madison 
correu os dedos pela dyrne sefa que pendia do pescoo de 
Seph.
        O que  isso?
        Um amigo da escola me deu  respondeu Seph.  Acho 
que se pode dizer que aumenta a magia. Permite aos que tem 
o dom fazer coisas que eles no poderiam fazer de outro 
modo.  A lembrana de Jason lhe trouxe dor, como 
sempre o fazia, mas naquele momento o Porto Seguro 
parecia muito distante.  Voc mencionou ter 
encontrado... bruxos onde voc vive.
        Bem, h uma forte tradio de magia por l. O pessoal que 
colonizou aquela rea veio da Irlanda, Inglaterra e Gales. A 
minha av lia a sorte e dava conselhos. As pessoas 
costumavam procur-la para que ela lesse a sorte delas.
Ela ficou em silncio por um momento, como que perdida 
em lembranas.
"Uma adivinha", pensou Seph.
        Tambm havia magos em Coalton?
Ela refletiu por um momento.
        Tem pessoas com auras. Como voc. Pessoas com poder. 
Trinity est cheia delas. Que tipo de poder, no sei dizer. E 
acho que a maioria deles no sabe que tem.
        H outros que nem voc?
Ela riu.
         bem difcil de dizer. Eu no tenho uma aura, nem 
magia. Eu s absorvo a magia. Algo assim.
Quando o sol comeou a tost-los e eles ficaram sonolentos, 
vestiram as roupas secas.
Ao voltarem, as sombras estavam mais profundas do que 
antes. Eles seguiram uma trilha rio acima ao longo da 
margem at alcanar um lugar onde a ravina se erguia 
abruptamente nos dois lados, forando-os para dentro do rio. 
Seph acabara de tomar a mo de Maddie para ajud-la a 
passar sobre algumas pedras escorregadias, quando ergueu os 
olhos e viu algum no leito do rio adiante, entre eles e o sol. 
O contraste entre luz e sombra dificultava a viso, mas havia 
algo de familiar naquela silhueta. Quando Seph protegeu os 
olhos contra a luz, viu que era Warren Barber. E, atrs dele, 
Kenyon King, do Porto Seguro.
Madison parou ao lado de Seph e olhou com curiosidade 
para Barber, que estava em p, sorrindo, bem no caminho 
deles.
        Ol, Joseph  disse Barber, sua voz entremeada com 
magia para sedar e nublar a mente.
Seph olhou em volta. Em ambos os lados, as margens eram 
ngremes demais para escalar. Atrs deles, mais dois magos 
avanavam pelo leito do rio. Aaron Hanlon, que ensinava 
cincias sociais, e Bruce Hays.
        Quem  esse?  comeou a dizer Madison, mas quando 
viu o rosto de Seph, as palavras morreram. Ela virou o rosto 
para olhar para Hays e Hanlon, e de volta para Seph.
        A gente estava achando que voc nunca ia deixar o ninho 
 disse Barber.
Devia haver uma pergunta no formulada no rosto de Seph, 
pois Barber acrescentou:
        Eu usei um tipo diferente de teia desta vez. Algo que deixa 
voc sair, mas amarra uma linha em voc. Desse jeito, foi 
fcil rastre-lo.
Seph passou as mos pelo corpo, como se quisesse se livrar 
da corda invisvel.
Barber flexionou os dedos, preparando-se para us-los.
        A gente veio levar voc de volta, Joseph  disse ele.  
No tem sido o mesmo desde que voc partiu.
Seph falou para Maddie sem tirar os olhos de Barber, tendo 
plena conscincia dos magos atrs dele:
        Est tudo bem. Eles eram meus colegas de escola. Volte 
para a picape.
Madison virou o rosto para olhar para trs. Hays e Hanlon 
haviam parado a uma pequena distncia, como se 
aguardassem um sinal.
        O que est acontecendo?
        V. Se eu no estiver l em meia hora, v embora sem 
mim.
Quando ela no se moveu, ele a empurrou com fora, e ela 
tropeou alguns passos para a frente. Ela olhou para trs, o 
rosto ainda cheio de perguntas. Ento se virou e se afastou 
dele, subindo o leito do rio, os punhos cerrados ao lado do 
corpo. Entretanto, ao tentar passar por Barber e King, este 
estendeu um longo brao e a agarrou pelo cabelo, puxando-a 
para si e envolvendo-a com o brao. Ela lutou por um 
momento, agitando os joelhos e cotovelos, ento ficou 
parada, os olhos arregalados de surpresa e terror.
        Solte a garota  disse Seph, tentando manter a voz calma 
e regular.  Ela no est envolvida nisso.
Barber sorriu.
        Mas voc est envolvido com ela, certo? Voc no 
correria e a deixaria com gente como ns, no ? Ento 
coopere e talvez a gente deixe ela ir.
Seph sabia que a sua vantagem principal era a surpresa e a 
confiana excessiva dos ex-alunos. Se no fosse por isso, j 
estaria imobilizado. Se no fizesse algo logo, perderia a 
oportunidade.
Mas Madison no esperou que ele decidisse: contorceu-se 
como uma enguia e acertou a virilha de King com o joelho. 
Ele berrou e dobrou-se. Ele deve ter lanado poder mgico 
sobre ela, pois aps alguns segundos ele caiu como se 
houvesse levado uma cacetada na cabea.
Seph apontou para Barber e lanou um feitio de 
imobilizao. Girou e lanou feitios sobre os outros dois 
magos, mas eles j estavam erguendo escudos e murmurando 
contra-feitios. Barber estava petrificado, um olhar incrdulo 
no rosto.
        Saia daqui!  Seph gritou para Madison, que havia se 
libertado de King.  J!
        Mas eu posso ajudar!
        No quero a sua ajuda!  disse Seph, mantendo os olhos 
nos trs magos.
Ele no queria que nada do Porto Seguro contaminasse 
Maddie Moss. No queria que o maldito Warren Barber 
fizesse perguntas sobre ela. No queria que ela se 
machucasse.
Ela se virou e subiu o rio, respingando gua para todos os 
lados, indo em direo ao estacionamento, pulando 
obstculos como um cervo. Ela perdera o chapu, e este 
flutuou pelo rio na direo deles, girando na correnteza.
Hays desfez o feitio de imobilizao que Seph havia posto 
em Warren Barber. O problema era esse: a menos que Seph 
pudesse derrubar todos os trs de uma s vez, eles 
continuariam ajudando uns aos outros.
        O que  isso?  disse Barber, parecendo mais bem- 
humorado do que preocupado.  Parece que o garoto andou 
estudando fora da escola.  Ele olhou para onde Madison se 
fora, como que indeciso se devia ir atrs dela. Deu de 
ombros.  Que pena. Eu estava comeando a gostar dela!  
Ele cutucou King com o p, franzindo o cenho.  O que  
que h, Ken? Vai cantar como soprano de agora em diante?
King ficou cado de costas, ainda estonteado.
Barber sinalizou aos outros, e os magos remanescentes se 
separaram, avanando para Seph de trs direes diferentes.
Seph escalou parte da lateral da garganta rochosa e voltou-se 
para encar-los. O caminho para o estacionamento estava 
bloqueado, e ele no tinha esperana de escalar o resto do 
caminho sem ser dominado ou imobilizado.
Estava assustadoramente silencioso na garganta. Os pssaros 
estavam calados, e ele no conseguia escutar o som da gua 
correndo pelas pedras. Tudo o que podia ouvir era a 
respirao ofegante dos trs magos que avanavam para ele.
        Voc pode achar que  um mago agora, Joseph  disse 
Warren.  Mas a gente acha que voc tem muito a 
aprender. E a gente pode ensinar a voc, l na escola.  O 
tom dele se tornou tranqilizador.  Vamos fazer assim. 
Voc no se mistura mais com os outros alunos. A gente 
deixa voc ficar na Casa dos Ex-Alunos. Vamos ser seus 
melhores amigos.
Seph estendeu as mos.
        Para trs. No quero machucar voc, mas no vou deixar 
que me levem.
        Por favor, no nos machuque, Joseph  caoou Barber.
Enquanto falava, Barber gesticulou, e uma rede de sombras 
deslizou sobre Seph. Este olhou para cima, viu a rede 
descendo sobre ele e estendeu as mos, pronunciando um 
contra-feitio. Seph havia passado um tempo considervel 
estudando defesas contra a Teia Weir. A rede se dissolveu 
em fragmentos brilhantes de prata que caram, inofensivos, 
ao redor de seus ombros. Seph traou um grande arco com o 
brao, lanando uma parede de chamas azuis montanha 
abaixo. Os ex-alunos se atiraram de cara no rio enquanto as 
chamas passavam sobre eles.
Seph arrancou terra da encosta do morro, provocando uma 
avalanche de rochas, depois lanou um jorro d'gua garganta 
abaixo. Em desespero, recorria a feitios que jamais 
experimentara antes. Alguns funcionavam, outros, no. 
Tinha de manter os ex-alunos ocupados. Se fosse atingido 
uma nica vez, estaria perdido.
Sua nica vantagem era que Leicester o queria vivo. Ele 
mesmo no tinha esse tipo de restrio, embora no tivesse 
realmente nenhum desejo de feri-los: eram vtimas tanto 
quanto ele. Com exceo de Warren Barber. Seph estava 
comeando a achar que Barber era maligno at os ossos. "Eu 
devia ter matado voc quando tive a oportunidade", pensou 
ele.
Seph subiu o leito do rio lentamente em direo ao 
estacionamento, lutando com os ex-alunos a cada metro de 
terreno. Sentiu mais do que ouviu o feitio de submisso 
lanado por Barber, e respondeu com o contra-feitio. 
Warren teceu mais fios de aranha com as mos, fios 
giratrios e iridescentes que ameaavam enlaar Seph, mas 
eles se dissolveram com o mesmo contra-feitio que ele 
usara na teia.
Eles foraram as barricadas que ele erguia, procurando 
fraquezas, e derrubaram arbustos no declive acima, os galhos 
tombando em torno dele. Quando lanaram nuvens de 
vapor em sua direo, pssaros caram do cu, inertes. Seph 
estava ficando cansado. Perguntava-se quanto tempo eles 
iam levar para planejar algo do qual ele jamais ouvira falar, 
ou simplesmente venc-lo pela exausto.
Os magos estavam ensopados, cobertos de lama e sangrando. 
Era bvio que haviam esperado uma presa fcil.
        O dr. Leicester se importa se ele estiver danificado ou 
quebrado?  arquejou Hanlon.
        Acho que vamos ter de causar alguns estragos nele. Talvez 
seja inevitvel.
Como para reforar essas palavras, Barber sacudiu o punho, 
reunindo pedras do leito do rio numa nuvem mortal que 
voou em direo a Seph. Seph armou um escudo e 
conseguiu rechaar a maior parte delas, mas uma pedra do 
tamanho de um punho atingiu-o na sobrancelha direita, 
aturdindo-o momentaneamente, quase derrubando-o. Ele 
cambaleou para trs, porm conseguiu ficar em p.
Barber disse alguma coisa para os outros dois, e os trs se 
aproximaram, apontando para ele e lanando feitios, um 
depois do outro. Seph lutou para ficar alerta, sabendo que, se 
perdesse o foco por um instante, tudo estaria acabado. Tocou 
a dyrne sefa com os dedos e pensou em desaparecer, mas 
aquilo no lhe adiantaria nada se no pudesse continuar 
lanando feitios. Ele poderia acabar imvel e imperceptvel, 
perdido na garganta do rio Vermilion para sempre.
De repente, percebeu algum movimento logo atrs dos ex-
alunos na ravina, um claro de luz refletido no metal, e uma 
figura familiar movendo-se rapidamente. Os trs magos 
estavam to concentrados em sua vtima que s perceberam 
o perigo em que estavam quando j era tarde demais.
Ellen Stephenson brandiu sua espada faiscante num potente 
golpe com as duas mos que fatiou a caixa torcica de Aaron 
Hanlon at a espinha, quase cortando-o em dois. Hanlon 
gritou e tombou de cara no rio. Ele ficou imvel, o sangue 
turvando a gua. Ela golpeou de novo, o metal cantando, 
cortando o ombro de Warren Barber. Se o ngulo tivesse 
sido um pouco diferente, teria arrancado o brao dele. Ele se 
virou, praguejando, agarrando o ferimento com uma mo.
Seph desceu o declive para se juntar a ela, os ps 
escorregando no xisto solto. Ellen ofegava, mas sorria, 
triunfante. Agora era dois contra dois, com um ferido do 
outro lado.
        Voc est bem, Seph?
Ela mantinha a espada erguida, os olhos nos dois magos.
        Ellen, estou muito feliz de ver voc  disse Seph, 
apreciando os benefcios de ter uma guerreira do seu lado.
Seph enviou uma salva de feitios de imobilizao sobre os 
dois magos remanescentes. Ellen lanou chamas em espiral, 
que saram da ponta da espada e avanaram sobre eles com 
implacvel determinao. Warren Barber cambaleou para 
trs, sentindo os efeitos do ferimento. Agora eram os ex-
alunos que estavam na defensiva.
Seph sabia que era melhor aproveitar ao mximo a vantagem 
temporria. Podia haver mais ex-alunos esperando nos 
bastidores.
        Ellen!  Ele se aproximou de modo que pudesse lhe falar 
baixinho.  Vou deixar voc invisvel.  Ele tirou a dyrne 
sefa do pescoo e pendurou-a em torno do dela. Agarrando-
lhe o brao, pronunciou o feitio da imperceptibilidade.  
No me deixe perder contato com voc. Agora vamos!  
sussurrou ele, puxando-a pelo declive abaixo e pela gua at 
o outro lado.
Os dois magos restantes giraram, jogando chamas 
aleatoriamente, resmungando palavres, vasculhando as late-
rais do canal e os arbustos da margem do rio. Frustrados, eles 
se fecharam em torno do ponto onde Seph fora visto pela 
ltima vez, marcando-o com fogo mgico. A fumaa encheu 
a garganta quando a grama e o mato comearam a arder. 
Barber lanou outra chuva de pedras redemoinhando pela 
garganta abaixo, e Ellen deu um chiado de dor quando vrias 
atingiram o alvo.
        McCauley!  berrou Barber, o rosto roxo de fria.  
Sabemos onde voc mora. Estivemos na maldita rua 
Jefferson. Vamos encontrar a Linda Downey e a irm dela, 
Rebecca. Vamos encontrar a sua namorada. Vamos 
encontrar a sua amiga guerreira. E, no fim, vamos encontrar 
voc.
Os ex-alunos desceram rio abaixo numa corrida intil, 
convencidos de que a presa deles estava escapando. Seph e 
Ellen seguiram pelo rio na direo oposta, rumo ao 
estacionamento. Arrastaram-se em desespero pela garganta, 
arranhando-se nos espinheiros e galhos, a gua e a lama 
puxando os chinelos de Seph, a espada de Ellen prendendo-
se nos arbustos. Ele no conseguia ouvir nenhum rudo de 
perseguio atrs deles, apenas a respirao acelerada de 
ambos e a barulheira que faziam ao abrir caminho atravs das 
rvores.
Atravessando os ltimos arbustos, irromperam no 
estacionamento. Madison estava em p prximo ao carro, 
digitando nmeros freneticamente no celular, quando Seph 
e Ellen se materializaram em pleno ar, Ellen carregando a 
espada ensangentada.        
Madison ergueu os olhos.
- Voc o achou!  Ela enfiou o celular na bolsa.  Graas a 
Deus! Voc est bem?
Ela segurou os cotovelos de Seph, examinando-lhe o rosto 
com ansiedade, tocando-lhe a testa onde a rocha o atingira. 
Ento ela olhou por cima do ombro dele para Ellen e disse 
com ferocidade:
        Espero que voc tenha picado aqueles caras em 
pedacinhos.
        Vocs duas se conhecem?  indagou Seph, olhando para 
Madison e Ellen.
Ellen estava em posio de prontido, encarando o incio da 
trilha, em busca de sinais de perseguio.
        Vamos sair daqui. Podemos bater papo mais tarde.
Havia outros dois carros estacionados que no estavam l 
quando Seph e Madison haviam chegado. Um era o velho 
jipe que Will e Ellen compartilhavam. O outro no era 
familiar: uma minivan preta com um adesivo de uma 
locadora de veculos. "Devia estar sendo usado pelos ex-
alunos", pensou Seph. Esperava que fosse deles, pois 
derreteu todos os quatro pneus.
Seph foi com Madison na picape. Ellen seguiu atrs no jipe. 
Madison parecia acostumada com estradas rurais: dirigia 
rpido, raramente freando nas curvas.
Que desastre. Havia sido um tolo ao se arriscar com 
Madison. Se no fosse pela estranha resistncia dela aos 
magos, ela poderia ter sido morta, ferida ou raptada.
Se Ellen no houvesse aparecido, ele talvez estivesse 
voltando ao Porto Seguro quela altura.
        Voc no pareceu surpresa ao ver a Ellen. E a espada dela.
Madison olhou-o de relance, depois voltou a fitar a estrada.
         esse o nome dela? Quando eu voltei ao estacionamento, 
ela saiu do meio das rvores com aquela coisa e exigiu que eu 
contasse onde voc estava. Eu achei que ela estava de vigia 
para aqueles caras. Ela achou que eu tinha levado voc at 
algum tipo de armadilha. Demorou algum tempo at a gente 
se entender. Ento ela saiu derrubando a trilha atrs de voc, 
e eu fui at o carro telefonar pra emergncia. S que no 
consegui fazer o meu celular funcionar. Parecia em curto.
Ela ultrapassou uma van que se movia devagar.
        O que diabos aconteceu l trs, afinal? Esse tipo de coisa 
acontece com voc o tempo todo?
Seph estava arranhado, esfolado e machucado, e a cabea 
latejava. Ele a apoiou contra o banco e fechou os olhos.
        No com muita freqncia. Digamos apenas que eu 
cometi um erro.
        Aqueles homens eram todos bruxos.
        Magos.
        Tanto faz. E a? Voc est metido em alguma guerra de 
gangues mgicas?
Ele a fitou com tristeza, desejando que ela fosse suscetvel  
magia para que ele pudesse simplesmente apagar-lhe a 
mente.
        Eles eram meus colegas de escola. Agora esto atrs de 
mim. No sei por qu.
Ele torceu para que eles no tivessem notado nada de 
especial em Maddie. Torceu para que nem pensassem nela.
        Voc quer ir direto para a delegacia? Ou a gente pode 
procurar um telefone pblico...
Ele sacudiu a cabea, os olhos fixos em frente.
        A polcia no tem como ajudar.  Ela abriu a boca para 
falar, e ele ergueu a mo.  O que eu poderia dizer aos 
policiais? Fui atacado por magos que tentaram me capturar 
com uma teia de aranha? A a simptica Ellen Stephenson, 
que joga de atacante no time de futebol feminino, cortou 
dois deles em pedaos com sua espada mgica?  Ele 
pensou em Ross Childers e imaginou a reao dele. Nada 
simptica.   melhor voc me levar pra casa.
        Voc acha que eles vo desistir depois de hoje?
        No.
        Ento voc no pode simplesmente esperar que eles 
tentem de novo!
        Essa no  a minha inteno.
Ele no tinha nenhuma opo real. Soubera disso o tempo 
todo. Poderia continuar no Santurio como prisioneiro, 
esperando que Leicester mirasse em algum de quem ele 
gostasse, ou poderia agir.
Ela ps a mo no brao dele.
        Estou preocupada com voc.
        Voc deveria se preocupar com voc mesma. As pessoas 
que se envolvem comigo tendem a se machucar.
        Talvez eu possa ajudar voc.
Ele no conseguia acreditar. Eles haviam acabado de se 
conhecer e haviam tido um encontro que se transformara 
em pesadelo, e ela ainda estava do seu lado.
        No depende de voc.
quela altura, eles haviam atravessado os limites da cidade, 
pelo elegante porto de pedra da Faculdade de Trinity e a 
placa que dizia COLGIO DE TRINITY, CAMPEO 
ESTADUAL DE FUTEBOL DA III DIVISO. Seph se 
perguntou se a tnue barreira funcionava em ambos os 
sentidos, se os ex-alunos sabiam que ele havia retornado ao 
Santurio. Talvez eles pudessem rastre-lo o tempo todo. 
Sentiu um arrepio na nuca.
Madison fez uma curva abrupta e parou na entrada da 
garagem de Seph. Ellen estacionou atrs deles, mas no fez 
nenhum movimento para sair do carro, dando-lhes um 
instante de privacidade.
Madison ajudou a descarregar as coisas do piquenique na 
calada.
        Vamos, eu ajudo voc a carregar isso pra dentro.
        No precisa, eu me viro.
Madison se apoiou na picape, torcendo uma das minsculas 
tranas entre os dedos.
        Tenho de admitir, este foi o piquenique mais movi-
mentado de que participei em muito tempo.
Seph desviou o olhar e engoliu em seco.
        Sem dvida.
Ela lhe segurou as mos e olhou-o no rosto.
        Mas eu me diverti, antes da... ah... antes daquela confuso 
toda.
Seph sacudiu a cabea, estupefato.
        No entendo. Eu praticamente tive de subornar voc para 
que sasse comigo.
        Quem disse que estou saindo com voc?  Ela puxou os 
cabelos para trs, e as contas se chocaram com um barulho 
suave.  Para comear, o meu desenho no est pronto. 
Preciso que voc pose mais pra mim.  Ela lhe tocou o 
rosto com delicadeza, como se estivesse mapeando a 
estrutura ssea por baixo.  Alm disso, acho que talvez a 
gente possa ser amigos. Voc no  to arrogante quanto 
pensei no incio.  Ela sorriu.   melhor me telefonar, 
menino bruxo, ou virei atrs de voc. Agora sei onde voc 
mora.
Ela entrou no carro. Seph ficou olhando at a picape 
desaparecer ao dobrar a esquina no fim da rua.
Ellen saltou por sobre a lateral do jipe.
        Precisa de ajuda?
Ela passou a ala de uma das caixas trmicas sobre o ombro e 
enfiou a colcha embaixo do brao. Eles conseguiram carregar 
tudo at a cozinha em uma viagem. Ningum estava em 
casa, mas, a julgar pelo lixo deixado para trs, Jack e seus 
amigos haviam passado por l. Ellen bebeu duas garrafas 
d'gua enquanto Seph guardava a comida.
Ellen estava horrvel, coberta de lama e com as roupas 
rasgadas. Tinha um corte feio acima de um dos olhos, e a 
ma do rosto estava ficando roxa devido a uma pedrada que 
havia levado. Parecia tambm exultante. Seph comeava a 
compreender que no havia nada de que Ellen gostasse mais 
do que uma boa luta, bem concluda. Ele trouxe o kit de 
primeiros socorros do banheiro do andar de baixo, e eles se 
sentaram  mesa, tratando metodicamente os ferimentos um 
do outro.
        Voc se saiu muito bem hoje  disse Ellen, tirando a 
dyrne sefa do pescoo e passando-a a Seph.  Perdi a conta 
dos feitios voando por l. Aqueles caras levaram a pior, sem 
dvida. Pena que a gente teve de se mandar. Acho que 
podamos ter acabado com eles.
        .  Seph empurrou para trs as mechas  altura do 
queixo dos cabelos de Ellen e limpou-lhe a orelha 
ensangentada.  No que eu no seja grato, mas... o que 
voc estava fazendo no parque?  indagou Seph.
        Eu estava... sabe como ... caminhando.
        No acredito em voc.
Ellen abriu a geladeira, apanhou um punhado de gelo, jogou 
dentro de um saco plstico e passou-o a Seph.
        Ponha isso na cabea  sugeriu ela.
Ele pressionou o saco de gelo contra o galo na testa.
        E ento?
Ellen lambeu o dedo e esfregou-o num respingo de sangue 
no brao dela.
        Era o meu dia de vigiar voc, est bem?
        O qu?
        Ns nos revezamos. O Jack, o Nick, a Linda e eu. Hoje o 
Jack estava jogando futebol, a Linda estava fora comprando 
uma casa, o Nick tinha passado dois dias seguidos vigiando 
voc e...  disse ela, a voz diminuindo at sumir.
        Est me dizendo que vocs vem me seguindo o vero 
inteiro?
Ellen pigarreou.
        Linda estava com medo de que algo assim acontecesse, ou 
de que eles encontrassem um jeito de assustar voc a ponto 
de voc resolver fugir. Ento..
Ela deu de ombros.
        No acredito!  protestou Seph.
        Pode acreditar, no estava sendo o trabalho mais ex-
citante, at hoje. O Seph vai  igreja. O Seph vai  sinfonia. 
O Seph vai  praia para ser cantado pelas meninas.  Ellen 
mordiscou uma unha quebrada.  Esta tarde, eu me senti 
uma vela, seguindo voc e a sua namorada. Por isso fiquei 
bem mais pra trs. Suponho que no devia ter feito isso.
        Talvez eles pudessem ter visto voc, se voc estivesse 
mais perto.
        Talvez. Olha, eu sinto muito pelo seu... ah... encontro.
        Voc salvou a minha vida. Obrigado.  Seph estava feliz 
de ter sido Ellen e no Jack.  Voc nunca me tratou como 
se eu fosse, sabe como , o inimigo.
Ellen terminou de arrancar pedaos de cascalho dos joelhos 
esfolados e apanhou a esponja de banho.
        A gente tem muito em comum, sabe  disse ela, 
inclinando a cabea como que para se concentrar no que 
estava fazendo.  Tambm nunca conheci meus pais. Fui 
criada para os torneios pelos magos da Rosa Vermelha.
        Eles tinham algum tipo de escola para guerreiros?  
perguntou ele.
Ela soltou um riso sarcstico.
        No sobrou o suficiente de ns pra encher uma escola. Eu 
era treinada por um Mestre dos Guerreiros. Quer dizer, um 
mago especializado em treinar guerreiros. Um treinador 
diablico. Estvamos sempre nos mudando, sendo caados 
pela Rosa Branca. Por isso eu sempre fui a forasteira. A 
garota nova na escola. Meio como voc.
Ela sacudiu para trs o elmo de cabelos reluzentes, 
inspirando tanta piedade quanto um leopardo inspiraria.
        Ento como  que voc conheceu o Jack?
        Os magos da Rosa Vermelha descobriram que a Rosa 
Branca tinha um guerreiro escondido aqui em Trinity. Eu 
vim aqui para matar esse guerreiro  disse ela, como se 
fosse algo natural.  S que eu no sabia quem matar, e ele 
no sabia quem eu era. Ele se sentava atrs de mim na sala de 
chamada, imagine s. Ele era... sabe como ... olhei para ele 
e fiquei, uau! Acho que eu estava completamente 
apaixonada. Eu nunca tinha ficado com ningum, na 
verdade. Ele tinha acabado de romper com aquela... aquela 
Alicia Middleton.  A inflexo dela emprestava ao nome 
novos sentidos.  No sei muito bem lidar com pessoas. E 
ele era, tipo, o cara mais popular da escola. Mas a gente meio 
que clicou, e uma coisa levou  outra...  disse Ellen, a cor 
subindo-lhe s faces.
        Quando vocs descobriram?
        O Jack deu bandeira numa briga de rua antes de sairmos 
de Trinity. Ele no percebeu quem eu era at a gente se 
encontrar no campo na Ravina do Corvo. Eu nunca vou 
esquecer a expresso no rosto dele.
Sorrindo, ela carregou a bacia de gua ensaboada at a pia e 
esvaziou-a.
        Acho que ele no gosta muito de mim  disse Seph.
        Oh, eu no diria isso. O Jack no  mais to aberto quanto 
costumava ser, antes da Ravina do Corvo. Leva mais tempo 
para se conquistar a confiana dele.  Ela se sentou  frente 
de Seph de novo.  Sabe como , ele levava uma vida 
perfeita aqui em Trinity. E ento, ao longo de poucos meses, 
ele descobre que cada pessoa que conhece  algum 
completamente diferente. A cirurgi dele  uma maga que 
fez com que ele se transformasse numa aberrao mgica. A 
tia  uma encantadora com um passado obscuro. O velho 
zelador que mora em cima da garagem  um mago guarda-
costas de 400 anos de idade. A ex-namorada  uma 
mercadora traioeira, dedo-duro, que o mantinha sob feitio.
Seph mordeu o interior das bochechas para se impedir de rir.
        At o mestre dele, Hastings, tinha um plano secreto: fazer 
ele participar do Jogo e obter o domnio sobre as Casas dos 
Magos. O Jack vai at o torneio e descobre que o adversrio 
dele  a garota com quem ele estava saindo, que, a propsito, 
veio a Trinity para mat-lo.
Seph balanou a cabea, sem fala.
        Apesar de tudo isso, eu nunca encontrei algum que fosse 
to... to puro. No quero dizer que ele seja um santo ou 
coisa assim  acrescentou ela rapidamente, revirando os 
olhos.  Ele apenas... sabe quem ele  e no que ele acredita. 
Ele no muda a histria dele de um dia para o outro, nem de 
uma semana para a outra. Ele  o tipo do cara que voc quer 
ter do seu lado quando coisas ruins acontecem.
Seph desejou ter a mesma certeza, a mesma sensao de que 
estava no caminho certo. Ele havia perdido algo importante 
no rio. Algo que no percebera que possua antes de perder: 
uma sensao crescente de segurana.
Ele havia deixado o Porto Seguro com a inteno de se 
vingar de Gregory Leicester, mas se permitira ser seduzido 
pela magia de uma cidadezinha do Meio-Oeste. Leicester o 
avisara para no falar e, de modo geral, ele no falara.
Leicester no desistiria. Era apenas uma questo de tempo 
at que ele tentasse de novo.
A menos que Seph o pegasse primeiro.
        Ento, o que  que aqueles caras queriam?  indagou 
Ellen.  Voc nunca disse.
        Disseram que vieram me levar de volta pra escola.
        No entendo  admitiu Ellen.  Voc acha que eles vm 
seguindo voc esse tempo todo? Por qu?
        Acho que nem os ex-alunos sabem  disse Seph.
        Os o qu?
        Os ex-alunos. Aqueles que nos atacaram hoje. Eles foram 
alunos no Porto Seguro e, depois que se formaram, passaram 
a trabalhar para o dr. Leicester. No acho que eles faam 
idia de por que ele est atrs de mim.  Ele tomou flego. 
 Mas a tia Linda sabe.
        Do que voc est falando?
        Acho que a tia Linda sabe por que eles esto atrs de mim. 
 por isso que ela mandou vocs me vigiarem todos os dias. 
 Ele jogou o saco de gelo de uma mo para a outra.  
Imagino que o que aconteceu hoje no possa ficar s entre 
ns.
        De jeito nenhum. Est maluco?  Ellen esticou as longas 
pernas.  Qual , Seph?! Voc est em perigo e precisa de 
ajuda. No acha que a Linda merece saber que os instintos 
dela estavam certos?  Ela parecia encabulada.  Passamos 
semanas dizendo a ela que isso era parania e que no era 
necessrio seguir voc.
        Eu j me sinto um prisioneiro  disse Seph.  Se ela 
descobrir o que aconteceu, vai ficar pior. Podem me seguir o 
quanto quiserem. Prometo que no vou sair de Trinity. No 
vou pr voc em perigo de novo. Voc podia ter morrido 
hoje.  Ele estendeu o brao e fechou a mo sobre a dela, 
olhando-a nos olhos.  Ellen, por favor, no conte.
Os olhos dela se arregalaram, e ela tentou retirar a mo.
        Ei!
Ele aumentou a presso gentil, o fluxo de persuaso, 
sentindo-se culpado ao faz-lo. Finalmente, ela assentiu.
        Est bem. Fica sendo um segredo entre ns.
E Seph sorriu, satisfeito.




Captulo Catorze
O Conselho dos Magos

Linda Downey esteve na cidade por apenas alguns dias nas 
duas semanas seguintes. Ela parecia distrada e muito 
nervosa. Talvez fosse a idia de estar presa, pensou Seph. Ela 
havia comprado uma casa na rua Washington, a um 
quarteiro de distncia da Jefferson, com vista para o lago. 
Era uma pequena casa vitoriana, um velho chal de vero 
que precisava de reparos considerveis. Ela ficou na cidade 
tempo suficiente para contratar uma equipe de pedreiros e 
encarregou Seph de supervision-los.
 Voc  bom nesse tipo de coisa  disse ela.  Escolha a 
tinta e o papel de parede, e mantenha-os na linha.
Assim, ele passou bastante tempo na casa nova, alm de 
trabalhar com Fitch e Harold. Evitava a praia de manh 
cedo, e, quando Madison deixava mensagens no seu celular, 
no ligava de volta. No que dizia respeito a manter segredos, 
ele tinha a experincia de uma vida inteira em que se apoiar. 
Estava determinado a no deixar nem Madison nem 
ningum mais se envolver em sua guerra pessoal. Ele se 
lembrava dos avisos de Leicester.
Mas as garotas no pavilho j no eram atraentes. A imagem 
de Madison sempre se intrometia: o chapu flexvel com o 
longo lao, as longas saias e as blusas de seda de estilo antigo, 
as sardas e o cabelo tingido pelo sol. At o modo como ela o 
olhava, empinando o queixo quando achava que ele estava 
sendo arrogante.
Leander Hastings retornou  cidade na segunda semana de 
agosto. A reunio do Conselho dos Magos havia sido 
marcada, enfim. Seria realizada em Trinity.
Ele havia passado uma tarde na clareira com Jack e Ellen, 
treinando-os. Era um dia quente, e a atividade fora intensa. 
Agora os guerreiros estavam cados nas cadeiras de jardim na 
varanda da frente, depois de beber uns quatro litros de ch 
gelado. Hastings estava sentado no concreto frio dos degraus 
da varanda, com Seph junto a ele.
Estavam conversando sobre a reunio que se aproximava. 
Jack desaprovava o local.
        Criar um santurio para o resto de ns e a escancarar as 
portas para os magos. Que bela idia!
        Na verdade  uma boa coisa. Deve ser, j que o Gregory 
Leicester e o Claude D'Orsay so contra  replicou 
Hastings, pousando seu olhar sobre Seph por um momento.
        Por que  uma boa coisa?  indagou Seph, usando uma 
pequena dose de poder para afastar os minsculos mosquitos 
de fim de vero que o cercavam.
        H uma considervel presso sobre o Conselho neste 
momento. Alguns dos membros querem jogar fora as Leis de 
Combate e sufocar a rebelio.  Ele sorriu para Jack e Ellen. 
 Entrar em guerra contra os Anaweirs. Pr esses 
guerreiros e encantadores nos seus lugares.  Ele fez uma 
pausa.  Outros querem reunir uma Conferncia das 
Ordens, como as novas regras ordenam, e chegar a um 
acordo vivel. Aqui em Trinity, h a probabilidade de que 
todas as vozes sejam ouvidas, sem nenhuma trapaa, 
feitiaria ou magia negra envolvida. Bem, trapaa talvez  
acrescentou, sorrindo de novo.
        Onde vai ser?  indagou Ellen, puxando os cabelos suados 
para trs das orelhas.
        Na Penso Lendas.
        Quantos magos viro?  perguntou Seph.
        Sero 20 ao todo.  muito poder e agitao para uma 
cidade pequena.
        O Drago vai estar?  perguntou Seph, sem conseguir se 
conter, vendo a reunio do Conselho dos Magos como o 
clssico exemplo da montanha vindo a Maom.
Hastings se virou e encarou Seph, apoiando as mos nos 
joelhos.
        No sei, Seph. Por que pergunta?
Seph se mexeu desconfortavelmente sob o exame do mago.
         como eu falei. Eu gostaria de me encontrar com ele.
        Entendo.  Hastings continuou a fitar Seph at este 
desviar o olhar.  Como eu disse antes, o Drago no est 
no Conselho dos Magos. Ele prefere trabalhar nos bastidores.
Hastings no havia respondido  pergunta de Seph, e, 
obviamente, no tinha a inteno de faz-lo.
Seph estava determinado a encontrar o Drago se ele viesse a 
Trinity. Com certeza viria. Mas, nesse caso, Seph no o 
reconheceria se o visse na rua.
        Eu tinha a esperana de que voc me apresentasse a ele.
        Se eu o vir, talvez eu lhe diga que voc o est procurando.
        Gregory Leicester vai estar l?  insistiu Seph.
        O dr. Leicester est no Conselho, sim. Apesar de 
desaprovar o local, tenho certeza de que ele no vai faltar.
Talvez houvesse uma oportunidade de pegar Leicester de 
surpresa.
Hastings o observava, os olhos verdes atentos sob as 
sobrancelhas negras. Era quase como se ele pudesse ler a 
mente de Seph.
        Acho que vocs todos deveriam ficar longe da Lendas 
durante a reunio.
Ele disse isso a todos os trs, mas a mensagem era dirigida a 
Seph. Ellen e Jack assentiram, porm Seph apenas se 
recostou nos degraus, fechando os olhos. Havia tido uma 
revelao: Leander Hastings no confiava nele. Essa era a 
questo.



No primeiro dia da reunio do Conselho, Seph ajustou o 
despertador e acordou cedo no ninho-de-guia que era seu 
quarto. Desde o malfadado piquenique, ele vira os guarda-
costas de Linda seguindo-o a todos os lugares
e fingira no notar. Hoje, tinha esperanas de se livrar de 
suas sombras saindo de casa antes que todos acordassem.
Vestiu uma bermuda e uma camiseta, depois remexeu no 
canto do fundo da gaveta de roupa de baixo, tirando um 
pequeno frasco de cermica com uma rolha de cristal. 
Enfiou-o no bolso e desceu as escadas. Quando chegou ao 
primeiro andar, viu que a porta de Jack estava aberta e que a 
cama dele estava feita. Seph olhou de um lado para o outro 
do corredor, entrou no quarto de Jack e fechou a porta. 
Agachou-se prximo  cama.
A espada de Jack, a Sombra Assassina, estava embaixo dela, 
dentro do estojo. Seph sabia que no devia toc-la. Will e 
Fitch haviam ajudado Jack a desenterr-lo do tmulo de uma 
guerreira. Fitch dissera que quase havia sido incendiado 
quando tentara abrir o estojo.
Seph enfiou a mo entre o colcho e o estrado e puxou para 
fora uma faca curta numa bainha. No era a arma favorita de 
Jack, mas ele a havia usado no dia em que Seph chegara a 
Trinity. Seph prendeu-a sob a camiseta, na cintura da cala 
jeans. Ele gostou de t-la ali. Fazia-o sentir como se fosse 
finalmente tomar uma atitude, em vez de ficar esperando 
por outro ataque.
Ele estivera na Lendas na semana anterior, estudando a 
disposio dos aposentos do lugar. Hoje planejava descobrir 
onde os magos se encontrariam e, em especial, onde 
dormiriam.
Seph se esgueirou pela escada de trs, na esperana de sair de 
casa pela porta dos fundos, mas trombou com Becka, que 
estava de sada, vestida para o tribunal.
        Bom dia, Seph. Acordou cedo  disse ela, sorrindo.  
Linda est em casa. Ela e o Jack esto na cozinha.
Becka falara em voz alta, de modo que Seph sabia que Linda 
estaria esperando que ele aparecesse. Sacudindo a cabea, ele 
foi para a cozinha.
Linda e Jack estavam terminando o caf da manh. Eles 
pararam de falar abruptamente quando Seph entrou no 
aposento. Linda parecia plida e cansada. Trajava o mesmo 
conjunto preto formal que vestira no dia em que resgatara 
Seph no Porto Seguro.
        Acho que voc cresceu  disse ela.  Toda vez que vou 
embora, voc cresce dois centmetros!
        Bem-vinda ao lar, tia Linda.
Seph serviu-se de caf e trouxe-o para a mesa.
        Como vo os meus pedreiros, Seph? Vou me encontrar 
com eles daqui a pouco.
Os pedreiros eram absolutamente fascinados por Linda 
Downey. Dave Martin, o empreiteiro, estava sempre 
consultando Seph a respeito de alguma melhoria, para 
descobrir se ele achava que Linda aprovaria. Eles nunca 
questionavam o fato de estar trabalhando para um menino 
de 16 anos. Era outra daquelas estranhas relaes entre 
Weirs e Anaweirs.
        Eles parecem estar dentro do prazo  disse ele.  Dave 
pensou numas mudanas que ele quer sugerir a voc. Os 
desenhos revisados esto na mesa de jantar.
Seph receava que ela fosse sugerir que ele tambm fosse  
reunio, mas ela no o fez. Ele achava que, depois do 
perodo de ausncia, poderia ser o dia dela de vigi-lo, mas 
no era, pois ela foi buscar as plantas na sala de jantar e 
apanhou a maleta.
        Divirtam-se hoje, meninos. Comporte-se, Seph.
E ento ela partiu.
Jack estudou Seph como se ele fosse um problema a re-
solver. Seph podia sentir a faca "emprestada" espetando-o na 
coxa. "Acho que  o dia de Jack me vigiar", pensou ele.
        A gente vai velejar hoje  disse Jack abruptamente.
O corao de Seph se contraiu. A famlia Swift-Downey 
tinha um pequeno veleiro que mantinha na gua por todo o 
vero. Jack vinha prometendo levar Seph para velejar no 
lago. Mas nunca dera certo. At agora.
        Hoje?  Seph procurou por uma desculpa.  Sabe, hoje 
realmente no  um dia muito... Quer dizer, eu no...
        A gente no vai muito longe  disse Jack, lanando-lhe 
aquele olhar certeiro.  S vamos subir e descer a costa. O 
Will e o Fitch tambm vo. Minha me embalou o almoo. 
Est tudo acertado.
Seph fora apanhado, e sabia disso. Ele se perguntou de quem 
havia sido a idia. O plano fora claramente elaborado para 
mant-lo longe da penso.
        "Certo"  disse Seph, forando entusiasmo.  timo!
Will e Fitch aguardavam no ancoradouro, conversando com 
Harold Fry, quando o grupo chegou ao porto.
Harold saudou Jack e Seph com um gesto de cabea.
        Bom dia, rapazes.  O velho observou Jack saltar 
agilmente para dentro do bote e carregar o equipamento.  
Quando voc vai arranjar um barco de verdade, Jack?
        Tudo bem, Harold. Por enquanto no sei lidar com nada 
maior do que isso  disse Jack, firmando o bote enquanto 
Seph, Will e Fitch subiam a bordo.
        Estou emocionado  disse Fitch enquanto remavam para 
onde o Windego estava ancorado no porto.  Eu fiquei o 
vero todo dando indiretas sobre ir velejar.
Todos pareciam felizes com a excurso, menos Seph.
Estava um dia lindo. O lago tinha uma cor verde-garrafa 
translcida, e apenas algumas nuvens altas interrompiam o 
azul infinito do cu quando Jack ligou o motor para tirar o 
barco do porto. Dezenas de velas brancas pontilhavam o 
horizonte.
Quando estavam em mar aberto, Seph se resignou  situao, 
trabalhando duro como tripulante sob a direo de Jack. Ele 
at que sabia um pouco manejar as velas, lembrando-se das 
vezes em que velejara com Warren Barber. Jack era um 
capito esperto e agressivo, pelo menos na opinio de Seph. 
Depois de um tempo, Jack deixou a vela principal a cargo de 
Seph enquanto manejava a vela da proa. O vento soprava 
veloz do oeste e, quando os atingiu diretamente, o barco 
voou sobre a gua, atravessando as grandes ondas 
preguiosas. Ele e Jack trocavam de posio, enquanto Will e 
Fitch pareciam preferir ficar sentados  proa do barco sob o 
borrifar das guas e trabalhar o mnimo possvel.
Eles ancoraram em uma das praias mais vazias a leste de 
Trinity e foram nadar. Seph deixou a faca de Jack 
cuidadosamente escondida entre as roupas. A gua ainda 
estava fria, mesmo em agosto, mas era um dia quente e, 
depois de apenas um breve perodo no convs, eles estavam 
prontos para voltar  gua.
Aps almoarem sem pressa e nadarem mais um pouco, 
deram uma cochilada no convs, com o barco balanando 
suavemente nas ondas, antes de seguirem de volta para a 
cidade. Moviam-se contra o vento desta vez e tiveram de 
fazer algumas manobras difceis. Levaram muito mais tempo 
para voltar do que haviam levado para ir.
        Est contratado, Seph  disse Jack, sorrindo quando Seph 
acertou uma complicada manobra para virar o barco contra o 
vento.  Melhor do que esses dois fracassados  
acrescentou, indicando Will e Fitch com a cabea.
Fitch ergueu uma lata de refrigerante num brinde.
         tripulao.
Era fim de tarde quando Jack ligou o motor para que 
pudessem chegar ao porto. Um dia perfeito, mas Seph no 
pde deixar de se perguntar se as reunies na Lendas ainda 
estariam em andamento. Ele j havia desperdiado o 
primeiro de dois dias.
Os outros trs ficaram de roupa de banho, mas ele voltou a 
se vestir, prendendo a faca de novo por dentro da cintura da 
cala.
Quando o bote estava perto o bastante, Jack saltou para o 
quebra-mar e prendeu a corda. Ele e Seph carregaram a caixa 
trmica para fora do barco e levaram o equipamento escada 
acima at o estacionamento da marina.
Jack se virou em direo ao escritrio da marina.
        Vou ver que tipo de isca o Jerry tem  explicou ele.  
Quem sabe amanh a gente possa ir pescar.
Ele desceu a escada de novo.
"E isso acaba com o dia de amanh", pensou Seph. Agora 
talvez fosse a nica oportunidade de escapar. Assim que Jack 
saiu de seu campo de viso, Seph falou, como se tivesse 
acabado de pensar naquilo:
        Acabei de me lembrar, eu tinha de ter me encontrado 
com a tia Linda l na casa s quatro e meia. J estou atrasado. 
Digam ao Jack que precisei ir embora.
Sem esperar uma resposta, ele correu pelo estacionamento e 
virou a esquina.
A penso Lendas ficava cerca de 400 metros a oeste da 
marina, em uma ponta de terra que formava uma das laterais 
do porto. Seph se perguntou se Jack adivinharia aonde ele 
havia ido e se viria atrs dele. Seph teria de se mover rpido 
o bastante para ficar  frente dele.
A porta da frente da Lendas abria para a sala de visitas, onde 
ele havia marcado o piquenique com Madison Moss. Graas 
quela primeira visita, Seph sabia que as salas de reunio e as 
de jantar ficavam logo atrs. Ele parou no balco da recepo 
e sorriu para a moa com uma blusa vitoriana de gola alta.
        Voc pode me dizer se eles ainda esto em reunio?  
perguntou ele, em tom polido.
Ela estudou Seph de cima a baixo ceticamente, desaprovando 
as roupas que ele vestira para velejar.
        As reunies terminaram por hoje. Eles interromperam os 
trabalhos h cerca de meia hora.
        Eu tenho uma mensagem para um dos participantes, o sr. 
Gregory Leicester. Pode me dizer em que quarto ele est?
        Qual  o seu nome?
        Aaron Hanlon.
Ela estendeu a mo.
        Eu passo a mensagem a ele.
        Preciso entregar pessoalmente.
        Devo avisar que voc est aqui?
Ela levou a mo ao telefone sobre o balco.
        No  necessrio  Seph apressou-se em dizer.  Se ele 
no estiver l, passo o recado por baixo da porta.
Ela hesitou. Era bvio que havia uma norma. Seph estava 
comeando a pensar que teria de usar maneiras mais diretas 
de persuaso. Mas, aparentemente, ela no viu grande 
ameaa em Seph.
        Ele est no quarto 210. Segundo andar. O elevador fica ali 
 disse ela, apontando.
        Obrigado.
Em vez de pegar o elevador, ele decidiu subir as escadas, 
raciocinando que seria menos provvel encontrar algum 
que conhecesse. Isso tambm lhe permitiria ganhar um 
pouco de tempo. Ele poderia pensar em matar Gregory 
Leicester durante todo o caminho at se encontrar com o 
mago. Ento a imagem falhou. No era um bom pressgio. 
"Vous devez envisager le sucss", dissera-lhe Genevieve 
com freqncia.  preciso visualizar o sucesso.
Ele percebeu que estava deixando pistas evidentes para 
qualquer um que quisesse segui-lo. Mais do que isso, sabia 
que assassinato era um pecado mortal, do tipo que levava 
uma pessoa direto para o inferno. Mas ele no tinha opo. 
Leicester havia matado Trevor e Jason, e demonstrava ainda 
ter planos para Seph. Planos dolorosos, sem dvida.
Voc tem sido um osso duro de roer, moleque, Leicester 
havia dito. Agora vamos descobrir quo duro voc . 
Fragmentos de pesadelos lhe voltavam como vidro modo 
por baixo da pele. Quase o haviam apanhado no rio; 
poderiam ter sucesso da prxima vez.
Sabemos onde voc mora, BARBER HAVIA DITO. Vamos 
encontrar a Linda Downey e a irm dela, Rebecca. Vamos 
encontrar a sua namorada. Vamos encontrar a sua amiga 
guerreira. E, no fim, vamos encontrar voc.
Seph parou na escadaria e aprontou as armas.
A mo direita encontrou a faca sob a camiseta e empunhou-
a. Ele tirou o frasco do bolso, arrancou a rolha e molhou a 
lmina generosamente com o contedo. Mercedes Foster o 
avisara de que era mais potente do que o veneno de qualquer 
cobra, e indetectvel pela medicina Anaweir. Com cuidado, 
guardou a faca na bainha. Devolvendo o frasco ao bolso, ele 
buscou o portal que lhe pendia do pescoo. Sabia que no 
era boa idia atacar Leicester diretamente. Ele esperaria, 
despercebido, como uma vbora na grama, at que o diretor 
chegasse ao alcance de seu ferro.
O imperceptvel Seph emergiu da escadaria e caminhou 
rapidamente pelo corredor em direo ao fim, onde sabia 
que o quarto 210 devia estar.
 Seph! Seph McCauley,  voc?
Ele girou, segurando a faca, a respirao presa na garganta. O 
primeiro pensamento que teve foi que o sempre confivel 
feitio de imperceptibilidade no havia funcionado.
Mas no. Era Madison Moss numa saia longa, suter de 
algodo sem mangas e sandlias de tiras, o cabelo exuberante 
preso numa rede adornada com imitao de diamantes. 
Sentiu o corao vacilar quando a viu. Ela andou na direo 
dele, to bonita e perigosa quanto uma tempestade de vero 
sobre o lago. Parecia que Madison era to imune aos feitios 
de imperceptibilidade quanto a outras magias.
        Por onde voc andou?  sussurrou ela.  Eu deixei 
mensagens, passei na sua casa...
Ele ergueu as mos como se pudesse afast-la.
        Madison, a gente no pode... Esta no  uma boa hora.
        Acho que no existem horas boas e ruins. Pensei que 
fssemos amigos. Se est se referindo ao que aconteceu no 
rio, acho que tenho o direito de fazer as minhas prprias 
escolhas.
Ela continuava avanando, e ele recuou at que ela o acuou 
em uma pequena recmara no fim do corredor. Desesperado 
para conter o fluxo de palavras, ele agarrou o pulso dela e 
puxou-a para si, tapando-lhe a boca com a mo.
        Escuta, algumas das pessoas que vimos no rio esto aqui na 
penso. No tem nada que eles gostariam mais do que 
terminar o que comearam.
Madison se afastou dele e olhou para os dois lados do 
corredor. Ento se aproximou dele e baixou a voz.
        Ento por que est aqui?  perguntou, a voz tremendo 
um pouco.
Um pergunta que Seph no podia responder. Ele a segurou 
pelos cotovelos.
        Eles no vo me notar. Vou ficar bem, a no ser que voc 
me denuncie.
Ela pestanejou.
        Voc espera que eu acredite que voc est invisvel? Sei.
Apesar do que dissera, ela soara um pouco insegura. Ento 
ele ouviu passos. Olhou sobre o ombro de Madison e viu 
algum alto e esguio caminhando na direo deles pelo 
corredor, como um esprito vingador.
Era Leander Hastings.
Seph apontou para Hastings com a cabea.
        Ele est procurando por mim. Por favor, no diga nada  
disse ele, e recuou para dentro da recmara.
Madison no se virou. Caminhou at a janela e fingiu olhar 
para fora, apoiando as mos no parapeito. Hastings se 
aproximou, examinando os nmeros dos quartos dos dois 
lados. Parou quando chegou ao 210, virou de lado, ps a 
orelha contra a porta e bateu. No houve resposta. Ele se 
endireitou e ficou ali, observando Madison por um instante.
        Por favor  disse Hastings.
Madison estremeceu e virou-se para ele, segurando a saia de 
ambos os lados.
        Viu um jovem mais ou menos da sua idade, alto e magro, 
cabelo escuro encaracolado?  perguntou Hastings, 
plantando-se  entrada da recmara, impedindo 
definitivamente uma fuga.
        No, senhor, no vi.  Ela o encarou com os olhos 
brilhantes, corada.  Se ele  um hspede da penso, o 
senhor pode perguntar no balco da recepo.
Os olhos dela pousaram de relance sobre Seph, como para 
verificar que ele ainda estava l. Ento se voltaram para 
Hastings.
        Ele no  um hspede, mas tenho motivos para acreditar 
que ele possa ter vindo at aqui.  Hastings se apoiou 
contra o batente da porta, franzindo o cenho.  Ele passou 
pelo balco da recepo dez minutos atrs.
Madison deu de ombros.
        No vi. Agora, se me der licena, tenho de trabalhar.
Hastings no se moveu. Ele sondou a recmara com os 
olhos, ento olhou de novo para Madison. Ela voltou a olhar 
de relance para Seph, que sacudiu a cabea, pondo o dedo 
sobre os lbios. Hastings ps a mo no bolso das calas, tirou 
uma pequena bolsa, abriu-a e, de repente, jogou o contedo 
desta sobre Seph. Era um p leve e cintilante que se 
aglutinou ao redor de Seph como um halo. Hastings tateou 
no meio daquilo e seus dedos se fecharam sobre a corrente 
em torno do pescoo de Seph. Os elos se dissolveram sob o 
toque do mago, e a dyrne sefa soltou-se, caindo ao cho.
O imperceptvel Seph era perceptvel mais uma vez.
        Vejam s.  Hastings recolheu a dyrne sefa e colocou-a 
no bolso. Depois pousou uma mo pesada sobre o ombro de 
Seph, girando-o, e o prensou contra a parede.  Notei, na 
casa da Becka, que voc estava usando uma pedra do 
corao. Evidentemente, voc aprendeu como us-la.  Os 
olhos dele eram frios e verdes como o gelo que se forma nos 
lagos mais profundos do Canad.  Quem voc est 
procurando, Seph? Talvez eu possa ajudar.
Era difcil falar e difcil no faz-lo, com toda a presso 
mgica sobre ele.
        Diga-me  murmurou Hastings.  Ainda est pro-
curando pelo Drago?
A mo dele pressionou de leve a traqueia de Seph, vibrando 
de poder. Mesmo a pequena presso tornava difcil a 
respirao.
        Eu... eu estou procurando por Gregory Leicester  disse 
Seph num fraco sussurro.
        Est procurando pelo seu mestre, ento? Tem algo a 
contar a ele,  isso?
        Deixe... ele... em paz, me ouviu?
No calor do momento, Seph quase que se esquecera de 
Madison. Agora Hastings e Seph voltaram-se ambos para ela. 
Seph piscou para clarear a viso, e Hastings at diminuiu um 
pouco a presso com que o segurava.
Ela agarrou o brao de Seph. O poder deslizou por Seph 
como metal quente atravs da carne, de Hastings para 
Madison, limpando o crebro de Seph de pensamentos 
coerentes. Seph caiu, quebrando a conexo entre eles, 
tombando de lado.
Praguejando baixinho, Maddie se ajoelhou junto a Seph, 
amparando-lhe a cabea nos braos. Seph queria confort-la, 
mas no conseguiu achar as palavras. Tudo o que era capaz 
de fazer era olhar para ela, boquiaberto.
Ela estava furiosa. Foi a primeira coisa que ele notou. Mas se 
o p cintilante revelava o poder de Seph como uma aura, 
envolvia-a em sombra. Empanava-lhe os braos quando ela 
se movia, cobria-lhe o cabelo reluzente, tornando-a etrea 
como um esprito, uma imagem negativa para a positiva de 
Seph.
Hastings desmoronou, sentando-se contra a parede, 
respirando pesado, igualmente sem foras. Ele estreitou os 
olhos em direo a Madison e sacudiu a cabea.
        Uma extratora  sussurrou ele.   o que voc deve ser. 
No achei que existissem de verdade.
        No sei do que voc est falando, mas se o machucar de 
novo, eu vou...
Ela estendeu as mos em direo a Hastings, que recuou 
rapidamente, como se temesse ser queimado, ainda fitando 
Madison com assombro.
        Ora, ora. O que eu estou interrompendo aqui?
Como se fossem cmplices, todos eles ergueram o olhar
ao mesmo tempo. Gregoiy Leicester estava em p na entrada 
da recmara, segurando um balde de gelo que pingava com a 
condensao. Ele olhou de Seph para Madison e finalmente 
para Hastings, esfregando o queixo, pensativo.
        Estvamos falando justamente de voc, Gregoiy  disse 
Leander Hastings, em tom controlado, apesar de sua posio 
no cho. Ele olhou de Leicester para Seph como se tentasse 
discernir a ligao entre eles.
        Talvez voc queira entrar e tomar uma bebida, Leander  
sugeriu Leicester.  Eu estava prestes a servir uma para 
mim. Voc poderia celebrar a sua vitria hoje.
        No foi minha vitria  disse Hastings, pondo-se em p. 
 H um apoio considervel no Conselho  nova 
constituio.
        Mas voc a defendeu com tanta eloqncia! Se bem que 
eu no tenho a menor idia de por que voc quer dar poder 
a adivinhos, encantadores e guerreiros  disse Leicester, 
como se dissesse "lixo, gentalha e escria da terra".
        No sei do que voc acha que est abrindo mo. Fora a 
habilidade de manobrar as pessoas.
        Ento no vai se juntar a mim para uma bebida?  
Leicester pareceu notar Seph pela primeira vez.  Ol, 
Joseph. O Warren me disse que encontrou voc no parque 
no outro dia.
Seph se desvencilhou dos braos de Maddie e se levantou.
        Fique longe de mim. E diga ao Barber e aos outros pra 
fazer o mesmo. Ou ningum escapa da prxima vez.
        E, ainda assim, aqui est voc,  espreita prximo  minha 
porta.  Leicester olhou de relance para Hastings, como se 
esperasse por uma interveno.  Talvez voc tenha 
finalmente compreendido que o seu lugar  conosco.
        Eu nunca vou voltar.
        Veremos.  O mago olhou por cima do ombro de Seph 
para Madison.  No vai me apresentar  sua amiga?
Fervendo de raiva, Madison tentou avanar, mas Seph 
estendeu o brao para impedi-la.
        Fique longe dela  disse Seph.
        No importa. Sei como encontr-la. Madison, no ? Um 
nome to incomum...  disse Leicester, virando-se, 
passando o balde para a curva do brao e encaixando a chave 
na fechadura.
Seph buscou pela faca, desembainhou-a e lanou-se sobre 
Leicester. Hastings segurou-o por trs e agarrou-lhe o pulso, 
arrastando-o, passando o outro brao em torno do corpo 
dele, aumentando a presso e o poder at que a mo de Seph 
ficou dormente e a faca caiu no tapete. Hastings cobriu-a 
com o p.
Hastings manteve Seph imvel at que Leicester, sem 
perceber nada, entrasse no quarto e fechasse a porta. 
Hastings apanhou a faca e, agarrando a nuca de Seph, 
empurrou-o pelo corredor at o quarto 206. Destrancou a 
porta e empurrou-o para dentro. Madison seguiu-os e fechou 
a porta atrs dela.
O quarto parecia um estranho cenrio para Hastings: cheio 
de tecidos e detalhes vitorianos, era mobiliado com peas 
antigas de diversas eras. A janela dava para o lago. Havia uma 
mala aberta sobre uma das camas. Uma mesinha junto  
janela estava coberta com os restos de uma reunio: xcaras, 
pires, copos e papis.
Hastings olhou para Madison, como se desejasse ser capaz de 
faz-la desaparecer. A expresso e a linguagem corporal dela 
diziam que ela no tinha inteno alguma de partir. Seph 
gostaria de ver Hastings tentar expuls-la, depois do que ela 
havia feito com ele no corredor.
Em vez disso, Hastings se apoiou contra a porta, os braos 
cruzados sobre o peito.
        O que vamos fazer com voc, Seph?
        Isso no  da sua conta. Por que no me deixa em paz?  
Seph se levantou, os ps separados, respirando pesado. Ele 
gesticulou com a cabea para Madison.   melhor voc ir.
Madison sentou-se na cama, determinada.
        No vou embora desta vez.
Hastings ignorou aquele dilogo.
        Eu disse a Linda que era arriscado demais deixar voc ficar 
aqui. Parece que eu estava certo. Quando o Jack me 
telefonou, eu sabia exatamente onde o encontrar.
        Se  um problema,  s me dar uma carona at a sada da 
cidade. Os ex-alunos vo ficar felizes de me tirar das suas 
mos.
A cabea de Hastings se levantou.
        Os ex-alunos?
        Os magos escravos do Leicester. Eles me querem de volta 
na escola, parece.
Hastings estreitou os olhos, aparentemente confuso. Ento 
ele se sentou em uma das cadeiras junto  mesa.
        Fale-me sobre a escola.
        O Porto Seguro? Eles tem dois mil maravilhosos 
quilmetros quadrados perto do oceano Atlntico. Vencem a 
copa de iatismo todos os anos.  Seph estava dando uma de 
espertinho, e sabia disso.  Voc tem alguma pergunta 
especfica?
        Acontece que eu sei algumas coisas sobre o Porto Seguro 
 disse Hastings.  Pode me explicar como voc 
sobreviveu por um ano naquele lugar? Pode me dizer por 
que voc no est com eles?
Seph teve o forte e sbito desejo de ganhar a confiana do 
mago. Estava cansado de se preocupar com os ex-alunos, 
cansado de manter segredos, cansado de tentar resolver seus 
problemas sozinho, cansado de brigar com um mago 
poderoso que deveria ser seu aliado. Se no era capaz de 
encontrar o Drago, talvez Hastings servisse.
        Eu usei a pedra do corao. A dyrne sefa.
Hastings tirou o talism do bolso e devolveu-o a Seph.
        Onde a conseguiu?
        Um outro aluno me deu e me ensinou como us-la. O 
nome dele era Jason Haley.  Seph enfiou a pedra no bolso 
do calo.  Ele era meu amigo. Estava me ajudando. Por 
isso o mataram.  Ele comeou a andar de um lado para o 
outro.  Uma semana atrs, o Leicester mandou alguns dos 
ex-alunos para me raptar. Eu sa do Santurio, e eles me 
atacaram.  Ele indicou Madison com a cabea.  Se no 
fosse pela Madison e pela Ellen, eles teriam me levado.  
Ele esfregou as tmporas.  No agento mais. Eles me 
torturaram por meses. Assassinaram meus amigos. Por que 
no me deixam em paz?
Ele foi at a janela e apoiou as mos no parapeito, olhando 
para a gua. Uma cadeira raspou o cho de madeira, e ento 
Hastings estava ao lado dele. Ele segurou o queixo de Seph e 
forou-o a virar o rosto at que pudesse olh-lo nos olhos. 
Aquilo fez Seph lembrar-se de Jason, na noite em que este 
lhe explicara sobre os Weirs. Aps um momento, Hastings o 
soltou e se virou.
Algo havia mudado, mas Seph no estava certo do qu ou 
como. Ele se sentou na cama ao lado de Madison e tomou-
lhe a mo, segurando-a entre as dele.
        Desculpe-me, Madison. Fui um imbecil.  que... eles 
ameaaram... No quero que voc se machuque.
        H mais de um jeito de machucar uma pessoa, menino 
bruxo  disse ela, olhando para as mos deles, unidas.  E 
tipos diferentes de riscos.  Ela ergueu o olhar para 
Hastings.  Do que foi que voc me chamou no corredor?
O mago se virou e se apoiou contra o banco da janela.
        Uma extratora.
Ela fez uma careta.
        O que  isso? Soa como algo pelo qual se pode ser preso.
        No  comum o bastante pra ser ilegal.  Hastings 
estudou-a com franco interesse.  Na verdade, embora eu 
tenha ouvido falar de extratores, nunca havia encontrado um 
antes.
        O Jason nunca mencionou extratores quando descreveu as 
ordens  disse Seph.
Hastings assentiu.
        Os extratores no so Weirs, j que no tm Pedras Weir. 
Mas tm a habilidade de extrair a magia, de sug-la de outros. 
E,  claro, so resistentes a feitios. Como voc 
provavelmente j adivinhou a essa altura  acrescentou ele.
        Eles so resistentes s aos magos ou aos Weirs Anamagos 
tambm?
Hastings brincou com o anel em sua mo direita.
        Meu entendimento  que eles sugam a magia de todos os 
tipos.
        O que acontece com o poder?  indagou Seph.  
Apenas se dissipa ou um extrator pode usar o poder por 
conta prpria?
Hastings deu de ombros.
        No sei.
Madison olhava de Seph para Hastings como se eles 
subitamente houvessem passado a falar em francs.
        No fao idia do que vocs dois esto falando. Algum 
pode me ajudar aqui?
Seph traou as linhas na palma da mo dela.
        Os Weirs so pessoas nascidas com dons mgicos. Magos 
como ns tm maior diversidade de poderes. Outros so 
especialistas; por exemplo, eles podem ver o futuro ou fazer 
ferramentas e remdios mgicos. Os bruxos que voc 
conhecia na sua terra natal eram provavelmente magos ou 
encantadores.
        Como vocs dois se conheceram?  perguntou Hastings.
Madison tirou as sandlias e afundou os dedos do p no 
tapete.
        Seph me cantou na praia uma manh.
        Ela trabalha aqui na penso  acrescentou Seph.
Ao ouvir isso, ela olhou para o relgio e gemeu.
        Meu supervisor vai me matar. Estou de servio.  Ela 
enfiou os ps nos sapatos e se levantou.  Preciso ir.
        Eu telefono para voc  disse Seph.
        Certo.
E ela saiu pela porta.
Hastings viu-a sair, pensativo.
        Existe um outro termo para os extratores  disse ele.
        Qual ?
        Estripadores.  Ele sorriu com secura.  Criado pelos 
magos, sem dvida. Embora no tenham magia prpria, so 
criaturas bem perigosas. Tem certeza de que pode confiar 
nela? Infelizmente, no h jeito de determinar se ela est 
contando a verdade.
Ele queria dizer por intermdio do toque de um mago, sem 
dvida.
        Ento acho que vamos ter de simplesmente confiar no 
nosso julgamento, no ? Como os Anaweirs  retrucou 
Seph, olhando Hastings nos olhos.
O mago ergueu a mo.
        Tudo bem. Voc  o melhor juiz nesse caso, suponho.  
Ele fez uma pausa, como se hesitasse sobre o que dizer a 
seguir.  Olha. No importa atrs de quem voc est ou 
quo forte  a sua justificativa. Voc no pode atacar 
ningum na Conferncia. Este no foi um bom dia para o 
Gregory Leicester. Ele aproveitaria qualquer desculpa para 
desfazer o que foi feito.
        O que aconteceu?
        O Conselho aprovou a convocao de uma Conferncia 
das Ordens para discutir uma nova constituio baseada em 
regras revisadas. Se o Leicester e o D'Orsay no conseguem 
o que querem dentro de um Conselho de pares,  ainda 
menos provvel quando houver guerreiros e encantadores 
representados. Seph, voc tem de me prometer que no vai 
fazer nada para atrapalhar a Conferncia. Isso favoreceria o 
Leicester.
        Matar o Leicester  a melhor coisa que poderia acontecer, 
parece-me.  Seph olhou para a carranca de Hastings.  
Est bem, eu prometo  acabou dizendo, com relutncia.
        Vai precisar ficar com o Jack amanh o dia inteiro, ou vou 
saber a respeito. E no deve chegar perto da penso. Se 
violar qualquer uma dessas condies, no importa o que a 
Linda disser, eu ponho voc onde no possa causar mais 
prejuzos.
Seph assentiu. No tinha muita escolha.
        Est certo.
        Vou levar voc para casa, ento  disse Hastings.


No dia seguinte, Jack e Seph saram s quatro da manh para 
ir pescar na bacia oeste. Seph aprendeu a pr isca no anzol, 
lanar a linha e limpar peixe. Quando voltaram, a reunio na 
Lendas j terminara, e o Conselho se dispersara. A maioria 
dos participantes deixou o Santurio o mais rpido possvel.
Naquela noite, Leander Hastings, Ellen Stephenson e 
Madison Moss vieram para o jantar. Becka fora assistir a um 
concerto no Instituto. Era uma daquelas noites quentes de 
fim de vero, cheias de promessas enganadoras. Seph e 
Madison empanaram os peixes que pescaram no lago e os 
fritaram, enquanto Linda e Jack preparavam saladas e 
assavam o milho. Embora todos estivessem ansiosos para 
ouvir o relato do que acontecera na Lendas, Linda no 
permitiu que se discutisse os eventos da Conferncia at que 
a sobremesa fosse servida.
 Ento, como  que foi?  indagou Jack, quando a 
proibio foi finalmente revogada. Todos estavam tomando 
sorvete na varanda. Seph e Madison haviam ocupado o 
balano de vime e estavam agradavelmente aninhados.
        Eu diria que hoje o resultado foi misto  respondeu 
Hastings.  Leicester e D'Orsay propuseram uma cons-
tituio alternativa e conseguiram inclu-la na pauta a ser 
discutida na Conferncia das Ordens.  Ele balanou a 
cabea.  No creio que v passar.  um documento 
horroroso. Pior do que as regras originais.  Ele olhou para 
Linda, como se quisesse ver uma reao, mas ela parecia 
perdida em pensamentos.  Uma questo preocupante  o 
local da Conferncia. Eles no conseguiram mudar a 
composio do Conselho das Ordens, mas argumentaram 
contra realizar a prxima reunio no Santurio. Dizem que 
este  um ambiente hostil, que a sua prpria criao foi algo 
imposto ao Conselho dos Magos no torneio do vero 
passado. O que  verdade.  Hastings deu de ombros.  O 
Leicester e o grupo dele j perderam em vrias questes 
importantes. Creio que o Conselho dos Magos achou que 
devia fazer uma concesso para acalm-los.
        Onde vai ser a reunio?  perguntou Seph.
        Second Sister.  uma ilha no lago Erie, na bacia oeste, no 
Canad  explicou Hastings.  Propriedade privada.
        Second Sister?  Jack arqueou uma sobrancelha.  Achei 
que no houvesse nada l.
        Tem uma velha vincola, um grande castelo de pedra. Est 
sendo reformada para servir de hospedaria. A sensao da 
maioria era a de que seria um bom meio-termo. Perto do 
Santurio, conveniente para todos.
        Eles no quiseram se reunir na Ravina do Corvo?  
perguntou Jack.
A Ravina do Corvo fora o local do torneio no vero passado, 
na Inglaterra. Era o lar ancestral de Claude D'Orsay, uma 
fortaleza dos magos. D'Orsay era, por linhagem, o Mestre de 
Jogos dos torneios. Seph soube disso tudo por Jack e Ellen.
Hastings sacudiu a cabea.
        Francamente, nenhum dos outros Weirs poria os ps na 
Ravina. J vai ser duro o bastante convenc-los a se sentar na 
mesma sala com os membros do Conselho dos Magos. Eles 
tambm insistiram para que os membros do Conselho dos 
Magos estejam presentes como observadores. Essa idia 
agradou aos magos,  claro, pois nos dois lados h quem 
queira acompanhar os debates. S espero que no tenhamos 
desistido de algo importante. O local foi sugerido por Adam 
Sedgwick. Ele  um aliado do D'Orsay. E D'Orsay e Leicester 
apoiaram a sugesto de imediato.
        Voc descobriu quem  o dono?  indagou Linda.
Ele deu de ombros.
        Um grupo de investidores de Detroit. Amigos do 
Sedgwick.
        Quando vai ser a reunio?  perguntou Seph.
        Daqui a duas semanas  disse Hastings.  Os convites 
sero enviados em uma semana. Um subcomit vai decidir 
quem  convidado. Os membros so Ravenstock, Leicester, 
D'Orsay e eu.
Seph ficou alerta  meno de Ravenstock.
        Espero que Ravenstock esteja do nosso lado  disse ele.
        Ele est conosco agora. Por isso o subcomit est dividido 
igualmente. No vai ser fcil chegar a um acordo sobre quem 
deve participar.
        No acho que os magos deveriam escolher os participantes 
 disse Linda, parecendo estar saindo de um transe.  Seria 
melhor se as outras ordens escolhessem seus prprios 
representantes.
        Seria  concordou Hastings.  S que elas no esto 
bem organizadas. At este ano, estavam ou se escondendo 
dos magos ou a servio deles.  Ele se voltou para Jack e 
Ellen.  No fiquem surpresos se forem nomeados para o 
Conselho das Ordens.
Ellen sentou-se mais ereta, parecendo consternada.
        Voc no pode encontrar outra pessoa? Como  que eu 
vou negociar com um bando de magos?
        No se preocupe.  Hastings sorriu para ela.  Vai haver 
todo um time l. Alm disso, acho que voc est se 
subestimando.
Seph ouviu essa conversa como se estivesse a distncia, 
distrado pelo corpo de Madison pressionado contra o seu, 
pelos longos cabelos roando-lhe o brao e pelas costas nuas 
salpicadas de sardas. Sabia que no tinha de se preocupar em 
ser convidado para a reunio do Conselho. Ele era peixe 
mido no mundo dos magos.
Ele se perguntou se os resultados daquele processo fariam 
alguma diferena em sua situao pessoal. Talvez uma nova 
constituio tirasse Leicester da sua cola e lhe desse algo 
mais para mant-lo ocupado, j que as regras atuais no 
haviam feito nada para desencoraj-lo. Era algo pelo qual 
torcer, mas Seph no estava otimista.
Ele tinha uma outra carta na manga. Olhou para Linda 
Downey. A cada dia as habilidades mgicas dele cresciam. 
Algum dia desses, ele faria as perguntas que queria, e ela teria 
de responder.

Captulo Quinze
A Tempestade

No dia aps a Conferncia, Hastings partiu para Nova York, 
onde o subcomit se reuniria. Tudo estava acontecendo 
muito rpido. Os convidados no teriam muito tempo para 
tomar decises. Talvez isso fosse parte da estratgia.
As aulas deveriam comear em poucas semanas, mas era 
difcil se concentrar nisso com tantos eventos ocorrendo no 
universo paralelo dos Weirs. Seph j havia se matriculado no 
colgio. Nunca antes freqentara uma escola pblica, mas 
estava ansioso por isso, especialmente agora que poderia at 
mesmo ficar por l e se formar.
Esperava-se que a casa de Linda ficasse pronta no 
Halloween. Ela e Seph faziam visitas dirias para monitorar o 
progresso. O quarto dele tinha banheiro prprio e uma 
pequena torre com uma escada em espiral, um outro toque 
especial sugerido pelo empreiteiro.
Madison tinha um intenso horrio de trabalho na Lendas, 
mas Seph costumava ir encontr-la para o caf da manh 
antes que o turno dela comeasse. s vezes caminhavam na 
praia de manh cedo ou nas noites midas e quentes de 
vero depois que ela saa do trabalho. Iam a inauguraes de 
exposies na Galeria da Capela de Trinity. Quando ela fazia 
turno duplo, iam a matins no cinema com ar condicionado 
no centro da cidade e piscavam como animais noturnos ao 
emergir para a luz brilhante do sol.
Ela imps limites que sugeriam o desejo de que fossem 
apenas amigos. Seph estava torcendo por algo mais. Ela 
parecia considerar Seph uma janela para um outro mundo.
Havia uma urgncia melanclica nos passatempos de vero 
nos ltimos dias antes do incio das aulas. Jack fez planos 
para sair com o veleiro, j que era improvvel que houvesse 
tempo para velejar depois que as aulas comeassem. Assim, 
uma semana aps o fim do Conselho dos Magos, Jack 
convidou Ellen, Seph e Madison para irem velejar uma 
ltima vez.
Era um lindo dia de fim de vero, no muito quente, com 
nuvens altas e uma brisa refrescante vinda do oeste. Havia 
ondas espumantes alm da enseada do porto. Os borrifos 
atingiam-lhes as faces ao seguirem contra o vento, em 
direo a Sandusky. Madison nunca velejara antes; ela no 
sabia nadar, na verdade. Seph obrigou-a a vestir um colete 
salva-vidas cor de laranja antes de sarem das docas. Ela 
estava plida e irritadia, mas determinada a ir.
Agora a apreenso dela parecia ter diminudo. Estava sentada 
no canto traseiro direito do barco, uma mo deslizando pela 
gua, o rosto voltado para cima para apanhar os respingos. 
Havia puxado os cabelos para trs num rabo de cavalo, sob 
um bon de beisebol dos Reds de Cincinnati.
As habilidades de Ellen como marinheira estavam  altura 
das de Seph. Ela nunca velejara antes de chegar a Trinity, 
tendo passado todo o tempo treinando para matar pessoas. 
Mas ela era forte e determinada, e logo Seph e Ellen estavam 
fazendo o barco voar sobre as ondas, enquanto Jack 
supervisionava tudo de um banco na lateral.
Seph adorava capturar o vento, fazer o que queria com ele. 
A brisa o fazia se sentir como se estivesse voando. De 
repente, deu-se conta de que se sentia  vontade na gua, 
aps um vero em Trinity. O contraste com a temporada no 
Porto Seguro era impressionante.
Passava das duas quando partiram, e s quatro j estavam 
muitos quilmetros a oeste de Trinity. O tempo parecia estar 
mudando. Grandes torres de nuvens haviam se empilhado a 
oeste, e o cu outrora azul escurecia rapidamente.
 No me lembro de ter ouvido nenhum aviso sobre 
tempestades  disse Jack, perplexo.   melhor voltarmos.
Seph e Ellen deram a volta com o barco, esperando que as 
velas inflassem com o vento refrescante, mas este morreu 
imediatamente, depois mudou de direo, agora soprando 
com fora do leste. Eles continuaram manobrando para trs 
e para a frente, descobrindo que era to difcil voltar quanto 
fora partir, contra o vento.
        Que estranho  disse Jack.  Especialmente o que est 
vindo do oeste.  Ele virou a cabea para trs, apreensivo. 
As bordas irregulares da orla de nuvens estavam alcanando-
os. Os ventos de superfcie sopravam numa direo, e os 
ventos acima em outra.   melhor usarmos o motor ou 
nunca vamos ultrapassar isso. Vou levar o barco mais pra 
perto da costa.
Jack sentou-se no banco do capito e tentou ligar o motor. 
No houve resposta. Nenhum som, a no ser o da gua 
batendo no casco do barco.
Jack ergueu a capota do motor, espiou entre o emaranhado 
de metal, fez alguns ajustes e tentou de novo. Nada ainda. 
Ele sacudiu a cabea.
        Essa coisa funcionava bem duas horas atrs, quando 
samos do porto.
Ele se levantou com cuidado e olhou em volta, sondando o 
horizonte. Os poucos barcos que restavam estavam muito  
frente deles, correndo para a costa.
O estranho vento oriental soprava com mais fora do que 
nunca, e o barco comeou a balanar nas ondas pesadas. 
Madison se agachou no canto, segurando o chapu com uma 
mo, agarrando o finca-p com a outra. Jack ajudou Seph e 
Ellen a erguer o estai de tempo e assumiu o controle das 
velas. Apesar dos esforos de todos e da habilidade de Jack, o 
barco parecia estar parado na gua enquanto a tempestade os 
alcanava. Jack vestiu o colete salva-vidas e fez com que 
todos fizessem o mesmo.
A luz havia sumido, e o lago mudara de um azul profundo 
para uma cor de ardsia cinzenta, salpicada com espuma 
branca e amarela. O barco empinava e balanava  medida 
que as ondas cresciam. Raios cortavam o cu e troves 
rugiam, no muito distantes.
        Tente o rdio  ordenou Jack a Ellen.
Ela mexeu no aparelho por alguns minutos. No havia 
esttica. Nada.
        Ou eu no estou fazendo isso direito, ou no est 
funcionado  disse ela.
Deixando as velas nas mos de Seph por um momento, Jack 
tentou ele mesmo. O rdio estava morto.
quela altura o vento se transformara em ventania. O 
barulho do vento e da gua eram to altos que eles no 
conseguiam escutar uns aos outros, mesmo gritando. Jack se 
movia rapidamente de um lado do barco para o outro, 
abaixando-se sob a retranca, dando-lhes instrues por meio 
de gestos. Algumas gotas grandes de chuva chapinharam no 
convs, embora quela altura houvesse tanta gua a bordo 
que era difcil ter certeza.
Seph deu-se conta de que o barco estava sendo empurrado 
para trs na gua, pela popa, impulsionado pelo vento em 
direo ao oeste. Ele olhou para Jack, que havia parado de 
mexer nas velas e fitava, com uma mo na cana do leme, a 
traseira do barco. Escorregando e deslizando no convs 
molhado, eles baixaram as velas nos mastros. Enquanto o 
barco progredia, a gua se derramava sobre a popa, 
ameaando afund-los. Jack usou o leme para virar o barco. 
Eles ganharam velocidade, atravessando o topo das ondas 
como se estivessem com todas as velas iadas. Em direo a 
noroeste.
E ENTO UMA REVELAO ATINGIU SEPH: VOC no est mais 
no Santurio. Voc no est em lugar nenhum, mas est 
indo para algum lugar, e est levando trs pessoas com voc.
A chuva tombava em torrentes, agulhas geladas contra a 
pele. As roupas e cabelos deles estavam colados aos corpos, e 
o som da tempestade era um clamor constante. Madison, 
concentrada, transferia o peso do corpo de um lado para o 
outro para manter o barco nivelado. Jack ainda manejava o 
leme, enquanto Seph e Ellen soltaram uma pequena vela dos 
rizes. O barco voava em direo a um destino desconhecido. 
Para longe de Trinity.
Seph teve uma idia, uma idia desesperada. Cuidando de 
manter uma mo firme no parapeito, dirigiu-se at a popa, 
onde havia um compartimento de armazenagem sob o 
assento. Forou a porta at abri-la e puxou para fora um 
objeto cilndrico flexvel, de um amarelo vivo. Cambaleou 
at o parapeito, segurando seu trunfo contra o corpo.
        O que voc est fazendo com o bote salva-vidas?  
indagou Jack.
Seph segurou o parapeito com ambos os braos e passou uma 
perna por cima.
        Seph, no!
Madison soltou o parapeito que vinha segurando com fora e 
deixou-se escorregar na direo de Seph. Naquele momento 
o barco deu um pulo, e ela perdeu o equilbrio e caiu, 
deslizando pelo convs molhado. Ela se agarrou ao parapeito 
e sentou-se. Um corte acima do olho direito se abriu, o 
sangue escoando na chuva to rapidamente quanto surgia.
        Fique onde est!  gritou ele, erguendo a outra perna por 
cima do parapeito.
Ele se segurou no lado de fora do barco, grandes ondas 
quebrando sobre ele, tentando colocar o bote na posio 
correta.
        Seph!  Madison aproximava-se dele centmetro por 
centmetro.  O que h de errado com voc?
        No est vendo? A tempestade  para mim  disse Seph.
Jack lutava com o leme, tentando impedir o barco de virar 
transversalmente com o vento.
        Se acha que isso  magia, est enganado! Nem mesmo um 
mago pode controlar o clima.
        Explique isso, ento!  Seph teria gesticulado com o 
brao, mas no se atreveu a se soltar.  Vou me mandar. 
Talvez assim vocs fiquem bem.
        Qual , cara!  disse Jack, desesperado.  Volte pro 
barco. A gente est indo bem at aqui.
        No  s a jornada,  com o destino que voc deveria se 
preocupar.
O barco ainda voava rumo a oeste, como se fosse empurrado 
por um motor invisvel. A parte seguinte seria complicada. 
Seph precisava dar um jeito de entrar no bote salva-vidas. 
Dando as costas para o parapeito, agarrou o fio no cartucho 
de dixido de carbono com os dentes e deu um violento 
puxo. O bote inflou como uma bomba amarela explodindo, 
e Seph largou do parapeito no momento em que um corpo 
se chocou contra o dele.
Ele tombou em uma confuso de braos e pernas. O bote 
caiu na gua, e Seph e seu atacante caram sobre ele um 
instante mais tarde. A gua corria por sobre eles, e o bote 
subiu  tona como uma rolha. Seph lutou para se libertar, 
rolou e se sentou, cuspindo gua.
Madison estava deitada ao lado dele, tossindo e cuspindo. Ele 
passou a mo por sob os braos dela e ergueu-a, batendo-lhe 
nas costas para expulsar a gua dos pulmes. Os cabelos delas 
estavam emaranhados, os dentes batiam, e ela parecia morta 
de medo.
 Por que foi fazer isso?  perguntou ele, genuinamente 
atnito.
Ela se limitou a menear a cabea. Ele a puxou para perto, 
tentando aquec-la com o prprio corpo. O veleiro no 
estava  vista. Ele, Madison e o bote ainda voavam com o 
vento.
Jack viu o bote por um instante, um ponto amarelo na gua 
escura, antes que fosse tragada pela tempestade. Ele ficou em 
p junto ao parapeito onde tentara segurar Seph no ltimo 
minuto. Ellen estava ajoelhada, aturdida, no fundo do barco.
O barco balanava e estremecia  medida que as ondas 
batiam contra ele. Jack arremessou-se no sentido do leme e 
o segurou, virando o barco em direo ao vento, enquanto 
Ellen se levantava e sondava a gua em torno em busca do 
bote.
A tempestade parecia estar passando. O vento acalmou, a 
chuva diminuiu e parou. O balanar nauseante do barco 
cessou. Ellen soltou o parapeito, recuperando alguma cor. 
Jack olhou a oeste, onde uma cortina escura recuava do 
outro lado das ondas raivosas.  leste, o cu se iluminava.
No havia sinal de Seph McCauley ou de Madison Moss.
Seph logo percebeu que o que ele fazia ou deixava de fazer 
no tinha absolutamente nenhuma influncia sobre a 
trajetria ou velocidade do bote. Ele se recostou, segurando 
com fora as alas flexveis nas laterais, com Madison 
aninhada junto a ele, a cabea apoiada em seu ombro. 
Quando atingiram uma onda particularmente violenta, a gua 
cascateou sobre eles, mas no podiam ficar mais molhados 
do que j estavam. A tempestade os assolava, mesmo com o 
fato de Seph estar cooperando da nica maneira que podia.
Aonde quer que estivessem indo, tinha certeza de que 
haveria problemas; entretanto, se a idia era lev-lo para o 
Porto Seguro, estavam indo na direo errada.
Ele baixou o olhar para Madison. Ela estava imvel, os olhos 
arregalados, a mo esquerda ainda agarrada ao colete salva-
vidas. Depois de algum tempo, como um animal recuando 
ante estmulos demais, ele adormeceu.
Quando acordou, estava escuro, e a tempestade continuava; 
os relmpagos feriam-lhe os olhos e os troves retumbavam 
como o som de uma batalha se distanciando. Mas no foi o 
trovo ou o relmpago que o acordou, e sim o rangido de 
quando o fundo do bote atingiu a areia.
Olhando para o lado, ele viu que o bote salva-vidas havia 
sido levada at as guas rasas de uma praia. Era uma tpica 
praia de lago, uma mistura de areia e pedras. A superfcie da 
gua em torno do barco estava suja com algas e detritos, 
levados para l pela tempestade.
Ele sacudiu Madison para que acordasse. Ela piscou, ento se 
remexeu um pouco, tentando se sentar. Agarrando-lhe o 
pulso, ele a ajudou.
        Chegamos em algum lugar. Eles provavelmente sabem que 
estou aqui, mas duvido que saibam sobre voc.
Seph desceu do bote para dentro da gua, que lhe batia no 
joelho, e ajudou Madison a sair tambm. Andaram at a praia 
empurrando o bote  sua frente. Seph estava coberto de 
machucados, cortes e arranhes.
Arrastaram o bote pela areia at um local em que no corria 
o risco de boiar para longe. Seph ps uma grande pedra no 
centro para ancor-la. Ela teria dado um bom abrigo, mas um 
bote amarelo seria chamativo demais.
Uma densa floresta cobria a praia em trs lados. A areia 
estava salpicada de destroos devido  tempestade, ponti- 
lhada pela chuva, nenhuma pegada. Seph estremeceu. O ar 
estava frio, e ele estava encharcado at os ossos. Havia quase 
parado de chover.
        Venha.
Seph estava ansioso por sair da praia aberta. Os bosques de 
fim de vero eram escuros e atravancados com arbustos. 
Jorrava gua da copa das rvores enquanto eles abriam 
caminho atravs da vegetao. Seph avanou, forando os 
olhos em meio  escurido de ambos os lados. Finalmente 
encontrou um lugar onde duas rvores haviam se inclinado 
uma contra a outra, formando uma espcie de caverna 
razoavelmente seca e parcialmente coberta de folhas. No 
era o melhor, mas naquele momento ele no podia ser 
exigente.
        Por que no fica aqui?  disse ele a Madison.  Se voc 
se enterrar nas folhas, talvez fique mais quente.
Ela afastou os cabelos para trs.
        Acho que  melhor ficarmos juntos. Eu posso ajudar voc.
        Se eles esto procurando por mim,  melhor a gente se 
separar. Vou tentar descobrir onde estamos e o que est 
acontecendo. Depois venho buscar voc. Se eu no voltar 
at o nascer do sol, tente encontrar uma casa ou uma 
delegacia.
Com sorte, algum que no seja Leicester ou os ex-alunos. 
Era o nico plano em que Seph conseguia pensar.
Franzindo a testa, ela estendeu a mo e tirou as folhas dos 
cabelos embaraados dele.
        Se voc no voltar, menino bruxo, eu vou atrs de voc  
disse e engatinhou para dentro das sombras entre as grandes 
rvores.
Raciocinando que aqueles que o caavam provavelmente o 
procurariam na praia em que haviam desembarcado, Seph 
seguiu em direo a leste, para longe dali. Uma trilha coberta 
de vegetao acompanhava a linha da costa. Era mais fcil 
seguir a trilha do que passar atravs dos ns de rvores, 
espinheiros e hera venenosa. O ar mido havia refrescado 
com o passar da tempestade, e o clima havia esfriado 
consideravelmente. As nuvens seguiam para o leste, 
impulsionadas por um vento ligeiro, e algumas estrelas 
pontilhavam o cu a oeste. Os pssaros iniciavam o coro que 
precedia a aurora.
Havia caminhado quase um quilmetro e meio quando se 
deparou com uma doca desmantelada e uma cabana trancada 
com cadeados e tbuas de madeira. Imaginou que seria um 
abrigo melhor para uma pessoa molhada e com frio do que o 
buraco entre as duas rvores. No apenas isso, mas o cadeado 
parecia frgil. Seph abaixou - -se e pegou uma pedra da 
trilha.
Um leve som atrs dele alertou-o do perigo. Ouviu uma voz 
nervosa, engrolando palavras na lngua da magia. Ele se 
virou, ainda agachado, tentando se fazer um alvo menor, e 
atirou. A pedra atingiu Peter Conroy na testa, espatifando-
lhe os culos e pondo um fim imediato ao feitio. Seph 
abraou-lhe os joelhos e derrubou-o, e os dois rolaram pelo 
declive at a gua. Lutaram na parte rasa, lanando feitios e 
contra-feitios at que Seph agarrou a cabea de Peter e 
segurou-a embaixo da gua por tempo suficiente para lanar 
um feitio de imobilizao sobre ele. Depois ergueu Peter 
pelos ombros e arrastou-o at a praia  no era uma tarefa 
fcil, j que Peter era bem mais pesado do que ele.
Peter estava agitado, ofegando, com o rosto vermelho.
 Inalador!  arfou ele.
Seph enfiou a mo no bolso da jaqueta de Peter, encontrou o 
inalador e deixou-o inalar o ar. Peter passou a ofegar menos, 
e no parecia mais como se estivesse se asfixiando, embora 
ainda parecesse aterrorizado.
Apesar do ar frio, o suor brotava-lhe na testa e escorria- -lhe 
pelo rosto.
        Por favor, no conte ao dr. Leicester  implorou ele.
        No vou dizer nada, se me disser o que est acontecendo 
 disse Seph.  Onde estamos?
        S-s-Second Sister. Estamos em Second Sister.
Seph sentou-se de pernas cruzadas.
        Second Sister? No  a ilha onde vai ser a Conferncia das 
Ordens?
Peter fez que sim com a cabea, desolado.
        O dr. Leicester queria que a gente trouxesse voc antes 
que todos chegassem aqui.
        Vocs me trouxeram aqui? Como fizeram isso? Pensei que 
os magos no conseguissem controlar o clima.
        Geralmente, no conseguem. Mas o dr. Leicester, ele nos 
usa, ele se conecta conosco. Com todos ns juntos, ele 
consegue fazer o que quiser.
        Como assim, ele se conecta com vocs?  Jason havia 
usado esse termo, mas Seph no tinha certeza do que 
significava.  Assim como o que ele queria fazer comigo na 
capela?
         um feitio. L na escola, eu... eu nem sabia nada de 
magia. E estava tendo aqueles pesadelos horrveis. A o dr. 
Leicester disse que, se eu concordasse em me conectar a ele, 
os pesadelos iam parar. E pararam, s que... ele 
simplesmente assume o controle, e faz a gente fazer coisas 
terrveis.  como ser p-possudo.  Ele engoliu em seco.  
Sinto muito o que aconteceu com o Trevor. No Natal, voc 
veio pro jantar, e a gente tinha acabado de mat-lo; e l 
estava voc, sem saber de nada.
Seph se lembrou do bizarro jantar de Natal, a bebedeira 
monumental. Warren Barber acusando-o de se achar bom 
demais para se juntar ao resto deles. Martin Hall mantendo 
Barber  distncia com uma faca, lgrimas correndo-lhe pela 
face, dizendo: "J no houve derramamento de sangue 
suficiente?".
        Vocs no podem ir embora? Ou se unirem contra ele?  
disse Seph.
Os olhos plidos de Peter nadavam em lgrimas.
        Ele est conectado a ns. Todo o tempo, ele est 
conectado s nossas pedras. Se tentarmos resistir,  como se 
ele pusesse fogo nas nossas entranhas.  As lgrimas 
escorreram.  Eu costumava pensar que os sonhos eram 
ruins.
Seph estremeceu, pensando no que poderia ter sido. No que 
ainda poderia acontecer.
        O que o Leicester est planejando fazer? O que isso tem a 
ver comigo?
        No sei. Mas estamos todos procurando por voc.
Seph no conseguiu se conter e olhou para trs, sondando a 
costa escura.
        Quem est aqui?
        O dr. Leicester. E os 14 de ns que sobraram. Aaron 
Hanlon morreu, depois que... ahn... depois que ele, Warren 
e o Bruce tentaram trazer voc de volta.
Uma imagem de Hanlon cado de bruos no rio Vermilion 
veio  mente de Seph.
        O que mais tem aqui nesta ilha?
Peter piscou, surpreso.
        A vincola,  claro. E algumas cabanas abandonadas e 
acampamentos de pesca. Ele  dono da coisa toda.
L se ia a idia de encontrar ajuda.
        Como chegou aqui? Tem um barco?
        O dr. Leicester tem um barco  disse Peter.  Tem uma 
doca na vincola. E alguns de ns vieram de avio.
        Como eu chego  vincola daqui?
        Voc pode continuar seguindo a trilha da costa. Mas eles 
esto esperando por voc. Tem tambm uma trilha que 
atravessa a ilha. Provavelmente esto vigiando essa tambm.
        Alguma sugesto?
        Se entregar?
Seph pensou em Madison escondida na praia onde haviam 
desembarcado. Ele devia voltar e encontr-la, lev-la para 
um lugar seguro. Onde quer que isso fosse.
Peter era um problema a resolver. Leicester poderia suspeitar 
de que Seph estivesse na ilha, mas no tinha certeza. Seph 
preferia manter as coisas assim.
Peter se agitou, lendo algo na expresso de Seph.
        No me deixe desse jeito. Se o dr. Leicester me encontrar, 
vai saber que eu falhei.
        O que eu devo fazer com voc?  perguntou Seph.
        Bem.  Peter tentou pensar em uma sada.  Voc pode 
me matar.
No final, Seph deixou Peter vivo, amarrado e escondido na 
cabana trancada com tbuas. Ele sabia que Leicester e os ex-
alunos poderiam vistoriar o lugar, mas no conseguiu pensar 
em outra soluo. Aps algum tempo, raciocinava ele, talvez 
Peter pudesse se libertar.
Seph voltou a passos largos pela trilha em direo ao 
esconderijo de Madison. Eles achariam um abrigo menos 
movimentado mais perto da hospedaria, e ento talvez 
encontrassem um modo de roubar o barco, ou telefonar para 
fora da ilha, ou algo assim.
Ele encontrou o lugar onde as duas rvores se apoiavam uma 
contra a outra; entre elas, uma caverna era formada pelo 
espao entre elas. Mas o esconderijo estava vazio. Madison 
havia sumido, deixando apenas um lugar pisoteado onde o 
corpo dela estivera deitado. Ele mal teve tempo para registrar 
aquele fato quando o feitio de imobilizao o atingiu.
Seph caiu entre as folhas e foi agarrado por uma dzia de 
mos. Elas o ergueram, e ele viu um caleidoscpio de rostos 
familiares: Bruce Hays, Kenyon King, Martin Hall, Wayne 
Eggars. Ento Warren Barber assomou diante dele. Barber 
agarrou a frente da camisa de Seph e colocou-o em p num 
puxo. Apoiando Seph contra uma rvore, socou- -o uma, 
duas, trs vezes. Rosto, estmago, rosto de novo.
Finalmente, Barber o soltou. Seph caiu ao cho com 
violncia e ficou cado, a perna curvada num ngulo 
desconfortvel, o mundo girando. Algum o chutou.
Ele ouviu sons de luta, Barber praguejando, dizendo algo 
sobre Hanlon, e King dizendo:
 Warren! Ei, Warren! Est maluco? Voc sabe que o dr. 
Leicester quer ele vivo.
Por que Leicester o queria vivo? E onde estava Madison?
Ele teve pouco tempo para especular. Eles o viraram de 
bruos e amarraram-lhe as mos atrs das costas, bem 
apertado. Muitas mos puxaram-no para que ficasse em p. E 
logo todos estavam seguindo a trilha rumo  hospedaria. Eles 
o carregavam, mos sob seus braos, segurando-lhe a cintura 
do jeans. Ele pendia como uma marionete desengonada, 
totalmente sob o controle deles.
Luzes se infiltravam pelas rvores gotejantes. Cem metros 
adiante, ele avistou uma imensa massa de pedra. Era uma 
casa enorme, um castelo que lembrava uma grande erupo 
da prpria rocha. Passagens e jardins decorativos a cercavam, 
iluminados por minsculas luzes que cintilavam como 
estrelas atravs da folhagem.
Eles o conduziram por uma entrada lateral, que levava a um 
longo corredor pavimentado em pedra e ladeado por 
requintados castiais de parede em metal e janelas estreitas. 
O interior era decorado com veludos e tapearias feitas  
mo que retratavam cenas de caa. Passaram por vrios 
corredores e abriram uma porta, terminando num amplo 
escritrio com estantes de livros e uma lareira de pedra num 
dos lados. Tapetes orientais cobriam o piso. Uma 
escrivaninha e uma mesa auxiliar dominavam um lado do 
aposento, atulhadas com um computador e equipamento de 
comunicao.
        Dr. Leicester?  Hays pigarreou.  A gente o encontrou.
Leicester se materializou das sombras no canto do quarto 
como um predador com camuflagem perfeita.
Ele examinou Seph com indiferena. Seph estava pendurado 
entre Hays e Eggars, ensopado e sujo de sangue, areia e lama, 
uma anomalia no aposento elegante.
        Desfaam o feitio e afastem-se.
Hays quebrou o feitio e ps Seph em p.
Leicester abriu uma gaveta na escrivaninha e retirou uma 
cmera digital. Tirou vrias fotografias de Seph de diferentes 
ngulos, depois depositou a cmera junto ao computador. 
Apanhando uma faca da gaveta, ele a estendeu para Eggars, 
com um saquinho plstico.
        Corte uma mecha de cabelos dele. Depois solte-o e tire a 
camisa dele.
Eggars separou cuidadosamente uma mecha do cabelo de 
Seph, cortou-a e deixou-a cair no saco plstico. Ento cortou 
as amarras das mos de Seph.
Seph girou os ombros e esfregou os pulsos esfolados.
        Sinto muito, Joseph  murmurou Eggars, sem mover os 
lbios.
Ele e Hays tiraram a camiseta imunda e manchada de sangue 
de Seph. Leicester estendeu um saco plstico maior, e eles a 
colocaram dentro.
        Arranjem alguma outra coisa para ele vestir  disse 
Leicester, e Martin Hall deixou a sala.
Seph ficou em p, tremendo, enquanto Leicester abria um 
pequeno armrio em um dos lados da lareira, escolhia dentre 
as garrafas agrupadas e servia uma boa dose de uma bebida 
cor de mbar em um copo.
        Gostaria de alguma coisa, Joseph?  indagou ele, sem se 
virar.
Seph no disse nada.
Leicester riu.
        Quer relaxar? Pode acreditar, estou planejando manter 
voc razoavelmente intacto. Pelo menos por mais alguns 
dias.
Martin retornou com uma blusa azul-marinho puda e 
passou-a a Seph. Ele a vestiu.
        Esperem l fora  disse Leicester.
Os ex-alunos saram obedientemente em fila.
        Muito bem  disse o diretor, de um jeito que sugeria que 
as coisas estavam exatamente como deveriam ser.  Bem-
vindo a Second Sister.  Ele fez uma pausa, esperando por 
uma reao. Pareceu desapontado quando esta no veio.  
Sim. O local da Conferncia das Ordens. Estamos bem 
ansiosos para exibi-lo.
        Por que me trouxe aqui? No tenho nada a ver com isso.
        Voc vai passar alguns dias aqui, pelo menos at o seu pai 
aparecer.
Pai. Uma percusso comeou no peito de Seph, 
reverberando-lhe na garganta.
Leicester interpretou errado sua expresso.
        Falando srio, por quanto tempo esperava manter isso em 
segredo?
A velha mentira lhe voltou. Engenheiro de softwares. 
Morreu num incndio...
        O meu pai est morto.
        Ele mandou voc ao Porto Seguro para me espionar, 
certo? E depois mandou Linda Downey tir-lo de l quando 
voc estava prestes a ser exposto.
        O qu?
Era exatamente como quando ele estava na escola e era 
acusado de coisas. Exceto que naqueles dias ele era sempre 
culpado.
        Embora eu esteja surpreso que o Drago tenha colocado o 
prprio filho em risco. Ele deve ter confiana considervel 
nas suas habilidades.  Leicester girou o lquido no copo.  
Muitas vezes eu me perguntei por
que voc resistia tanto  persuaso. Voc e Jason Haley 
foram os nicos recrutas que recusaram a minha oferta. Eu 
devia saber que voc estava recebendo ajuda.
        Voc acha que o Drago  meu pai.
Leicester sorriu, retornou ao armrio, tornou a encher o 
copo.
        Por qu? O que faz voc pensar isso?  perguntou Seph.
        Ns lanamos uma operao contra o esconderijo do 
Drago em Londres. Ele escapou, infelizmente, mas 
encontramos um arquivo sobre voc, Joseph McCauley. 
Correspondncia para uma firma de advocacia, papis de 
admisso de uma escola na Esccia. Dunham's Field, acredito 
que era.
Dunham's Field. Ele durara seis meses em Dunham's Field.
        Quando examinamos o seu histrico, descobrimos certas... 
discrepncias.  Leicester bebericou sua bebida.  Voc 
v, ns desenvolvemos considerveis recursos cientficos 
que vo tornar mais fcil rastrear as ordens inferiores, a fim 
de faz-las sair de suas tocas. Chegaremos ao poder num 
mundo diferente. Voc deixou uma grande quantidade de 
sangue no meu escritrio. Ns fizemos uma comparao de 
DNA.
O ritmo do pulso de Seph acelerou-se.
        Uma comparao com quem?
        Agora suponho que ns vamos ver se o seu pai sente 
qualquer tipo de responsabilidade em relao a voc.
        Uma comparao com quem?
        J que voc e o Drago tm trabalhado juntos, talvez voc 
possa nos dizer onde encontrar os outros envolvidos na sua 
organizao. Aqueles que no vo participar da Conferncia.
        Certo. Bem, sabe como , no acho que o Drago exista de 
verdade. Acho que vocs todos o usam como bode 
expiatrio. Algum para culpar pelas coisas.
        Eu tinha esperanas de que, a essa altura, voc tivesse 
entendido o preo da resistncia. De que voc quisesse 
cooperar.
Leicester no parecia desapontado, porm, a expresso dele 
era a de um homem sentado para um banquete. Leicester 
ps o copo vazio na mesa e andou na direo dele. Seph 
recuou um passo, depois outro, e ento se manteve firme, o 
corpo tenso com a lembrana da dor. Buscou na memria as 
lies de Snowbeard. Contra-feitios. Concentrao.
Leicester agarrou-lhe os ombros. Os lbios se moveram, 
pronunciando o feitio, mas Seph no o escutou. Estava 
formando o contra-feitio. Chamas se agruparam nas pontas 
dos dedos de Leicester, mas, quando ele as lanou, Seph 
recolheu-as e reenviou-as de volta.
Leicester berrou e soltou-o como se tivesse sido escaldado. 
Conseguiu, porm, erguer um escudo, uma slida parede de 
ar, a tempo de desviar a rajada de chamas que Seph desferiu. 
Seph montou seu escudo, solidificou- -o, pressionou-o 
contra a barreira de Leicester, forou o diretor a recuar at 
ficar de costas contra a parede. Prensou-o contra a parede; 
pressionou mais. Eles ficaram frente a frente, os escudos 
transparentes entre eles. Os olhos de Leicester se 
arregalaram de surpresa, o branco visvel em torno dos 
ncleos de rolim. O suor corria pelo rosto do diretor, a 
mandbula apertada com o esforo. As mos dele se 
ergueram, as palmas pressionando contra o escudo, tentando 
forar Seph para trs. Chamas corriam de ambos os lados, 
como gua da chuva escorrendo por uma janela, procurando 
ansiosamente uma brecha para passar.
"Jason", pensou Seph. "Jason, Trevor, o pai de Jason, e eu." 
Quantos torturados, quantas vidas destrudas? Os ex-alunos, 
um dia estudantes como ele, transformados em monstros. 
Empurrou com mais fora, tentando espremer a vida para 
fora de Leicester, prens-lo como a uma uva.
Os ex-alunos irromperam na sala e arrastaram-no para trs, 
golpeando-o com feitios at que ele casse indefeso nas 
pedras frias do cho. Eles o agarraram pelos cabelos, 
levantaram-lhe a cabea e derramaram-lhe garganta abaixo 
um lquido doce e denso. "Deve ser Antiweir", pensou ele, 
reconhecendo-o a partir da coleo de poes de Mercedes. 
Para desativar a Pedra Weir. Ele tossiu, cuspiu e rolou a 
cabea de um lado para o outro, mas eles conseguiram faz-
lo engolir a maior parte.
 Por que no me deixam acabar com ele?  murmurou 
Seph.  O que h de errado com vocs?
Ele ouviu a voz de Leicester dando ordens. Eles o ergueram, 
carregaram-no para fora do escritrio. Desceram uma escada 
estreita, dando voltas, sem muito espao para manejar o 
corpo dele, que no cooperava. O ar esfriou, cheirando a 
pedra mida. Luzes brilharam acima deles, afastando a 
escurido. Passaram por uma entrada em arco para uma 
pequena cmara rstica. Agora o ar cheirava a umidade, 
levedura e fermentao. Barris se alinhavam contra a parede.
Era uma velha vincola. No havia dvida alguma.
Eles o deitaram sobre uma mesa, imobilizaram-no e 
desapareceram. Seph ficou deitado de costas, contraindo os 
olhos ante o brilho ofuscante de uma lmpada nua em uma 
armao de metal. A Antiweir estava fazendo efeito. Os 
pensamentos dele vagavam, colidindo aleatoriamente, sem 
grande propsito.
Madison. Onde estava Madison Moss? Ningum a havia 
mencionado. Estaria morta? Teria sido aprisionada? Ou teria 
escapado? Se tivesse escapado, para onde teria ido? Quo 
grande era Second Sister? Haveria lugares para se esconder?
SE VOC NO VOLTAR, MENINO BRUXO, EU VOU ATRS DE VOC.
Ele torceu para que ela se mantivesse distante.
Leicester dissera que o Drago era o pai dele. E dissera que 
havia provas. Se fosse verdade, por que ele jamais o 
reclamara?
Ele ouviu um som, a porta se abrindo e fechando, passos. 
Leicester apareceu em seu campo de viso e inclinou-se 
sobre ele. A mo esquerda do diretor estava envolta em gaze 
at metade do antebrao. Acima da atadura, a pele estava 
vermelha e coberta de bolhas. Obra de Seph.
Os olhos cinzentos haviam mudado tambm. No eram mais 
indiferentes, opacos, metlicos. Agora queimavam de dio.
Ele colocou uma bolsa de couro sobre a mesa junto a Seph. 
Afastou o cabelo de Seph da testa, um gesto ntimo que fez a 
pele de Seph arrepiar-se.  Agora  disse o diretor  
vamos conversar.

Captulo Dezesseis
Velhas Histrias

Estar em casa era insuportvel", pensou Jack. A casa na rua 
Jefferson se transformara num lugar lgubre, onde as pessoas 
falavam com irritao umas com as outras e a culpa pairava 
no ar, sem que pudesse ser atribuda a algum 
especificamente.
Fazia trs dias que Seph e Madison haviam desaparecido. No 
primeiro dia, helicpteros da Guarda Costeira procuraram at 
escurecer, mas no haviam encontrado sinal do bote. As 
buscas haviam sido retomadas nos dias subseqentes, em 
crculos cada vez mais amplos em torno do ponto em que 
haviam desaparecido. Era difcil permanecer otimista com o 
arrastar das horas.
Depois que a tempestade passou, Jack tentou ligar o motor 
de novo e este funcionou bem, assim como o rdio. Quando 
contatou a Guarda Costeira, teve de dizer que Seph e 
Madison haviam cado pela lateral do barco durante a 
tempestade, a alguns quilmetros da costa. Ele e Ellen 
haviam sido interrogados e passado por testes para verificar o 
consumo de drogas e lcool pela equipe da polcia, que 
parecia suspeitar que o acidente tivesse uma explicao mais 
mundana do que a dada por eles.
A Guarda Costeira se referia  tempestade como uma "linha 
de instabilidade". Pelo menos havia aparecido no radar. 
Todos concordavam que o lago Erie podia ser traioeiro no 
outono. Mas nenhum outro barco havia ficado preso na 
tempestade. Apenas o deles.
Se a Guarda Costeira e a polcia eram ruins, Linda e Hastings 
os interrogavam de modo ainda mais implacvel. Eles 
utilizavam o apartamento sobre a garagem de Snowbeard 
como um posto de comando. Linda ficava sentada, imvel e 
concentrada, o rosto plido como porcelana. Hastings 
andava de um lado para o outro como um tigre enjaulado.
         o Leicester. Voc sabe que   disse Linda.
Jack jamais vira a tia to desolada. Ela parecia... apagada.
Hastings sacudiu a cabea.
        Nenhum mago  forte o bastante para controlar o clima. 
 Ele se voltou para Jack.   possvel que vocs tenham 
enfrentado uma tempestade natural e que Seph tenha apenas 
entrado em pnico, pensando que era magia?
Jack olhou para Ellen, arqueando as sobrancelhas. Ela deu de 
ombros e desviou o olhar.
        Tudo  possvel no lago Erie  disse ele.  Mas eu velejo 
h anos e nunca vi nada assim. A gente estava literalmente 
voando de costas atravs da gua sem nenhuma vela. Assim 
que o Seph e a Madison pularam, a tempestade parou.
Ellen se apoiou no balco.
        O que eu me pergunto : se foi o Leicester, por que ele 
queria tanto o Seph? Quero dizer, primeiro o lance no 
parque, e depois...
A voz dela se esvaiu, e ela pareceu um pouco confusa.
        Que lance no parque?  perguntou Jack.
Ellen franziu o cenho.
        No sei, aconteceu alguma coisa que tinha a ver com o 
Seph e o Leicester e o parque... e eu meio que esqueci.  
Ela pressionou os dedos contra a testa como se pudesse 
rearranjar os pensamentos do exterior.  Os magos 
atacaram o Seph no rio Vermilion  disse ela com 
hesitao.  Eles disseram que iam lev-lo de volta para o 
Porto Seguro.  Ela ergueu os olhos arregalados.  Eu 
matei um deles.
        E voc esqueceu?  indagou Linda.
Ellen parecia totalmente perdida.
        Eu no sei, eu...
Hastings praguejou baixinho, batendo o punho na palma 
aberta.
        Seph. Ele deve ter usado magia mental em voc. Leicester 
disse alguma coisa pra ele na Lendas sobre o parque. Seph 
disse ao Leicester para ficar longe dele. O Leicester o 
ignorou, e Seph tentou atac-lo.
Ellen balanou a cabea, resmungando consigo mesma. Jack 
tomou-lhe a mo e apertou-a entre as dele.
        Se encontrarmos o Leicester, vamos encontrar o Seph  
disse Linda.
        Onde mais devemos procurar?  disse Hastings, 
transbordando de poder e impacincia.  Sabemos que
no esto no Maine. O Leicester e os aprendizes dele se 
foram, e a escola est fechada. Ele no est na casa dele na 
Cornualha, e eles no esto na Ravina do Corvo. So trs 
lugares em que eles no esto.
        Ns vamos nos encontrar com ele na Conferncia em dez 
dias  disse Jack em tom seco.
O subcomit havia se reunido, e as escolhas haviam sido 
feitas. Ellen Stephenson e Jack Swift representariam a 
Ordem dos Guerreiros; Linda Downey, a dos encantadores; 
Blaise Highbourne, a dos adivinhos; e Mercedes Foster, a dos 
feiticeiros. Havia outros que Jack no conhecia. As reunies 
aconteceriam durante um fim de semana em Second Sister.
        Tem algo que me incomoda  continuou Jack.  
Leicester e D'Orsay aprovaram a ida de todos ns. Foi o que 
voc disse.
         o que parece  disse Hastings.
        Por que eles fariam isso?  indagou Jack, como se de 
alguma maneira aquilo fosse culpa de Hastings.  Eles nos 
odeiam. A Ellen e eu comeamos essa coisa toda, quando 
nos recusamos a matar um ao outro no torneio.
        Bom, no caso de vocs, eles provavelmente no tiveram 
muita escolha.
Jack soltou um riso sarcstico.
        E quanto  tia Linda?  Ele a indicou com o queixo.  
Ela j causou um bocado de problemas pra eles. Voc acha 
que eles no conseguiram encontrar um outro encantador 
para nomear? Algum mais fcil de manejar?
        No que  que voc est pensando?
        Que eles nos deixaram escolher os nossos prprios 
representantes para o encontro para poder juntar todos os 
inimigos deles num nico lugar  disse Jack.   uma 
armadilha.
Linda concordou.
        Provavelmente. Mas, seja como for, eles nos tm na palma 
da mo. Se no formos, eles vencem. Se formos...
        Se formos, vamos descobrir o que esto planejando  
despejou Hastings.  O truque vai ser fazer isso e 
sobreviver.
Jack tentou de novo.
        Se cada ordem tem um voto, ento s precisamos 
realmente de um representante por ordem. Eu posso ir, e 
Ellen fica aqui.
        O qu? - Ellen se empertigou, apoiando as mos nos 
joelhos.  Por qu? Acha que eu no dou conta?
        Voc disse que no queria se sentar e negociar com um 
bando de magos  retrucou Jack.  Pelo menos se houver 
um ataque de algum tipo, posso usar magia. Talvez isso sirva 
de proteo.
Ellen se levantou, exibindo seu elegante porte de guerreira. 
A camiseta e o jeans no demonstravam, mas Jack sabia que 
ela estava em condies de lutar. Haviam se enfrentado em 
combate trs dias antes, e ele ainda estava sentindo os 
efeitos.
As faces de Ellen estavam queimando.
        Se acha que vou ficar aqui em Trinity enquanto voc sai 
para pr o pescoo numa forca, voc est louco! Quem  que 
estava cado de costas na ponta da minha espada no ltimo 
vero, me fala?
Ellen quase nunca mencionava aquilo. A no ser uma ou 
duas vezes por semana.
Jack se voltou para a tia, em busca de uma aliada.
         preciso que seja voc a representante, tia Linda? No 
tem um monte de encantadores que podem ir?
        Eu tenho de ir, Jack, confie em mim.  Pareceu que ela ia 
dizer mais, mas ento parou e diminuiu o volume de voz.  
Ns comeamos isso e agora temos de terminar. Alm do 
mais, voc gostaria que eu enviasse outra pessoa a uma 
armadilha?
Ellen revirou os olhos.
        Percebe que ele sempre quer deixar as mulheres em casa?
Jack se levantou e encarou-a.
        Eu gostaria de manter duas pessoas de quem eu gosto fora 
de perigo  disse ele com franqueza.  No  minha culpa 
que as duas, por acaso, sejam mulheres.
Jack e Ellen ficaram em p, face a face e olhos nos olhos, o 
poder girando em espiral em torno deles. Ento Jack 
estendeu a mo e pousou-a na nuca de Ellen, puxando-a para 
os seus braos. Eles se abraaram por um longo tempo.
Na noite seguinte, Linda foi at a nova casa depois de os 
pedreiros terem sado. Eles haviam terminado a maior parte 
do trabalho externo e passado para o interior. Rolos de papel 
e latas de tinta estavam empilhados na lavanderia. Seph havia 
selecionado a maioria deles.
Ela subiu as escadas para o andar superior e entrou no quarto 
de Seph. J tinha um ar vazio, abandonado. Todos os sonhos 
que ela tivera estavam acabando naquele pesadelo. Havia 
sido uma tola em pensar que poderia proteg-lo, com ou sem 
santurio. Havia sido egosta, e aquele era o resultado.
Se ao menos Seph nunca houvesse ido para o Porto Seguro! 
Se ao menos ela tivesse permitido que ele deixasse o 
Santurio e se escondesse em algum outro lugar! Ela 
imaginou Seph e Madison abraados no bote, voando atravs 
da escurido.
Linda se sentou no cho num canto do quarto, envolveu os 
joelhos com os braos e chorou enquanto a luz se esvaa.
Aps um tempo, ela ergueu os olhos, percebendo subi-
tamente que no estava mais sozinha. Leander Hastings 
estava  porta do quarto, o rosto envolto em sombras.
 Ento voc est aqui  disse ele.
Ele se aproximou, estendeu a mo e deixou algo cair no colo 
dela. Era um saco plstico contendo duas fotos, algum tecido 
entrouxado e uma mecha de cabelo, escuro, levemente 
cacheado. Cabelo que poderia ser de Leander Hastings, mas 
no era.
Ela olhou primeiro para as fotos. Tinham vindo de uma 
impressora. Era Seph numa camisa verde imunda e calas 
jeans, olhando cautelosamente para a cmera. Numa das 
imagens, ela podia ver que as mos dele estavam amarradas 
s costas. Ela tirou o tecido do saco. Era a camisa que ele 
estava vestindo na fotografia, manchada de sangue e lama.
Ela olhou para Hastings, esperando que ele explicasse.
        Gregory Leicester me contatou. Ele est com o Seph. Ele 
quer me encontrar e negociar.
A voz dele. Algo na voz dele. Mas os pensamentos de Linda 
j redemoinhavam loucamente.
Seph estava vivo! Pnico, esperana e medo invadiram-na 
um aps o outro. E ento, a pergunta: Por que o Leicester 
contatou o Hastings?
Hastings agachou-se de modo que seu rosto ficasse quase na 
altura do dela. Perto. Ela pressionou as costas contra a 
parede, mas no conseguiu aumentar a distncia entre eles.
        Agora vem a parte estranha. Ele me disse que est com o 
meu filho.  Ele fez uma pausa.  E eu fiquei confuso, 
porque eu no tenho filho algum.
Linda desviou o olhar.
Ele j sabe a verdade. Assim que ele ouviu, deve ter 
entendido. Tudo o que ele precisara fora de uma pista. Ela 
estava acuada, literalmente, em todos os sentidos, as costas 
contra a parede. Sabia que era intil fingir.
        Sinto muito, Lee.
        Voc desapareceu. Eu procurei por voc por mais de um 
ano. Quase enlouqueci. Ento, de repente, no ano passado, 
como que saindo do tmulo, voc me chama. Nada alm de 
negcios, como se o passado nunca tivesse acontecido. Ser 
que eu podia ajudar o seu sobrinho guerreiro Jack e salv-lo 
dos magos?  Ele fez um rudo irritado.  Imagino que 
voc sabia onde eu estava o tempo todo.
Ela hesitou ao falar:
        Bem, voc tem de admitir que voc abre uma trilha bem 
larga.
O mago sentou-se no cho e se apoiou contra a parede junto 
a Linda. Olhou de esguelha para ela.
        Voc nunca contou para a sua famlia sobre o beb? Nem 
mesmo pra Becka?
Ela sacudiu a cabea.
        Ningum sabe. A no ser o Nick. Genevieve LeClerc me 
ajudou. Eu a conhecia, de uma das redes. Fiquei com ela at 
o parto. Ela foi uma ddiva de Deus  disse Linda.
        Ela cuidou muito bem do Seph.
        Ento voc simplesmente foi embora e o deixou com essa 
mulher?
A inteno dele era que aquilo soasse cruel, e soava mesmo.
        Seph precisava de um tipo de estabilidade que eu no 
podia dar. Eu no podia arriscar que algum o ligasse a ns. 
Foi a coisa certa a fazer  disse ela, em tom defensivo.
        Ele devia ter ficado com os pais dele. Voc tomou essa 
deciso por ns dois. No foi justo. E no foi justo para o 
Seph.
        No v que esta  a prova de que eu estava certa? Algum 
descobriu quem so os pais dele, e agora ele est pagando por 
isso.  Lgrimas escorreram-lhe pelo rosto.
        Para manter Seph a salvo, desisti de tudo. Primeiro de 
voc. Depois dele.
Por um momento, ela no conseguiu falar. Finalmente, 
esfregando com fora as lgrimas com as costas das mos, 
Linda perguntou:
        O que o Leicester quer?
        Quer que eu viaje at Nova York amanh, e que eu v 
sozinho. Ele vai me contatar l e me dizer os termos.  Ele 
massageou a testa como se doesse.  Sabe como , ele acha 
que eu sou o Drago. J faz um bom tempo. Eu deixei que 
ele pensasse isso.
        E se ele descobrir que no  voc?
Hastings deu de ombros.
        No sei.
        Deixe que eu v encontrar o Leicester  disse Linda 
rapidamente.  Deixe que eu fale com ele. Voc sabe que  
uma armadilha.
        O que faz voc pensar que seria uma substituta aceitvel? 
 Ele sacudiu a cabea.  Ele no v voc como uma figura 
poltica. Leicester vai acabar com dois refns em vez de um. 
A mensagem foi mandada para mim, Linda. Se eu no 
aparecer amanh, Leicester diz que vai me enviar outro 
pedao do meu filho, algo que no vai crescer de novo.
Linda escondeu o rosto nas mos.
Hastings acariciou-lhe as costas, reconfortando-a.
        Alm do mais, eu no fiz nada pelo garoto em 16 anos. 
Quero que o Seph saiba quem  o pai dele.

Captulo Dezessete
Novas Ameaas

Cada vez que Seph emergia, a dor retornava, por isso ele 
mergulhava fundo e ficava l pelo maior tempo possvel. 
Parecia que tudo virara ao contrrio. No tempo que passara 
no Porto Seguro, passara a temer a descida no abismo do 
sono. Agora era um refgio do que parecia ser anos de 
tortura nas mos de Leicester.
Contudo, mos o sacudiam, e vozes o incomodavam 
implacavelmente.
        Joseph.
Ele desistiu, abriu os olhos e viu o rosto preocupado de 
Martin Hall.
        O que voc quer?  ele quis dizer, mas soou mais como 
um grunhido de dor.
Estivera gritando, como se estivesse num pesadelo. Mas no 
era um sonho. Era real. O pensamento divertiu-o, e ele 
tentou rir. Fracassou. Soou mais como um chiado.
        Vamos, Joseph  disse Martin. Voc precisa comer 
alguma coisa. Est dormindo h trs dias.
Martin pegou um po doce e o balanou tentadoramente sob 
o nariz de Seph. Os odores misturados de fermento e acar 
reviraram-lhe o estmago.
        V embora, Martin. Estou falando srio.
Seph tentou franzir o cenho, mas o corpo no obedecia aos 
comandos. Sentia-se como se tivessem arrancado sua pele e 
exposto sua carne. At a presso do lenol era quase 
insuportvel.
Mas Peter apareceu do outro lado e, juntos, eles o ergueram 
a uma posio quase sentada. Peter agarrou-lhe a mandbula, 
forou-o a abrir a boca, e Martin despejou a poo Antiweir. 
Seph ofereceu uma resistncia apenas simblica. quela 
altura, aquilo j era uma rotina.
Mas dessa vez foi diferente. Eles lhe trouxeram uma bacia de 
gua morna, sabonete e uma esponja de banho. Peter 
segurou-o enquanto Martin removia-lhe com cuidado a 
blusa e lavava-lhe o sangue do corpo. Eles tiraram-lhe os 
jeans, enrijecidos e fedendo  gua do lago, suor e terror, e 
vestiram-no com roupas limpas, enquanto ele mordia o lbio 
para conter os gemidos.
        Qual  o lance, Peter?  perguntou ele, sentindo-se um 
pouco tonto. - Vou pra forca hoje ou o Leicester 
finalmente decidiu se render a mim?
Era uma piada fraca, mas Peter se animou mesmo assim.
        Ele est bem f-furioso, voc sabe, porque no consegue 
tirar nada de voc.
Seph revirou os olhos. A nica parte dele que no doa.
        Eu no sei nada.  por isso que ele no consegue tirar nada 
de mim.
        Mas voc no d-desistiu tambm  disse Peter, a 
admirao evidente em seu rosto.  Voc no quer se 
conectar a ele. Isso o deixa 1-louco.
        , bom, no vou agentar para sempre.
Seph respirou fundo algumas vezes, lutando contra o 
desespero. No adiantava nada que os ex-alunos fizessem 
dele um heri. Trs fatores o levavam a resistir. Primeiro, os 
meses de tortura mental e emocional no Porto Seguro o 
haviam tornado menos sensvel. Segundo, ele sabia, por 
intermdio de Peter, que a rendio a Leicester era apenas o 
princpio de uma vida inteira de tormento. E, terceiro, sabia 
que ceder seria trair a presena de Maddie em Second Sister.
        Ele est com medo de voc  confidenciou-lhe Martin. 
  por isso que ele mantm voc dopado com Antiweir.
        Foi to 1-legal  disse Peter.  Quando ns entramos e 
voc estava com ele prensado contra a parede, e os olhos 
dele estavam s-saindo pra fora. Ele estava praticamente b-
borrando as calas.
Seph passou os dedos por seus cachos embaraados.
         mesmo? Ento por que no me deixaram acabar com 
ele?
        Estamos conectados  disse Martin.  Se o Leicester 
morrer, ns tambm morremos.
        Tem de haver um jeito de quebrar isso.
Seph olhou de Peter para Martin, mas eles desviaram o 
olhar. Seph soltou um longo e exasperado suspiro.
        Vocs esto mantendo mais algum aqui embaixo?
Martin e Peter se entreolharam e sacudiram as cabeas.
        S voc  disse Martin.
Ou seja, Maddie no estava nas mos de Leicester. Ento 
onde ela estava? "Fique escondida", pensou ele. "Fique 
escondida at que tudo tenha terminado."
Ele deu um puxo na camisa limpa.
        Por que isso tudo?
Peter olhou em torno com cautela, como se algum os 
estivesse espionando.
        Acho que voc tem visita.
Quando ele estava mais ou menos apresentvel, eles o 
levaram de volta pela estreita escadaria acima e pelos 
corredores silenciosos at o escritrio onde ele se encontrara 
com Leicester na noite de sua chegada. Meia dzia de ex-
alunos andavam de um lado para o outro, nervosos. Eles se 
incumbiram de Seph quando ele chegou, fazendo-o sentar-
se e amarrando suas mos aos braos da cadeira. Seph se 
submeteu sem protestar. A Antiweir estava funcionando, e 
ele no tinha o que fazer, em desvantagem numrica e sem 
magia.
Leicester entrou, vestindo jeans e uma camisa branca 
impecvel. Falou brevemente com Bruce Hays, depois se 
postou atrs de Seph, apoiando as mos nos ombros dele. 
quela altura, Seph era capaz de ler, pelo toque do mago, as 
emoes que o assaltavam. Poder e excitao e, sim, medo 
fluam pelas pontas dos dedos de Leicester.
        O que est havendo?  indagou Seph, tentando no 
reagir.
        O seu pai veio. Est exigindo provas de que voc ainda 
est vivo.
Antes que Seph tivesse tempo de processar essa informao, 
a porta se abriu e Warren Barber entrou, seguido por outro 
homem. Era Leander Hastings.
Hastings avanou rapidamente em direo a eles at que 
Leicester ergueu a mo, detendo-o a vrios metros de 
distncia. Hastings examinou Seph daquela distncia, como 
se quisesse se assegurar de que ele estava inteiro.
Leander Hastings, o pai dele. Podia ser verdade? Seph estava 
sentado preso  cadeira, ps no cho, as costas retas, 
inalando como se pudesse absorver a imagem diante dele: a 
estrutura do rosto, um tanto parecida com a dele, porm 
mais magra, mais definida de perfil. Os cabelos escuros 
desalinhados, rebeldes, familiares. As sobrancelhas grossas 
sombreando olhos profundos. Seph quis se lanar para a 
frente. Leicester deve ter sentido os msculos se contrarem 
sob as mos dele, pois apertou com mais fora e disse:
        No.
        Eu vim, como combinado  disse Hastings.  Esse foi o 
acordo. Uma troca: eu pelo garoto.
Seph encontrou a voz.
        No negocie com ele! Ele no  confivel!
Leicester apertou mais, e uma nova dor atravessou-o, 
interrompendo-lhe realmente a fala e trazendo-lhe lgrimas 
aos olhos.
A expresso de Hastings no se alterou. Ao contrrio, 
cristalizou-se, os olhos verdes como poas envoltas em 
sombras e no perturbadas por qualquer movimento de ar.
Leicester no pareceu notar.
        O que os rebeldes vo fazer sem o Drago? Ningum para 
puxar os fios da rede de espies. Ningum para preparar 
armadilhas para os descuidados.
        Eles vo dar um jeito, no tenho dvida  disse Hastings, 
parecendo escolher as palavras com cuidado.  Solte o 
Seph.
Hastings deu um passo  frente, e Leicester ergueu a mo de 
novo.
        Vou precisar imobilizar voc primeiro.
Leicester fez um gesto de cabea para os ex-alunos. Estes 
convergiram para o mago, mas pararam a pouco mais de um 
metro de distncia, como se batessem contra um muro, 
incapazes de se aproximar.
Leicester suspirou e comprimiu a mo direita de Seph contra 
a mesa junto  cadeira. Ele isolou o dedo mindinho, 
puxando-o para longe dos outros, ento apanhou uma faca da 
mesa, a mesma que usara antes. Seph observava com 
horrorizada fascinao, a respirao acelerada e rasa, sua mo 
rsea e vulnervel contra a madeira alvejada do tampo da 
mesa.
Hastings viu o que Leicester tinha em mente.
        Eu me rendo  apressou-se em dizer.
        Assim  melhor  disse Leicester.
Os ex-alunos algemaram as mos de Hastings com uma 
pesada corrente.
Leicester fez um gesto de cabea em direo a Martin Hall.
        O torque.
Martin abriu uma caixa ornada com pedras preciosas sobre a 
mesa e retirou uma tira de ouro reluzente, gravada com 
runas e decorada com pedras preciosas. Ele rodeou o 
pescoo de Hastings com aquilo, tomando o cuidado de no 
tocar no mago. As mos de Martin tremiam, e ele precisou 
de vrias tentativas para fech-lo. Uma vez afivelado, o metal 
ficou imediatamente manchado e as jias escureceram, 
como estrelas que se apagam.
Hastings correu um dedo sob a coleira.
        Esta  uma pea rara, Gregory. De quem voc a roubou?
Leicester sorriu.
        Veio do Tesouro,  claro. Vou realmente sentir falta de ter 
o Drago  solta. Ele sempre leva a culpa por tudo o que 
desaparece. O curador me assegurou de que isto manteria 
voc bem dcil pelo tempo que lhe resta.
O peso de Leicester se deslocou, e ele apertou mais ainda a 
mo de Seph sobre a mesa. Seph teve tempo de fechar os 
olhos antes de a lmina descer. Uma dor terrvel atravessou-
lhe a mo direita, e ele precisou lidar com ela por um tempo, 
convencer a si mesmo de que era a mo de outra pessoa e a 
dor de outra pessoa, perder a afeio pelo que lhe havia sido 
tomado.
Levou um minuto, e vrias respiraes profundas, mas 
quando abriu os olhos ele pde olhar para a mo com certo 
desapego. No era o seu dedo mindinho que fora cortado, 
mas as pontas dos dedos mdio e anular, sobre as unhas, 
emparelhando os dedos com o indicador. Sangravam em 
profuso, o sangue manchando a madeira spera da mesa.
Seph respirou fundo mais uma vez, ergueu o queixo e olhou 
direto para Hastings do outro lado da sala. O mago sustentou 
o olhar por um momento. O rosto dele estava impassvel, 
mas Seph podia sentir a fria, como uma fera agachada na 
sala.
Hastings desviou o olhar para Leicester.
        No vou me esquecer disso  disse ele baixinho.
        Essa  a idia  disse Leicester, sorrindo.  Eu precisava 
ter certeza de que as correntes funcionam. Entenda, no 
posso soltar o rapaz ainda. Tenho planos para ele.
Os olhos de Hastings passaram rapidamente pelos ex- alunos 
e por Seph, voltando a se fixar em Leicester.
        Planos?
        Eu ofereci a Joseph um lugar na minha cooperativa. Posso 
ser bastante persuasivo.  Ele limpou a faca manchada de 
sangue na camisa de Seph e largou-a descuidadamente sobre 
a mesa ao lado dele.  Uma vez que cheguemos a um 
acordo, ele vai desempenhar um papel especial na 
Conferncia que se aproxima.
        O que voc tem em mente?
        Vou us-lo para destruir os participantes da Conferncia. 
A comear por voc.
Quando chegaram ao poro, Seph estava prestes a desmaiar. 
Permanecia em p apenas graas aos esforos de Martin e 
Peter, que lhe seguravam os cotovelos. Peter amarrou um 
retalho da camisa de Seph em torno da mo que sangrava, 
aplicando presso.
Hastings examinou o poro, franzindo a testa como um 
hspede num hotel de baixo nvel: o colcho de Seph num 
canto, prximo a este a pilha de roupas dele, a horrvel mesa 
de trabalho de Leicester como a pea central. O aposento 
tinha o aspecto de uma caverna, aproximadamente 
quadrado, talvez seis por seis metros, com o piso mido de 
pedra e um cheiro de mofo. Num canto havia sido montado 
um cubculo tosco com chapas de gesso acartonado, 
contendo um chuveiro e um vaso sanitrio. Condutores 
eltricos cruzavam o teto at uma luminria no centro, com 
quatro lmpadas que projetavam uma luz forte sobre o 
centro do quarto. Os cantos estavam envoltos em trevas.
        Esperemos que o resto da hospedaria seja um pouco mais 
confortvel.  Hastings se virou para a meia dzia de ex-
alunos que os haviam escoltado para baixo. Vamos 
precisar de curativos, gaze e antissptico. Tragam roupa de 
cama, toalhas e sabonete; e uma muda de roupas pra ele.  
Dava ordens to tranqilamente como se fosse o dono da 
casa dando as boas-vindas a um hspede, em vez de um 
prisioneiro. Virou-se para Seph.  O que voc gostaria de 
comer?
Seph sacudiu a cabea e deslizou parede abaixo at ficar 
sentado contra ela. Fechou os olhos, pousando a mo ferida 
sobre o corao.
        Tragam alguma coisa, de qualquer maneira  ordenou 
Hastings aos alunos.  Vou ver se consigo persuadi-lo a 
comer.
        Sim, senhor.
Os ex-alunos se retiraram meio de costas, inclinando-se em 
reverncia. Seph ouviu um ferrolho se encaixando do outro 
lado da porta.
        Os alunos do dr. Leicester no esto acostumados a pensar 
por conta prpria  disse Hastings. Ele se ajoelhou junto a 
Seph.  Agora deixe-me ver a sua mo.
Seph manteve a mo dobrada com fora contra o peito, 
ignorando o sangue ensopando-lhe a camisa.
         verdade?
Hastings sentou-se de pernas cruzadas.
        Sou o seu pai, sim. Sinto muito que o nosso primeiro 
encontro como pai e filho acontea nestas circunstncias.
        H quanto tempo voc sabe sobre mim?
        Descobri a seu respeito trs dias atrs. Infelizmente, pelo 
Gregory Leicester.
Seph manteve os olhos no rosto de Hastings, sorvendo cada 
detalhe.
        Algum sabia sobre mim.
        Sim, algum sabia.
O mago tomou a mo de Seph e desdobrou os dedos en-
sangentados, envolveu-os no retalho da camisa, aplicou 
uma presso gentil.
        Quem?
        A sua me  disse o mago com simplicidade, sem nada do 
drama justificado por aquela revelao.
        Minha me.  Com medo de que fosse morrer naquele 
instante antes de fazer a pergunta, Seph foi em frente.  
Quem?
        Talvez seja melhor discutir isso quando voc no estiver 
nas mos do Leicester.  Hastings disse aquilo como se o 
resgate fosse apenas questo de horas.  Ele no parece 
saber quem  a sua me, e eu prefiro manter as coisas assim.
Seph libertou a mo num violento puxo.
        No. Eu j esperei tempo demais. Gregory Leicester teve 
de me apresentar ao meu pai, mas voc vai me dizer quem  
a minha me.
Hastings inclinou a cabea levemente.
        Est bem.  Ele teceu um fio transparente a partir das 
pontas dos dedos, fino como uma teia de aranha, lanando-o 
em um grande crculo no piso em torno deles at que 
cercasse metade do quarto. Ante o olhar perplexo de Seph, 
ele disse apenas  Desencoraja bisbilhoteiros.
O mago massageou a testa com o polegar e o indicador, 
como se fosse um homem que achasse difcil desistir de 
segredos.
         Linda Downey.
Linda Downey. Que parecia conhecer to bem a ele e seus 
hbitos, suas comidas favoritas. Que havia fingido ser sua 
tutora. Que estava construindo uma casa para eles em 
Trinity.
AS PALAVRAS DE NICK SNOWBEARD LHE RETORNARAM: A 
LINDA E O LEANDER ESTIVERAM ENVOLVIDOS ANOS ATRS.
Seph mal percebeu quando Hastings tomou-lhe a mo de 
novo. Ele sentiu um leve formigamento agora, substituindo a 
dor. Hastings sacou um pequeno frasco de uma bolsa no 
cinto, tirou a rolha e passou-o para Seph. Seph tomou um 
pequeno gole cauteloso.
        Beba tudo  ordenou Hastings.
Seph esvaziou o frasco. O lquido se espalhou por seu corpo, 
aquecendo-o.
Hastings sentou-se junto a Seph, ombro a ombro, contra a 
parede, ainda segurando-lhe a mo. A fora do mago flua 
por ele, a dor fugindo diante dela.
Hastings sorriu.
        Acho que ainda tenho um pouco de poder em mim, 
apesar do torque.
        Como assim? O que o torque faz?
Hastings deu de ombros.
        Drena o poder.
        Oh. Eles me deram Antiweir.
        Parece que somos um par perigoso.
Seph gostou da idia de ser perigoso, com o pai.
Hastings voltou ao assunto dos relacionamentos.
        A sua me gosta muito de voc. Ela tem estado 
transtornada nesses ltimos dias.
        Se voc diz...
        Ela s estava tentando proteger voc, Seph.
        Certo. Foi para o meu prprio bem. Agora entendo por 
que fui rfo toda a minha vida.
Eles haviam mentido para ele. Todos haviam mentido. 
Genevieve. Sua prpria me.
Hastings fechou os olhos, como se tentasse invocar as 
palavras certas.
        Ela no era muito mais velha do que voc quando nos 
conhecemos. Mas ela havia passado por muito sofrimento 
nas mos dos magos. J ouviu falar do Mercado?
Seph sacudiu a cabea.
         um mercado de escravos clandestino, gerenciado por 
magos, para a compra e venda dos que tm o dom. 
Guerreiros e encantadores, na maioria. A Linda ficou presa l 
por um tempo. Foi como nos conhecemos. Eu j lutava 
contra o Mercado. Ela se juntou a mim. Era um negcio 
perigoso. J estvamos nos movimentando, atuando com a 
nossa rede de espies, vivendo sob nomes falsos. A Linda 
era especialmente boa nisso, j que os magos tendem a 
subestimar os encantadores. Provavelmente seramos 
capturados depois de um tempo. Mas quando se  jovem a 
gente acha que  imortal. E, em tempos de guerra, a gente 
no pensa realmente sobre o futuro. Ento ela desapareceu. 
Eu tinha certeza de que ela havia sido levada de volta ao 
Mercado. Mas, na verdade, ela descobriu que estava grvida 
de voc.
Seph tentou imaginar uma Linda Downey bem jovem.
        Ela sabia que voc seria um alvo se os nossos inimigos 
soubessem da sua existncia. Por isso ela abriu mo de voc.
        Por que ela no contou pra voc?
Hastings deu de ombros.
        Ela no acreditava que eu fosse apoiar essa deciso, e ela 
estava certa. A minha famlia... a sua famlia... meu pai, 
irmo e irm foram todos assassinados pelas Rosas. No 
sobrou ningum. Eu teria me recusado a abrir mo da nica 
famlia que tenho. Meu filho. Ela tambm no conseguiu 
abrir mo de voc totalmente. Ela vigiava voc, 
providenciou a sua educao, recebia boletins sobre o seu 
progresso. Foi assim que Leicester e D'Orsay descobriram 
sobre voc.
Seph recostou a cabea contra a parede.
        Toda a minha vida, eu sonhei com isso. Finalmente 
encontro os meus pais, e agora... o Leicester vai me torturar 
at que eu concorde em me conectar a ele. Quando eu fizer 
isso, ele vai me forar a assassinar voc e todos os outros de 
quem eu gosto.
Hastings tocou-lhe o brao.
        Coragem, Seph.
Seph ergueu os olhos, surpreso. Era a mesma frase que Linda 
Downey havia usado no dia em que o resgatara do Porto 
Seguro.
        Ele nunca deveria ter me trazido aqui  continuou 
Hastings.  Ele devia ter me matado assim que teve a 
oportunidade. A necessidade de se exibir, o desejo de 
atormentar e intimidar pessoas vai ser a derrota dele.
        Mas ele tem o que quer  disse Seph.  Todos esto a 
caminho da armadilha que ele montou, e no h nada que a 
gente possa fazer.
        No vou deixar que Gregory Leicester ponha as mos em 
voc de novo  disse Hastings, olhando-o nos olhos.
A despeito de todas as evidncias em contrrio, Seph 
acreditou nele.
        Tem mais uma coisa  disse Seph.  A Madison est 
aqui. A garota da Lendas. A... ahn... extratora.
Hastings se sentou mais reto.
        Onde ela est?
Seph sacudiu a cabea.
        No sei. No a vi mais, desde a noite em que chegamos. 
No acho que eles saibam que ela est aqui.
        No podemos deixar o Leicester apanh-la.  Hastings 
refletiu a respeito.  Por vrios motivos.
Naquele instante, eles ouviram o som do ferrolho se 
deslocando. Martin e Peter entraram, trazendo roupa de 
cama, suprimentos de primeiros socorros e duas pequenas 
camas de armar. Tambm trouxeram uma muda de roupas 
para Seph e uma bandeja de sobras do jantar. Eles armaram 
as camas lado a lado num canto e estenderam cobertores por 
cima. Carregaram para dentro uma pequena mesa de madeira 
e duas cadeiras e serviram a comida. Havia at uma garrafa 
de vinho para Hastings, que Martin abriu.
         um Zinfandel do ano passado de Second Sister  
explicou Martin.  Depois me diga o que o senhor achou.
A seguir eles saram, recolocando o ferrolho. Hastings olhou 
para Seph. Os cantos de sua boca se curvaram.
        J estive em acomodaes melhores, mas as coisas esto 
progredindo.
Usando as mos acorrentadas juntas, Hastings envolveu a 
mo ferida de Seph com gaze, amarrando-a bem. Depois 
desabotoou a camisa ensangentada de Seph e, num esforo 
conjunto, despiram-na pelos ombros. Seph ps as mos 
cuidadosamente dentro das mangas da nova camisa e 
conseguiu vesti-la e aboto-la.
        Quer se sentar  mesa?
Hastings se levantou, um pouco desajeitado. Havia cerca de 
sete centmetros de folga na corrente entre as mos dele.
Seph sacudiu a cabea. Tudo o que acabara de descobrir 
fizera-o sentir-se saciado, e pensar no que estava para perder 
o deixava nauseado.
        No estou com fome.
        Eu insisto em que voc coma alguma coisa  disse 
Hastings.  Numa situao como esta,  sbio comer 
quando se pode.
Seph se perguntou quo freqentemente o pai estivera numa 
situao como aquela. Os pais dele eram assassinos, espies, 
agentes, no centro da rebelio. O que Jason diria disso?
Hastings preparou um prato, separando um pedao de frango 
para que Seph pudesse comer facilmente com uma mo, 
acrescentou queijo, uvas, uma fatia de po, e levou at onde 
Seph estava sentado, junto  parede. Depois lhe passou um 
copo de vinho. Seph olhou para ele, surpreso.
        V em frente e beba, Seph. Pode melhorar as coisas, se for 
bom.
Apesar da situao desesperada, Seph sentiu-se bem tratado.
Hastings sentou-se perto dele, equilibrando o prprio prato 
nos joelhos, a garrafa de vinho ao lado.
        De onde veio o nome "Drago"?  perguntou Seph.
        Conhece a lenda de como as ordens mgicas foram 
fundadas?
Seph sacudiu a cabea. Nunca lhe haviam contado aquilo.
        Supostamente as ordens foram criadas por cinco primos, 
que perambulavam por um vale mgico no Norte da 
Bretanha sculos atrs. L eles encontraram um poderoso 
drago que guardava um fabuloso tesouro. A maior parte 
dele consistia em pedras preciosas extradas de minas do 
prprio vale, artefatos mgicos e coisas assim. O drago lhes 
deu as boas-vindas ao vale e os tratou como convidados de 
honra. Mas os primos eram gananciosos e queriam tomar o 
tesouro do drago para eles mesmos. Certa noite, eles 
entraram no quarto do tesouro prximo ao drago 
adormecido. Quando o drago acordou, eles engoliram as 
jias que haviam roubado. Essas se tornaram as primeiras 
Pedras Weir, e concederam aos primos dons mgicos nicos.
O vinho estava comeando a fazer efeito. Seph deitou a 
cabea no ombro de Hastings. Se algum houvesse lhe dito 
que um dia ele se sentaria numa masmorra em Second Sister 
ouvindo o pai contar-lhe contos de fadas, jamais teria 
acreditado.
Hastings terminou o vinho que havia em seu copo e tornou 
a ench-lo. A mo tremia um pouco, respingando vinho no 
cho de pedra. Pela primeira vez, Seph notou que o mago 
parecia tenso e exausto, com profundas linhas de cansao 
gravadas no rosto.
        Voc est bem?  indagou Seph, preocupado.
        Este est sendo um longo dia  disse Hastings.
Ento Hastings continuou a histria. Ele era um contador de 
histrias surpreendentemente talentoso.
        Um dos primos havia engolido a pedra que conferia o dom 
do feitio falado. Esse era o mago,  claro. Ento o mago 
elaborou um plano para dominar o drago e assumir o 
controle do vale mgico. Ele enfeitiou os outros para que se 
submetessem a ele, pois precisava dos talentos dos outros 
primos. O feiticeiro preparou uma poderosa poo, o 
encantador cantou para que o drago dormisse, o guerreiro 
despejou a mistura na boca do drago, e assim por diante. H 
vrias verses da histria. Alguns dizem que o drago foi 
morto imediatamente. Outras, que ele dorme na montanha 
at hoje. Alguns dizem que a histria  s uma fbula. 
Alguns alegam que um dia o drago vai acordar e reparar o 
mal que foi feito pelas ordens mgicas e matar todos ns. 
Outras, que o drago vai acordar e libertar as subordens do 
domnio dos magos. Da o nome.
Eles comeram em silncio por alguns minutos. Ento 
Hastings recostou a cabea contra a parede, olhando para o 
teto. Quando falou, era quase como se estivesse falando 
consigo mesmo.
        Fico pensando no que um pai deveria dizer ao filho numa 
hora dessas.  Ele ps as mos nos joelhos, as correntes 
retinindo suavemente.  Passei a vida em busca de 
grandeza. Grandes feitos de coragem, atos audaciosos de 
vingana, grandes demonstraes de dio. At grandes atos 
de amor, quando a oportunidade se apresentou.  Ele 
sorriu.  A sua me me acusa de ser obcecado com a idia 
de me vingar das Rosas pela perda da minha famlia. E  
verdade. Os males que me fizeram tm sido um pretexto 
para tudo o que tenho feito: assassinato, traio, seduo, 
roubo. Tudo pela causa. Muito conveniente. Eu estava 
disposto a sacrificar qualquer coisa e qualquer um. Foi s 
recentemente que percebi ao que eu tinha renunciado. 
Relacionamentos so uma srie de pequenos sacrifcios 
dirios. Negociaes, acordos e meios-termos. Fica-se 
enredado. No  bom para algum numa misso.
Seph mudou de posio no cho duro. Ser que Hastings 
estava tentando se desculpar por no ter sido um pai melhor? 
Mas at alguns dias atrs ele nem sabia da existncia de Seph!
        Por que est me dizendo isso?
        Eu me vejo em voc. No quero que cometa os mesmos 
erros que cometi. Tenho de achar que  possvel sofrer um 
grande mal e se afastar disso. Construir uma vida de 
pequenos momentos de grande importncia.
        Mas eu ainda no...
        Apenas me prometa que vai pensar no que eu falei.
Hastings ficou em silncio. Seph olhou para ele alguns 
minutos mais tarde e percebeu que o mago havia adorme-
cido, apoiado contra a parede. Talvez o cansao e o vinho 
houvessem inspirado o discurso.
Colocando o prato de lado, Seph se esticou na cama mais 
prxima da parede. A poo de Hastings, o que quer que 
fosse, estava fazendo efeito. Com isso e mais o vinho, Seph 
mal podia manter os olhos abertos.
Havia sido um dia horrvel e fantstico. Fora fantstico 
porque havia encontrado seu pai e descoberto quem era sua 
me. Tentou no pensar sobre a parte horrvel, mas ela 
estava l, de qualquer forma, e parecia que mais coisas 
horrveis o aguardavam. Porm as palavras do pai lhe 
voltaram, aquecendo-o.
EU TERIA ME RECUSADO A ABRIR MO DA NICA FAMLIA QUE 
EU TENHO. MEU FILHO.
E, assim, ele adormeceu.






Captulo Dezoito
Reencontros

Primeiro ele notou o brilho intenso das lmpadas nuas 
contra as plpebras. Depois tomou conscincia do som de 
vozes sussurrando por perto. Por algum motivo, a mo 
direita o incomodava, sentia os dedos grossos como 
lingias, excessivamente sensveis. Por alguns minutos 
abenoados, Seph se esqueceu de onde estava. E ento ele se 
lembrou, e tudo fez sentido com exceo das vozes, por isso 
ele abriu os olhos.
Duas pessoas estavam sentadas  mesa, que havia sido 
empurrada para as sombras em um dos cantos. A pessoa que 
estava mais perto de Seph era Hastings. No conseguia ver 
quem era a outra, por isso ele se apoiou nos cotovelos, 
tentando enxergar na escurido. Ainda no se sentia  
vontade para assumir a relao com Hastings e cham-lo de 
qualquer outra coisa que no o nome dele, portanto 
chamou-o em voz alta:
        Hastings?
        Ele vive  disse o outro, rindo baixinho.
A voz e a risada eram familiares, e Seph achou que estivesse 
morto ou sonhando, pois sabia que jamais ouviria aquela voz 
de novo. O dono da voz ergueu-se, atravessou o quarto e 
postou-se diante dele, uma silhueta contra a luz.
        Oi, ingnuo  sussurrou ele, a luz refletindo no ouro na 
orelha direita.  Andou malhando ou o qu? Acho que 
voc cresceu.
Impossvel. Era impossvel.
        Jason?  Seph disse o nome mais alto do que pretendera, 
e Jason Haley ps um dedo sobre os lbios.
        Cuidado! No queremos atrair os ex-alunos pra esse 
reencontro. Eles estragariam tudo, com certeza.
Jason abriu um sorriso torto. Seus cabelos haviam crescido 
um pouco, mas continuavam irregulares onde antes eram 
espetados. Havia s leves sinais de descolorao nas pontas. 
Onde quer que ele houvesse estado aps deixar o Porto 
Seguro, no conseguira manter o estilo habitual. Estava 
vestindo jeans desbotados e uma blusa. Parecia mais magro 
do que Seph se lembrava, embora mais vivo, como se 
houvesse perdido em fsico para que o esprito brilhasse com 
mais intensidade.
        Leicester disse que voc estava morto  sussurrou Seph, 
como parecia apropriado ao falar com um fantasma.
        At onde ele sabe, eu estou.
Jason sentou-se na beira da cama. Seph o acompanhou e o 
abraou.
Jason deu-lhe uns tapinhas nas costas, sem jeito.
        Ei, algum j disse a voc que se parece com o seu pai?
        O que aconteceu? Como voc escapou?
Seph soltou Jason e apoiou-se contra a parede, esperando por 
uma explicao que o convencesse de que aquilo era 
verdade.
Jason fitou o espao.
        Dizer que eu escapei seria um pouco de exagero. Eles me 
apanharam na Teia Weir. Tinham mudado a configurao da 
barreira, por isso os meus contra-feitios no funcionaram. 
 Ele fez uma pausa, aparentemente revisando sua histria e 
escolhendo o que compartilhar com Seph.  Leicester deve 
ter decidido que um afogamento seria o mais fcil de 
explicar. Ento, quando acabaram de... ahn... conversar 
comigo, eles me levaram para a enseada.
Seph estremeceu. Desde o sonho que tivera sobre a casa dos 
barcos, a experincia de se afogar nunca esteve muito 
distante.
Jason prosseguiu, usando frases curtas e concisas.
        Felizmente, Leicester no me imobilizou. Acho que ele 
queria me ver chutando e me debatendo. Eles me seguraram 
embaixo d'gua. Lutei com eles por um tempo, e a usei a 
dyrne sefa pra me afastar. Eu parecia morto, mas nem aspirei 
nada da gua do mar. Eles "encontraram" o corpo, 
telefonaram pra minha madrasta com as ms notcias e me 
despacharam no dia seguinte num saco de defunto.
        A gente nunca soube de nada  disse Seph baixinho.  
Voc simplesmente desapareceu. Achei que voc tivesse 
escapado, at o Leicester me dizer.
        Eu me safei no aeroporto, assustei algumas pessoas quando 
abri o zper do saco.  Ele sorriu.  Tive de apagar algumas 
mentes por causa daquilo. Ento fui para casa pra ajeitar as 
coisas e impedir a minha famlia de telefonar pro Porto 
Seguro quando o meu corpo no aparecesse.  Ele sacudiu a 
cabea.  Graas a Deus pelos Anaweirs. Voc nunca tem 
de explicar nada pra eles, se no quiser. Eu telefonei pra 
firma de advocacia, mas eles disseram que voc tinha sado 
da escola, que estava com a sua tutora. Pensei que tivessem 
matado voc. Ento procurei um hacker amigo meu do 
colgio. O Drago estava publicando mensagens na internet 
na poca... segredos, mensagens em cdigo, esse tipo de 
coisa. Eu pedi ao meu amigo pra rastrear, encontrar a 
mquina de onde aquilo estava vindo.
Jason sorriu.
        No entanto, o que aconteceu foi que o seu pai aqui 
rastreou a mim. Ele me colocou contra a parede e queria 
saber para quem eu trabalhava e por que estava to 
interessado no Drago.
Hastings deu de ombros, um leve sorriso no rosto. Mesmo 
aps uma noite de sono, ele ainda parecia plido e cansado. 
O torque ao redor do seu pescoo estava quase preto, como 
uma pea de prata exposta aos elementos.
         claro que eu tinha ouvido falar do Leander Hastings. 
Todo mundo j ouviu. No foi fcil convencer o cara de que 
no precisava me matar. Eu contei sobre o Porto Seguro, o 
que o Gregory e a gangue estavam tramando, mostrei pra ele 
o portal e como funcionava. Naturalmente, ele ficou bem 
interessado, depois que se convenceu de que eu no estava 
do lado do inimigo.
         por isso que voc sabia sobre os ex-alunos  disse Seph, 
olhando para Hastings.  E voc no ficou surpreso quando 
lhe mostrei a pedra-portal, na Lendas.
Hastings assentiu.
        Presumi que voc estivesse trabalhando com o Leicester, 
at eu descobrir que o Jason tinha ajudado voc. Depois da 
nossa conversa na Lendas, perguntei ao Jason sobre voc e 
confirmei que voc estava dizendo a verdade.
Seph sacudiu a cabea, incrdulo.
        E voc me deixou pensando que o Jason estava morto?
Hastings hesitou.
         importante que o Leicester e os ex-alunos no 
descubram que o Jason est vivo.
        Agora vamos ver o que o velho desgraado fez com voc 
 disse Jason, mudando de assunto. Relutantemente, Seph 
estendeu a mo direita. Jason examinou-a gentilmente e 
virou-a, tendo cuidado com os dedos feridos.  Ele deu a 
voc uma mo de bruxo, Seph  disse ele baixinho.
        Mo de bruxo?  Seph puxou a mo de volta  Do que 
voc est falando?
        Trs dedos mdios, todos do mesmo comprimento. Magia 
Antiga. Mo de bruxo  disse Jason solenemente.
Naquele momento, ouviram o rudo do ferrolho da porta 
deslizando, e Jason tornou-se imperceptvel quando ela 
abriu. Eram Martin Hall e Bruce Hays.
Martin carregava uma bandeja com o caf da manh. Ele a 
depositou sobre a mesa.
        Como estava o vinho?  indagou ele a Hastings.
        Perfeito  respondeu o mago, indicando a garrafa vazia 
sobre a mesa.  Meus cumprimentos.
Martin pareceu satisfeito. Tirou os culos, poliu-os na camisa 
e colocou-os de novo.
        No  muito frutado?
        Perfeito  disse Hastings de novo.
        Espero que gostem do caf da manh  disse Martin.  
Vou trazer outra garrafa hoje  noite. Os outros hspedes 
vo chegar amanh  noite, por isso vou estar muito ocupado 
depois disso  disse ele, quase em tom de desculpas.
Os ex-alunos saram, e eles ouviram o som do ferrolho sendo 
recolocado no lugar. Ficaram em silncio por um momento, 
para ter certeza de que os outros haviam partido, e ento 
Jason reapareceu.
Seph e Hastings comeram  mesa, enquanto Jason sentou-se 
em uma das camas. Jason no comeu muito antes de largar o 
prato no cho. Ele se levantou, andando de um lado para o 
outro como um leo numa jaula.
        Ento o que voc est fazendo aqui?  perguntou Seph, 
empurrando o prprio prato para o lado. Descobriu que 
comer com a mo esquerda era complicado. Havia comido 
um bolinho sem manteiga porque no achou que seria capaz 
de manejar a faca e no queria pedir auxlio.  Como 
chegou at aqui? Est s visitando os prisioneiros ou o qu?
Jason parou de andar. Houve mais uma troca de olhares com 
Hastings.
        Seu pai e eu temos trabalhado juntos.
Seph sentiu uma ponta de cime por Jason ter com-
partilhado dessa experincia com o pai dele. Jason conti-
nuou:
        Quando trouxeram ele para c, eu peguei uma carona.
Jason hesitou, olhando para Hastings de novo, como se 
pedisse permisso para continuar. Hastings moveu a cabea 
em assentimento.
        Embora no saibamos exatamente qual  o plano deles, 
Jason e eu vamos fazer o que pudermos para arruin-lo. A 
primeira coisa que vamos fazer  tirar voc daqui  disse 
Hastings, indicando o lugar onde estavam com um gesto de 
mo.
Seph olhou de um para o outro.
        Como assim?
A gente no quer que eles revistem a ilha procurando por 
voc.  pequena demais  disse Jason.  Por isso, o lance  
o seguinte: a gente vai ter de matar voc.
Martin percebeu algo diferente assim que entrou no poro. 
Estava mais vazio, de certo modo, e mortalmente silencioso. 
Antes de avanar mais para dentro do quarto, esperou at 
que os olhos se ajustassem  luz turva da parte mais externa 
da cmara. Finalmente, enxergou duas figuras deitadas nas 
camas. No entanto, ningum se ergueu para saud-lo.
Ele carregou a bandeja do almoo para a mesa e co- locou-a 
no cho para poder remover os pratos do caf da manh. 
Bruce Hays permaneceu junto  porta. Ele no gostava de 
bancar o mordomo, mas Martin no se importava. Na 
verdade, considerava um privilgio servir o Drago. Ele 
transferiu o almoo para a mesa e os pratos do caf para a 
bandeja.
        Hora do almoo!  gritou ele. Havia trazido sopa e no 
queria que esfriasse.
Hastings falou baixo, sem se mover:
        No quero nada.
        E quanto ao Seph? perguntou Martin, gesticulando em 
direo  outra cama.
        Ele no vai precisar de nada tambm.  Hastings fez uma 
pausa.  No mais. O rapaz est morto.
Martin ficou congelado por um momento.
        O que o senhor disse?  indagou ele.
Bruce Hays deu um passo cauteloso para dentro do quarto, 
como se esperasse um ataque. Martin foi at a cama de Seph. 
Seph estava deitado de costas, o rosto plido como cera 
contra os lenis, o cabelo escuro cado sobre o travesseiro, 
as mos enfaixadas dobradas, uma natureza-morta. Martin 
ps os dedos sob o queixo de Seph, buscando uma pulsao. 
No havia nenhuma, e ele estava frio ao toque. Mesmo sob a 
luz turva, Martin pde ver o hematoma na base do pescoo.
Martin mal podia falar. Ele gostava de Seph, sempre gostara 
dele. E admirava Leander Hastings, algum com poder e que 
conhecia e apreciava um bom vinho. Agora estava tudo 
arruinado.
Ele se sentou de pernas cruzadas.
        V buscar dr. Leicester  disse ele a Bruce Hays, que 
ainda aguardava junto  porta.
Hays hesitou.
        Voc no deveria ficar aqui sozinho com...
Ele no terminou a frase. Martin sacudiu a cabea com 
impacincia.
        V logo.
Bruce deu de ombros e saiu, trancando a porta atrs dele.
        Como  que o senhor pde?  perguntou Martin, fitando 
o rosto de Seph.  Ele era seu filho.
Hastings no disse nada.
Eles ouviram algum remexer na porta, parecendo 
apressado. A porta se abriu e Gregory Leicester entrou em 
silncio, seguido por Bruce Hays, Warren Barber e Peter 
Conroy. Hastings sentou-se e aguardou, com as mos nos 
joelhos.
Sem olhar para Hastings, Leicester se ajoelhou junto  cama 
de Seph e correu os dedos sobre ele. Buscou uma pulsao, 
ergueu as plpebras, tocou as marcas de dedos preto-azuladas 
na base do pescoo. Enfim, balanou a cabea, e tinha uma 
mscara de raiva estampada no rosto.
        No to paterno afinal, no , Hastings?  disse o mago, 
cuspindo as palavras enquanto se erguia.
        Achei que ele estivesse acorrentado  disse Warren 
Barber, a voz ganhando volume.  Achei que ele no podia 
fazer nada.
        No  to difcil matar um menino  disse Hastings, 
como se falasse por experincia.  Acorrentado ou no.
        Eu esperava que voc achasse difcil matar este menino  
disse Leicester.  Acho que eu estava enganado.
 Havia uma admirao relutante nos olhos cinzentos 
opacos.  Agora o seu calcanhar de Aquiles se foi, no 
serve mais para nada. Mas por que vir at aqui matar o seu 
filho, quando ns o teramos feito por voc?
Hastings sacudiu a cabea.
        No. Eu vim para pagar o resgate dele, lembra? E voc no 
cumpriu o acordo. Ele estava com medo do que teria de 
enfrentar. Pediu para eu salv-lo disso, e foi o que eu fiz.  
Ele devolveu o olhar de Leicester sem remorso.  Eu j 
rezei pela alma dele, mas ser que podemos arranjar um 
padre?
Leicester sacudiu a cabea.
        A alma imortal dele  problema seu, Hastings, j que 
decidiu libert-la.
        Ento me deixe cuidar do corpo, pelo menos  retrucou 
Hastings.
Leicester hesitou, abalado pela perda do refm. Martin se 
perguntou se o diretor decidiria que chegara a hora de matar 
Hastings, antes que a Conferncia comeasse. No importava 
quo poderoso era Hastings, sabia que poderiam faz-lo, 
todos eles juntos, da maneira como Leicester os usara antes.
No, o dr. Leicester tinha outros planos. Ele olhou para 
Hastings, mas falou para os outros no quarto:
        Hastings provou ser perigoso, apesar das correntes. Agora 
que o rapaz est morto, acho que  melhor acorrent-lo  
parede. O Bruce e eu cuidaremos disso. Warren, voc, 
Martin e Peter devem levar o corpo, amarrar pesos a ele e 
jog-lo no lago. No queremos que ele volte  superfcie 
enquanto nossos hspedes estiverem aqui.

Captulo Dezenove
Second Sister

Warren Barber desejou que Leicester tivesse dado a algum 
outro a tarefa de se desfazer corpo de Joseph. Talvez 
Leicester achasse que Hall e Conroy acabariam fazendo algo 
tolo e sentimental. Tipo o qu? Rezar um rosrio prximo ao 
corpo? O garoto estava morto, afinal.
Eles carregaram o corpo pela trilha, pelos bosques alm do 
arvoredo, at o lado oposto da ilha, onde um despenhadeiro 
no muito alto descia diretamente at guas profundas. Era 
bastante distante da doca e do complexo vincola. Embora o 
corpo no fosse pesado, formava um pacote longo e 
desengonado, difcil de manobrar atravs da vegetao 
rasteira e do terreno irregular. Estavam com calor, suados e 
exaustos quando finalmente deitaram o fardo junto  borda 
do despenhadeiro.
E agora, o que usar como pesos? Haviam levado um rolo de 
corda com eles, mas no conseguiram encontrar nada 
adequado no topo do despenhadeiro. Ento Warren se 
lembrou dos blocos de concreto que haviam sido usados no 
trabalho de restaurao.
        Vo buscar dois daqueles blocos de cimento dos fundos da 
vincola  ordenou ele aos outros dois.  Um para a cabea 
e outro para os ps. Vou ficar de olho no Joseph, aqui.
        Por que ns  que temos de ir?  resmungou Conroy, 
esmagando um mosquito.
Hall postou-se diante do corpo como se estivesse pronto 
para encarar uma briga.
        Ns ficamos com o Seph. Voc vai.
Hall havia estado mal-humorado e pouco cooperativo por 
todo o caminho atravs da ilha.
Warren no havia esquecido que Hall havia brandido uma 
faca contra ele no Natal, quando se metera na briga com 
McCauley. Ento suspirou e revirou os olhos.
        Escutem, seus idiotas, ele no vai a lugar algum. Vamos 
todos juntos. Podemos buscar algo gelado para beber 
enquanto estivermos por l.
Eles arrastaram o corpo para o meio da vegetao rasteira 
junto ao despenhadeiro e caminharam de volta ao prdio da 
vincola.
Retornaram 45 minutos mais tarde, cada um carregando um 
bloco. Cortando dois pedaos de corda, eles os passaram por 
um dos furos de cada bloco e os amarraram apertado. Mas, 
quando foram apanhar o corpo, ele havia sumido. Warren 
procurou por toda a vegetao das redondezas, s para ter 
certeza.
        V-voc acha que algum tipo de animal arrastou ele 
embora?  indagou Peter, o suor correndo-lhe pelo rosto 
gorducho enquanto aspirava o ar do inalador.
        Como diabos eu vou saber?  disse Warren, irritado.  
Est me achando com cara de Tarzan?
        No acho que haja nada to grande por aqui.  Martin 
estava com uma expresso grave no rosto, como se 
estivessem discutindo algum assunto vagamente inte-
ressante.  Coiotes, guias e guias-marinhas, talvez.
Por um momento, o nico som que se ouviu foi o vento nas 
rvores e a respirao ofegante de Peter. Ento Warren 
disse:
        No digam nada disso pro Leicester. No vou descer ao 
inferno por ter perdido um cadver. Para todos os efeitos, 
ns jogamos o McCauley no lago. Entenderam?
Hall e Conroy assentiram com a cabea, os olhos arre-
galados.
Seph acordou de sbito, consciente apenas de que havia 
algum pairando sobre ele. Ele golpeou com o punho, sem 
muito jeito, e seu pulso foi agarrado com firmeza.
        Vai se arrepender se me socar com esta mo  disse-lhe 
Jason. Quando Seph relaxou, ele o soltou.  J estava na 
hora de voc se juntar aos vivos.
Seph estava deitado numa pilha de cobertores num cho 
sujo. A princpio pensou que ainda estava no poro, j que as 
paredes e o teto do local eram feitos de pedra. Mas a luz 
penetrava de uma fonte invisvel atrs de um canto, e ar frio 
e mido roava-lhe o rosto. Ele se sentou.
Estava numa caverna que havia sido transformada em 
moradia. Latas e caixas de comida estavam estocadas contra a 
parede, e havia um fogo porttil no canto. Roupas estavam 
empilhadas no topo de uma caixa de madeira, distantes da 
sujeira. Trs grandes lmpadas de querosene cercavam o 
permetro. Livros e mais caixas amontoavam-se nos fundos.
        Quase to luxuoso quanto o seu antigo quarto no Porto 
Seguro  disse Seph.
Junto a ele, em contraste com o resto da baguna, estava um 
saco de dormir bem enrolado, com um bon de beisebol do 
Reds de Cincinnati por cima.
        Bom dia, menino bruxo.
Ele se virou to rpido que bateu o cotovelo contra a parede 
da caverna.
        Madison!
Ela trajava uma camisa masculina e calas jeans com as 
bainhas dobradas. Tinha os cabelos presos com um elstico e 
um leno vermelho amarrado no pescoo. Foi tudo o que ele 
teve tempo de ver antes que ela passasse os braos em torno 
dele.
        Nunca mais me assuste assim de novo, ou vou arrancar o 
seu couro, pedacinho por pedacinho  disse ela.
        Assustar voc?  Ele lhe agarrou os ombros, segurando-a 
para inspecion-la.  Assustar voc? Voc desapareceu. O 
que aconteceu? Por onde andou?
        O que aconteceu com a sua mo?  Ela puxou-lhe a mo 
coberta de gaze para examin-la.  Voc me trata como se 
eu fosse indefesa, mas voc...
Ele ouviu a voz de Jason por trs dele.
        Vocs dois querem parar de flertar? Esto fazendo com 
que eu me sinta uma vela. No que eu no aprove. Se for 
parar na costa de uma ilha,  melhor levar uma mulher 
junto.
Maddie olhou feio para Jason.
        Para...?
Seph esfregou o cotovelo.
        Estou falando srio. Como voc e o Jason se encontraram?
Maddie sentou-se e envolveu os joelhos com os braos.
        Depois que voc me deixou no esconderijo, uma meia 
dzia de bruxos comeou a bisbilhotar, por isso eu tive de 
cair fora. Eu vi quando eles agarraram voc, mas no havia 
nada que eu pudesse fazer contra todos eles.
Jason se espichou sobre uma pilha de cobertores.
        Achei a sua amiga aqui se esgueirando pelo castelo depois 
que deixei voc na noite passada. E qual no foi a minha 
surpresa ao descobrir que ela conseguia ver a minha 
imperceptvel pessoa! Adivinhei logo quem ela era, com 
base na descrio que o Hastings me deu. Ento eu a 
convidei para se hospedar no meu palacete aqui.  Ele 
revirou os olhos.  No foi fcil convencer essa sua amiga. 
O que voc tem na cabea, Seph? Envolver-se com uma 
vampira que suga a magia de magos inocentes?
        Eu no incomodo os inocentes  resmungou Madison.  
Guarde a sua magia para voc mesmo e vamos nos dar bem.
        Onde estamos?  sussurrou Seph. Sentia os msculos 
enrijecidos e doloridos, e estava todo esfolado, como se 
tivesse sido arrastado por espinheiros.  O que aconteceu?
Jason sorriu.
        A pedra portal funcionou to bem como... um passe de 
mgica! Exatamente como l na enseada. Precisa muito 
sangue-frio para um pai matar o prprio filho. Se eu no 
estivesse por dentro da coisa toda, teria chorado tambm. 
Leicester ficou furioso! Voc sempre escorrega pelos dedos 
dele, de um jeito ou de outro. Morrendo e sabe l o que 
mais. O Leicester mandou os caras jogarem o seu corpo no 
lago. Eu atrapalhei os planos deles.
Seph ergueu os olhos, assustado.
        Voc o qu?
        Achei que eu ia ter de pescar voc da gua, mas eles 
largaram voc sozinho, enquanto foram buscar umas 
bebidas.
        Quando Leicester souber disso, vai saber que tem alguma 
armao.
        Confie em mim. Ele no vai saber de nada. Leicester no 
perdoa mancadas.  Jason sorriu, esticando o corpo magro. 
 No sei por que eu no posso ser o tipo de heri que 
mora no castelo. Comigo  sempre no poro ou na caverna.
        Mas onde ns estamos?  perguntou Seph de novo.
        Estamos no lado norte da ilha, numa caverna na face do 
despenhadeiro. Antes da Guerra Civil, eles escondiam aqui 
os escravos que estavam fugindo para o Canad. Depois, as 
bebidas alcolicas ilegais durante a Lei Seca. Agora ns. D 
uma olhada se quiser.  Jason fez um gesto em direo  
entrada.
Seph se ergueu sobre ps instveis, mancou at a entrada e 
espiou para fora. A abertura dava direto para o lago  na 
direo do Canad, sups. Mais abaixo, as ondas se chocavam 
contra as rochas. Havia um ngreme penhasco de ambos os 
lados. Era um dia sombrio e nublado, e o ar estava 
impregnado pelo cheiro de chuva.
        Como voc chegou aqui?
        Tem uma trilha  disse Jason, que, com Maddie, se 
juntara a Seph na entrada da caverna.
        Se  um local to histrico, no tem medo de que algum 
mais descubra?  perguntou Seph.
Jason sacudiu a cabea.
        Estava descrito num velho manuscrito no Museu dos 
Grandes Lagos. Eu roubei.  Ele se apoiou contra a face 
rochosa.  Escute. Tem um barco vindo de Trinity trazendo 
os delegados para a Conferncia hoje. Isso significa que vai 
voltar depois, esta tarde.
Seph deu de ombros.
        E da?
        Vamos tornar voc imperceptvel e botar voc a bordo, e 
a voc vai pra longe daqui.
        Por que eu?
        Eu prometi ao Hastings.
        E quanto a Maddie?
        Bom.  Jason coou a cabea.  A gente no tem como 
deixar a Maddie imperceptvel. No vejo como ela poderia 
entrar a bordo em segredo, bem na frente da vincola.
Seph olhou de Jason para Maddie.
        Voc acha que eu vou embora e deix-la aqui?  por 
minha culpa que ela est aqui, pra incio de conversa.
        Eu pulei no bote atrs de voc.  Maddie tocou-lhe o 
brao.  Eu fiz uma escolha.
        Se afogar no lago  uma coisa. Gregory Leicester  outra. 
Voc no sabia no que estava se metendo.
Os fios de cabelo soltos pelo vento se encaracolavam em 
torno do rosto dela.
        E voc, sabia?
Jason ergueu ambas as mos.
        Seph, na minha opinio, salvar algum  melhor do que 
no salvar ningum. Todos eles acham que voc est morto. 
Como eu. Vai por mim,  bom se sentir livre. D para ir 
aonde voc quiser. Sem se preocupar que o Leicester e os 
outros cacem voc.
        No.
        Isso pode dar em massacre. Se partir agora, voc pode 
evitar tudo. Mais tarde, vai poder se vingar. Eles no vo 
estar  espera. No vo saber quem foi que os atacou.
Seph franziu o cenho.
        No quero me vingar de um massacre. Quero impedir que 
ele acontea.
Jason fitou o horizonte.
        Mais fcil dizer do que fazer.
        A gente no pode encontrar o barco quando ele chegar e 
avisar?  sugeriu Maddie.  A ns todos vamos embora 
juntos.
        O que vai impedir o Leicester de conjurar outra 
tempestadezinha?  disse Jason.  Ele poderia trazer o 
barco de volta pra c, ou pr fogo nele, ou mandar ele pro 
fundo do lago. Tudo muito conveniente.
        Bem.  Maddie pensou por um momento.  Ento 
vamos telefonar pra eles e dizer para no virem.
        O meu celular no funciona. No vi nenhuma linha fixa 
na ilha, nem mesmo na vincola.  Jason remexeu no bolso 
 procura de um cigarro e soltou um jato de fumaa ao 
vento.  Para falar a verdade, no sei se podemos deter o 
Leicester. Temos de romper o vnculo entre ele e os ex-
alunos de algum jeito. Enquanto estiver conectado a eles, ele 
vai vencer qualquer disputa envolvendo magia. A gente teria 
de ser mais inteligente do que ele.
        Ento  isso o que a gente vai fazer. Eu no vou embora 
 disse Seph.
        Hastings vai ficar furioso.
        Que fique.  "O cara descobre que  meu pai e comea a 
me dar ordens", pensou Seph. Ele tocou a dyrne sefa em 
torno do pescoo com a ponta dos dedos.  A gente pode 
pelo menos libertar o Hastings, digo, o meu pai, no ?
Jason sacudiu a cabea.
        Se a gente tentar libertar o Hastings, eles vo saber que 
estamos aqui. Se comearem a procurar, vo nos encontrar.
Maddie removeu o elstico do cabelo, penteando-o com as 
mos e prendendo-o de novo.
        Est me dizendo que voc e o sr. Hastings apareceram por 
aqui sem nenhum tipo de plano?
Jason apagou o cigarro na parede da caverna e jogou a bituca 
numa lata de caf.
        Este  o plano, sinto dizer.  Ele se voltou para Seph.  
O seu pai tomou uma deciso consciente de vir atrs de 
voc. Sabendo que era improvvel sobreviver.
Seph se lembrou do discurso de Hastings no poro. 
Lembrava, realmente, aquele tipo de conselho que se d no 
leito de morte.
        Quer dizer que ele vai simplesmente desistir?
        Acho que ele v voc como um tipo de legado. Assim, 
mesmo que ele se v, bem...  Jason pigarreou e desviou o 
olhar.  Voc viu aquela coisa que eles puseram no pescoo 
dele.  chamada de gefyllan de sefa. Foi criada durante as 
guerras dos magos para combater a Alta Magia.
        O que ?  indagou Seph.  Hastings disse que drena a 
magia.
        Significa "matadora do corao": ela desativa a pedra de 
mago. Uma vez colocada, s o mago que a colocou pode 
tir-la. Ela mata um mago em cerca de cinco dias.
"Parece mesmo um castelo", pensou Linda, olhando para a 
construo. O caminho da doca at a vincola era decorado 
por crisntemos e znias em vasos. Algum tivera um 
trabalho considervel para tornar o lugar atraente, mesmo 
sendo o fim da estao.
Abrindo-se a porta da frente, entrava-se em um enorme 
vestbulo. Um jovem mago postado junto a uma mesa tinha 
chaves para todos. Ele se apresentou como Martin Hall, 
explicando que era o vinicultor dali. Na verdade, o lugar 
estava cheio de jovens magos muito bem-educados: o 
pequeno homem nervoso que tocava o piano de cauda no 
vestbulo e o que a guiou at o quarto dela. Linda teve a 
sensao de que Seph teria reconhecido todos eles.
Ela perguntou a Martin Hall se o dr. Leicester havia chegado. 
Aps um momento de educada perplexidade, ele disse que 
sim, que ele havia chegado. Ento Leicester j estava l havia 
algum tempo. Isso poderia significar que Seph estava em 
algum lugar na propriedade. Se  que ainda estava vivo.
Mas onde estava Hastings? Ela no soubera mais nada. dele 
desde que ele partira para se encontrar com Leicester.
 Voc poderia dizer ao dr. Leicester que eu gostaria de me 
encontrar com ele esta noite, antes do incio da 
Conferncia?  Ela entregou a Martin um carto de visitas. 
 Ele vai reconhecer o meu nome.
O quarto era mobiliado com peas antigas e rplicas, uma 
cama de quatro colunas cercada por cortinas de veludo. A 
janela dava para o lago, embora Linda no conseguisse ver 
muita coisa, por conta do clima e da hora tardia. Mas, 
quando abriu a janela, escutou o som da gua batendo nas 
rochas em algum lugar l embaixo.
Ela instalou o laptop e espalhou os papis que trouxera na 
maleta sobre a escrivaninha, incluindo as duas propostas de 
constituio que haviam sido apresentadas na reunio do 
Conselho na Lendas: a deles mesmos e a de Leicester e 
D'Orsay.
Seus pensamentos se desviavam para bem longe da tarefa 
imediata. Leicester provavelmente no faria um acordo. Por 
que o faria? Ele tinha todas as cartas na mo.
Algum bateu  porta. Era Martin Hall.
        Dr. Leicester pergunta se agora seria uma hora con-
veniente para o encontro.
Ora, ora. Leicester certamente estava ansioso.
        Agora est timo  disse Linda.
Ela apanhou a pasta e seguiu Martin escada abaixo e por um 
corredor nos fundos. Dobraram dois corredores e ento ele a 
levou at uma biblioteca com painis de nogueira.
        Dr. Leicester vir encontr-la em um instante  disse 
Martin, inclinando-se ao sair.
Linda olhou para o aposento ao redor. Estantes cobriam as 
paredes, e havia uma escrivaninha com equipamento de 
computao de um lado. Algum havia acendido o fogo na 
lareira de pedra, e tapetes caros estavam estendidos no piso. 
O cenrio parecia familiar.
Ela abriu a pasta e tirou as fotografias de Seph que Leicester 
havia enviado para Hastings. Sim. Haviam sido tiradas ali, na 
biblioteca. Ento Seph estivera ali recentemente, talvez 
havia apenas um ou dois dias. Ela estudou as fotos. Ele estava 
em p prximo  porta, parecendo vulnervel e com frio, o 
cabelo molhado e colado  cabea.
        Bem-vinda a Second Sister.
Linda deu um pulo ao ouvir a voz de Leicester atrs de si. Ela 
se virou e viu Gregory Leicester emoldurado pelo batente da 
porta, vestindo um suter, calas jeans e tnis nuticos sem 
meias. Ele no fez tentativa alguma de esconder o fato de 
que se sentia totalmente em casa. Por instinto, ela se 
deslocou para o centro do quarto, onde havia mais espao 
para manobras, menos probabilidade de ser acuada contra a 
parede. Ele foi at o armrio, escolheu uma garrafa, tirou a 
rolha com um gesto experiente e serviu dois clices. Passou 
um para Linda.
        Experimente.  um Sauvignon blanc. Uma novidade para 
ns.
Ela deu um pequeno gole.
        Um pouco doce pra mim.
"Este  o seqestrador do seu filho", pensou ela. O torturador 
de crianas.
        Vou pedir a Martin que sirva algo mais seco amanh  
noite  disse Leicester. Ele fez uma pausa.  Fiquei feliz 
em saber que vinha.
        Imaginei que ficaria, j que arquitetou tudo isso  Ela 
virou o clice de vinho nas mos.  Onde est Seph?
Houve um cintilar nos olhos opacos e cinzentos, mas ele 
no disse nada e esperou que ela continuasse. A inteno 
havia sido intimid-la, mas na verdade aquilo exercera o 
efeito oposto. Se ela tivesse um revlver, teria atirado nele. 
Em vez disso, ela bebeu todo o contedo do clice e 
colocou-o de lado.
        Voc o seqestrou. Voc pediu ao Hastings para vir 
encontr-lo, disse que queria fazer um acordo. Quero saber 
onde ele est.
Mais um brilho nos olhos. Divertimento. Expectativa. E, de 
repente, ela sabia o que ele estava prestes a dizer. Ela no 
queria ouvir; no podia olh-lo no rosto quando ouvisse, por 
isso ela lhe deu as costas.
Ele ficou em p logo atrs dela, bem prximo. Ela sentiu a 
respirao dele no pescoo.
        Joseph est morto  disse ele baixinho.  Hastings o 
matou.
Ela deu uma volta para se afastar dele e tornar a encar-lo.
        Mentiroso.
        No desta vez.  Uma pausa.  No quer saber como ele 
o fez?
        No.
        Ele o estrangulou.
Uma imagem daquelas mos fortes em torno da garganta de 
Seph, as articulaes dos dedos brancas, apertando, veio-lhe 
 mente.
        Onde est Hastings? Deixe que ele mesmo me conte.
Leicester olhou com firmeza para ela, sem dizer nada.
        Mostre-me o corpo do Seph  disse ela.  A vou 
acreditar em voc.
        No lago.
        Ento no temos nada sobre o que conversar.
E ela o empurrou, afastando-o do caminho para chegar ao 
corredor.
De volta a seu quarto, Linda se atirou na cama e ficou deitada 
de costas, fitando o escuro ainda mais profundo da abbada 
sobre sua cabea. Sentia-se vazia e gelada, como uma garrafa 
que tivesse sido entornada vezes demais. Ela passara a 
semana inteira chorando. E, agora, quando a verdade era 
pior do que imaginara, os olhos dela estavam secos.
Poderia acreditar em Leicester quando ele dissera que Seph 
fora morto pelas mos de Hastings? No havia dvida de que 
Hastings era capaz de matar. Mas conseguiria tirar a vida do 
prprio filho? Talvez. Para salv-lo de Leicester.
Ela no queria pensar na segunda possibilidade. A 
possibilidade de que Hastings quisesse ter certeza de que 
Linda no faria nenhum acordo por conta prpria.
De um jeito ou de outro, Leicester era um idiota. Ele havia 
cado direitinho no jogo de Hastings. Ele deveria t-la 
mantido no escuro e com esperanas durante toda a 
Conferncia. Agora ela no tinha nada a perder.
Madison se ajoelhou quando algum entrou, mas se deixou 
cair de novo contra a parede quando viu que era Seph.
        Oh,  voc. No achei que fosse voltar to cedo.  
Tremendo, ela apertou o cobertor em torno dos ombros. 
Estava frio, e ela no tinha casaco.  O que o seu pai falou?
        Eu no falei com ele.
Ele se sentou no cho da caverna, deslizando de costas at 
que estivesse apoiado contra a parede oposta  de Madison. 
Estava chovendo forte. Seph estava ensopado, a gua 
pingando-lhe do cabelo e descendo-lhe pelo pescoo.
Jason emergiu das sombras no fundo da caverna e passou 
uma toalha a Seph.
        O que aconteceu?
        No consegui entrar. Eles teceram uma teia ao redor de 
toda a vincola, cercando o terreno. Se ela for rompida, vo 
saber que estamos aqui.
Jason praguejou baixinho.
        Se descobrirem que estamos aqui, no vai ter buraco 
fundo o bastante pra gente se esconder nesta rocha.
Seph afastou o cabelo molhado do rosto.
        Mas por que eles ergueram uma barreira? Quem eles esto 
impedindo de entrar, se no sabem que estamos aqui?
        Eles devem estar tentando impedir todo mundo de sair  
sugeriu Madison, remexendo nos parcos suprimentos de 
comida de Jason com mau humor.
        Enquanto isso, a gente no faz idia do que est 
acontecendo l dentro. E o meu pai vai estar morto em 
quatro dias.
Jason se sentou na entrada da caverna e acendeu um cigarro.
        Hastings acha que Leicester vai esperar pra ver o que 
acontece nas sesses da Conferncia amanh. Talvez 
primeiro eles tentem obter o que querem mediante as tticas 
costumeiras: intimidao e magia mental sutil. Todo o 
Conselho dos Magos vai estar l, supostamente pra garantir 
que est tudo em ordem. Provavelmente eles esto por 
dentro da jogada. Seja ela qual for.
        Voc e o Hastings tinham algum plano para a Confe-
rncia?
Jason fitou o lago.
        O meu plano era me infiltrar no salo de conferncias.
Quando a coisa ficasse preta, eu ia distrair todo mundo com 
um glamour e matar o Leicester e o D'Orsay.
        Isso soa mais como suicdio do que um plano. Voc me 
disse que no h jeito de ele ser derrotado enquanto estiver 
conectado aos ex-alunos.
        Bem,  o melhor que posso fazer, est bem?  Jason 
tragou o cigarro, soltou uma baforada de fumaa.  Vou 
mat-los de medo, de qualquer jeito.
Seph se deu conta de que todo o tempo ele estivera 
contando com Jason ou Hastings para aparecerem com um 
plano, uma sada daquela confuso. Algum modo pelo qual 
ele pudesse ajudar sem assumir a responsabilidade pelo 
sucesso ou fracasso.
Mas Hastings estava acorrentado na vincola, seus poderes 
definhando. Depois do vero que passara com Snowbeard, 
Seph havia ultrapassado as habilidades de Jason em magia, 
tanto em concentrao de poder quanto no uso de feitios 
aprendidos. Os glamoures de Jason eram mais do que 
convincentes, mas no passavam de iluso. No 
representavam uma ameaa fsica. Tudo o que Leicester 
precisava fazer era identificar a fonte e destru-la.
Cada vez mais parecia que Leicester venceria, a menos que 
Seph descobrisse um meio de det-lo. A nica esperana que 
tinham era tom-los de surpresa; e agora isso no 
aconteceria.
        No vamos conseguir nos infiltrar na Conferncia sem 
sermos notados  disse Seph.  No d pra passar pela Teia 
Weir do Barber sem que eles percebam.
        Eu consigo passar.
Tanto Seph quanto Jason se viraram para olhar para Madison. 
Ela abrira uma caixa de enlatados e estava remexendo no 
contedo.
        Do que voc est falando?  perguntou Seph.
        Eu consigo passar pela Teia Weir. Eu posso ajudar vocs. 
 Ela pegou uma lata de sopa, tirou a tampa e passou-a para 
Seph.  Aqui, menino bruxo. Esquente isso.
Seph aqueceu a sopa entre as mos e devolveu-a para ela.
        No gosto disso  disse Jason.  No  s uma questo 
de poder mgico. Se eles apanharem voc...
        Ento no vou deixar que eles me apanhem.  Ela sorveu 
a sopa quente.   melhor do que o seu plano.
        Nisso ela est certa  disse Seph.
        O qu?  indagou Jason.  Voc realmente quer que ela 
entre l sozinha?
Seph balanou a cabea.
        Olha. Todas as pessoas de quem eu gosto esto aqui nesta 
ilha. Estou prevendo que vai haver um banho de sangue se 
no fizermos nada. Se acontecer o pior, a gente no pode se 
esconder nesta caverna pra sempre. Mais cedo ou mais tarde 
seremos pegos. A gente tem talento e o elemento-surpresa. 
Temos de pensar num jeito de fazer isso funcionar contra 
eles.

Captulo Vinte
O Conselho das Ordens

Jack examinou a sala de conferncias com um olhar crtico. 
Era um grande salo de trs andares com uma galeria que 
corria ao longo de trs lados no andar central. Havia uma 
longa mesa polida no centro da sala, cercada por cadeiras. 
Outras cadeiras estavam alinhadas junto s paredes. A mesa 
tinha monitores de tela plana embutidos no tampo  frente 
de cada assento, com teclados em gavetas por baixo. Em um 
dos lados da sala, havia uma lareira to grande que um 
homem alto poderia entrar nela sem se abaixar. Na outra 
extremidade, algum havia servido caf, sucos, salgadinhos e 
bolos.
Jack no tivera a oportunidade de conversar com tia Linda 
desde que haviam chegado. Fora at o quarto dela, mas ou 
ela no estava ou no atendera  porta. Ela passara a manh 
inteira fechada com Nick.
Jack deu uma olhada no monitor mais prximo. Dizia 
"Jackson Swift, Ordem dos Guerreiros". Ele circulou a mesa, 
observando os nomes e as ordens, comprovando o que lhe 
havia sido informado na noite anterior. O subcomit havia 
escolhido dois representantes de cada ordem. Os adivinhos 
eram representados por Blaise Highbourne de Trinity e 
Aaron Biyan de Staffordshire, da Inglaterra. Os feiticeiros 
eram Mercedes Foster de Trinity e Kip McKenzie, da 
Esccia. Os guerreiros,  claro, eram Jack e Ellen. Alm de 
Linda, a outra encantadora era uma mulher negra alta, Akana 
Moon, que Jack conhecera na noite anterior.
Dois delegados para cada uma das cinco ordens, exceto a dos 
magos, que contava com quatro representantes: Leicester, 
D'Orsay, Ravenstock e Nick. Alm de todos os membros do 
Conselho dos Magos, presentes como observadores. 
Membros das outras ordens tambm haviam sido 
convidados, mas nenhum se atrevera a comparecer. As 
lembranas do Mercado ainda permaneciam entre os 
membros das chamadas "ordens servis".
"Magos", pensou Jack com mau humor. Exatamente o que 
menos precisamos. E s um no qual ele sabia que podia 
confiar.
Ellen ps a mo no brao dele.
        Eles continuam tendo apenas um voto, Jack.
Ele desejou que Hastings estivesse ali. Desejou saber onde 
Hastings estava. E Seph e Madison. Queria ser otimista, para 
o bem de Ellen, pelo menos. Ela ainda se culpava pelo ataque 
no parque.
        Voc acha que eles esto aqui em algum lugar?  
perguntou Ellen, como se pudesse ler a mente dele.  O 
Seph e a Madison?
        Quem sabe?
Jack encarara a perda de seus passageiros de modo bastante 
pessoal. Ele derrubaria o prdio, se achasse que poderia 
encontr-los.
Um homem alto e calvo, vestindo um suter cinza folgado e 
calas jeans pretas, emergiu de uma porta lateral e tomou o 
lugar dele  cabeceira da mesa. Jack estudou-o com interesse, 
sabendo que devia ser o infame Gregory Leicester. O diretor 
da antiga escola de Seph. O mago olhou em volta da mesa, 
sorrindo. Seus olhos se demoraram em Linda. Ela ergueu a 
cabea e enfrentou o olhar dele diretamente. Ele estremeceu 
um pouco ante o que quer que fosse que viu no rosto dela.
        Se pudermos todos nos sentar,  melhor comearmos  
disse Leicester.  J estamos um pouco atrasados.
O baixo murmrio de vozes cessou. Jack e Ellen seguiram 
com relutncia para suas cadeiras. Linda ignorou o que a tela 
exibia e sentou-se junto a Nick. Estava plida e tinha 
sombras arroxeadas sob os olhos. Ainda assim, parecia sria e 
determinada, e bastante profissional num terno de riscas 
finas. Jack e Ellen se sentaram do outro lado de Nick, e 
Akana Moon sentou-se ao lado de Linda.
As cadeiras contra a parede se encheram de membros do 
Conselho dos Magos. Jack reconheceu alguns rostos 
familiares. Geoffrey Wylie, o treinador de Ellen no torneio e 
que havia tentado rapt-lo em Trinity no vero passado. 
Jessamine Longbranch, a maga-cirurgi que implantou a 
pedra de Jack, salvando-lhe a vida a fim de sacrific-lo no 
Jogo. E outros que ele no conhecia.
A mo de Ellen se aproximou sorrateiramente e cobriu a 
dele sob a mesa. Ela havia insistido em ir, embora tivesse 
bons motivos para desconfiar de magos. Passara a maior 
parte da vida sob o controle deles. Se ela era capaz de lidar 
com aquilo, ele tambm era. E, para ser sincero, ele estava 
feliz de ter a fora de Ellen a seu lado.
Os participantes do Conselho das Ordens foram todos 
apresentados, e Leicester leu a pauta, que consistia apenas na 
discusso de duas diferentes propostas constitucionais: a que 
Hastings havia apresentado no Conselho dos Magos e a 
defendida por Leicester e D'Orsay. Leicester pediu a 
aprovao da pauta, e Nick ergueu a mo.
        Primeiro, proponho que elejamos um presidente e um 
secretrio  sugeriu o velho mago, a cabea de urso 
montada em seu cajado reluzindo suavemente.
Haviam tentado tirar-lhe o cajado  entrada da sala de 
conferncias. Ele dissera que ento teria de se sentar no 
corredor, pois era um velho de 492 anos e precisava de seu 
apoio. O ex-aluno  porta no era preo para ele, e Nick 
conservou o cajado.
Leicester deu de ombros. Ele havia assumido automati-
camente o papel de presidente.
        Talvez um dos nossos observadores do Conselho de 
Magos esteja disposto?  perguntou, olhando para os magos 
na galeria.
        Proponho que o presidente seja algum que no um mago 
 disse Nick rapidamente.  Acho que isso ajudaria a 
assegurar a alguns dos nossos participantes Anamagos que 
este  um processo justo.
        Eu apoio a proposta  disse Aaron Biyan, o adivinho, sem 
esperar por um convite. Nick havia conversado com todos 
na noite anterior, preparando as intervenes.
        Que proposta?  perguntou Leicester, parecendo 
confuso.
         uma proposta  explicou Nick  em vrias partes.
Imediatamente, Jack sentiu uma presso quase fsica vinda 
dos magos nos assentos dos espectadores. Os Weirs 
Anamagos olharam ao redor, nervosos. Os magos no 
estavam acostumados  democracia. Deixava-os ansiosos.
        Uma proposta foi apresentada ao plenrio  disse 
Leicester.  Haver debate?
         uma boa idia  disse Jeremy Ravenstock, um dos 
representantes dos magos. Talvez isso nos deixe a todos 
mais confortveis.
Ravenstock franziu o cenho para Leicester e sondou a 
galeria. At ento, notou Jack, os magos haviam sido 
responsveis pela maior parte das intervenes.
No houve mais debate. O Conselho das Ordens votou, e a 
proposta foi aprovada. At os magos votaram a favor.
Leicester suspirou.
        Alguma indicao ou voluntrio para presidente?
Blaise Highbourne levantou-se, as pulseiras e colares de prata 
que eram a marca registrada dele cintilando sob a luz dos 
castiais de parede.
        Eu indico Linda Downey.
        Uma encantadora?  Leicester arqueou uma sobrancelha. 
 Est falando srio?
        Eu apoio a indicao  disse a encantadora Akana Moon, 
sem se levantar da cadeira. Parecia nervosa, e sua voz 
tremeu, mas ela falou mesmo assim.
        Ns nem sabemos se a moa aceita exercer a funo  
disse Leicester.  Afinal,  pedir demais de uma...
        Eu aceito  disse Linda.  Sob a condio de que as 
regras sejam bem entendidas. Prometo ser imparcial como 
presidente da reunio. Mas quero deixar claro que pretendo 
defender as questes nas quais tenho maior interesse.
         claro  disse Leicester, divertindo-se.  Todos a favor? 
 A indicao foi aprovada.  Est decidido ento. A 
encantadora  a presidente.
        Meu nome  Linda Downey  disse Linda, em voz clara. 
 Tome nota disso, dr. Leicester.
Leicester ergueu os olhos, surpreso, o sorriso desaparecendo. 
Linda voltou-se para o resto dos participantes.
        Algum voluntrio para secretrio?  Houve outra longa 
pausa durante a qual ningum se ofereceu. Nenhum dos 
magos queria ser secretrio, e nenhum dos representantes 
Anamagos se atrevia a ser voluntrio.  Jack, voc  bom de 
digitao. Pode me ajudar?
        Est bem.
Jack puxou a gaveta para fora, feliz de fazer algo em que 
tinha alguma habilidade.
        Obrigada, Jack  disse Linda.  Agora vamos rever nossa 
pauta. H alguma alterao nos itens?  No havia 
nenhuma.  Bem, eu tenho algo a acrescentar. Antes de 
votarmos nas propostas de constituio que temos diante de 
ns, sugiro que discutamos a questo que conduziu  
discusso de uma nova constituio: a agresso dos magos 
contra os Weirs Anamagos.
Houve um silncio atnito. Ento Claude D'Orsay se ergueu.
        No acho que isso seja construtivo, Linda Downey  
disse ele enfaticamente.  Nosso tempo aqui  limitado e, 
afinal, nos reunimos aqui como pacificadores. Para que 
trazer  tona assuntos antigos que, com certeza, causaro 
ressentimentos?
        Algumas dessas questes so bem novas  disse Linda 
com calma.  Algumas delas so absolutamente atuais.  
Ela cuspiu a palavra.  Aqueles entre ns que no so 
estudantes de histria esto condenados a repeti-la.
A presso mgica vinda das laterais estava aumentando. 
Linda cambaleou um pouco, como se tivesse sofrido um 
golpe fsico. Ela inclinou a cabea e disse algo a Nick. Ele se 
levantou e ps o brao em torno dela, firmando-a. O cajado 
dele se iluminou intensamente.
Aps um instante, Linda conseguiu falar.
        Se os observadores do Conselho no conseguem resistir  
tentao de interferir no processo, ns teremos de esvaziar a 
sala.
        Isso  uma piada  rosnou o mago Geoffrey Wylie de sua 
cadeira contra a parede.
        Eu no lhe dei a palavra, sr. Wylie  disse Linda com 
frieza.  O senhor  um observador, e no um delegado 
neste processo. Fale de novo e ser mandado embora. Pense 
de novo e ser mandado embora.
Os Weirs Anamagos fitaram Linda com um misto de 
admirao e assombro. Jack desconfiava que os magos na sala 
j estavam arrependidos da escolha da encantadora como 
presidente.
Os observadores se aquietaram, ainda furiosos, mas a presso 
se dissipou um pouco.
        H uma proposta de acrscimo desta questo  pauta?  
indagou Linda, olhando para a mesa em torno.
        Eu apresento a proposta  disse Akana Moon, que parecia 
ter encontrado a coragem, e voltou os olhos desafiantes em 
direo ao Conselho dos Magos.
        Eu apoio  disse Jack.
Ah, bem, pensou ele. Talvez todos ns acabemos mortos, 
mas vamos enfrentar os caras at l. Ele estava preocupado 
com a tia, porm. Ela quase parecia estar tentando provocar 
uma briga.
A proposta foi aprovada.
Gregory Leicester falou:
        A fim de poupar tempo, sugiro que adiemos este esforo 
de descobrir a verdade at depois de termos discutido as 
questes constitucionais.
        Isso  uma proposta, dr. Leicester?  perguntou Linda.
Leicester espumou de irritao. Formulou a sugesto como 
proposta, apoiada por D'Orsay. No foi aprovada.
        Se quiser apresentar uma proposta, dr. Leicester, podemos 
tambm reservar tempo para uma discusso sobre os ataques 
de membros das outras ordens contra magos  sugeriu 
Linda afavelmente.
        Isso levaria dois minutos  murmurou Jack a Ellen.
Leicester sacudiu a cabea, tamborilando os dedos sobre o 
tampo da mesa.
        A questo  a agresso de magos contra outros Weirs.  
Linda olhou para a mesa em torno.  Existe algum que 
tenha algo a declarar sobre esse assunto?
Jack se levantou.
        Meu nome  Jackson Swift, guerreiro. Na verdade, eu 
deveria ser um mago, mas a dra. Longbranch aqui implantou 
fraudulentamente uma pedra de guerreiro em mim.  Ele 
apontou para Jessamine Longbranch, depois para Geoffrey 
Wylie.  O sr. Wylie tentou me raptar, para me impedir de 
participar do Jogo. E ento a dra. Longbranch tentou me 
matar quando eu me recusei a jogar para ela.
        Seu mestio ingrato de sangue impuro! Voc nem estaria 
vivo hoje se no fosse por mim  vociferou Longbranch, 
ajeitando a cabeleira negra com as unhas pintadas de 
vermelho. Pareceu que ela ia dizer mais, mas se conteve, 
lanando um olhar a Linda Downey.
        Os guerreiros so criados para os torneios  disse D'Orsay 
com frieza.  Esse  o seu propsito, finalidade, razo de ser 
e meta.  um bom emprego de seus talentos naturais. No 
sei qual  a razo de toda esta lamria.
        E precisamente por isso que precisamos ter este dilogo  
disse Linda Downey.  Algum mais?
Quase todos tinham uma histria, e ganharam cada vez mais 
confiana para cont-las com o progredir da manh. Jack 
estava espantado de ver como tia Linda influenciava o grupo 
sem parecer que o fazia. Incentivava mais detalhes aqui, 
fazia uma pergunta l, rechaava um protesto dos magos na 
sala.
"Ela j fez isso antes", pensou Jack. " algo natural para ela". 
O grupo estava se aglutinando em um s corpo, em uma 
justa revolta contra ofensas comuns a todos. Um corpo 
disposto a tentar um novo comeo.
Finalmente, Ellen Stephenson levantou-se e pigarreou.
        Eu tenho algo a dizer  declarou, a mo deslizando para o 
flanco, tateando por uma arma que no estava l.
        Prossiga, Ellen  disse Linda.
Ellen ergueu o queixo, empertigou-se e encarou Geoffrey 
Wylie, que no parecia feliz com o rumo que a discusso 
estava tomando.
        Meu nome  Ellen Stephenson, guerreira. Fui raptada da 
casa dos meus pais por magos quando eu era beb, para que 
pudesse ser treinada para os torneios. Eles roubaram minha 
infncia e me transformaram numa assassina.  Ela olhou 
para Jack, e ele assentiu com a cabea, encorajando-a.  
Quando eu me recusei a matar o meu amigo Jack, eles me 
atacaram no campo do torneio e tentaram me assassinar.  
Ela olhou para D'Orsay.
        Alguns de vocs sabem de tudo isso, pois estavam 
diretamente envolvidos  disse ela baixinho.
Ela se sentou. Os outros Weirs assentiram e sussurraram 
entre eles.
        Alguma pergunta para Ellen Stephenson?  indagou 
Linda.
        Eu tenho uma pergunta  disse Claude D'Orsay.
        Por que essa menina no contrata um terapeuta, em vez 
de desperdiar o tempo do comit se queixando a respeito de 
sua infncia difcil?
Os participantes da Conferncia protestaram em altos brados.
 Eu tenho uma histria tambm  disse Linda, ignorando 
D'Orsay. Ela olhou para a sala em torno, fazendo uma pausa 
at ter a ateno de todos.  Na verdade, h vrias histrias 
que eu poderia contar, mas gostaria de falar a vocs sobre o 
meu filho.


Madison hesitou junto  orla do bosque, examinando o 
terreno da vincola. No havia ningum por ali. 
Naturalmente, Leicester e os outros estavam reunidos na sala 
de conferncias. Alm disso, estava um dia frio, chuvoso e 
lgubre. Um bom dia para ficar dentro de casa.
        Est vendo?  sussurrou Seph.  Ela d a volta em toda a 
clareira.
Ele estendeu a mo, ento a retirou, como se estivesse com 
medo de tocar em alguma coisa.
        Se voc diz, eu acredito.
        Sabe por quem voc est procurando?
Ela confirmou com a cabea.
        O cara loiro do piquenique, com o cabelo penteado pra 
trs.
        Isso. Ele vai estar em algum lugar tranqilo, vigiando a 
barreira. No se esquea de que voc no quer que ele 
apanhe voc. Voc quer uma descarga de energia. No deixe 
ele pensar que pode pegar voc sem uma descarga.
        J falamos sobre isso  resmungou Maddie.
Voc se ofereceu pra fazer isso, ela recordou a si mesma. 
Mas agora ela s queria que tudo terminasse. Estava com 
medo de desapontar Seph e Jason. E mais todo mundo.
Seph agarrou o brao dela como se pensasse que ela poderia 
sair correndo antes que ele terminasse de falar. As 
sobrancelhas escuras dele estavam franzidas juntas, e os 
olhos mudavam sob a luz, de verde para azul e ento para 
dourado. Entretanto, nem uma gota de poder saiu dos seus 
dedos. Ela jamais encontrara um bruxo com tanto controle.
Por outro lado, Seph McCauley no precisava de nenhuma 
magia para fazer com que ela se derretesse. Ela respirou 
fundo e tentou se concentrar no que ele estava dizendo.
        Se ele apanhar voc, lute como o diabo. Faa-o pensar que 
tem de usar o poder para impedir que voc escape.
        Entendi.
        Ele provavelmente vai reconhec-la do parque. Ento 
voc sabe qual  a sua histria?
        Voc vai me matar de tanta falao ou o qu?  Os dentes 
dela batiam.  Estou congelando aqui.
        Desculpe-me  Ele lhe soltou o brao, parecendo 
embaraado.  S no quero que nada acontea com voc, 
est bem?
        Est bem.
Ela ia se virar, mas ele a puxou para si e beijou-a na testa.
        Para dar sorte  disse ele.
Ela atravessou o ptio, esperando ser aquele tipo de garota 
cuja sorte aumentava com beijos. Entrou pela porta dos 
fundos, que estava destrancada, sacudindo o excesso de gua 
do cabelo. Parou na cozinha deserta, cercada por restos do 
preparo da refeio. Examinou o aposento em busca de 
armas, tirou uma grande faca de trinchar da tbua de carne e 
manteve-a junto ao corpo.
Onde estaria Warren Barber? Ser que ele precisaria ficar em 
algum lugar perto do muro? Ela rezou para que ele no 
estivesse na sala de conferncias, onde a reunio ocorria.
Ela se moveu como um fantasma pelos aposentos do andar 
trreo, ao redor do grande salo. Nada do Barber. A 
respirao dela ficou mais forte e a pulsao se acelerou. O 
tempo estava passando. Ela decidiu tentar o jardim. Talvez 
ele no fosse esperto o bastante para se abrigar da chuva.
Assim que ela pisou no ptio de pedra, ouviu algum 
falando. Cantarolando, como para uma criana pequena ou 
um animal de estimao. Ela andou na direo do som, 
seguindo um caminho de cascalho, entre sebes podadas de 
buxo e canteiros repletos de crisntemos de bordos 
denteados, atravs de um caramancho entrelaado com 
glicnias.
E l estava Warren Barber, executando uma grotesca mmica 
de jardineiro, cuidando de seu muro mgico invisvel. 
Fazendo pequenos ajustes e reparos, endireitando ns, 
retorcendo novos fios para acrescentar nos devidos lugares. 
"Ele deve ser poderoso", pensou Madison. Ainda estava 
chovendo, um chuvisco gelado, mas ele iluminava todo o 
canto do jardim. As roupas dele estavam secas  soltando 
vapor, na verdade. Estava usando algum tipo de feitio para 
manter a umidade  distncia.
Estava to concentrado que ela j o havia quase alcanado 
quando ele ergueu os olhos e a notou.
        Ora, ora  disse ele.  O que  isso?
Madison tentou parecer assustada e determinada ao mesmo 
tempo. O que no era difcil, j que era assim mesmo que se 
sentia.
        O que voc fez com o Seph?
Barber olhou-a de cima a baixo e sorriu, revelando dentes 
tortos. Os olhos azuis eram to plidos que eram quase 
incolores, as pestanas invisveis.
        Eu me lembro de voc. Voc estava no rio com o 
McCauley.
        Onde ele est?  indagou ela, a voz tremendo um pouco.
        Como diabos voc chegou aqui?  perguntou Barber.
        Eu... eu vim no bote com ele.
        Veja s  disse Barber, avanando na direo dela, as 
mos estendidas.   assim que funciona: seja boazinha 
comigo, e talvez eu conte a voc onde ele est.
Madison mostrou a faca que trazia s costas.
        Diga onde ele est e eu no uso isso.
Os olhos de Barber se arregalaram ante a viso da faca. Ento 
ele sorriu.
        No  assim que voc vai me conquistar, amorzinho.
Ele estendeu as mos na direo dela e pronunciou um 
feitio.
Seph e Jason se agachavam entre as rvores, os olhos fixos 
no muro mgico.
        Espero que ela esteja bem  murmurou Jason, talvez pela 
terceira vez.  Quem sabe um de ns devia ter ido atrs 
dela. Sabe como , o Barber  um desgraado filho da...
        Ela sabe o que est fazendo.  Seph olhou para o relgio. 
Quase onze horas. Madison tinha partido havia meia hora, e 
o muro ainda estava em p. Com certeza ela levaria algum 
tempo at achar Barber e pr o plano em prtica. Mas e se 
ela encontrasse outra pessoa no caminho, ou vrias outras 
pessoas?
        O que pode estar demorando tanto?  Jason enxugou a 
gua da chuva do rosto.  E se ela no encontrar o Barber?
        Se ela no encontrar, vai continuar procurando.
Seph verificou as horas de novo. Onze horas. Onde ela 
poderia estar? Talvez eles devessem ir atrs dela.
Voltou a olhar para a vincola. Piscou e olhou de novo. A 
Teia Weir estava enfraquecendo, desbotando-se, 
dissolvendo-se em tufos de nvoa que se rompiam e 
rodopiavam contra a construo. Por um momento, a teia 
pairou como um vapor sobre as pedras. Depois sumiu.
Seph e Jason sorriram um para o outro como idiotas.
        Eu sabia que ela ia conseguir  disse Jason, contente.
        Vamos.
Eles se levantaram e atravessaram o terreno correndo, 
chapinhando nas folhas molhadas. Abaixaram-se  entrada 
que Madison havia usado.
Madison encontrou-os na cozinha, vibrando de alvio.
        Ele est l fora no jardim  avisou, apontando com uma 
grande faca, cortando o ar como uma cimitarra.
Barber estava cado de costas no caminho de cascalho, 
totalmente drenado, ensopado de suor e furioso. Ele estaria 
soltando fumaa, se conseguisse reunir energia para tanto. 
Quando viu Seph e Jason, os olhos dele se arregalaram de 
espanto e medo.
        De volta do mundo dos mortos  disse Jason, sorrindo. 
 Buuu!
        Quanto tempo voc acha que isso vai durar?  indagou 
Seph, olhando para Barber com indiferena.
Madison deu de ombros.
        Voc  o bruxo. No fao idia.
         melhor a gente garantir que ele fique quietinho  disse 
Seph.
Seph se ajoelhou junto a Barber, ps as mos sobre a 
clavcula dele e lanou o feitio de imobilizao sobre ele. 
Barber estremeceu, depois ficou imvel.
Seph viu Madison encarando-o, os olhos azuis destacando-se 
sobre o rosto plido.
        O que voc...?
        No se preocupe. Ele s vai dormir por um bom tempo.
Seph e Jason arrastaram o corpo inerte de Barber para os 
arbustos, onde era menos provvel que o encontrassem num 
momento inoportuno.
Seph se virou para Madison.
        Agora Jason e eu vamos nos tornar imperceptveis, entrar 
no salo e ver o que est acontecendo. Tem um pequeno 
corredor que leva da copa at o salo. Fique escondida l at 
que a gente v buscar voc.
Madison franziu a testa e passou os dedos no cabelo, que 
estava comeando a secar em longas ondas.
        No gosto disso. Acho que a gente devia ficar junto.
Seph tocou-lhe o brao, tentando tranqiliz-la.
        Infelizmente, no tem jeito de pr voc l dentro sem que 
os outros percebam. Por favor, Madison.
Ela acabou assentindo, a testa ainda franzida.
Bruce Hays e Kenyon King estavam postados  entrada do 
grande salo. Ocasionalmente um dos outros ex-alunos 
entrava ou saa para buscar mais bebidas para os participantes 
ou entregar uma mensagem a Leicester. Em uma dessas 
vezes, os imperceptveis Seph e Jason se esgueiraram pelas 
portas atrs deles e entraram na sala de conferncias. Eles 
cruzaram toda a extenso da sala e ficaram em p na grande 
lareira, da qual tinham uma boa viso do plenrio.
Os representantes Weir estavam sentados em torno de uma 
mesa de carvalho polido. Os membros do Conselho dos 
Magos, em cadeiras na parte externa da sala, junto s 
paredes. Para a surpresa de Seph, Linda Downey estava  
cabeceira da mesa, dirigindo a reunio. Ela parecia zangada, 
plida e cansada.
        Qual delas  a sua me?
A voz de Jason o assustou, surgindo do nada.
         aquela que est falando.
Era a primeira vez que Seph a via desde que descobrira que 
ela era sua me. Ele a observou,  procura de algo de si 
mesmo nela. Imaginou que se parecia mais com o pai, 
embora talvez algo nos olhos...
        Ei  sussurrou Jason.  Ela est falando de voc.
        Eu tive um filho chamado Joseph Downey McCauley
        estava dizendo Linda.  Leander Hastings era o pai dele.
Ela estava falando no pretrito.
E ENTO SEPH FINALMENTE ENTENDEU. ELA ACHA QUE ESTOU 
MORTO. POR ISSO  QUE ELA EST TO ZANGADA.
        Escondi o meu filho para mant-lo fora de perigo, para 
mant-lo longe de magos que poderiam us-lo como uma 
arma contra o pai dele. Abri mo dele para proteg-lo.
        Ela fez uma pausa.  No ano passado, ele foi parar na 
escola particular de Gregory Leicester. O dr. Leicester o 
torturou por quase um ano.
        McCauley era mago  protestou Leicester, tambm no 
pretrito.  O que quer que tenha acontecido, essa  uma 
questo entre magos.
        Um ataque contra o meu filho  um ataque contra mim  
disse Linda Downey.  Eu consegui resgat-lo do Porto 
Seguro. Na semana passada, contudo, o dr. Leicester o raptou 
de novo.
        No seja ridcula!  bradou Leicester.  O menino se 
perdeu numa tempestade no lago. No tive nada a ver com 
isso.  impossvel, na verdade.
Linda ignorou-o.
        O dr. Leicester fez isso para impedir que Leander Hastings 
viesse  Conferncia.
        Voc no tem prova de que eu estava por trs disto  
objetou Leicester.
Linda passou um pen drive para Jack.
        Voc poderia exibir essas imagens?
Jack acoplou-o  porta do computador. Pressionou algumas 
teclas e, em poucos minutos, uma imagem se materializou 
nas telas, substituindo a pauta. Era Seph, as mos amarradas 
s costas. Seph na biblioteca.
        O dr. Leicester enviou essas fotografias ao Hastings. Foram 
tiradas aqui na vincola. Se quiserem, posso lhes mostrar o 
local exato.
Leicester se recostou na cadeira e ps as mos espalmadas 
sobre a mesa.
        No entendo qual  o propsito disto  disse ele.  
Afinal, eu no matei o rapaz. Foi o Hastings que o matou.
Ao dizer aquelas palavras, ele confirmava tudo. Mais uma 
vez, a sala ficou em silncio. Jack estava plido, as 
articulaes dos dedos brancas nos pontos em que ele 
segurava os braos da cadeira. Ellen enxugou lgrimas do 
rosto e olhou furiosa para Leicester. Blaise e Mercedes 
fitavam a mesa.
        Qual  o meu propsito?  Havia manchas de cor nas 
faces de Linda, e o dourado voltava a seus olhos.  Ns 
vamos analisar duas possveis constituies Weir para 
substituir a que foi revogada na Ravina do Corvo no ano 
passado. Uma delas praticamente ressuscita o velho sistema. 
A outra introduz uma nova ordem. Foi dito a vocs que o 
sistema atual no precisa ser consertado.
Quero ter certeza de que todos os representantes das ordens 
se lembram da nossa histria, e do preo que temos pagado 
por todos esses anos de dominao dos magos. Tambm 
quero que eles entendam quem exatamente so essas 
pessoas.
        Estou gostando cada vez mais da sua me  disse Jason.
Seph apenas concordou com um gesto de cabea, sem dizer 
nada.
Linda retornou  pauta.
        Agora daremos aos defensores de cada uma das propostas 
de constituio dez minutos para apresentar os mritos e a 
lgica de suas constituies. Dr. Leicester, sr. D'Orsay?
Ainda parecendo um pouco perturbado, D'Orsay se levantou 
e se dirigiu aos representantes. A essncia do argumento 
dele era que, apesar de algumas falhas, a velha hierarquia era 
um sistema bom, que atendia s necessidades de todos. O 
papel das vrias ordens era claro e compatvel com os 
talentos de cada um. As Leis de Combate haviam criado um 
tipo de Pax Romana que durara sculos, mantendo o 
derramamento de sangue e os conflitos ao mnimo. Embora 
tivesse havido alguns excessos lamentveis aqui e ali, no 
todo os magos haviam sido governantes benevolentes.
No final, Leicester props que a nova constituio fosse 
aceita. D'Orsay apoiou-a. Foi levada  votao e comple-
tamente derrotada, por quatro a zero, com os magos se 
abstendo por estarem divididos no voto, dois a dois.
Jeremy Ravenstock apresentou a segunda proposta de 
constituio, j que era o nico presente que a apoiara no 
Conselho dos Magos. Ele era um orador franco e brusco, 
nada potico. Nick disse algumas palavras em apoio tambm, 
e ento Linda assumiu.
Ela olhou para a mesa ao redor, nos olhos de cada um dos 
participantes.
 Eu sei que isto tem sido difcil. Todos vocs assumiram 
um grande risco ao concordar em participar. O fato de 
estarem aqui prova que sabem o que est em jogo. 
Compreendo que vocs no esto acostumados a dizer no 
aos magos. Mas quero que pensem em como eram as nossas 
vidas sob a velha hierarquia. Quero que pensem em tudo o 
que ouviram aqui esta manh. Esta  a nossa oportunidade de 
garantir que ser diferente para os nossos... filhos.  A voz 
dela falhou.  Que vergonha para ns se a desperdiarmos!
Seph fitou a me. Ela era uma mulher pequena, e no era 
maga, mas mantinha cativa toda a Conferncia das Ordens, 
tanto os magos quanto os Weirs Anamagos. De alguma 
maneira, ela fazia a liberdade parecer possvel para os Weirs 
Anamagos, que haviam sido oprimidos por anos.
A constituio Hastings-Downey foi aprovada pelo Con-
selho das Ordens, de novo por uma votao de quatro a 
zero.
Leicester fez um gesto, e Bruce Hays deixou a sala.
Seph olhou para as janelas da galeria acima, tentando 
imaginar que horas eram. Provavelmente no era ainda 
meio-dia, mas a luz que entrava pelas janelas diminura, e a 
chuva intermitente havia se transformado em tempestade.
Entretanto, Linda no havia terminado. Ela olhou sobre as 
cabeas daqueles  mesa e falou aos representantes do 
Conselho dos Magos alinhados contra a parede.
        O dr. Leicester alega que o assassinato do meu filho  uma 
questo entre magos. Muito bem. As Leis de Combate h 
muito tempo probem a guerra entre os magos. Se o dr. 
Leicester testemunhou o assassinato do meu filho pelas mos 
do Hastings, ento o que ele fez a esse respeito? Onde est o 
Hastings? Hastings  um colega de vocs, um membro do 
Conselho dos Magos. Talvez se deva permitir que ele fale em 
defesa prpria.
Os magos na galeria se remexeram. Murmrios correram 
entre eles como vento atravessando o capim alto.
        Onde est o Hastings?  indagou Longbranch.  Estou 
surpresa que ele tenha perdido este evento, j que foi um de 
seus arquitetos.
        Estou surpreso que voc se permita ser dirigida e 
interrogada por uma encantadora  disse Leicester com 
acidez.  Este  um negcio entre magos, como falei.
        Mas o Hastings  um membro do Conselho dos Magos  
retrucou Ravenstock.  E merece tanta proteo das regras 
quanto o resto de ns.
        Leander Hastings  um assassino, um maquinador e um 
traidor de sua gente  disse Adam Sedgwick.
        Como qualquer outro mago  resmungou Jason.
Seph lembrou que Sedgwick era um aliado de Leicester, que 
o havia apoiado na reunio na Lendas. Era um homem alto 
de aparncia aristocrtica, provavelmente o mago mais 
jovem no Conselho.
        Ele tem encorajado essa rebelio das ordens servis 
trabalhando como porta-voz e instigador  continuou 
Sedgwick.  Acham que eles teriam tido sucesso a esse 
ponto sozinhos, sem o apoio de magos?
        Ento onde ele est?  perguntou Geoffrey Wylie, 
olhando ao redor num gesto incisivo.  Se isto  uma 
maquinao dele, cad o maquinador?
        Se este  o triunfo dele, ento por que ele no est aqui 
para sabore-lo?  acrescentou Ravenstock, empolgando-se. 
 Como membro do Conselho ou participante, ele deveria 
estar aqui.
        Talvez devssemos realizar uma busca na rea  sugeriu 
Linda.  Talvez o Conselho dos Magos gostasse de 
perguntar ao dr. Leicester por que ele tem recrutado, tortu-
rado e escravizado mais de uma dzia de jovens magos na 
escola que ele chama de Porto Seguro. Talvez o Conselho se 
interesse em saber o que o Leicester e o D'Orsay planejam 
fazer com esse tipo de poder. Vocs realmente acreditam 
que ele planeja utiliz-lo contra encantadores, guerreiros, 
feiticeiros e adivinhos?
O baixo zumbido vindo das laterais cresceu at se tornar um 
rumor. Seph estremeceu.
        Vou contar a eles onde o Hastings est  disse ele.
Jason segurou-lhe o brao.
        Alguma coisa vai acontecer. Deixe primeiro eles mos-
trarem as cartas que tm na mo.
Bruce Hays retornou e entregou a Gregory Leicester um rolo 
de pergaminho. Leicester pigarreou.
        Discutiremos essas questes num instante. Mas, antes de 
nos desviarmos do assunto, por que no terminamos o que 
comeamos? Temos uma nova constituio para assinar.
        Isso no faz sentido  disse Jason.  Ele no pode estar 
ansioso para assinar a nova constituio.
Em resposta, Seph ergueu o olhar para a galeria. Sem que os 
demais participantes da Conferncia percebessem, os ex-
alunos estavam se alinhando ao longo do corrimo, olhando 
para baixo. Todos menos Warren Barber, que jazia imvel 
no jardim.
Leicester falava de novo.
        Precisamos que um representante de cada ordem assine. 
Vocs podem decidir entre vocs quem ter essa honra.  
Ele fez uma pausa.  Vamos comear pela Ordem dos 
Adivinhos.
Blaise Highbourne e Aaron Biyan estavam sentados juntos 
numa das laterais da mesa. Hays levou o pergaminho at eles 
e colocou-o diante dos dois. Biyan apanhou a caneta, mas 
Blaise estava lendo. Ele ps o dedo na pgina, releu uma 
passagem.
Seph, que estava observando o rosto dele, viu algo mudar. 
Blaise olhou para Leicester.
        Este no  o documento no qual votamos.
Leicester deu de ombros.
        O documento  diferente daquele que discutimos 
previamente.  A voz dele endureceu.  Mas vocs vo 
assin-lo mesmo assim.
Jeremy Ravenstock se levantou.
        Ns j escolhemos uma constituio  disse ele 
friamente.  No vamos assinar nenhuma outra.
Leicester olhou para os ex-alunos na galeria acima, depois 
novamente para Ravenstock. Ele estendeu a mo, e um raio 
de chamas azuis irrompeu-lhe das pontas dos dedos. Por um 
momento, Ravenstock era uma silhueta, girando com a fora 
do golpe, delineado em chamas. E, no momento seguinte, 
ele estava cado imvel ao cho, o piso de pedra chamuscado 
sob seu corpo. Um tufo de fumaa subiu em espiral, e o ar se 
encheu com o odor de carne queimada. Houve um silncio 
atnito.
        Preciso de apenas um mago  disse Leicester.  E eu 
vou assinar. Todos os demais so dispensveis. O nosso 
experimento sobre governo representativo chega  sua 
concluso.
A um gesto de D'Orsay, todas as portas do salo se fecharam 
e se trancaram.
Vrios membros do Conselho se puseram em p.
        O que pensa que est fazendo?  indagou Wylie, furioso.
        Isto.  Absorvendo a fora dos ex-alunos na galeria, 
Leicester lanou um feitio de imobilizao que caiu sobre 
todos na sala, paralisando-os e pregando-os aos assentos. As 
excees eram Claude D'Orsay, Adam Sedgwick e uma 
mulher que Seph no conhecia, que haviam erguido escudos 
antes de o feitio ser lanado. Alm,  claro, de Seph e 
Jason, que recuaram para o fundo da lareira.
D'Orsay tomou o lugar dele ao lado de Leicester. Sedgwick e 
a maga se juntaram a eles, sorrindo.
        Quem  a mulher junto do Sedgwick?  indagou Seph a 
Jason.
        Nora Whitehead. No  flor que se cheire  respondeu 
Jason.
D'Orsay falou:
        Estimados colegas, membros do Conselho dos Magos, eu 
gostaria de agradecer a todos vocs por comparecerem a esta 
pequena reunio. Isso tornou a nossa tarefa bem mais fcil.
Ele sorriu.
        Vocs pensaram realmente que eu me empenharia tanto 
assim para satisfazer  classe dos servos?  Ele balanou a 
cabea.  Foi a desculpa perfeita para reunir os membros 
mais poderosos da Ordem dos Magos num nico lugar. Ns, 
magos, no podemos mais nos dar ao luxo de debater 
interminavelmente e lutar entre ns. Entendam, ns nos 
tornamos fracos com o passar dos anos. Sem garra. Que outra 
explicao existe para essa rebelio das subordens? Ela 
deveria ter sido sufocada de imediato e sem piedade. 
Acreditamos que  hora de nos unirmos sob um pacto novo 
e mais simples, com regras de sucesso claras.
Leicester desenrolou o pergaminho, alisou-o contra a 
superfcie de nogueira da tribuna, pigarreou e comeou a ler 
para a audincia cativa.
Estava tudo l. A restaurao da hierarquia das ordens. A 
codificao do status subserviente daquilo que Leicester 
chamava de as ordens inferiores. A abolio do Santurio. A 
implementao de um programa de procriao de guerreiros, 
com a futura retomada dos torneios.
Entretanto, sob o novo regime, os torneios seriam mantidos 
em nome da tradio, apenas para fins de entretenimento. O 
papel que os torneios exerciam na distribuio de poder no 
seria mais necessrio. Gregory Leicester e Claude D'Orsay 
seriam nomeados mestres de ordem vitalcios, com controle 
sobre os artefatos mgicos de ambas as casas de magos, e seus 
cargos seriam transmitidos por descendncia linear para os 
filhos do sexo masculino. Os ex-alunos formariam o ncleo 
de uma fora disciplinar ligada a Leicester e D'Orsay. Eles 
julgariam quaisquer disputas entre os magos e administrariam 
punies aos outros magos como achassem apropriado.
Quando Leicester terminou de ler, olhou para a sala em 
torno.
        Alguma pergunta?
Um dos magos do Conselho, um homem mais velho 
vestindo um casaco bordado com rosas vermelhas e que 
Seph no conhecia, falou:
        Sim, eu tenho uma pergunta. Vocs dois perderam a 
cabea?
D'Orsay inclinou a cabea para Leicester, e este incinerou o 
velho ali mesmo. No houve mais nenhuma pergunta.
        Ento  disse Leicester.  Vamos prosseguir com as 
assinaturas.  Ele dirigiu a ateno aos adivinhos, Aaron 
Bryan e Blaise Highbourne.  Sr... Biyan, no ? Vejo que j 
est com a caneta na mo. Sr. Hays?
Bruce Hays empurrou o pergaminho para a frente dele.
Bryan deixou a caneta cair na mesa e sacudiu a cabea com 
teimosia, olhando para os outros  mesa em busca de apoio. 
Hays agarrou-lhe o ombro, atingindo-o com seu poder, 
atravs da mo. O adivinho arquejou de dor, o sangue 
deixando-lhe o rosto. Hays se inclinou e falou-lhe baixinho 
ao ouvido. Levou apenas alguns minutos. O adivinho 
assinou.
Leicester sorriu.
        Isso no foi difcil, e no tem de ser doloroso. Depende de 
vocs.
Eles passaram para a Ordem dos Feiticeiros, e Hays focalizou 
seus poderes de persuaso em Kip McKenzie, em vez de 
Mercedes. Trinity havia sido um foco de rebelio por um 
longo tempo. Leicester e D'Orsay aparentemente tinham 
esperanas de que os outros representantes fossem mais 
fceis de intimidar.
Kip no agentou por muito mais tempo do que Aaron 
Bryan. Qualquer um podia ver que era uma causa perdida. A 
iluso de poder que todos haviam saboreado por to pouco 
tempo se dissipava como a suave brisa do lago. Eram 
somente os magos, mais uma vez, criando todas as regras, 
manipulando as pessoas.
Hays levou o pergaminho para Akana Moon. Mas Leicester 
sacudiu a cabea. Ele caminhou ao longo da mesa at estar 
em p atrs de Linda Downey. Pousou as mos de leve nos 
ombros dela, como quem toma posse formalmente.
        Talvez Linda Downey queira ter a honra  sugeriu 
Leicester, enfatizando o nome.  J que ela teve um papel 
to importante nas discusses de hoje.
Linda fitou direto em frente, uma mscara de indiferena no 
rosto.
"Ela vai preferir morrer a assinar o documento do Leicester", 
pensou Seph. Ele olhou para a sala em volta. Todas as portas 
estavam magicamente seladas. No havia maneira de pr o 
plano deles em execuo.
        Temos de alcanar a Madison  disse ele a Jason.
        No temos como atravessar paredes.
Seph espiou pela chamin e sacudiu a cabea. Nem mesmo o 
corpo magro de Jason passaria por ali.
 mesa, Akana Moon olhou de Leicester para Linda. Ela 
puxou o pergaminho para si.
        Eu assino  disse ela rapidamente.
E o fez.
S restavam Jack e Ellen, os dois guerreiros, ambos da faco 
de Trinity.
        Quem vai ser?  perguntou Hays, sorrindo.
Ellen e Jack olharam um para o outro, como se estabe-
lecessem um pacto de resistncia entre eles.
Hays olhou de Jack para Ellen, em dvida. Aps um 
momento de indeciso, escolheu Ellen e ps as mos nos 
ombros dela. Uma energia crepitante penetrou-a. Ela ficou 
rgida, arfando um pouco, os olhos arregalados, mas sem 
dizer nada. Ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela. Jack, 
observando, parecia prestes a saltar da prpria pele, mas 
Ellen sacudiu teimosamente a cabea.
        Ellen  disse Linda em tom aptico.  Por favor, no faz 
diferena. Voc pode muito bem assinar.
Ellen balanou a cabea, e Hays atacou-a novamente com as 
chamas. Todo o sangue foi drenado do rosto de Ellen. Ela 
mordeu o lbio at sangrar, ainda sem dizer nada. Aquilo 
pareceu durar uma eternidade. Ento ele a soltou, e a cabea 
dela caiu para a frente, o suor pingando-lhe do rosto sobre a 
mesa. Jack deu um longo suspiro.
Hays olhou para Leicester, dando de ombros sem saber o 
que fazer.
        Tenho receio de que... se eu fizer mais, ela possa morrer.
Leicester suspirou.
        Voc est lidando com isso de maneira totalmente errada. 
D a caneta ao rapaz. Mate a garota se ele no assinar.
Hays pareceu intrigado com a idia, mas no teve de pensar 
muito, pois Jack rabiscou o nome dele no documento e 
jogou-o de volta para Hays. Ellen olhou furiosa para ele, 
porm ele no a encarou. E assim estava feito.
quela altura, Seph e Jason haviam atravessado o salo, 
testando todas as portas, s para ter certeza. Todas trancadas. 
Leicester e D'Orsay queriam assegurar-se de que ningum 
escaparia da festa mais cedo. Mas, quando Seph olhou para 
os ex-alunos na galeria acima, percebeu que alguns deles 
estavam faltando.
Depois que a constituio foi "aprovada" houve uma breve 
pausa enquanto Leicester examinou-a e assinou-a com um 
floreio em nome dos magos.
        Agora, tudo o que resta  levar esta nova constituio para 
a Ravina do Corvo e consagr-la  disse Leicester.  Mas 
primeiro temos uma questo de disciplina a resolver.

Captulo Vinte e Um
Justia de Magos

O tempo passava lentamente no quarto no poro atrs da 
cmara de fermentao. No havia um jeito claro de marcar 
a sua passagem, nenhuma evidncia relacionada ao clima ou 
aos eventos no mundo l fora. Martin trouxera o caf da 
manh a Hastings no dia anterior, mas no aparecera desde 
ento. Por isso, Jason no havia conseguido voltar para falar 
com ele.
Hastings no estava com fome, de qualquer maneira. Dormia 
cada vez mais, para o corpo conservar as energias, resistir  
drenagem do poder de sua pedra.
Era algo a que no estava acostumado, deixar-se apanhar em 
armadilhas. Ele havia passado uma vida inteira evitando-as. 
Contudo, Seph estava a salvo, fora de perigo, pelo menos por 
enquanto. quela altura, ele deveria estar em Trinity. 
Hastings se consolava com isso. A linhagem dele era antiga e 
continuaria por intermdio de Seph. Durante mais de cem 
anos de risco e intriga, aquilo nunca parecera importante. 
At aquele momento.
Um leve som  porta alertou-o da chegada de algum. O 
ferrolho deslizou, e seus olhos foram ofuscados quando o 
interruptor foi ligado e a lmpada se acendeu. Algum se 
aproximou e ficou em p junto dele, iluminado por trs pela 
lmpada.
        Sr. Hastings.
        Martin? Que surpresa agradvel!
Aquelas poucas palavras pareceram consumir-lhe todo o 
flego. Martin se ajoelhou ao lado dele.
        Eles j vm buscar o senhor. S temos alguns minutos.
        Eles vm me buscar?  Hastings tentou demonstrar uma 
fagulha de interesse.  Para qu?
        Para matar o senhor. J tem dois magos mortos.  Martin 
fitou o cho.  E acho que vamos matar mais algumas 
pessoas depois do senhor.
        Quem morreu?
        Ravenstock. E Hadrian Brennan, do Conselho dos Magos.
        Do Conselho dos Magos?  A mente vagarosa de 
Hastings tentou encaixar aquilo em algum esquema.  Por 
que vocs os esto atacando? O que est acontecendo?
Os olhos de Martin se voltaram para longe.
        O dr. Leicester escreveu uma nova constituio. Todos 
acabaram de assinar. Ele e o D'Orsay so reis vitalcios. Algo 
assim.
        Entendo. Ento, Martin, por que voc est aqui?
        Eu queria dizer que sinto muito por tudo o que aconteceu.
Hastings suspirou.
        Se veio fazer uma confisso, no vejo como eu possa lhe 
dar a absolvio.
Mas Martin foi em frente.
        Eu entendo por que o senhor matou o Joseph. Foi um ato 
de coragem. O dr. Leicester estava... estava torturando ele. 
Leicester  um covarde. Tinha medo do Joseph. At... at 
com a nossa ajuda.  por isso que manteve ele dopado com 
Antiweir. E ele tem medo do senhor.  por isso que me 
mandou colocar o torque.
E ento, inesperadamente, ele sorriu. Os olhos castanhos se 
iluminaram atrs dos culos.
        Somente o mago que coloca a gefyllan de sefa pode retir-
la  disse ele, estendendo as mos para a coleira.
Hastings ergueu uma mo.
        Tem certeza de que quer fazer isso? Provavelmente no 
vai fazer muita diferena no fim.
        Faz pra mim.
        Leicester vai matar voc.
        Eu realmente no ligo.
Mais uma vez, Martin estendeu as mos na direo de 
Hastings, segurou a coleira e mexeu no fecho. O torque caiu, 
retinindo no piso de pedra. Estava preto como fuligem, 
manchado e irreconhecvel como a coleira ornada de pedras 
preciosas que Martin colocara nele trs dias antes.
O efeito imediato foi tudo menos agradvel. O pouco poder 
que sobrara em Hastings retornou com fora  pedra, 
protegendo a fonte acima de tudo o mais. Por um momento, 
Hastings achou que ia vomitar em cima de Martin Hall. Ele 
se recostou contra a parede, respirando fundo.
        No  que eu seja ingrato, mas  uma pena que voc no 
tenha feito isso um ou dois dias antes.
Martin apanhou a coleira.
        Agora vou reverter o feitio. Mas receio que leve algum 
tempo pra restaurar o poder da pedra por completo. E...
Martin olhou em direo  porta. Hastings ouviu tambm. 
Algum se aproximando.
Martin afivelou de novo a coleira em torno do pescoo de 
Hastings, com pressa. Hastings no pde fazer nada alm de 
se submeter. Teria preferido morrer livre. Martin murmurou 
o contra-feitio enquanto a porta se abria.
Leicester havia mandado apenas trs dos ex-alunos para 
busc-lo, um reflexo dos poderes supostamente reduzidos de 
Hastings e da necessidade de vigiar aqueles reunidos no 
salo. O lder, Bruce Hays, parou ao ver Martin.
        O que voc est fazendo aqui?
        Eu pedi ao sr. Hastings para nos perdoar por tudo o que 
fizemos  disse Martin, sem hesitao.  Queria que ele 
entendesse que no tivemos escolha.
        Oh, por favor.  Hays revirou os olhos.  No entende 
quo poderosos vamos ser sob a nova constituio? Vamos 
ser aqueles que aplicam as punies. Vamos ter todos os 
brinquedos  nossa disposio. Acesso ilimitado s ordens 
servis.
Hastings podia sentir o poder retornando, um leve gotejar, 
como um bom conhaque descendo-lhe at as entranhas. 
Muito devagar.
Hays soltou as correntes da parede. Eles o puseram em p e 
o empurraram em direo  porta. Martin Hall seguia atrs. 
Eles quase o carregaram escada acima, para fora do poro, e 
para o ar mais fresco l em cima.
Hastings olhou rapidamente ao redor quando entraram no 
salo. Os representantes Weir estavam sentados em torno de 
uma grande mesa no centro da sala, com os corpos presos 
aos seus lugares. Cerca de 30 membros do Conselho dos 
Magos estavam alinhados junto  parede, similarmente 
incapacitados.
Linda estava sentada  cabeceira da mesa. Leicester estava 
em p logo atrs dela, as mos pousadas sobre seus ombros. 
Linda exibia no rosto sua mscara de encantadora, a 
expresso cuidadosamente vazia que podia significar 
absolutamente qualquer coisa. Hastings podia ver que isso 
frustrava Leicester, e conteve um sorriso.
Mas ento Linda viu Hastings, e a mscara escorregou um 
pouco. A expresso dela era complexa: surpresa, medo, uma 
pergunta. "Ela acha que eu matei o nosso filho", recordou-se 
Hastings. E deu-se conta de que ela poderia nunca descobrir 
a verdade.
A extremidade oposta da sala era dominada por uma enorme 
lareira. Uma espcie de cepo  como aqueles usados 
antigamente para decapitao, s que de pedra  fora 
colocado logo em frente a ela. Os jovens magos de Leicester 
se agitavam a seu redor. Aquele, ento, seria o destino deles.
Hays posicionou Hastings logo atrs do cepo. Os ex-alunos 
dispuseram-se em dois arcos em cada lado da lareira com a 
pedra no centro, voltados para a mesa de conferncia. Os 
magos na faixa externa do salo e os outros Weirs  mesa se 
remexiam e sussurravam como uma classe ao fim da aula.
Leicester encarou o pblico.
 Sob a nova constituio, a punio para atividades desleais 
ser rpida e direta, como era nos sculos passados. Isso ser 
bom para todos ns. Por anos, um mago traidor que se 
intitula Drago tem interferido na administrao das Leis de 
Combate e incitado as ordens servis  rebelio contra os seus 
senhores e mestres legtimos. O fato de ele ter sobrevivido 
por tanto tempo comprova o nosso fracasso em organizar 
sistemas de punio. Por meio dos nossos esforos, 
capturamos o Drago e desativamos o dom que ele desonrou 
e usou impropriamente. Vamos agora administrar a justia 
diante dos olhos de vocs.
Um rumor de excitao e horror passou pelo pblico: muda 
excitao dos magos na periferia e horror ao redor da mesa.
Dois dos ex-alunos se adiantaram, carregando um manto de 
veludo decorado que colocaram sobre os ombros de 
Leicester. Dois mais vieram  frente trazendo um longo 
estojo ornado de pedras preciosas. Eles se ajoelharam diante 
de Leicester e abriram o estojo. Ele retirou de dentro um 
cajado elaborado, que segurou no alto com as duas mos.
        Leander Hastings, conhecido como o Drago, voc foi 
condenado por traio e por incitar a rebelio entre as 
ordens servis. Tem algo a dizer antes da sentena?
Hastings arqueou as sobrancelhas.
        Eu fui condenado? Acho que perdi esse julgamento. Por 
qual tribunal?
        Voc  um traidor, Hastings. No merece um julgamento 
formal.
Hastings olhou-o de cima a baixo.
        Voc sempre gostou de espetculo, Gregory. V em 
frente, ento.
        Por esses crimes, voc est sentenciado  morte. Sentena 
a ser executada imediatamente.
        Leicester! Pode me conceder a palavra?  perguntou 
Linda.
Hastings praguejou baixinho.
        Linda, no. Deixe pra l.
Linda ignorou-o.
        Tenho algo a dizer em relao aos crimes deste homem.
        Acabe com isso de uma vez, est bem?  disse Hastings a 
Leicester.  Voc no tem outros assassinatos a cometer 
ainda hoje  noite?
Hastings olhou para os magos contra a parede, e eles se 
remexeram, nervosos.
Leicester sorriu.
        No, Hastings, acho que ela merece ser ouvida. Afinal, 
voc assassinou o filho dela.  Ele se voltou para onde 
Linda estava sentada, colocou-a em p com um
puxo e levou-a para a frente da sala, virando-a para o 
acusado.  Fale!
Mas Linda no falou a Hastings. Em vez disso, virou-se para 
dirigir-se  assemblia.
        Leicester e D'Orsay merecem elogios. Deus sabe que eles 
so eficientes. Arriscando a vida, eles seqestraram um 
adolescente para que pudessem atrair o Drago aqui para 
Second Sister. Capturaram o notrio Leander Hastings, 
trancaram-no numa adega e, em poucas horas, condenaram-
no por um crime capital. Agora eles se propem a execut-lo 
sumariamente. Quais so os crimes do Drago? Ele  
conhecido pelo hbito de fazer perguntas difceis. Ele  um 
mestre espio que revira pedras e expe o que h por baixo 
delas. Ele revela segredos. Algumas vezes, seus seguidores 
roubaram objetos mgicos e explodiram coisas. Mas me 
parece que o maior crime do Drago tem sido o de revelar a 
verdade por trs da hierarquia das ordens.
Seria possvel ouvir o bater das asas de uma borboleta no 
salo. O murmrio da neve sendo peneirada pelos galhos das 
rvores.
D'Orsay sacudiu a cabea como se no pudesse acreditar no 
que estava ouvindo.
Linda prosseguiu.
        A tirania  a forma mais eficiente de governo. Mas eu diria 
que um julgamento formal tem seus mritos. Que h uma 
diferena entre eficincia e justia. Porque Leander Hastings 
no  o Drago. Eu sou.
Assim que ela o disse, Seph soube que era verdade. Pela 
maneira elegante pela qual ela havia exposto Leicester e 
D'Orsay. Pelo olhar no rosto de Leander Hastings. Pelos 
tantos mistrios finalmente explicados.
A soluo para um quebra-cabea parece bvia, uma vez que 
se saiba qual .
Jason deu-lhe uma cotovelada.
        Ento, Seph. Parece que voc  o filho do Drago, afinal 
 disse ele, com ironia.
Leicester e D'Orsay fitavam Linda como se nunca a tivessem 
visto antes. E como se nunca fossem subestim-la outra vez.
        Ento  disse Leicester, tentando recobrar o equilbrio 
, temos aqui o crebro e o corpo da rebelio. Estamos muito 
gratos por ter falado, srta. Downey, a tempo de impedir um 
srio erro da justia. Parece que duas execues so 
necessrias, em vez de uma.
        Ora, vamos, Gregory  disse D'Orsay, afobado.  
Certamente, no. Tanto desperdcio, quero dizer, uma 
encantadora? Com certeza ela pode ser reabilitada.
        Temos de fazer alguma coisa  murmurou Seph.  
Mesmo que no d pra fazer o que a gente havia planejado.
        Vamos nos dividir e tomar os nossos lugares  sussurrou 
Jason.  Vou subir at a galeria.
Seph se escondeu na recmara adjacente  copa. Ele se virou 
e bateu de leve  porta protegida por feitios, torcendo para 
ser ouvido por Madison, mas no por Leicester ou D'Orsay.
        Madison!
Nenhuma resposta. Seph voltou-se para o salo e espiou do 
seu esconderijo junto  lareira.
Leicester havia vencido, pois os pais de Seph estavam sendo 
escoltados para a frente da sala por um grupo de nervosos 
ex-alunos, enquanto o diretor aguardava em p com o 
cajado. Parecia ser o mesmo que ele usara naquela noite na 
capela ao ar livre, quando tentara recrutar Seph. Aquilo 
parecia ter ocorrido uma dcada atrs.
        Quem sabe, s desta vez, possamos abdicar do "primeiro 
as damas"  disse Leicester, sorrindo.  Assim voc vai 
poder assistir  execuo do homem que assassinou o seu 
filho.
Eles foraram Hastings a se ajoelhar. Leicester segurou o 
cajado com ambas as mos, erguendo-o bem alto.
Ento Martin Hall disse:
        Olhem!
Os olhos de Martin estavam voltados para algo sobre o 
ombro de Leicester. Este se virou e sentiu a agitao de ar 
atrs dele se aglutinar rapidamente em uma presena 
aterradora, que se estendeu do piso at quase o teto do 
grande salo. Chamas se espalharam em todas as direes, 
contorceram-se contra o teto e lamberam o piso de pedra. 
Chuvas de fascas cascatearam sobre a assemblia e 
explodiram nas galerias. A imagem mudava continuamente 
de formato, mas era to brilhante que era impossvel se olhar 
para ela por muito tempo. Embora fosse o meio do dia, a luz 
vinda das janelas nas galerias parecia ter sido apagada. A sala 
era iluminada apenas pelo Drago, cujas asas cintilantes iam 
de parede a parede.
Os ex-alunos recuaram, deixando os prisioneiros sozinhos 
junto ao cepo. Hastings levantou-se e encarou o drago, 
empurrando Linda para trs de si. Ele tinha o cenho 
franzido, como se estivesse intrigado, mas no parecia 
especialmente assustado.
Leicester olhou fixamente para a imagem diante dele, o rosto 
plido por causa do brilho. Seph sentiu a mente do diretor 
procurando, tentando descobrir e destruir o mago por trs da 
imagem, mas no encontrando nada, nenhum trao de 
magia, nenhuma pedra, nenhuma carne ou osso na qual 
mirar.
Jason Haley, o manipulador da marionete, estava escondido 
a salvo na galeria l em cima.
A voz do drago reverberou pelo salo.
        Quem se atreve a fraudar a constituio consagrada na 
Ravina do Corvo no ltimo Solstcio de Vero?
Os ex-alunos estremeceram e resmungaram, recuando ainda 
mais.
        Bicho de estimao interessante esse seu, Hastings  
disse Leicester.  Ele tem um nome?
Hastings olhou do drago para Leicester e sacudiu a cabea.
        No  meu.
         preciso muito pouco poder pra conjurar uma iluso. 
Aparentemente no arrancamos tudo de voc ainda. 
Vejamos se ele desaparece quando voc estiver morto.  
Ele se voltou aos ex-alunos.   apenas um artifcio. No 
pode nos ferir. Prossigam.
Os ex-alunos avanaram arrastando os ps, sem entusiasmo.
Agora era hora de dar dentes ao drago. Seph desativou o 
feitio de imperceptibilidade e recuou para o esconderijo 
parcial na copa. Ele se concentrou em Leicester, recolheu o 
poder de todas as suas extremidades nos braos e dedos e 
usou de todo o seu poder para fazer o drago lanar chamas. 
As chamas chocaram-se contra Leicester, correram em 
riachos furiosos sobre sua pele, carbonizaram-lhe as roupas 
elegantes e queimaram o piso em torno dele antes de serem 
absorvidas para dentro da cabea do cajado, deixando 
Leicester ainda em p, atnito, mas ileso. Conectado como 
estava com os ex-alunos, ele era simplesmente forte demais.
Seph havia causado impresso, mesmo assim. No que dizia 
respeito aos ex-alunos, o "artifcio" inofensivo de Leicester 
acabara de cuspir fogo de um lado a outro do salo. Aos 
empurres, eles fugiram em direo ao fundo da sala.
Se o fogo mgico no causou nenhum estrago, talvez algo 
mais o fizesse. Um enorme candelabro pendia do teto  
frente da sala. Seph incendiou o cabo, mirando o calor nos 
elos de metal at que ficassem brancos. O cabo finalmente se 
partiu, e o candelabro se espatifou no cho. Leicester 
conseguiu se desviar por pouco.
As chamas nos castiais junto s paredes se acenderam e 
correram pelo teto, carbonizando as vigas. A seguir, Seph 
reuniu cargas de ar, endureceu-as e lanou-as contra as 
janelas da galeria. Estilhaos de vidro retiniram no piso de 
pedra. O ribombar da tempestade foi subitamente 
amplificado, e a chuva despencou sobre eles.
O drago falou de novo.
        Magos escravos de Leicester!  hora de reclamar o que 
lhes foi roubado. Vocs so mais poderosos do que qualquer 
mago, se trabalharem juntos, como lhes foi ensinado. Vocs 
acreditam que so possudos por um outro, mas pertencem a 
mim, acima de tudo!
Seph no estava certo de que aquilo fosse verdade, mas foi o 
bastante para enfurecer Leicester. Este berrou para os ex-
alunos, encolhidos de medo:
        Isto  magia, seus idiotas!  um mago por trs de tudo isso! 
Vou mostrar a vocs.
Girando, ele apontou o cajado para a frente. Chamas 
jorraram da ponta cristalina e atingiram Hastings, lanando-o 
para trs no piso de pedra, onde ele ficou cado imvel, as 
roupas fumegantes.
Houve um silncio mortal, rompido pelo uivo do vento e o 
martelar da chuva.
Linda se ajoelhou junto a Hastings e aninhou-lhe a cabea 
no colo.
Leicester se virou para olhar para o drago, que pairou sobre 
eles tristemente por um longo momento, as pontas das asas 
caindo um pouco, ento se ergueu, abrindo a boca para 
revelar dentes do tamanho de estalactites.
O fogo jorrou para a frente, envolvendo Leicester. A 
respirao quente do drago se estendeu at a extremidade 
oposta da sala, escurecendo os painis de nogueira ao redor 
da entrada e ateando fogo aos papis sobre a mesa de 
conferncias. Fumaa e confuso enchiam o salo. As 
pessoas berravam, gritavam ordens, exigindo serem soltas.
Mas, quando as chamas esmoreceram, Leicester estava em 
p, embora visivelmente chamuscado e preocupado.
  bom voc nos soltar antes que sejamos incinerados 
nestas cadeiras!  exigiu Wylie da lateral.  Isto obvia-
mente no  obra do Hastings, a menos que o homem possa 
conjurar do tmulo.
Leicester se concentrou no drago, estendendo o cajado, 
lanando raio aps raio de fogo mgico sobre a besta. O 
drago permaneceu ileso, mas a parede da sala de 
conferncias comeou a se desintegrar sob o ataque. Seph se 
abaixou dentro da copa para se proteger do gesso que caa. A 
enorme lareira de pedra foi reduzida a montes de cascalho, e 
ele pde ver os corredores alm da sala de conferncias.
Seph buscou outros alvos. Claude D'Orsay havia achado um 
lugar para se abrigar quando os fogos comearam. Sedgwick 
e Whitehead no estavam  vista.
Seph bateu o punho contra a parede em frustrao e dor. O 
pai dele jazia morto no cho da sala de conferncias. Ele e 
Jason estavam pondo abaixo a vincola, mas isso no 
adiantaria de nada se no conseguissem derrubar Leicester. 
Mais cedo ou mais tarde, o diretor perceberia o que estava 
acontecendo e os apanharia. A nica coisa em que pde 
pensar foi ir atrs dos ex-alunos, tentar derrub-los um por 
um, diminuindo o poder de Leicester.
Mas ele sabia que pelo menos alguns dos ex-alunos, se no 
todos, participavam com relutncia dos esquemas de 
Leicester. Pensou no nervoso Peter Conroy com seu 
inalador e em Martin Hall, o vinicultor com princpios. 
Wayne Eggars, o mdico, e o pequeno Ashton Rice, o 
professor de msica. Ele se forou a fazer uma lista mental, 
colocando-os em ordem de prioridade. Barber teria sido o 
primeiro,  claro, mas estava l fora no jardim. Ento Bruce 
Hays, que parecera se divertir em torturar Ellen e os outros.
Enquanto isso, ele travava um ataque constante contra 
Gregory Leicester, mantendo a ele e aos outros ocupados, 
dirigindo o fogo de modo a parecer que vinha do drago de 
Jason. Com cautela, ele se inclinou para fora do esconderijo, 
procurando por Bruce Hays, e foi recebido por um golpe de 
fogo mgico que mal conseguiu rechaar ao erguer um 
escudo e voltar para o esconderijo.
        Ah  disse Leicester, soando aliviado.  Acho que 
descobrimos o culpado.
Seph recuou para dentro da copa, tentando 
desesperadamente pensar num plano. E trombou com 
algum que lhe agarrou a cintura.
        Menino bruxo! Isso aqui virou um pandemnio. Por que 
no veio me buscar?
Era Madison.
Seph no desperdiou palavras.
        Portas bloqueadas. E agora fui descoberto.
Leicester continuou a atacar o esconderijo dele. Seph jogou 
Madison contra a parede e a cobriu com o seu corpo, 
enquanto o gesso caa sobre sua cabea e seus ombros. Um 
grande pedao bateu no cotovelo direito com uma fora 
incrvel, e o brao ficou dormente.
        Olha,  melhor voc sair daqui. Pode ser resistente  
magia, mas se uma parede cair sobre voc, voc morre.
Ela sacudiu a cabea. Fragmentos de escombros estavam 
presos ao cabelo dela, e o rosto estava coberto de gesso em 
p.
        No. Temos de executar o plano.
        Certo... Como se isso fosse possvel!
Seph avanou com cautela, tendo Madison logo atrs dele. 
Assim que ele chegou  entrada do salo, Leicester o 
chamou.
        Joseph! Pare com essa tolice e saia! A sua me quer falar 
com voc.
Erguendo um escudo, Seph postou-se  entrada e olhou para 
dentro da sala de conferncias.
Leicester estava em p em meio s runas, um brao em 
torno de Linda Downey, o outro segurando-a pela garganta.
        Renda-se e eu a deixarei viver.
Seph hesitou, olhando de relance para Madison.
        Vai libertar a minha me?
Leicester sorriu, mostrando os dentes.
         claro. No tenho rixa com encantadores.
Linda gritou:
        Seph! No se atreva!
Leicester silenciou-a.
        E quanto a ela?  Seph apontou sobre o ombro para 
Madison, que estava sacudindo a cabea.  Vai deixar 
minha amiga em paz tambm?
Se Leicester ficou surpreso ao ver Madison, no demonstrou.
        Voc tem a minha palavra.
        Est certo.
Seph saiu da copa e, respirando fundo, baixou o escudo.
Leicester esperou at que ele tivesse passado da porta. Ainda 
usando Linda como escudo, ele ergueu o cajado. Uma 
catarata de chamas correu em direo a Seph, um ataque que 
deveria t-lo reduzido a cinzas. Em um dos gestos mais 
difceis que j fizera, Seph se colocou atrs de Madison 
Moss, deixando que ela recebesse todo o impacto do ataque.
Seph observou Leicester. A princpio, o mago sorria, os 
olhos cintilantes, orgulhoso e triunfante. Ento o rosto 
mudou, assaltado pela dvida e, depois, o terror. Ele 
cambaleou para a frente, as mos ainda estendidas, preso a 
Madison pela fora do feitio. Ele lutou para se libertar, para 
soltar o cajado, contorcendo-se e revirando-se  medida que 
o poder flua dos ex-alunos para ele, depois para fora de seu 
corpo e para o de Madison.
Por toda a sala, os ex-alunos cambalearam e caram  medida 
que eram drenados, da mesma maneira como Seph havia 
tombado naquele dia na praia. Leicester caiu de costas, 
tremendo violentamente, os olhos arregalados, lanando 
fascas como um cabo de fora partido. A conexo com os 
ex-alunos estava rompida. Seph passou por Madison e correu 
na direo dele.
Mas Jason foi mais rpido: saltou por sobre o corrimo da 
galeria, pairou no alto por um momento, e ento aterrissou 
no cho junto a Leicester. Ajoelhando-se ao lado do corpo 
do mago em convulses, avanou para toc-lo, mas Seph 
puxou-o para trs.
 No toque nele diretamente, a menos que queira ser 
sugado tambm.
Olhando em volta em busca de uma arma, Jason se abaixou e 
agarrou um enorme pedao de pedra que havia cado da 
lareira. Num esforo conjunto, Jason e Seph conseguiram 
levant-lo.
Eles esmagaram a cabea de Leicester com a pedra. Os 
calcanhares dele tamborilaram no pavimento por um longo 
minuto antes de se aquietarem.
        Isso  pelo meu pai, John Haley  disse Jason, ofegante.
        E pelo meu pai, Leander Hastings, e por Trevor Hill e por 
todos os estudantes do Porto Seguro, dotados ou no  
acrescentou Seph, que desviou o rosto e estremeceu. Jason 
deixou-se cair no cho entre os escombros e escondeu o 
rosto entre as mos.
Seph sabia que devia terminar o que tinha comeado, que 
devia descobrir quais eram as intenes dos ex-alunos, 
encontrar Claude D'Orsay e fazer algo a respeito de Warren 
Barber no jardim. Mas no fez nada disso.
Sentia-se cansado demais para dar outro passo; ainda assim, 
mancou at o outro lado da sala, onde Madison estava em p 
contra a parede, os olhos arregalados, os punhos cerrados, 
como em estado de choque. Ele estava coberto de sangue, o 
cotovelo estava inchado e deformado onde havia sido 
atingido pelos escombros. Ele a puxou para junto de si. Podia 
sentir o corao dela batendo contra seu peito, a respirao 
rpida e curta.
Ele ficou dizendo que estava tudo bem e que sentia muito, 
de novo e de novo. Ela comeou a soluar no ombro dele, e 
ele lhe acariciou as costas, fazendo pequenos crculos com a 
mo.
Finalmente, ele recuou e tomou-lhe a mo, levando-a para 
onde sua me segurava o pai dele nos braos. Ele se ajoelhou 
junto a ela, cheio de pesar, mas sem palavras para expressar 
seus sentimentos.
Ela o saudou com um sorriso radiante, embora lgrimas 
corressem pelo rosto.
        Voc est vivo!  disse ela, mudando a posio de 
Hastings para poder segurar a mo de Seph.
Ele piscou para conter as prprias lgrimas.
        Me  disse ele, as palavras pesadas e desajeitadas em sua 
boca. Ento a voz dele falhou.  Sinto muito  disse ele, 
rouco.
Mas ela ainda sorria, um sorriso marejado de lgrimas.
        Eu devia ter dito: "Vocs esto vivos". Vocs dois.
Era impossvel. Inclinando-se para frente, Seph baixou o 
olhar para o pai e estendeu a mo para tocar-lhe o rosto. 
Estava quente, pela circulao do sangue. Hastings franziu a 
testa e se mexeu de novo, grunhindo. As plpebras se 
agitaram, depois se abriram, os olhos fitando o rosto de Seph.
Seph sacudiu a cabea, ainda incapaz de acreditar.
        No entendo! O Leicester incendiou voc. Ningum 
poderia ter sobrevivido quilo.  Ele estendeu a mo e 
tocou a coleira em torno do pescoo do pai.  No nas 
condies em que voc estava.
        Foi o Martin Hall.  A voz de Hastings era um sussurro 
rouco.  Ele removeu a coleira e reverteu o feitio antes de 
entrarmos no salo.  Ele fez uma pausa, tomou flego.  
Eu ainda estava fraco, mas consegui erguer um escudo. 
Esperava que ele fosse atacar a sua me ou a mim.
Os cantos da boca de Hastings se retorceram num sorriso.
        Devo dizer que fiquei surpreso quando o drago veio nos 
visitar. Eu no tinha idia de onde o Jason ia com aquilo.  
Ele lutou para se sentar, com a ajuda de Linda.  Voc no 
deveria estar em Trinity?
Jason falou s suas costas:
        O cara no  mais to fcil de intimidar. Algum imbecil 
andou ensinando magia pra ele.
Seph se virou para olhar para ele, e Jason inclinou-se em 
uma reverncia razoavelmente corts.
        Sempre sonhei em conhecer o Drago  disse ele, 
sorrindo para Linda.  Mas, por algum motivo, eu imaginei 
que ele fosse um mago com uma longa barba cinzenta. Acho 
que gosto mais assim!
Com a morte de Leicester, vrios feitios foram rompidos. 
Os feitios de imobilizao se dissolveram, e os delegados  
Conferncia das Ordens e o Conselho dos Magos se juntaram 
em dois grupos distintos que se olhavam mutuamente com 
cautela. Alguns se organizaram em uma brigada de 
bombeiros improvisada e comearam a apagar as chamas que 
ainda ardiam pela sala.
Ellen recuperou o cajado de Leicester e segurava-o junto ao 
flanco. Jack tirou uma faca de aparncia sinistra de algum 
lugar e a afiava contra um pilar de pedra.
Nick Snowbeard veio cuidar de Hastings, e Seph 
imediatamente se sentiu mais confiante.
Madison ainda parecia estar em choque, um fantasma com 
olhos de aquarela, tremendo e com os dentes batendo. Seph 
sentou-a em uma das cadeiras  mesa de conferncias, 
desejando saber como ajud-la.
Wylie e Longbranch se separaram do resto do Conselho e 
vieram na direo deles.
        Onde est o D'Orsay?  indagaram eles, olhando furiosos 
para Seph.
Boa pergunta.
        Como  que eu vou saber?  retrucou Seph.  Eu estava 
meio ocupado, sabe.
        A constituio tambm desapareceu. Se ele conseguir 
lev-la at a Ravina do Corvo, vai ser um desastre  
protestou Wylie, como se aquilo fosse, de algum modo, 
culpa de Seph.
        Ento  melhor irem atrs dele, no acham?  disse Seph. 
 Talvez ele ainda possa ser alcanado na doca.
        Primeiro vamos lidar com os associados dele  disse 
Longbranch.
Os conspiradores do Conselho no estavam  vista, mas os 
ex-alunos estavam onde haviam cado, to indefesos quanto 
Seph estivera na praia. Porm estavam vivos, pelo menos. A 
conexo com Leicester havia sido rompida quando Maddie 
drenara o poder do mago.
Antes que Seph percebesse a inteno dela, Longbranch 
andou at Ashton Rice, ajoelhou-se e enfiou os dedos sob o 
queixo dele.
        Ei!  Seph agarrou o pulso da maga com a mo que no 
estava ferida e afastou-a dali.  O que acha que est 
fazendo?
Ela olhou para ele com surpresa e irritao.
        Estes jovens so colaboradores. Aliados do D'Orsay e do 
Leicester.  melhor destru-los enquanto podemos.
        Eu no diria que eles eram aliados, exatamente  disse 
Seph.  Eram mais vtimas, a maioria deles.
        No entende o que est acontecendo?  Longbranch 
falava como se ele fosse um deficiente mental.  Isto  
guerra. A trgua entre os magos acabou. De que lado voc 
est?
De repente, Jack e Ellen estavam junto a ele, um de cada 
lado. Jason e Madison se aproximaram por trs.
        No estou do seu lado nem do lado do D'Orsay. Vai ter de 
fazer a sua guerra sem mim  disse Seph.
        Veremos  disse Longbranch. Ela estendeu a mo, e ele 
deu um passo atrs, fora do alcance daquelas longas unhas 
vermelhas.  Voc  poderoso, eu concordo. Nisso voc 
puxou ao seu pai. Vai ter de decidir se vai segui-lo em outros 
aspectos.
Ela olhou para Madison, estudando-a como se fosse um 
espcime especialmente interessante.
        Qual  o nome da sua namorada?  indagou ela, 
brincando com a grande esmeralda que pendia de uma 
corrente em seu pescoo.
Seph no honrou aquela pergunta com uma resposta.
Longbranch estalou a lngua.
        Voc vai desperdiar a vida como ama-seca das ordens 
servis ou aprender a mover-se no mundo dos magos, onde 
est o verdadeiro poder? Pense a respeito.
        No tenho de pensar  disse Seph, mas Longbranch j 
havia se afastado.
Jack e Ellen olhavam com curiosidade para Jason. Com a 
morte de Gregory Leicester, algo da intensidade e do esprito 
de Jason parecia ter sido drenado. Ele se apoiou contra um 
pilar de pedra, parecendo frgil e cansado, quase doente. 
Seph se lembrou do seu primeiro dia em Trinity, quando era 
ele o forasteiro.
        Jack Swift e Ellen Stephenson, este  Jason Haley  disse 
Seph.  Ele  um amigo meu do Porto Seguro. Ele salvou a 
minha vida.
Leicester ainda jazia no cho onde tombara. Seph no sentia 
nenhuma alegria com o modo como ele morrera, apenas um 
intenso alvio, e a convico de que a morte do mago era 
uma questo de sobrevivncia para ele e para as pessoas de 
quem gostava.
Acima na galeria, o recm-liberto Warren Barber olhou para 
os sobreviventes da batalha na sala de conferncias abaixo. 
Ele sentia uma alegria incrvel. Estava por conta prpria 
outra vez, sem ter mais que responder a qualquer autoridade. 
At pouco tempo atrs, Leicester tinha parecido ser o cavalo 
no qual se apostar. Mas ele morrera como qualquer um. O 
resto dos ex-alunos estavam cados ao cho como tantas 
carcaas. "Eles mereciam ser governados", pensou ele. Mas 
no Warren Barber. Ele no poderia deixar isso acontecer, 
nunca mais.
Ele pensou na namorada de McCauley, e a respirao dele se 
acelerou. Primeiro ocorrera o episdio no rio, quando ela 
nocauteara King. Ento Warren havia tentado enfeiti-la no 
jardim, e ele tombara como uma pedra. Leicester e os ex-
alunos no haviam se sado melhor. Seria ela uma maga com 
uma pedra poderosa ou estaria carregando um amuleto de 
algum tipo? Warren no era nenhum especialista, mas 
imaginou que conseguiria descobrir.
No conseguiu resistir  tentao de deslizar a mo para 
dentro da camisa, sentindo o pergaminho junto  pele. Fora 
bem fcil surrupi-lo da escrivaninha onde Hays o 
escondera. Ele conhecia todos os esconderijos em Second 
Sister.
No havia decidido o que fazer com aquilo, mas sabia que 
representava poder. D'Orsay daria qualquer coisa para pr as 
mos nele. Isso valia tambm para qualquer um no 
Conselho. Por outro lado, por que Warren Barber no podia 
ser rei?



Captulo Vinte e Dois
Trinity e Cmbria

- Como pode ver, temos uma grande famlia na Bretanha, 
Seph.  Hastings fez um gesto amplo indicando as lpides 
desgastadas que irrompiam entre as urzes aoitadas pelo 
vento.  Infelizmente, esto todos debaixo da terra.
Seph parou e apanhou um pedao quebrado de granito. 
Raspou o musgo que ocultava a inscrio na lpide mais 
prxima at que ela se revelou. HASTYNGS. Ele traou as 
letras com os dedos e olhou para a grande casa de pedra. Ela 
despontava em resplendor boreal em meio s montanhas, 
plantada num vale retalhado por muros de pedra. A luz 
diminua, embora fosse apenas fim de tarde. O anoitecer 
vinha cedo por ser Norte. Cmbria. Lar dos seus ancestrais. 
Hastings, seu pai, dissera-lhe que a casa havia estado na 
famlia por geraes.
Enquanto Seph observava, Jason saiu de dentro da casa, 
acenou para eles e voltou para dentro.
 Acho que o jantar est pronto  disse Seph. Ele enfiou as 
mos enluvadas nos bolsos.  Eu me sinto como se tivesse 
encontrado uma famlia e um lar, e o Jason perdeu os dele.
Hastings voltou o olhar na direo da Esccia, o rosto frio e 
quieto como as montanhas castigadas pelo clima.
 Prometi ao Jason que, se ele ficasse em Trinity e 
terminasse a escola, eu o introduziria na poltica dos magos. 
 Sem desviar o olhar, ele respondeu  objeo no 
enunciada de Seph.  Pode acreditar em mim, sei tudo 
sobre o preo de se apegar ao dio, mas no consigo faz-lo 
mudar de idia. Ele ainda quer ir atrs do D'Orsay.
O futuro poltico das ordens Weir ainda era nebuloso. O 
Conselho que se reunira em Second Sister havia assinado a 
constituio de Hastings-Downey antes de debandar, mas 
no estava claro como o documento seria consagrado. O 
paradeiro da constituio de Leicester-D'Orsay era des-
conhecido. E, pela primeira vez em 500 anos, os magos 
estavam oficialmente em guerra.
Linda e Hastings discutiam estratgias em casa 
freqentemente, at tarde da noite. s vezes Hastings 
continuava refletindo naquilo at de manh.
O papel de homem de famlia no era fcil para Hastings. 
Muito do tempo de Hastings e Seph juntos era investido em 
treinamento: revises de feitios e contra-feitios, aulas de 
Magia Antiga. Seph percebia que o pai estava fazendo o 
melhor que podia para afiar as habilidades de Seph em magia, 
para que ele pudesse se proteger. Aquilo era amor, oferecido 
daquele jeito implacvel de Hastings.
Madison continuava trabalhando na Lendas e freqentava as 
aulas na Faculdade de Trinity. Apesar da apreenso dela, 
entrosara-se bem com o estilo grunge sofisticado dos 
estudantes de arte. Seus trabalhos chegaram a ser exibidos 
em uma das galerias perto do campus.
Ela andava receosa em relao a Seph desde o episdio em 
Second Sister. Mantinha-se distante, guardando segredos 
como se visse um novo risco no relacionamento deles, que 
no havia enxergado antes. Era amigvel, mas ele sentia que 
ela evitava ficar sozinha com ele. Linda se oferecera para 
lev-la de avio para a Bretanha no Natal, mas, em vez disso, 
ela fora para a casa dos pais, no Condado de Coalton.
Seph havia comprado um presente para ela: quatro desenhos 
emoldurados de catedrais que encontrara numa galeria em 
Londres.
Hastings interrompeu-lhe o devaneio.
  melhor voltarmos. No  bom nos atrasarmos para o 
jantar na vspera de Natal.
O jantar foi servido  luz de velas no grande salo. Rosbife, 
salada e pudim de Yorkshire: um banquete para quatro 
pessoas, e todos haviam ajudado a prepar-lo. Depois disso, 
comeram queijo Stilton e peras, e beberam vinho junto ao 
fogo, enquanto a neve caa l fora. Mais tarde, enfrentariam 
o mau tempo para assistir  missa do Galo na igreja catlica 
na cidade. Seph torcia para que estivesse nevando. Hastings 
havia prometido levar o tren.
Pacotes cheios de intrigantes possibilidades, embrulhados 
em papis brilhantes, aguardavam sob o alto pinheiro no 
canto da lareira.
Hastings foi primeiro. Para Seph, havia dois livros sobre 
feitios da coleo particular de Hastings. Para Jason, um par 
de botas de alpinismo inglesas, apropriadas para caminhadas 
de inverno nas montanhas. Para Linda, um pingente com a 
cor cinzenta opaca de uma pea de feiticeiro, engastado em 
granada.
Linda dera um casaco para Hastings, um pesado suter de l 
escocesa para Jason. E um pacote misterioso para Seph. 
Quando ela o entregou em suas mos, e Seph sentiu o peso 
do pacote, soube o que era antes de rasgar o papel. Era o seu 
Livro Weir: a histria dele em suas mos.
Quando Seph se recordava dos acontecimentos do vero e 
do outono, percebia que a sua filosofia pessoal mudara. "No 
espere muito e nunca se decepcionar", dissera sempre, em 
um tipo de feitio de auto-proteo.
Ele nunca planejara ou esperara ter pais, muito menos uma 
dupla complicada como Linda Downey e Leander Hastings. 
Como uma famlia, eles ainda eram uma reunio de 
estranhos. Quem sabe o que vai acontecer? Mas ele no 
podia deixar de se sentir otimista.
Madison ainda era um mistrio para ele, mas um mistrio 
que tinha esperanas de resolver. Descobriria um jeito de 
fazer aquilo funcionar, pois finalmente entendia que, s 
vezes,  preciso elevar as expectativas. E s vezes  preciso 
reivindicar o mundo e as pessoas que se ama para se 
conseguir o que mais se deseja.



  Vela romana  um tipo de fogo de artifcio. (N.E.)
